10/01/2011
às 16:07 \ O Melhor de ParisIle Saint Louis
Nem à margem direita nem à margem esquerda, mas cercada pelas águas do Rio Sena; a Ilha de São Luis é um enclave de calma aos fundos da Catedral Notre-Dame, no coração de Paris. Vizinha à Ilha de La Cité, o berço da galo-romano Lutetium Parisiorum, a Ile Saint Louis tem uma área de 11 hectares. A origem do relevo fluvial é um aterro justaposto a zona de pastagens da época medieval, situação que deu origem ao primeiro nome, Ile aux Vaches, a Ilha das Vacas.
A ilha tem a forma de um paralelogramo cuja face mais longa mede 525 metros e a mais curta, 250 metros. Uma linha imaginária de uma extremidade a outra da ilha, e de orientação Sudeste à Nordeste, mediria 700 metros. Uma cruz divide a ilha em quatro partes iguais. A maior rua, a Rue Saint Louis en l’Ile, onde foi criado o Blog de Paris, e a Rue des Deux Ponts cujo início e o fim são duas pontes. As pontes que em outros idos se cobrava pedágio para atravessar, ligam a ilha ao “continente”: Pont Marie e Pont de La Tournelle.
No vértice da cruz, o centro da ilha, está o bar café Le Louis IX. O nome do bistrô de esquina é homenagem ao santo que deu nome ao lugar. Isso bem depois de sua morte em Tunis, durante a oitava cruzada. Gilles, o atual proprietário é um simpático e pitoresco avarento como rege a tradição das famílias “severinas” da Auvérnia que vieram ganhar a vida em Paris trabalhando nos cafés.
Os 2.465 habitantes da ilha, os ludovicos, tem costume interiorano, bem raro na sisuda Paris: chamam seus vizinhos insulares, conterrâneos do quarto distrito da capital da França, pelo prenome. Não dizem só o bonjour protocolar, mas “Bonjour, Bernard”, quando cruzam com queijeiro. À madame Poirier pouca gente diz bonjour. A boca pequena, apostam que se a senhora rabugenta vivesse durante ocupação nazista, denunciaria seus desafetos: mais da metade da ilha. O campeão de simpatia – e do jogo de porrinha – é o monsieur Louis, encanador, eletricista, pedreiro, marceneiro, o faz tudo que nasceu em Port Louis, capital das Ilhas Maurício.
O “produto regional” é o sorvete. Isso devido a sorveteria Berthillon, estabelecimento responsável por filas de espera que dobram esquina durante todas as estações, salvo no verão, quando fecha. O restaurante mais emblemático, mais folclórico, não necessariamente a melhor cozinha, é a Brasserie de l’Isle. Detalhe edificante: o serviço dedicado à vasta clientela estrangeira é continental. Melhor dizendo, parisiense. Quer comer bem? Sugiro o Mon Vieil Ami, do chef Antoine Westermann. Quer se divertir? Não deixe de conhecer a Brasserie, mas trate os garçons com modos pertinentes, no bico da chuteira. Eles entram na dança. Hospede-se no Hôtel du Jeu de Paume, o melhor – diárias de 185 a 900 euros.
As imagens que ilustram este post obedecem ao princípio de Eugène Atget (1857–1927), pioneiro da fotografia documental parisiense: “Fotografe só quando tiver a certeza que não está acontecendo nada.” A imagem da Ponte Louis Phililippe na abertura do vídeo foi feita com uma camera Hasselblad XPan em filme Tri-X às 5 horas da manhã em dia de verão quando não há tráfego de barcos e a superfice do Sena reflete como espelho antigo.
Tags: Antoine Westermann, Berthillon, Blog de Paris, Brasserie de l'Isle, Catedral Notre-Dame, Eugène Atget, Fotografia, Hasselblad, Ile Saint Louis, Louis Phililippe, Louix IX, Mon Vieil Ami, Pont de La Tournelle, Pont Marie, Rio Sena



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17 Comentários
Thedy Pickler
-29/12/2011 às 15:06
“Todo homem tem dois países, o dele e a França” e quem disse foi Abraham Lincoln – presidente dos USA. Ao ler teu blog – por mero acidente – me vi perambulando novamente, pelas ruas da Ile Saint Louis. Muito bom os comentários de teus leitores. Parabéns. Ah! doravante, teu blog será meu cafezinho de fim de dia.
Glückliches neues Jahr > Thedy Pickler
Caro Thedy,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
Seja muito bem vindo ao Blog de Paris. A frase é de autoria do Thomas Jefferson. Serviu de título para o primeiro post desta coluna. Confira:
http://veja.abril.com.br/blog/de-paris/franca/todo-homem-tem-dois-paises-o-dele-e-a-franca-thomas-jefferson/
De Paris, um abraço
Antonio Ribeiro
Iolanda Lopes de Abreu
-15/08/2011 às 17:29
Bisbilhotava para ver se alguém teria descoberto alguma novidade na ilhota St. Louis, quando deparei com seu blog. Vc está de parabéns! Nunca vi ninguém falar tanto sobre tão pouco que é a ilha, dentro da charmosíssima Paris. E o sorvetinho, que todos chegam pensando ser servido tão-somente na no 31 Rue St.Louis-en-l’Ile, sorveteria Berthillon, está por toda parte. Gostei tb. do fundo musical e das imagens. Sabe o que eu acho da ilha? “Tão pequenininha, com um tambor tão grande”. Iolanda Abreu
Deborah
-20/06/2011 às 8:27
Antonio, adorei os comentarios, infelizmente o vídeo nao pode ser visto aqui na Alemanha.
