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08/11/2011

às 8:02 \ Europa

Destino do euro pendula entre berçários do ocidente: Roma e Atenas

Os que vão morrer te saudam

Há seis semanas a chanceler alemã Angela Merkel e o presidente da França se deram exatamente este tempo para salvar o euro. E mostrar para os interessados que estavam determinados. Talvez a missão mais dramática desde que a moeda comum a 17 países do Velho Continente foi criada. O cronômetro parou com o fim da reunião de cúpula do G20, em Cannes, no sul da França. Salvaram o paciente? Não. Ele continua padecendo sem dar sinais de reação.

Acordo não se chegou se deveria adicionar um montante e se sim, de quanto, aos atuais 440 bilhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF).  A desejada “porta corta-fogo” contra a crise econômica, a facilidade de caixa para ajudar os países europeus  atenuarem dívidas públicas e capitalizar bancos, aqueles que emprestaram e arriscam calote pesado. Funcionaria também para induzir confiança nos investidores: “podem ir que estamos armados de bazuca”.

Tampouco houve consenso de quanto e de como incrementar os cofres do Fundo Monetário Internacional (FMI). A idéia é criar uma reserva suplementar para dar uma mão externa aos europeus e a quem sofrer seus impactos. Falou-se em trilhão de euros, mas a questão ficou para ser equacionada pelos ministros das Finanças em reunião prevista para dezembro.

O que se assiste é o euro pendulando sua sorte entre os berçários da civilização ocidental: Roma e Grécia. Mais especificamente, nos braços de governos fracos e, se considerado a maneira em que lidam com a gravidade dos problemas, certamente têm comportamentos burlescos.

Na Grécia, a situação caminha para formação de governo de coalizão entre rivais fervorosos, os socialistas do Pasok e os conservadores da Nova Democracia, liderado pelo ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) Lucas Papademos. Isso para atender uma necessidade imediata. A de retificar acordo do 26 de outubro com a União Européia (UE) pelo qual a Grécia receberia a sexta parcela de 8 bilhões de euros do segundo empréstimo, a bagatela total de 130 bilhões de euros. O acordo implica, em contrapartida, rigorosas medidas de austeridade. Sem o socorro financeiro, a Grécia  não fecha as contas antes do Natal.

A formação do novo governo grego coloca provisoriamente termo à crise gerada pela sandice do primeiro-ministro socialista George Papandreou, a hipótese de organização de um referendo sobre o plano de resgate da Grécia, a ameaça de falência e a catastrófica saída da zona euro. Mas, para os gregos, os problemas continuam a ser os mesmos. A recessão, o desemprego de quase 20% e as reduções de salários vão continuar. O lenitivo momentâneo não coloca fim no fato do país helênico operar no vermelho sem, por enquanto, perspectiva de mudança de rota e por consequência não ver luz no fim do túnel.

Presente grego

Na Itália, a terceira maior economia da Europa o quadro é bem mais sombrio. A queda de Roma, desta vez, poderá arrastar toda a zona do euro para a débâcle. O país tem a quarta maior dívida pública  do planeta, quase 2 trilhões de euros, equivalente a 120% do Produto Interno Bruto italiano. Se a capacidade produtiva inteira do país se dedicasse exclusivamente para pagar a dívida, situação impraticável, nem assim conseguiria salda-la em 12 meses. É dinheiro que não acaba mais. As contas da Itália cuja a taxa de desemprego é de 8,3% e crescimento econômico de 0,6% em 2011, foram colocadas sob monitoramento de auditores do Fundo Monetário Internacional (FMI). A intrusão, rara na zona do euro, tenta provocar mais credibilidade nos investidores.

Em 2012,  a Itália terá que refinanciar uma parcela de 300 bilhões de dólares da dívida colossal. Ontem, o spread entre os títulos da dívida italiana de 10 anos e os alemães atingiu, desde a criação do euro, o patamar recorde de 475 pontos. Isso significa que para cada euro que a Itália tomar emprestado, terá que pagar 6,74% de juros. Os economistas sustentam 7% como a beira do precipício. Taxas de retorno sobre os títulos com níveis semelhantes levaram a Grécia, Irlanda e Portugal pedirem ajuda externa. Mas a Itália é too big to fall, grande demais para cair, e não há paramédico preparado para os primeiros socorros. Entretanto, os investidores vão se desfazendo rapidamente dos títulos italianos, temerosos que a falta de solidariedade dos europeus e medidas de última hora não irão salvar a Itália.

O ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti e 7 entre 10 de seus compatriotas acham que grande parte do problema é o Presidente do Conselho, Silvio Berlusconi, 75 anos de idade. Il Cavaliere governa o país há 18 anos, um período tumultuado por acusações de abuso de poder, interrogatórios policiais, convocações pela Justiça, acusações de corrupção, enriquecimento ilícito, e escândalos sexuais com garotas de honorários elevados. Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, resume a situação com aguda precisão: “Falta confiança”.

