21/07/2009
às 7:35 \ O Melhor de ParisBerthillon, a sorveteria que fecha no verão.

Nem na margem esquerda nem no lado direito do rio Sena. Este blog é escrito no coração de Paris. Em um aterro com contornos de um paralelogramo. A diagonal mais longa mede 700 metros e a linha que divide a figura, no sentido transversal, a rua des Deux Ponts, tem 250 metros. Nesta espécie de vilarejo onde quase todos se conhecem pelo nome de batismo, vivem em torno de 2.000 habitantes, os ludovicos. O lugar é uma ilha fluvial chamada Saint Louis. Já foi Ilha das Vacas antes do século XVIII quando servia de pastagem. Mais recentemente, devido ao seu famoso “produto regional”, ganhou o apelido de “Ilha do Sorvete”.
Os críticos gastronômicos consideram que os crèmes glacées (sorvetes a base de leite e gema de ovo) e os sorbets (base de frutas e água) insulares não perdem em sabor para nenhum outro fabricado no planeta. Isto se não forem, segundo os mais aficionados, os melhores do mundo. A fama se deve a uma empresa familiar, dessas que a patroa, no caso, a filha herdeira Muriel, cuida do caixa e o irmão Lionel, do fogão. A sorveteria Berthillon é uma instituição, um magneto de visitantes da Ile Saint-Louis. Sua fachada tem um rabicho permanente, a fila que dobra a esquina, ela é ainda maior nas vésperas do reveillon.
Conta uma historinha oral, narrada pelos ilhéus nos bistrôs, que nos tempos de penúria alimentar na União Soviética, fotógrafos da antiga agência Tass, vinham aqui fazer imagens. Elas tinham por objetivo mostrar nos jornais oficiais da mãe das ditaduras comunistas durante a Guerra Fria, que na capital da França, a população também enfrentava longas esperas para comida. A anedota seduziu o comerciante do melhor caviar de Paris, a Maison Petrossian. Ele resolveu adotá-la em causa própria. Bem menos convincente. Embora faltasse até ovos de galinha, as ovas de esturjão nunca sumiram das prateleiras moscovitas. Tal qual a lagosta no Haiti, país conhecido pelos otimistas como a sucursal terrestre do inferno.
O segredo dos sorvetes é o mesmo que rege o sucesso da culinária francesa. Ou seja, o conhecimento apurado e acumulado durante séculos para tratar alimentos conspicuamente selecionados. Monsieur Bernard, o patriarca da família e antigo confeiteiro, degusta produtos os mais variados e depois, se tranca horas no “laboratório” da sorveteria para converter tudo em delícia gelada. “Este ano tive uma queda pela combinação de pêssego com menta”, conta ele a Veja.com. Foi uma dentada em uma castanha seguida de um gole de café no boteco da esquina que o octogenário sorveteiro buscou inspiração para um dos seus sorvetes mais famosos. Uma bola da iguaria no corneto patissier custa 2,5 euros.
Além do soverte que deixa as papilas gustativas eriçadas, a Berthillon tem uma originalidade de deixar os cabelos em pé. A sorveteria fecha no verão! “Os parisienses saem de férias, nossa família também” diz Muriel. Mas isso não quer dizer que as prateleiras irão ficar vazias. A Berthillon tem mais de 100 revendedores em Paris. Só na “Ilha do Sorvete” eles são cinco. Neste verão, tem novidade tupiniquim, o sorvete de acerola cuja polpa é fornecida por uma vizinha da ilha e que tem que dela, um esplendido panorama. A empresária Martina Barth d’Avila, proprietária da Eurobras, importadora de produtos alimentícios brasileiros, entre eles, o pão de queijo com ervas finas da Provence e, de comer de joelhos.
Glacier Berthillon
29-31 rue Saint Louis en l’Ile
75004 Paris
Tags: comunismo, França, gatronomia, Guerra Fria, Ile Saint Louis, O Melhor de Paris, Provence, URSS


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10 Comentários
Adriana Socci Barbosa
-05/04/2010 às 16:59
Minha sugestão: pedir um cone de “extra-bittéééRRRRR” com “caramel au beurre salé”. É de largar a família! E os dois sabores saem mais barato do que no Sorvete Brasil, onde 2 bolas do queijo branco com goiabada custa 14 reais.
Milena Popovic
-11/11/2009 às 12:50
Ai que saudade! Estive aí em Paris no mês de setembro, era minha terceira ida à cidade e eu ainda não conhecia a Berthillon. Aproveitei a chance e fui.
Só posso comentar com uma expressão típica do “mineirês”: “Ô trem bão, bão demais da conta, sô!”
Monica Barcellos
-03/08/2009 às 7:00
Antonio,
Além do sorvete, o que mais fecha em agosto em Paris? Para quem só tem o mês de agosto para visitar Paris, o que você recomenda? Certamente tem gente que trabalha, museus que continuam abertos, espaços públicos que podem ser aproveitados com menos gente.
Anouk
-26/07/2009 às 15:30
Antonio, adoro sorvete, mas no inverno uma sopinha é muito melhor, né? E por falar em penúria alimentar, no Haiti em vez de lagosta o povo costuma comer barro com uma pitada de sal e 1/2 dedada de margarina. Tudo bem misturado, separado em pequenas porcoes que depois de achatadas sao levadas ao sol para secar e vendidas mais tarde. É sério e triste ao mesmo tempo. A bolacha de barro deve provocar, no mínimo, uma baita dor de estômago. A propósito Paris, no Natal estarei por aí. Apesar do frio, vou na Berthillon para provar uma das inspiracoes de Monsieur Bernard. Abs.
Mitsi
-22/07/2009 às 18:28
Lendo seu post senti a saudade doer. Aquelas preciosas bolinhas reluzentes tamanho ping-pong causam estranheza aos brasileiros acostumados as fartas e amassadas conchadas de sorvete, mas é só experimentar para pedir bis e recomendar. Recordar é viver! Abraço forte, Antonio, aqui do Vale do Paraíba.
Dora de Paula
-22/07/2009 às 9:19
Não só fecha no verão. É dificílimo achar o sorvete Berthillon. Somente em casas selecionadíssimas… Pena. É de longe um dos melhores sorvetes do mundo. ddp
Manoel
-21/07/2009 às 19:40
Neto´, já estou enviando as dicas e este sorvete é imperdível.Helô
Cristiane Almeida
-21/07/2009 às 17:51
Caro Antonio, sua coluna hoje me deixou nostálgica não só das tardes de domingo passadas em Paris, onde andava até a Ile St Louis para tomar sorvete (e muitas vezes na fila, em pleno outono, pude ver Miterrand de chapéu e manteau passeando tranquilamente como qualquer mortal) como do nosso saudoso sorvete Moraes, este para ser degustado em pleno verão carioca, na Visconde de Pirajá. O “sorbet” de melão era o melhor do mundo!