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14/03/2012

às 11:42 \ França

Marine Le Pen, o espantalho, queima como fogo de palha

Tal pai, tal filha. Marine Le Pen, a candidata da extrema-direita a presidência da França, passou as últimas semanas dizendo ter chance mínima de ganhar a eleição? Não. Seria pedir muita lucidez e pouca astúcia. Como o pai fez antes, a filha tentou persuadir os incautos que devido ao sistema eleitoral francês – exige 500 assinaturas de prefeitos para oficializar a candidatura – poderia nem conseguir entrar em campo para disputar o páreo. Menos, né?

O truque velho serviu apenas como mais munição para a candidata exercer seu fundo de comércio. Ou seja, atacar qualquer edifício que não tenha sido erguido pelo Front Nacional. A União Européia, o euro, a legislação francesa em geral, as políticas  governamentais de imigração e integração em particular, etc. Resultado do jogo de cena? Pasmem. Ela conseguiu as 500 assinaturas. É mesmo? Não diga! Os trouxas reincidiram, caíram de novo: Le Pen entra na disputa, melou o jogo!

Quando foi que Marine esteve ameaçada de não ser candidata à presidência da França? Só quando o pai Le Pen quis passar a herança política e alguns membros do Front Nacional acharam que o partido não obedecia automaticamente a linha sucessória familiar. Durou alguns dias, muito antes de começar a disputa eleitoral na França. Mais especificamente, quando o pai decidiu não se candidatar à presidência.

Quando cheguei à França, duas décadas atrás, havia dois políticos jornalisticamente interessantes e originais a meu juízo: o presidente François Mitterrand e o líder da extrema-direita xenófoba Jean-Marie Le Pen. Os demais eram variações de mais do mesmo. Personagens já vistos antes em outros trajes.

Os colegas da Gamma Presse Images, agência em que fui convidado a trabalhar, gostavam de fazer reportagens sobre o primeiro presidente socialista da V República. Le Pen despertava menos interesse e, a bem dizer, um certo incômodo entre os franceses. Eles cobriam o candidato do Front Nacional quase por obrigação de ofício ou, no jargão do futebol, para cumprir tabela. Pior: abordavam o eterno candidato derrotado à presidência, embora representante de uma parcela significativa e crescente da população francesa, como um político igual aos outros.

Dado o seu ideário contrário aos valores republicanos e só democrata porque de outra maneira a existência do Front Nacional não seria permitida pela lei, Le Pen merecia mais atenção e senso crítico mais detido. Durante sete anos fui uma espécie de “setorista” da agência no Front Nacional. A experiência trouxe algum conhecimento sobre a maneira de operar dos lepenistas.

O “milésimo gol” do partido da extrema-direita da França, a glória máxima, foi a chegada de Le Pen ao segundo turno da eleição presidencial de abril de 2002, eliminando o candidato socialista Lionel Jospin do páreo. Causou espanto e arrependimento entre os que decidiram não sair de casa para votar em um domingo chuvoso, seguros que a disputa estava definida.

No segundo turno, a resposta dos eleitores foi previsível. Oito entre dez franceses votaram em Jacques Chirac, o apático opositor de Le Pen. A eleição entrou para história também como a maior surra eleitoral da França.

Desde sua criação, o Front Nacional nunca conseguiu eleger sequer um mísero deputado para a Assembléia Nacional. No máximo, o partido faz um prefeito aqui e um vereador acolá em eleições municipais cantonais e regionais. Seu desempenho nacional é pífio. A atual candidata Marine Le Pen, assim como foi seu pai, é deputada no Parlamento Europeu. Mesmo coligada a representantes da extrema-direita do Velho Continente tem influência mínima em decisões nacionais.

O mais interessante na corrida eleitoral francesa é a semelhança no primeiro turno com a força centrífuga do secador de alface, rúcula e agrião. Os candidatos vão para os extremos para conquistar a sua base e afinidades. Neste sentido, o conservador Nicolas Sarkozy mostrar-se muito mais de direita do que ele é na verdade – está aí, a sandice de propor rever os acordos de livre circulação de indivíduos na União Européia. François Hollande faz igual com a proposta caricatural de taxar em 75% quem ganha mais de um milhão de euros por ano. Pura retórica eleitoral. O mundo real é mais complexo e ninguém é tão ingenuamente boboca salvo se quiser fazer tipo. No segundo turno, os candidatos voltam para as posições de origem. Isso porque se não ganharem o centro, não levam a presidência.

