Blogs e Colunistas

Arquivo de maio de 2012

30/05/2012

às 10:54 \ Brasil

Ex-presidente

Palácio do Planalto: ex-presidentes com Dilma. Fotografia: Orlando Brito

No vácuo, sem partículas de suspensão e segundo os preceitos republicanos, a reunião de três figurões não deveria ter acontecido. Participaram do convescote, um magistrado do Supremo Tribunal Federal (STF) e dois outros indivíduos que, se não estão mais na ativa, carregam o peso dos cargos que exerceram.

A figura de ex-presidente deve ser exemplar. No mínimo, ter um comportamento sóbrio e sereno. Nos melhores casos, desempenhar o papel de velho sábio, experimentado conselheiro para questões críticas e espécie de reserva moral da nação. Ainda que não podemos contribuir nesta tradição com um José Sarney ou Fernando Collor de Mello, a história está repleta de boas referências. Fernando Henrique Cardoso, justiça se faça, toma boa parte. O posto de juiz do STF é vitalício, a retidão e conformidade com o direito não acaba com a chegada da aposentadoria paga com suado dinheiro de contribuintes do fisco.

Contudo seria prudente não deixar escapar o cerne da questão, o objetivo principal do encontro entre Lula e Gilmar Mendes no escritório de Nelson Jobim, Lago Sul, em Brasília. Seja lá quais tenham sido as palavras exatas entre os três, a situação é claríssima. Mal informado e com soberba própria dele mesmo, Lula achou ter munição para coagir um magistrado do STF. Isso às vésperas do julgamento do maior show de corrupção do país, onde a estrela do seu partido, o PT, brilhou como protagonista.

Neste aspecto, Gilmar Mendes tem razão. É a bandidagem em curso. Depois da avalanche de entrevistas, o juiz não deixou de ser enfático nesta direção. Não é o caso, não está provado que Mendes tenha se beneficiado de favores. Mas digamos que tenha sido para simples efeito de figura retórica. A coisa fica ainda pior. Ou seja, usa-se um delito para, através da chantagem, tentar provocar outro. É método de malfeitor e não de ex-presidente.

A presidente Dilma Roussef escolheu melhor caminho. Tomou distância de uma disputa desnecessária para o Brasil. Faz muito bem.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2012

às 17:21 \ França

Bonito

O novo presidente da França, François Hollande, fez bonito. Ele decretou uma redução de 30% no seu salário e de todos os seus ministros. Doravante, ao invés ganhar 21.300 euros brutos mensais, ele vai embolsar 14.910 euros. A remuneração é igual ao salário do seu primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault. Os ministros passam de 14.200 euros para 9.940 euros por mês. O contribuinte francês que paga impostos entre os mais elevados da Europa e em um país mergulhado na maior crise econômica-financeira desde a Segunda Guerra Mundial agradece. Merece até aplausos.

Merece mesmo? Vejamos. O novo salário do presidente francês é certamente inferior aos 17.016 euros mensais que a chanceler Angela Merkel recebe para governar a Alemanha, a maior economia do  Velho Continente, Mas o nova remureção de Hollande equivale ao salário de David Cameron, primeiro-ministro britânico – 14.800 euros mensais. Seria pedir muito para que Hollande fizesse como o Presidente do Conselho da Itália, Mario Monti. Entre as medidas anticrise, decidiu receber zero euro por mês. Afinal ninguém é de ferro. Todo trabalho deve ser remunerado.

O melhor vem agora. Hollande reduziu o salário dos seus ministros. Sucede que no inicio do governo anterior havia 15 ministérios e agora, sob administração socialista, são 34! Durante o governo do ex-primeiro-ministro francês François Fillon, a folha de pagamentos de seus ministros representava 383.400 euros mensais. Agora ela é de 337.900. Ou seja, um barulhão  para economizar 45.450 euros por mês. A equipe marqueteira que cuida da imagem do governo Hollande merecia os 45.450 euros.

