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18/02/2011

às 17:03 \ Economia

G20 Paris: BRICs dificultam acordo substancial na reunião. Guido Mantega explica.

O G20 caminha para firmar-se como o principal diretório da economia mundial. Os ministros das economias e presidentes dos Bancos Centrais das 20 nações que compõe o grupo estão reunidos em Paris. A França que preside o encontro considera que o principal objetivo é estabelecer parâmetros indicativos para medirem os desequilíbrios entre os países. Os indicadores mediriam a balança comercial, a taxa de câmbio, as reservas em moeda, os déficits públicos e o nível de dívida privada dos países.

A proposta é querida aos Estados Unidos cuja balança comercial registra 466 bilhões de dólares negativos, menos 3,2% do Produto Interno Bruto. A China vê a movimentação como manobra suspeita para deter seu avanço econômico. O país tem uma balança comercial com saldo positivo de 270 bilhões de dólares, o que corresponde a 4,7% do seu espantoso PIB. A China é dona de reservas lucrativas de 2,85 trilhões de dólares, a maior do planeta. Diferente do Brasil que tem reservas onerosas – aplica em investimentos com juros menores do que oferece.

Os representantes do BRICs,  acrônimo criado pelo banco Goldman Sachs para designar o grupo das economias emergentes do Brasil, Rússia, Índia, China e doravante conta também com a África do Sul como  quinto país membro do grupo, fizeram uma reunião preliminar no Hotel Intercontinental.  Em larga medida, os BRICs  sustentam a China.  A posição dificulta um acordo  substancial em Paris. A próxima reunião do G20 será em abril, nos EUA.

Guido Mantega, ministro da Economia, relatou os pontos principais do encontro e explicou a postura do Brasil:

“Discutimos os principais temas que serão debatido na reunião geral do G20. O objetivo foi de buscar posições comuns. O primeiro item diz respeito as medidas para crescimento equilibrado da economia internacional, cujo destaque é a questão dos indicadores. É posição cara aos EUA. Os americanos gostariam de definir indicadores para estabelecer limites de excedentes ou déficits.

Não há consenso. Podemos construir indicadores, mas precisamos saber quais são os importantes e capazes de mostrar o desequilíbrio real. Há concordância de que os indicadores fiscais são importantes. Ninguém levantou restrição.

No que diz respeito ao comércio e contas correntes, há divergências. Somos favoráveis que saldo comercial seja um bom indicador, mas há restrição a conta corrente porque o parâmetro combina serviços com conta de aplicações financeiras, remessa de lucros e dividendos. Isso vai acrescentar aplicações financeiras no exterior que não é indicador de desequilíbrio. Em contrapartida, concordamos em levar conta os bens e serviços.

Outra questão importante na posição que defendemos é de que os indicadores não podem ser uma meta obrigatória a ser comprida. Eles devem detectar desequilíbrios. Depois o grupo faz recomendação para que se busque reduzir um superávit excessivo.

Estamos agindo nas conseqüências e não as causas. Tão importante quanto ver o nível de superávit comercial é observar as políticas monetárias. Elas podem ser as causas do desequilíbrio. As políticas monetárias hoje excessivamente expansivas tem causado fluxos de capitais excessivos. A previsão é de que esse fluxo de capital aumente. Aliás, já aumentou em 50% em 2010 em relação a 2009 e em 2011 a tendência é de aumentar mais. Este sim é um problema para os emergentes, que estão sofrendo valorização cambial. África do Sul e Brasil sofrem com a valorização.

Também por trás do excesso de capitais existem o problema das commodities. A valorização delas se explica também pelo excesso de capitais. Eles não tem para onde ir, não encontram oportunidades de aplicação nos paises avançados e vão para os derivativos.

O Brasil é contra qualquer medida paliativa.  Controlar preços, por exemplo. Isso é consequência de um problema real. Quando ocorre seca, por exemplo, a oferta é menor que a demanda porque há especulação financeira.

Onde podemos avançar? Tornar mais transparentes as operações de derivativos. Fazer operações registradas nas câmaras de compensação e não operações no balcão. Assim se constata operação excessiva em determinadas commodities. É preciso muito cuidado para não tomar medidas que acabarão agravando o problema. Inibir os preços não é desejável. A solução é estimular a oferta, sobretudo nos paises pobres que padecem com preços altos,  e acabar com  os subsídios dos paises avançados, produtores fertilizantes comercializados a preços elevados.

