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21/11/2011

às 10:54 \ Gente

Meryl Streep rouba o papel talhado para os líderes europeus

Meryl Streep: "O meu melhor desempenho"

Há cheiro de Oscar no ar. A situação é recorrente sempre que um intérprete extraordinário incorpora no cinema uma figura histórica de relevo. Desta vez, a expectativa acontece com The Iron Lady (A Dama de Ferro). A talentosa atriz americana Meryl Streep retraça o triunfo e a queda da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, a reformadora responsável pelo renascimento da economia da Grã-Bretanha, na década de 80 – à época, reino estagnado pela inflação, de crescimento econômico anêmico,  desemprego elevado, contido por legislação laboral arcaica, em pleno mergulho na decadência.

Em 1954, houve espera semelhante com o lançamento de Júlio César, filme no qual Marlon Brando faz Marco Antonio, o célebre general e Tribuno da Plebe no Império Romano, baseado no drama escrito por outra estrela maior: William Shakespeare. Diferentemente de Forest Whitaker, ganhador da estatueta dourada de Melhor Ator pela interpretação do ditador africano Idi Amin Dada, Brando finalmente recebeu apenas a indicação

A Dama de Ferro foi dirigido por Phyllida Lloyd, com quem Streep, recordista com 16 indicações ao Oscar, já trabalhou no musical Mamma Mia! O filme tem estréia prevista para o início de janeiro do ano que vem na Europa, Estados Unidos e, um mês depois, no Brasil. Boa oportunidade para lembrar  de que é possível sair das crises duradouras e consideradas insolúveis  – e para os mais jovens conhecerem a trajetória incomum da baronesa Thatcher de Kesteven, de 86 anos de idade.

Thatcher por Yousuf Karsh

Thatcher quebrou as rígidas barreiras de gênero e da classe política inglesa. Em 1979,  tornou-se a primeira mulher a ser primeira-ministra do Reino Unido e, em consequência da sua ação, um  ícone inglês moderno. Ele é, ao mesmo tempo, celebrado pelos resultados positivos e detestado por ter implementado medidas impopulares para preservar o interesse público. Desde Winston Churchill, nenhum governante inglês foi tão determinante na mudança de curso do país, uma inspiração até para políticos de ideário oposto ao dela, como foi o caso dos trabalhistas Tony Blair e Gordon Brown.

Lady T, a mulher mais poderosa do século XX, governou a Grã Bretanha durante três mandatos até 1990 quando perdeu apoio dos companheiros do Partido Conservador, traição encadeada  pela postura inabalável da primeira-ministra, traço marcante na sua personalidade,  contra à entrada do seu país na eurozona – acerto que se nota mais nitidamente 22 anos depois. Thatcher sobreviveu a tentativa de assassinato em 1984, escapando de atentado terrorista do IRA e  liderou a vitória da Inglaterra na guerra contra a ditadura argentina pela retomada das Ilhas Falklands/Malvinas a 13 000 quilômetros de Londres, o mais distante  território da britânico. Numa determinação sem paralelo entre seus pares europeus,  sem ceder uma polegada, Thatcher enfrentou o sindicalismo radical que dava as cartas na Inglaterra – só em 1979, promoveu 4 500 greves e 29 milhões de dias de trabalho perdidos. A ação levou de volta o governo inglês para seu o lugar de origem, a residência oficial do 10 Downing Street. Suas medidas econômicas focaram na desregulamentação do setor financeiro, na flexibilização do mercado de trabalho e na privatização de ineficientes empresas estatais. O conjunto da obra lhe valeu o apelido “Dama de Ferro”, um batismo soviético aderido pelo resto do mundo.

O crítico de cinema Baz Bamigboye sustenta Streep como a única atriz capaz de capturar a essência de Thatcher para leva-la à tela. “É um desempenho altaneiro, irá estabelecer novo patamar de atuação no cinema”, escreveu no diário londrino Daily Mail. Ainda não surgiu voz dissonante entre os  críticos que assistiram a seletas exibições do filme. Parece um afinado coro de louvores. Xan Brooks, do The Guardian, qualificou de “espantoso, sem imperfeição” o desempenho da protagonista.  Kevin Maher, do The Times, foi mais longe: “Streep encontrou a mulher dentro da caricatura”. David Gritten, do The Telegraph, fez previsão sem correr muito risco de erro: “As premiações estão no caminho de Streep.”

