30/05/2011
às 12:19 \ EuropaA Grécia ou quase está à venda
Embora sempre cintilante sob a luz dourada do Mediterrâneo, é preciso voltar a Guerra do Poloponeso – opôs Esparta, de tradição militarista terrestre e vida austera, contra a naval Atenas, centro político e civilizatório da Antiguidade – para encontrar um período tão sombrio como o da Grécia atual.
O país está a beira da bancarrota com dívida de 340 bilhões de euros, a maior da Europa. É uma cratera tão imensa que para cobri-la a capacidade produtiva da Grécia inteira levaria 18 meses trabalhando exclusivamente no aterramento sem gastar centavo para comprar uma mísera azeitona. Ou seja, ela representa 150% do Produto Interno Bruto (PIB) helênico. A retração da economia quase paralisada é de 2,6% do PIB, 100 bilhões menor do que o paulista. O índice de desemprego chegou a 16% da população ativa – e pronta para demonstrações violentas como os incêndios no centro financeiro de Atenas em fevereiro de 2011. Isso depois da Grécia ter sido agraciada pela União Européia (UE) e Fundo Monetário Internacional com um empréstimo escalonado de 110 bilhões de euros no ano passado do qual quase a metade já foi entregue.
O governo socialista do primeiro-ministro Georges Papandreau vai iniciar um vasto programa de privatizações com a venda de estatais em boa saúde financeira pela metade do valor de mercado e o fechamento de outras, cuja função está mais próxima a cabides de empregos. É a primeira onda de medidas – inclui até cobrança de 25 euros para o acesso a certas praias – com objetivo de recuperar 50 bilhões de euros em ativos públicos até 2015. Todos os partidos e sindicatos são fervorosamente contra a iniciativa. Para completar o quadro conhecido alhures em tempos não muito remotos, os ministros socialistas recusam assinar privatizações temendo ganhar o adjetivo de traidores.
O plano emerge pela força da perspectiva do sedento chegando a fonte seca. O comissário da UE para assuntos econômicos, Olli Rehn, ameaça suspender a ajuda financeira no momento em que a Grécia negocia a liberação da quinta parcela do empréstimo – 12 bilhões de euros – para fechar as contas de junho. O governo grego é criticado pela lentidão nas reformas prometidas. Auditores internacionais constataram o descumprimento das metas de ajustes fiscais em um país onde, diferente dos vizinhos europeus bem mais ricos, se aposenta com 50 anos – na Alemanha, se aposenta com 67 anos sem sesta de 4 horas. Desde que o fundo de ajuda financeira foi criado, a dívida grega só aumentou.
Estão na lista de privatizações:
- Hellenic Railways Organization, a companhia ferroviária. Participação do estado no capital: 100%. Faturamento em 2009: 174 milhões de euros. Numero de empregados: 6 000.
- Hellenic Postbank, o banco dos correios. Participação do estado no capital: 34%. Faturamento em 2009: 384 milhões de euros. Numero de empregados: 2 510.
- Hellenic Telecommunication Organization, companhia telefônica. Participação do estado no capital: 16%. Faturamento em 2009: 2,2 bilhões de euros. Numero de empregados: 30 000.
- Public Power Corporation, companhia de fornecimento de energia. Participação do estado no capital: 51,12%. Faturamento em 2009: 5,8 bilhões de euros. Numero de empregados: 21 800.
Tags: desemprego, dívida pública, FMI, Georges Papandreau, Grécia, PIB, Privatização, UE


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7 Comentários
Sinisosrsa
-11/06/2011 às 12:11
Prezado, na quinta-feira eu li uma notícia super animadora no jornal local: o governo grego decidui suspender o pagamento de aposentadorias aos cidadões já falecidos. É, na Grécia assim: os funcionários públicos recebem 16 salários por ano, os mortos continuam recebendo suas aposentadorias, a igreja ortodoxa é sustentada pelo Estado, os gastos militares engolem uns 4% do PIB, a evasão fiscal é altissíma, mas os gregos preferem culpar Deus e o mundo pelas suas mazelas (além de gritar muito, mas muito mesmo) do que trabalhar a sério.
Junior
-03/06/2011 às 15:44
Boa tarde Antonio.
Realmente a situação da Grécia nos faz refletir o futuro do Brasil com relação aos gastos públicos e o sistema previdenciário brasileiro. Infelizmente o político profissional é avesso a tomada de decisões amargas, afinal de contas, é o futuro da profissão que está em risco.
Como bem diz um ditado aqui da minha terra: “o bolso é o órgão mais sensível do ser humano”. Que o bom senso e a união façam a diferença, afinal de contas, é o euro que está em risco.
Abraços.
Adriana Socci Barbosa
-31/05/2011 às 11:10
Antonio, faço uma comparação da situação grega com a crise americana de 2008.
No livro/filme “Too Big to Fail”, sobre a crise econômica de 2008; Henry Paulson – secretário do Tesouro americano – depois de semanas tentando aplicar sem sucesso todas as fórmulas de economia conhecidas para salvar o sistema financeiro americano e evitar um crash que daria início a efeito dominó global; encontra fora das teorias a única solução possível para o “beco sem saída”.
Convencer o Congresso americano a aprovar empréstimo sem precedenetes de US$ 700 bilhões de dólares aos 10 ou 12 maiores bancos americanos. Aos que precisavam e aos que não precisavam do dinheiro. O dilema era de duas ordens: “se o Estado emprestasse dinheiro de tal ordem para os bancos endividados, seria considerado estatização dos bancos, atitude contraria aos princípios da própria democracia americana. Além disso, não seguraria os boatos de efeito dominó. No meio da noite, acende a luz do secretário e ele liga para seu assitente dizendo: “Sei que é o meio da madrugada, mas posso tomar o seu cérebro emprestado um pouquinho? A solução é emprestar para todos os bancos.
Inclusive os que não precisam. Assim, não haverá boatos.”
Bem, a ideia era emprestar aos bancos, para que eles emprestassem ao povo endividado com a crise imobiliária. Não foi feito. Os bancos ficaram com o dinheiro e a crise veio de qq jeito, mas não teve retirada em massa de $$ dos bancos e não houve o Crash de 29.
Pensei numa comparaçao com a Europa. Se a Europa emprestar para todos os países, aos que não tem problemas financeiros e aos que tem assim como Grecia, Espanha, Portugal etc… talvez esteja aí a solução?
Adriana Socci Barbosa
-30/05/2011 às 15:41
Te leio aqui do meio da ala de Arte Grega do Metropolitam Museum, em NY.
Eles gostariam de comprar.
Cara Adriana,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
É sala de leitura imbatível para o post. Você viu o busto de um político brasileiro famoso que está na ala de esculturas greco-romanas do Metropolitan?
Olha só:
http://veja.abril.com.br/blog/de-paris/arte/vale-uma-entrada-para-o-met/
De Paris, um abraço
Antonio Ribeiro
Wesley Oliveira Silva
-30/05/2011 às 13:59
Seria uma oportunidade de empresas brasileiras começarem a “botar o pé” na economia européia, assim como eles fizeram aqui a partir dos anos 90! Seria o início de uma reviravolta do mundo “em desenvolvimento”!
Caro Wesley,
Obrigado pela leitura e envio do comentário.
Muito oportuna a sua obsevação. É sim um caso que merece ser estudado.
De Paris, um abraço
Antonio Ribeiro
Daniel Peccini Correa
-30/05/2011 às 12:57
Para um governo socialista anunciar a privatizaçao de estatais é porque chegaram no fundo do poço. Gostaria de saber dos que se opõem as reformas o que eles sugerem como alternativa para resolverem os problemas.