Confiança é elemento crítico nos negócios e nas relações humanas, amorosas e de amizade. Houve tempos em que Giulio Andreotti – o democrata-cristão governou a Itália em três mandatos – chegava a uma reunião de cúpula dos países mais ricos e a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher levantava-se da cadeira para ir cumprimentá-lo com rara deferência. “Hoje, nos encontros de chefes de estado o casal Merkozy (contração de Merkel e Sarkozy) dá as costas a Berlusconi ou zombam dele”, diz um deputado italiano.

Ontem, quando os mercados ouviram boatos que Berlusconi cogitava renunciar, o efeito foi similar ao de um atleta que tomou anabolizante. A bolsa de valores italianas disparou a frente das suas vizinhas europeias. Aí, veio o desmentido de Berlusconi. O Presidente do Conselho escreveu no seu mural do Facebook: “Os rumores de minha renúncia são infundados”. E ameaçou:Quero ver a cara de quem vai me trair.” Gesto seguido, a bolsa voltou a cair, mas se estabilizou em um patamar inferiorm mantendo a esperança na evidência: a posição de Berlusconi é insustentável, se não a curto, mas certamente a médio prazo.

O Parlamento italiano reúne-se se hoje, 15h30 hora local (12h30 em Brasília) para aprovar ou não o orçamento. Caso as contas não forem retificadas, haverá moção de confiança ao governo. Embora Berlusconi já tenha sobrevivido a 53 votos de confiança, a situação agora é bem mais delicada com a pressão dos mercados apostando contra a Itália. A maioria parlamentar que sustenta governo é frágil. Dois deputados do Partido da Liberdade, a legenda de Berlusconi, já debandaram para oposição e seis outros manifestaram seu desagrado com o capo em carta aberta. A imprensa italiana afirma que há 20 abandonos nas fileiras do governo.

Berlusconi construiu sua popularidade e apoio político na base da cumplicidade. Sobretudo, distribuindo cargos no governo. Sua margem de manobra nestes tempos de austeridade é bem mais estreita. Poucos acreditam que o Presidente do Conselho será capaz de implementar as medidas prometidas para economizar de 54 bilhões de euros — reformas no sistema de aposentadorias, nas leis trabalhistas e privatizações.

A surpresa não será a saída de Berlusconi do governo, mas a sua permanência. Il Cavaliere, o homem mais rico da Itália com uma fortuna estimada em 6 bilhões de euros, não está em posição de pedir sacrifícios aos italianos, fato incontornável para afastar temporariamente a bancarrota. O mais provável é que a Itália tenha eleições em breve, a exemplo da Espanha.  Entretanto, o euro agoniza.

Arrivederci Roma

Atualização: Sílvio Berlusconi perdeu a maioria absoluta dos 316 deputados do plenário. O plano orçamentário foi aprovado por apenas 308 parlamentares. A oposição preferiu se abster. O fim do Presidente do Conselho está próximo. Berlusconi disse ao presidente italiano Giorgio Napolitano que vai renunciar uma vez que as medidas de austeridade e reformas recomendadas pela União Europeia forem votadas. A Lei de Estabilidade deve ser votada na próxima semana.

Por Antonio Ribeiro

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3 Comentários

  1. Valton von Tempski-Silka

    -

    08/11/2011 às 12:20

    Bom dia, Antonio!

    Lúcida abordagem a sua, com título absolutamente original, berçário. Me atrevo a aplicar meu pitaco parasitário sugerindo que em berçários sempre são encontradas incubadoras, que tanto servem para cultivo de microrganismos como para abrigar recém-nascidos que exigem cuidados particulares. Nos dois casos, se não houverem profissionais competentes o resultado sempre será catastrófico. Lácio à parte, insisto na necessidade de clister em cada balanço (do berço) com as devidas precauções higiênicas.

    Caro Valton;

    Obrigado pela leitutra e envio do comentário.

    Apreciei o eufemismo elegante e a sutileza inteligente:

    “Lácio à parte, insisto na necessidade de clister em cada balanço (do berço) com as devidas precauções higiênicas.”

    Muito bom.

    De Paris, um abraço

    Antonio Ribeiro

  2. Adriana

    -

    08/11/2011 às 11:01

    Bom dia, Antonio. Excelente artigo. A questão principal agora e o tempo que não se pode perder para salvar a Itália de um desastre financeiro. Além da fortuna acumulada durante seu governo o número de italianos na pobreza absoluta (extrema) também aumentou durante seu governo. Tenho primos que vivem lá e estão passando dificuldades. Esse senhor destruiu o país dele. A Itália esta completamente desmoralizada.


 

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