As semelhanças físicas naturais entre as mulheres e os truques de maquiadores, cabeleireiros e estilistas criaram uma confusão. Fica difícil distinguir, já pelo cartaz do filme, quem é quem? Se Thatcher ou Streep. Mas não era assim há dois anos atrás quando a atriz americana, de 62 anos de idade, foi escolhida para o papel da mulher criada no andar acima de uma mercearia em Grantham, na costa leste da Inglaterra e à beira da lendária estrada de ferro Londres-Edinburgo. Como poderia uma americana de New Jersey enfronhar-se nos meandros da classe política britânica aos quais Thatcher teve que romper para escalar seu o pico mais alto? Alguns simpatizantes de Thatcher chegaram a julgar  um “insulto” a escolha de  Streep, militante de esquerda,  para o papel da sua heroína. Enganaram-se.

“Ainda não concordo com muitas de suas políticas”, disse Streep. “Porém, Thatcher acreditava nelas e emergiram de convicção honesta não de política superficial que muda a maquiagem para adaptar-se a circunstancias do tempo.” E arrematou: “Ela continua sendo figura incrivelmente polêmica, mas hoje, sente-se falta da sua clareza.  Tudo o que dizia era muito cristalino e sincero. Adorei interpretar o ímpeto que provoca tumulto, mas que convertia idéias em prática”. Thatcher denunciava com frequência a falta de idéias, insistia que a política deveria ser sobre pensamentos que conduzissem a ações. Neste particular, a semelhança da Dama de Ferro com os atuais líderes europeus lembra a de um gigante e anões.

Assista em seguida o vídeo com o trailer do filme que Maryl Streep, vencedora de dois Oscar, considera ser o seu melhor desempenho no cinema:

Atualização 3 meses depois: Meryl Streep foi premiada com seu terceiro Oscar na 84ª edição do prêmio. Em 1983, venceu também como melhor atriz por A Escolha de Sofia. Sua primeira vitória foi em 1980 como atriz coadjuvante por Kramer vs. Kramer.

Por Antonio Ribeiro

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7 Comentários

  1. Marcia

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    06/02/2012 às 10:08

    O filme, de certa forma, não esconde as mazelas de um governo que desempregou 2 milhões, criou um imposto que oprimia àqueles que tinham menos (Poll Tax) e mandou a polícia descer o sarrafo em quem se opunha, embora, dentro do seu ‘neoliberalismo’ela tenha feito privativações interessantes, cometeu o erro de abolir o salário mínimo. Meryl Streep está fantástica, mas francamente, Tatcher não merece nem duas notinhas num jornalzinho de bairro. Talvez por isso o filme não tenha sido bem recebido, assino embaixo com quem disse: ‘Memorable performance, forgettable movie.’

  2. Ricardo Salazar

    -

    10/12/2011 às 16:31

    Será que vão falar que ela desempregou muitos ingleses? E de suas guerras contra a Argentina?

  3. Paulo Parcker

    -

    09/12/2011 às 9:39

    Bom dia, Antonio

    Gostei muito do post, bem escrito e pertinente.

    Abraço

  4. Sinisorsa

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    27/11/2011 às 13:34

    Antonio, a minha bola de cristal previu que esse filme vai arrebentar as bilheterias argentinas! É pagar pra ver! :P

  5. Anouk

    -

    23/11/2011 às 20:17

    Antonio,

    Meryl Streep é sem dúvida uma grande atriz. Um dos filmes de que gosto muito é Out of Africa, belíssimo.
    Meryl parece ter absorvido a alma de Thatcher. Impressionante. Saberia dizer se a voz foi dublada? Impecável!
    Ao chegar em Londres em 1979, a crise generalizada na econômica era de saltar aos olhos. The Iron Lady chegou na hora certa.

    Adorei o artigo.

    Abraço

    Cara Anouk,

    Obrigado pela leitura e envio do comentário.

    Não foi dublada, a voz é da Meryl Streep mesmo.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

 

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