Marine Le Pen? Tal pai, tal filha. Na hora H, ela pode retirar eleitores da direita como o velho plano  “florentino”  de Mitterrand: dar força ao Front Nacional para dividir a direita.  Ou o contrário:  os simpatizantes mais pragmáticos de madame Le Pen suspeitam que outro candidato possa colocar algumas de suas idéias em prática e, como consquencia, votam nele. Aconteceu na eleição de Sarkozy em 2007. Mas enquanto candidata, Marine é um espantalho que queima como fogo de palha. Vistoso, atemorizador, mas não passa disso.

Por Antonio Ribeiro

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9 Comentários

  1. Alexandre

    -

    19/03/2012 às 23:54

    Também falavam que Adolf Hitler era fogo de palha.
    Quando a situação econômica da França piorar (e vai piorar, não importa quem ganhe) vamos ver se os imigrantes e o euro não vão acabar pagando o pato. E a Marine Le Pen não acaba chegando lá, com consequências imprevisiveis

  2. Paula Barcellos

    -

    19/03/2012 às 8:37

    Sem generalizar, sim são poucos os jornalistas franceses ou não que escrevem com a sua lucidez, Antônio.
    Li recentemente outro artigo que vai na sua linha de pensamento, sobre a margem de manobra em termos econômicos, do futuro presidente Frances: ela é nula.
    “O Eliseu sob tutela”.

  3. DN

    -

    15/03/2012 às 18:27

    Os jornalistas franceses não tem coragem de escrever o que você escreve. Seus textos são sempre pertinentes, consisos e originais. Embora, as vezes, contundentes, são bem humorados. A analogia do primeiro turno com a “força centrífuga do secador de alface, rúcula e agrião” é maravilhosa.

    Caro,

    Obrigado pela leitura e envio do comentário.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  4. Oliveira Salazar

    -

    15/03/2012 às 14:56

    Adoro a maneira independente e nada politizada de como falam e adjectivam as outras forças politicas que não interessam. As leis francesas foram feitas não ao interesse dos franceses, mas sim das negociatas e da benção da União Européia. Tenho seguido o jornalismo europeu em varias nações e os pró-europeus utilizam uma linguagem ressabiada assim como quem tem simpatia por semelhantes regimes que de democráticos não tem nada. Concluo portanto que existem 3 extremismos: o da esquerda, o da direita e um que é travestido de democracia.

  5. Adriana Socci

    -

    15/03/2012 às 6:09

    Antonio, sua analise foi perfeita. O François Hollande, já percebeu que a caricatura foi além da conta e começou a adocicar a nota dos 75%. Deve ter percebido que seu extremo nao era tão extremo assim…

    Cara Adriana,

    Obrigado pela leitura e envio do comentário.

    Isso é papo de campanha eleitoral. Uma taxa de imposição acima de de 60% é confisco, não passa pelo Conselho Constitucional. O principal conselheiro de Hollande para assuntos fiscais não sabia da proposta, foi pego de surpresa. Soube como a maioria, quando o candidato anunciou na TV.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  6. Roda Alta

    -

    14/03/2012 às 20:11

    Vivo em Cascais, António. Leio com muito prazer o Blog de Paris via Zon TV Cabo. Aqui em Portugal é a mesma hipocrisia. José Pinto Coelho, presidente do Partido Nacional Renovador (PNR), de extrema direita nacionalista e xenófoba, já foi emigrante no Brasil, mas vive fazendo discursos tolos contra os emigrantes brasileiros em Portugal. O partido dele não nega ligações a movimentos neo-nazis. Alguns de seus simpatizantes têm sido condenados por discriminação racial e crimes violentos como o assassinato do dirigente do PSR José Carvalho. E também de um jovem cabo-verdiano e mulato, o Alcino Monteiro, espancado violentamente com socos e pontapés por um grupo de ‘cabeças rapadas’ que lhe causaram fracturas múltiplas na cabeça e na coluna. A vítima entrou em coma e morreu na manhã do dia seguinte a brutal covardia. Um dos slogans do partido é “As idéias não se apagam, discutem-se”, clara referência ao fascismo e nazismo.

    É. Pelo jeito não se discute muito.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  7. Daniel Braga

    -

    14/03/2012 às 14:49

    É uma delícia ler o que você escreve.

  8. Maria Cristina Anaripe

    -

    14/03/2012 às 12:44

    Você surpreende sempre, Antonio! Sua coluna é leitura obrigatória para quem quer entender as eleições francesas.

  9. Paulo Boccato

    -

    14/03/2012 às 12:15

    Antonio, o seu texto é a melhor análise da eleicão francesa que eu já li!

 

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