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24/04/2012

às 13:26 \ França

Marine Le Pen vota Hollande

Para falar da França, não é necessário conhecer a França, mas ajuda. Em questões gaulesas mais intricadas recorrer ao auxílio de muletas, não configura nenhum desonra pública. É mesmo recomendável. Mas o Blog de Paris tem a sorte de, ainda que consideramos pouco, apoiar-se em mais de duas décadas de experiência… na França. No assunto que vamos tratar a seguir, adiciona-se a observação de quase uma década como jornalista “setorista” no Front Nacional (FN) para uma agência… francesa.

É notável a surpresa ou melhor, o espanto provocado alhures pelos 17,9% dos votos – 6,4 milhões de eleitores – obtidos pela candidata da extrema-direita Marine Le Pen. É sempre assim quando o Front Nacional consegue vitória eleitoral expressiva e simplesmente quando elege um conselheiro municipal, o vereador francês. Desta vez, não foi diferente. Mas na verdade, não é tão espantoso assim. Vou explicar a razão.

Há uma parcela de eleitores que realmente acredita no ideário do Front – o “hard core”, o “noyau dure”, o núcleo duro. Mas o excedente dos votos tradicionais, expressa mais descontentamento, protesto contra o sistema e até alerta aos candidatos dos grandes partidos. A França enfrenta hoje sua maior crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial. Há uma relação direta entre as crises e o eleitorado lepenista. Quanto mais profunda a crise, maior o número de eleitores do FN. O radicalismo é um dos filhotes da angústia. Não se trata de uma escolha ideológica. Repare, a maioria dos operários franceses votou em Marine Le Pen. Veja aqui no post do Blog de Paris.

Mas se fosse assim tão previsível, por que os institutos de opinião pública não acertaram exatamente o resultado de Marine? Ora, as previsões não estiveram assim tão longe quanto alguns querem fazer crer. A diferença esteve dentro da margem de erro de 3%. A maioria das pesquisas creditava Marine com 16, 17 %. Ela obteve 17,9%. Mas isso não explica tudo. O mais importante é levar em conta o seguinte: o eleitor do Front é mais tímido, arredio, para declarar seu voto abertamente. Na França, revelar apreço pelas idéias de direita é difícil – no Brasil é semelhante. Nem politico de direita, salvo Sarkozy, admite completamente. Se declarar eleitor do Front Nacional não é só mal visto, mas passível de receber lições de moral.

Dizem que Marine Le Pen venceu. Em certa medida, sim. Ela  obteve mais votos que no melhor desempenho de seu pai Jean-Marie, fundador do FN – 4,8 milhões de votos, em 2002. Mas não foi para o segundo turno. Portanto não será presidente da França nos próximos 5 anos. A herdeira Le Pen tampouco controla os votos dos seus eleitores. Aliás, o Front Nacional com seu credo “nem direita nem esquerda, mas  França” nunca aconselhou votar neste ou naquele candidato. É ilusão esperar que no tradicional comício do Primeiro de Maio, ela indique Sarkozy ou Hollande.

Caro leitor, se você teve a paciência de chegar até aqui lhe ofereço uma indicação a qual você não leu em parte alguma. No dia 6 de maio, antes de se dirigir para cabine de votação, Marine pegará duas cédulas para não revelar o seu voto secreto ao mesário e auxiliares. Em um deles estará o nome de Sarkozy e no outro, o de Hollande. É o do socialista Hollande que ela tem mais interesse de colocar na urna. Por que?

Nesta altura, enquanto Sarkozy e Hollande fazem, cada um à sua maneira, dança do ventre para seduzir os eleitores do Front Nacional, Marine Le Pen já está pensando no “terceiro turno” da eleição francesa. Ou seja, nas eleições legislativas marcadas para julho, importantíssimas no regime de presidencialismo parlamentar francês. Se o estorvo Sarkozy for carta fora do baralho, Marine tem mais chance de liderar a oposição de direita contra Hollande. Não é certo que ela consiga, mas este é o plano.

Por Antonio Ribeiro

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2 Comentários

  1. Susana Brito

    -

    11/12/2012 às 15:51

    A Marine Le Pen é neutra. Da mesma maneira que no Brasil, nem toda a gente é do PT ou PSDB. Também na França ninguém é obrigado a votar no Sarkozy ou no Hollande.

  2. Rodrigo

    -

    24/04/2012 às 15:43

    Bom artigo, prezado Antônio. Pergunta fatal: Os partidos franceses têm algo a oferecer? Essa crise, aliás, pode ser enfrentada? Quem paga o preço, porque alguém sempre acaba pagando?

 

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