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13/04/2009

às 16:49 \ França

Humor contra intolerância religiosa islâmica

Eles são jovens, talentosos, desempregados e sobretudo, corajosos. A turma vive em conjuntos habitacionais de Lormont, um dos subúrbios de Bordeaux, 21.300 habitantes entre os quais, 60% são muçulmanos. Para os padrões locais, é lugar típico da França modesta, longe dos cartões postais, origem de violentos conflitos raciais e sociais. Ali o Islã não é só crença religiosa, mas elemento de identidade, de controle moral para quem faz parte e, muitas vezes, de forma dissimulada ou desavergonhada sem que seja legal, motivo de exclusão da sociedade francesa. Sob o comando do diretor marroquino Zangro, de 34 anos, uma equipe de vinte atores amadores está surpreendendo sua comunidade de origem magrebina e a França com vídeos de humor sobre o Islã.

Os curtas com boa dose autocomiseração reproduzem cenas do cotidiano dessa juventude que adota a virtude de não se levar a sério embora autores de algo original e raríssimo. Veja.com adaptou os diálogos do curta Perla Rara para você assistir. O vídeo que ilustra este post e outros do mesmo gênero estão no site dos jovens de Lormont: www.apartcatoutvabien.com — Fora isso tudo vai bem ponto com. Islã e humor nunca fizeram bom casamento. Foi o caso das caricaturas de Maomé, tema da entrevista que fizemos com Tariq Ramadan, publicada na edição da revista VEJA do dia 15 de fevereiro de 2006. Leia no post seguinte a este.

Nouria Ferhati, de 22 anos, a protagonista da Perla Rara, sofre na pele a esquizofrenia fundamentalista islâmica que considera o modo de vida ocidental como via de perdição. Os códigos religiosos mais retrógrados são instrumentos fortes para família e comunidade balizar a conduta da jovem. Ela tira proveito da adversidade para exprimir-se em frente a câmera — a única, comprada de segunda mão. “No início foi difícil, o medo do julgamento da família e amigos me perturbava, resolvi incorporar à minha personagem um pouco de mim e das meninas da minha comunidade, tudo ficou mais natural”, conta Ferhati com destemida franqueza.

Sátira e ironia são conceitos amplamente utilizados desde a Grécia Antiga. Os discípulos de Aristóteles empregavam a sátira política para criticar gregos proeminentes. A ironia de Sócrates é celebrada pela cultura ocidental. Em contrapartida, o Islã tem regras rigorosas que delimitam o objeto da diversão. Sexo, religião e até piadas sobre a sogra são rigorosamente proibidas. A seriedade é considerada virtude maior, preceito básico a ser respeitado para os devotos de Alá. As paródias divertidas de Casseta & Planeta teriam dificuldade para constituir audiência, sem entraves, em Teerã ou Riade.

O sonho dos jovens de Lormont é evoluir da página na internet para algo semelhante ao seriado Little Mosque On The Prairie (A Pequena Mesquita na Campina), produzida pela TV canadense. O grande obstáculo é conseguir patrocinadores. “Há uma patrulha forte da parte dos mulçumanos conservadores, ela inibe as empresas da comunidade e atemoriza os outros que estariam dispostos a colocar dinheiro em uma formula de sucesso”, explica Hassan Zahi, de 27 anos, principal ator do grupo. Fora isso, tudo vai bem ponto com. O site na internet recebe 200.000 visitas por dia.

Por Antonio Ribeiro

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9 Comentários

  1. Bosco

    -

    17/07/2010 às 15:19

    O vídeo humorado mostra como a realidade pode estar descolada do cultural religioso ou da camisa de força familiar. Duas realidades ou mais verdades se sobrepõem. O humor do vídeo, traz a luz as mesmas verdades que são escamoteadas na política, nos costumes e até nas religiões: “Sou o que sou… sou o que penso que sou… mas sou também o que querem e pensam que eu seja! ”
    Será esse um novo mal universal ou um novo bem? Novo patrimônio de abertura para ações do indivíduo vão se manifestando, fracionando os monoblocos conservadores dos valores coletivos, nem por isso perdem as suas integralidades. Este é o presente!

  2. Monia

    -

    05/02/2010 às 11:50

    Gostei muito deste post.
    Acredito que a paz no planeta será iniciada e não digo, apenas de uma forma global, de guerras por territórios ou religiosas, mas falo de paz interior. A mensagem de um homem há mais de 2 mil anos atrás funciona para quem resolve praticá-la. Se você começa a ver o outro com respeito, se colocando, verdadeiramente, em seu lugar você irá ver as coisas com uma nova visão. Não precisamos concordar com o que não acreditamos, mas se a palavra e sentimento usado for respeito, a mudança começa de forma imediata, e isso indepente do seu credo ou forma de vida escolhida para viver. Pratique essa idéia! Eu sou colérica e apesar disto, vem funcionando, e bem, comigo.

  3. Fabrício

    -

    26/10/2009 às 15:09

    Antonio,
    Zangro esteve no evento Quitutes & Batuques em Olinda, São Paulo, Cabreuva, Campinas e Bananal. Foi uma experiência singular que contou com a adesão das comunidades e artistas.
    O vídeo que o Zangro fez na Favela de Heliópolis está publicado do blog do evento, assim como informações do que aconteceu. Convido a ver o trabalho de Zangro feito no Brasil:
    http://quitutesebatuques.blogspot.com

    Abraço

  4. AUGUSTO

    -

    15/04/2009 às 18:32

    Achei interessante para avaliarmos até que ponto as sátiras tendo como conteúdo as religiões são ofensivas ou danosas.”Sátira e ironia são conceitos amplamente utilizados desde a Grécia Antiga.”Abçs.

  5. Marcos Nociolini

    -

    15/04/2009 às 10:43

    Só mesmo na “civilização-judaico-cristã-ocidental”, que alguns adoram criticar, jovens mulçumanos poderiam satirizar o Islã sem correrem o risco de serem presos ou mortos! Mesmo numa democracia adolescente como a brasileira, qualquer um pode descer o sarrafo na Igreja Católica, mas nos países islâmicos, não se aceita sequer uma caricaturazinha de Maomé.

  6. antonio

    -

    14/04/2009 às 22:16

    eu acho que toda religião merece respeito,sei que o islã mesmo levando ao extremo a violencia e desrespeito a toda liberdade não merece ser alvo de chacota ou menosprezo.

  7. pedro reis

    -

    14/04/2009 às 5:29

    O tema de sua coluna hoje não poderia ser mais instigante para a semana de debates raciais que estamos vivenciando aqui no Brasil. A França que hoje em dia vive um verdadeiro problema cultural com a questão da integração pela grande comunidade de origem muçulmana, incluiu o sistema de cotas em suas universidades? Pois ser árabe e muçulmano é motivo de exclusão da sociedade francesa, não? Aqui ao contrário, o caso da menina expulsa da faculdade após interpretação de sua cor (sim, aqui cor é questão de interpretação), mostra a grande confusão que se instaurou em várias instituições quando o governo decidiu que deveríamos inventar um problema antes inexistente. A maioria do povo brasileiro é “brasileiro” – ou seja uma mistura de raças que resulta na bela cor morena de nosso povo. Isso nunca foi impecílio de integração. Nosso grande problema foi e continua sendo a falta de investimentos na Educação deste nosso povo. Independente do resultado visual de nossa miscigenação.

 

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