Abraços,
Deborah
CT
-26/05/2011 às 15:21
De fato, o vídeo foi “tirado do ar” pelo usuário.
Ficou a minha curiosidade…
Muito obrigado por seu blog!
Caro,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
O link para o vídeo está restabelecido.
Doravante, há um segundo vídeo sobre o mesmo tema com juros e correção monetária, aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=0v6QitKkr_g&feature=related
De Paris e Ilha Saint Louis, um abraço
Antonio Ribeiro
Vivaldi Cunha Filho
-19/05/2011 às 15:33
Antônio, tive a felicidade de morar em Paris por um ano no passado e ela nunca mais saiu de mim. Saboreio tudo o que você diz porque sou um desses que nasceu de novo quando (re) conheceu Paris. Existem várias pessoas assim e digo que podemos nos identificar mutuamente quando nos encontramos. Mas o motivo deste comentário é lamentar que seu vídeo não se encontra mais aí acima. Diz que “foi removido pelo usuário”. Qu’est-ce qui se passe? Grande abraço, saudade destes ares, aromas, cores, sabores.
AdriUSA
-04/02/2011 às 23:32
Antonio, essa descricao foi perfeita. Estou sem palavras. Nao vejo a hora de ver esse lugar.
Obrigada. Adorei o post.
Adriana Socci Barbosa
-15/01/2011 às 14:59
“One has to take several different shots of a subject, from different points of view and in different situations, as if one examined it in the round rather than looked through the same key-hole again and again.” Aleksander Mikhailovich Rodchenko.
Antonio, achei esta descrição muito bem colocada para a série de fotografias da Ile St Louis.
Antonio Ribeiro
-14/01/2011 às 22:20
Caro Luiz,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
Na próxima vez, você irá encontrar com certeza uma das quatro pontes que dão acesso à ilha.
Tome a vistosa Catedral Notre-Dame como referência e pronto, a ilha fica logo atrás.
De Paris, um abraço
Antonio Ribeiro
Luiz BsB
-14/01/2011 às 19:43
Prezado Antonio,
Você parece como os moradores do Bairro Peixoto em Copacabana, um apaixonado pela Ile de Saint Louis, e ela, a Ile, também parece com aquela localidade de Copa, pois deve ter uma entrada mágica, que poucas pessoas conhecem, e você houve falar, vê das margens do Sena, mas não consegue chegar! Já tive a oportunidade de estar por três vezes em Paris e nunca encontro a porta, ou a ponte para votre ile. Se puder, tentarei na próxima.
Lindo vídeo, linda canção.
Um abraço.
Carla Teixeira
-12/01/2011 às 23:20
Belíssimo post! Parabéns!
Antonio Ribeiro
-11/01/2011 às 17:47
Cara Antonia,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
Suas palavras são tocantes e generosas.
O Blog de Paris nasceu em um 17 de abril com o post “Todo homem tem dois países, o dele e a França”. Foi assim nove dias depois de um outro aniversário, o do meu mais querido, filho também de dois países. Ali, no mesmo lugar, na ilha.
De Paris, um abraço
Antonio Ribeiro
Antonia Spencer
-11/01/2011 às 17:24
Caro Antonio,
No meu julgamento, o seu mais belo post. Caminho pelas pequenas ruas da ilha nas linhas do seu texto, revejo as pedras, a cara das pessoas, embalada pela música e pelo cuidado delicado e primoroso de cada foto. Marca sua. Lindo berço teve o Blog De Paris, onde “nous jouons au jeu d’Adam et Eve..le paradis” nasceu um belo e robusto filho. Vida longa e saudável a ele!
Abraço
Antonio Ribeiro
-11/01/2011 às 15:54
Cara Erika,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
O nome da canção feita por Henri Salvador, em 1958, é “Dans Mon Ile”. Na Minha Ilha, em tradução livre.
Ela é considerada uma das inspirações da Bossa Nova.
De Paris, um abraço
Erika
-11/01/2011 às 15:10
Boa tarde, Antonio Ribeiro
Adorei a matéria!!! Um espetáculo tomar conhecimento de uma ilha tão bella!
Pode me dizer, por favor, quem é o cantor e qual o nome da música do video? Ela é simplesmente maravilhosa!
Parabéns
Abraços
Antonio Ribeiro
-10/01/2011 às 20:44
Cara Lúcia,
Obrigado pela leitura e envio do comentário,
De Paris, um abraço
Lucia Colo
-10/01/2011 às 20:12
Antonio estou completamente de acordo com voce, porém acrescento que a grande originalidade da ilha é que ela é como o Flamengo; ou seja, uma vez na ilha na ilha até morrer.