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28/10/2009

às 15:33 \ França

Angolagate

Senhores da guerra: Charles Pasqua e Jean-Christophe Mitterrand

Senhores da guerra: Charles Pasqua e Jean-Christophe Mitterrand

As investigações internacionais do Angolagate, o caso de tráfico de armas e corrupção com envolvimento de políticos, empresários e artistas na França, duraram sete anos até  ontem quando o juiz Jean-Baptiste Parlos do Tribunal Correcional de Paris dirigiu-se a cada acusado: “Levante-se”. Em seguida, em um ambiente de extrema tensão, proferiu 36 sentenças. As penas mais pesadas foram para os mentores da venda ilícita – 533 milhões de euros – o  bilionário israelense de origem russa, Arkadi Gaydamak, de 57 anos, e o empresário francês Pierre Falcone, de 55 anos. Ambos foram condenados a 6 anos de prisão. Gaydamak está foragido. Falcone deixou as barras do tribunal e foi levado direto para além das grades da Santé, a penitenciária metropolitana de Paris.

A condenação de empresários na França é considerado fato quase tão corriqueiro quanto ir comprar baguete na esquina. A ressonância maior, no entanto, veio com a pena de 3 anos de prisão, sendo que dois condicionais, e multa de 100.000 euros ao senador conservador do partido de Sarkozy e ex-ministro do Interior, Charles Pasqua, de 82 anos. E também dois anos de prisão suspensa acrescido de multa no valor de 375.000 euros para Jean-Christophe Mitterrand, primogênito do falecido presidente socialista, François Mitterrand. Durante o governo do pai, o mais longo mandato da história da França republicana, Jean-Christophe era conselheiro em uma célula secreta do governo para tratar de assuntos africanos.

O conflito armado separatista em Angola foi um dos capítulos mais longos e sangrentos da Guerra Fria – 500.000 mortos em 27 anos. De um lado, o exército do presidente marxista Eduardo dos Santos, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)  que contava com ajuda de uma força expedicionária cubana enviada pelo ditador Fidel Castro. Os Estados Unidos, na época da presidência de Ronald Reagan, e o regime segregacionista da África do Sul, apoiavam os rebeldes comandados por Jonas Savimbi, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). A ONU impôs um embargo para venda de armamentos na região. O comercio de armas durante conflitos é  também proibido pela legislação francesa.

Eduardo dos Santos para armar suas forças, formulou um pedido extra-oficial a França, na época sob o governo socialista de François Mitterrand. Jean-Cristophe Mitterrand contatou Gaydamak e Falcone, donos da empresa franco-eslováquia ZTZ-OSOS para organizar uma operação triangular de compras no antigo arsenal dos países do ex-bloco soviético. Eles conseguiram entregar o seguinte material bélico ao MPLA: 80 tanques T-62, 340 tanques BMP, 44.250 fuzis de assalto Kalachnikov, 3.150 lança-chamas, 36 canhões de propulsão autonoma, 61.053.000 cartuchos de 7.62 mm, 30.000 granadas, 500 lança-granadas do tipo RPG, 315 morteiros, 181.250 obuses de diferentes calibres, 170.000 minas antipessoal , 12 helicópteros de combate e 6 navios de guerra. Jean-Cristophe Mitterrand recebeu 1,8 milhão de euros em pot de vin -  cerveja, propina, comissão.

Em 1997, a Justiça francesa abriu inquérito de lavagem de dinhero contra a empresa ZTZ-OSOS. Dois anos depois, o fisco francês começou a correr atrás de Arkadi Gaydamak. Para conferir um ar de respeitabilidade e amenizar as acusações, Pasqua indicou a o então presidente Jacques Chirac, a pedido de Falcone, o sócio Gaydamak, para receber a condecoração da Ordem Nacional do Mérito. O favor do ex-ministro do Interior custou 1,5 milhão de euros. Ao receber a condenação, Pasqua reagiu: “O  presidente da República [na época, François Mitterrand] sabia das vendas das armas a Angola, o primeiro-ministro [Edouard Balladur] estava ciente e a maioria dos ministros também. Pasqua quer que o presidente Sarkozy, ministro da Economia na época, suspenda o segredo de estado no que diz respeito a venda de armas autorizadas pela França. “Chegou a hora de colocar as coisas em pratos limpos” , disse ele no telejornal do canal France 2.

