Um presidente normal, um retrato oficial banal
François Hollande escolheu ser fotografado para seu retrato oficial como Jacques Chirac em 1995, no jardim do Palácio do Elysée. Portanto, de forma diferente de Nicolas Sarkozy assim como da maioria dos presidentes franceses. Eles preferiram o ambiente mais sóbrio da biblioteca da residência do executivo francês. A fotografia oficial na França é um ritual republicano desde que o príncipe-presidente Napoleão III posou em 1848.
O retrato oficial de 50 centímetros por 65 centímetros será pendurado nas repartições públicas, escolas, embaixadas e nas 36.664 prefeituras francesas. O autor da imagem é Raymond Depardon, um dos fundadores da agência Gamma Presse Images junto com Gilles Caron e membro da Magnum Photos desde 1979. O retrato foi feito por intemédio de uma lendária câmera Rolleiflex cuja produção foi interrompida em 1962 – cotada a 10.000 euros no eBay. Depardon explica que quis mostrar o presidente “em movimento”.
Mas a fotografia é a antítese do que Henri Cartier-Bresson definiu como o momento decisivo. Ou seja, o ápice do movimento. Ele é descrito pela luz no suporte sensível como uma síntese do que houve e o que está na iminência de acontecer. É o momento exato, por exemplo, quando uma pedra lançada ao alto perde força e se imobiliza. Ela subiu e vai descer. A força do presente que conta o passado e tenta prever o futuro.
Famoso pela direção dos documentários Le Reporter e Délits flagrants, Depardon, de 69 anos de idade, conseguiu uma proeza. Algo surpreendente para um fotografo do seu alto calibre. A fotografia de Hollande parece um instantâneo banal feito por um amador. Ou, se preferem, um Instagram feito com telefone celular.
Um bom retrato impressiona. Sobretudo fala, diz algo do retratado, como é o caso da fotografia de Chirac realizada por Bettina Rheims e de tantos outros espalhados nas paredes dos museus de um país de imensa tradição pictórica. O quadro mais famoso da terra de Jacques-Louis David que imortalizou Napoleão Bonaparte, é um retrato, a Mona Lisa. O Pensador, de Rodin, um retrato em 3D, é mais admirado, do ponto de vista artístico, do que qualquer Virgem Maria das catedrais franceseas. É uma velha arte louvada também pelo estado. Na Roma Antiga, chegou a codificar a sua elaboração indo até a maneira de distribuir as mechas de cabelo no fronte do imperador.
Ao observar a fotografia de Hollande com os braços caídos sem saber bem o que fazer com as mãos tão inexpressivas quanto o olhar, a dúvida se instala. Do que se trata? É isso mesmo? Os presidentes gostam de transmitir através do retrato oficial como querem ser vistos, mas também a marca que desejam imprimir nos seus mandatos. Desculpem a franqueza – Raymond, pardon –, mas o retrato não tem nada de presidencial. Hollande parece ser o motorista do palácio.
Leia o post do Blog de Paris “Nicolas Sarkozy: o retrato oficial”
Tags: Bettina Rheims, Fotografia, François Hollande, Gamma Presse Images, Gilles Caron, Henri Cartier-Bresson, Jacques Chirac, Jacques-Louis David, Magnum Photos, Napoleão III, Nicolas Sarkozy, Raymond Depardon, Rodin, Rolleiflex



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