O Brasil rejeita também estoques internacionais de alimentos. Não dá para fazer isso. Os derivativos já são uma forma de administrar estoques futuros que, quando não tem especulação, funcionam bem.

A posição comum dos BRICs é em relação aos indicadores. O que buscamos é um crescimento equilibrado. Para o Brasil, ainda temos desequilíbrio porque os paises avançados não conseguiram se recuperar da crise. Cada um fica disputando mercados, usando artifícios, controlando o outro, tentando diminuir a exportação do concorrente.

Os BRICs também não aceitam que acúmulo de reservas seja controlado. Um dos indicadores era acumulo de reservas. Discorcordamos em estabelecer limites para o acumulo, enquanto não houver um sistema financeiro mais seguro. Hoje dependemos de nós mesmos se houver uma crise, quem vai nos socorrer? Resposta: as nossas reservas. Eu preferia ter menos reservas, mas é melhor pagar o preço de ter as reservas do que estar submetido a intempéries de uma crise mundial.

Falamos sobre o controle de capital. É a posição predominante no grupo a normalização do controle Isso porque os controles foram necessidades colocadas pelo desequilíbrio internacional. O Brasil não fazia nada para se defender de uma situação que seria extremamente prejudicial ao país com excesso de entrada de capital.

Não concordamos em regras e limites porque cada vez fará o controle da maneira que achar mais adequado de acordo com suas peculiaridades. Outros fazem controle permanentemente controle de capital e ninguém falava nada. Enquanto houver essa situação, vamos fazê-lo. A tendência é de que em 2011 haja mais fluxo de capital. A menos que uma recuperação da economia haja absorção desses capitais nas economias avançadas.

O G-20 deu um passo importante em Seul, na Coréia do Sul, admitiu que determinados países possam impor controle de capital. Parece que alguém se arrependeu e quis voltar atrás e estabelecer outra regra. Mas não dá para aceitar regras, porque cada país tem sua peculiaridades. Uns acham que tem de fazer quarentena do capital estrangeiro, outros  que tem de limitar o volume e deixar o capital sem remuneração. Preferimos o caminho da taxação, reduzindo a remuneração do capital e sendo seletivo. Não queremos estar submetidos a uma regra que não diz respeito a realidade brasileira.

Temos uma visão diferente dos Estados Unidos. Quando digo que a política monetária dos avançados tem responsabilidade no desequilíbrio mundial, digo que não é só um ou outro pais asiático que está administrando o cambio, mas por outros também. Mesmo os paises asiáticos também deixassem fazer sua moeda valorizar um pouco mais. Não há um único responsável, há um conjunto de responsáveis.

Sobre o fluxo de capital. Ele  aumentou ano passado. Adotamos medidas. Agora temos uma certa estabilidade e diminuímos a volatilidade no Brasil. Se não tivéssemos feito essas intervenções, provavelmente o cambio estaria abaixo de 1 dólar igual a 1,50 real. Isso nos traria dores de cabeça. Vamos observar. Se  houver um fluxo grande, tomaremos medidas

Discutiu também a construção de novo sistema monetário internacional. Os Brics concordam que Bretton Woods não responde mais as necessidades dos paises. Ele estabelece cambio fixo, que não existe mais.  O dólar era predominante porque os EUA dominavam o comércio mundial. Hoje, isso não é mais verdade. Há dois paises a frente dos EUA em termos de comércio: a China e a Alemanha. As transações financeiras se multiplicaram. O Brasil acha que precisamos passar de uma única moeda para um sistema multipolar de moedas e cambio flutuante.

Não é fácil, mas uma saída é valorizar os Direitos Especiais de Saque, que já é uma moeda que representa outras moedas. Teríamos que dar novos dinamismo, conversibilidade, volume maior. O FMI se transformou em banco global emissor de DES. Hoje o DES tem conversibilidade em quatro moedas: libra esterlina, dólar, euros e yen. Acho que novas moedas devam ser colocadas nos DES. A moeda chinesa, o real que já representa boa parte das operações de mercados derivativos, que vai até mais o yuan.

Defendemos criar uma alternativa para o dólar. Os EUA sempre terão uma moeda importante. Mas devemos tirar das costas do dólar a condição de moeda única. Isso atrapalha a política monetária dos EUA.  Quem está olhando para dentro não vê as consequências nos outros paises Nos últimos quatro anos o dólar vem se desvalorizando. Quem investiu no dólar, perdeu dinheiro.”

Por Antonio Ribeiro

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