A suspensão do segredo de estado sobre venda de armas não é da competência do Presidente da República, mas do ministro da Defesa. “Se as autoridades judiciárias formularem o pedido, ele será examinado”, disse Luc Chatel, porta-voz do governo. Atendida a reinvidicação de Pasqua que tem o apoio de uma petição assinada por parlamentares da oposição, haja pratos limpos. A França sediará um dos maiores banquetes da sua história. O nome de Sarkozy aparece no processo. No diário de Yves Bertrand, ex-diretor do serviço de informações francês,  um dos envolvidos no Angolagate. “Sarko é um cara que está nas mãos de Tassez.” E a nota conclui: “Tassez recebeu grana de Falcone para Sarko.” Jean-Noël Tassez diretor da emissora de rádio  RMC, do paraíso fiscal e de bandidagem financeira, jura que os 165.000 euros que recebeu de Falcone eram só para ele.

Por Antonio Ribeiro
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7 Comentários

  1. Manoel Pedroza

    -

    30/10/2009 às 10:59

    Caro Antonio,

    Te felicito vivamente por mostrar aos brasileiros, através do seu bolg, uma face não conhecida dos homens que governam a França.

    Enquanto brasileiro vivendo temporariamente aqui na França, eu me surprendo com a falta de conhecimento, da parte dos estrangeiros mas também dos franceses, de todas as atrocidades cometidas oficialmente (ou não) pelo estado francês nas suas antigas colônias, especialmente na Africa.

    Aproveitando o momento, eu sugiro uma leitura altamente ilustrativa dos desmandos da França na Africa:
    “La Françafrique, le plus long scandale de la République”, François-Xavier Verschave. Stock, 1998.

    Abraços, e mais uma vez parabéns,

    Manoel Pedroza

  2. Sergio G

    -

    29/10/2009 às 17:32

    Acho que também entrou “cerveja, propina, comissão” em uma certa venda de aviões …

  3. Sandra Ribeiro

    -

    28/10/2009 às 22:19

    É lamentável, em qualquer circunstância, que um grupo se aproveite de diferenças entre beligerantes para vender armas. Estive em Angola, a trabalho, em 2002, pouco depois da assinatura do tratado de paz. As semelhanças com o Brasil terminavam quando eu lembrava que eu não havia presenciado guerra no Brasil (não estou falando da ‘guerra do Rio’, isto é outro assunto!). Irmãos matando irmãos, literalmente. Crianças eram sequestradas pelo exército da UNITA e passavam a lutar contra seus irmãos. Muitas vezes, irmãos de sangue, que eram ‘recrutados’ pelo exercito oficial, o MPLA, faziam igual. Lamentável! As crianças, agora adultos forcados, encontravam-se em campos opostos. Eram obrigados pelo dever a matar um ao outro. E alguns engravatados se ocupavam de vender armas em seus escritórios distantes, frios. Asquerosos! A única palavra que me vem é nojo.

  4. Z.

    -

    28/10/2009 às 22:17

    Depois de ler isto, será que alguém tem alguma dúvida sobre o que deve estar acontecendo por trás da venda de aviões e submarinos pela França ao Brasil?

  5. Antonio Ribeiro, de Paris

    -

    28/10/2009 às 19:05

    Caro Cristiano,

    Obrigado pela leitura e envio do comentário.

    A resposta a sua pergunta está no texto.

    A maior reverência ao contraditório é elegê-lo unidade de medida. As questões são o que são independendente da opinião de comunistas, petistas e de Lula, se você me entende.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  6. Cristiano

    -

    28/10/2009 às 18:17

    Mas essas armas foram para qual lado? Se foram para o lado que defendia Angola do golpe e intromissão comunista administrada por Fidel mas certamente comandada pela Rússia, então não foi crime. E o lado de Cuba e da Rússia, a Justiça Francesa vai se pronunciar contra? Afinal quem iniciou a anarquia em Cuba, Moçambique e África do Sul foram Rússia com Cuba. Até então estava todo mundo em paz. Foi por causa desse separatismo surgido através de implantação de ódio (espalhar ódio para separar e então dominar) que surgiu o apartheid. Negros incitados ao comunismo armado e brancos separando-os com receio deles serem terroristas. Fidel fez muita gente sofrer e ele até hoje está vivo e livre. É estranho que os Estados Unidos nunca invadiram Cuba mas invadiram o Iraque duas vezes. Pior que os estragos de Saddam, são os estragos transcontinentais do monstro Fidel, o gafanhoto comunista.

  7. Edvaldo José

    -

    28/10/2009 às 18:10

    Um dos maiores males ocasionados pelo fim do colonialismo europeu foi, e é, a constante interferência das potências na política interna de ex-colônias. O escândalo Angolagate é um claro exemplo dessa realidade. A ONU deveria fiscalizar, de uma maneira mais rígida, as transações internacionais de países em conflito interno e/ou externo, a fim de coibir tais interferências.


 

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