Mas o que são 45.450 euros mensais de economia para o estado francês, o maior empregador do país? A França tem em torno de 7 milhões de funcionários públicos. Um em cada cinco franceses que faz parte da mão de obra ativa com jornada de trabalho de 35 horas semanais é pago pelo estado. Melhor dizendo, pelo contribuinte, pagador de impostos. Dinheiro do estado, convenhamos, no sentido estrido do termo, não existe. O Tribunal de Contas da França estima que cada funcionário custa ao longo da vida 3,5 milhões de euros. Faça a conta. Eu não dou conta, mas é o montante que o goveno francês deveria prestar contas. Na Grã-Bretanha serão 700.000 funcionários públicos a menos até 2014. Isso sim, é economia de país em crise. Os 45.450 mensais são pura de ma go gi a.

Por Antonio Ribeiro

17/05/2012

às 7:43 \ Europa

Novo herói da tragédia grega é um assassino em série

Ele é falso como as contas que a Grécia apresentou para ingressar na União Européia (UE). Mas tão admirado, embora em segredo, que o seu criador,  o escritor Petros Markaris, avisa na lapela do livro mais vendido atualmente em seu país: “Este romance não deve ser imitado.”

I Pairaiosi, ou A Liquidação, conta a história de um homicida cujas vítimas são, invariavelmente, gregos endinheirados que não pagam impostos. O criminoso age nos subúrbios ricos de Atenas. As mortes acontecem por envenenamento com cicuta, o método escolhido para matar Sócrates. Em seguida, os corpos são espalhados nas ruínas da cidade antiga, um dos berços da civilização ocidental.

E por que os gregos simpatizam tanto com o protagonista do romance narrado pelo investigador de polícia Costas Haritos? A explicação passa certamente pelo codinome que o herói escolheu, ele se autoproclama, O Cobrador de Impostos Nacional. Trata-se de uma espécie de Robin Hood helênico que antes de matar, rouba membros da detestada elite grega, acusada de responsável pela profunda crise econômica. O fruto do roubo não é em benefício do ladrão, mas serve para encher os depauperados cofres públicos do país.

“O assassino foi construído baseando-se no desejo inconsciente e coletivo da camada mais modesta da população grega atual”, diz Markaris ao Blog de Paris. Apesar de viverem em mansões e possuírem carros luxuosos, a maioria dos ricos gregos declaram rendimentos ligeiramente abaixo do limite mínimo coletável de 12 000 euros.

O comportamento não é novo, ele data do século XIX, mas se agravou com da entrada da Grécia na União Européia. Desde então, a máquina do estado ampliou sua engrenagens e, em efeito, as despesas públicas multiplicaram. Apesar da falta de coleta de impostos, a ajuda das UE jorrava em abundância para pagar as contas elevadas e obter empréstimos. Quando o país deixou de conseguir financiar os seus maus hábitos aos mercados, não havia mais como acobertar a condição insustentável. A descoberta foi espetacular. O drama ficou nu.

No grego arcaico, I Pairaiosi quer dizer a prestação de contas no fim vida.  Em tempos modernos, significa um método de aumento da receita fiscal. Em troca de um pagamento às finanças – A Liquidação – o estado concede uma anistia a quem não pagou os seus impostos. Muitas vezes, a anistia é obtida junto ao governo não quitando as dívidas com o fisco, mas contribuindo para o financiamento dos grandes partidos políticos. E não é raro na Grécia que o sistema corrupto bonifique com cargo público para um parente ou amigo do “contribuinte.”

No romance, o investigador Haritos sutenta que se todos os gregos que fogem aos impostos fossem assassinados a população ficaria reduzida a uns poucos assalariados, desempregados e donas de casa. Na vida real, a questão agora é saber se a eurozona sobrevive com o colapso da Grécia.

Leia o post do Blog de Paris: “Tédio voltou e decepção bate na porta” ou “Monsieur, é por aqui

Por Antonio Ribeiro

16/05/2012

às 7:56 \ Europa

Tédio voltou e decepção bate na porta

Monsieur, é por aqui.

A chanceler alemã Angela Merkel recebeu para jantar o novo presidente da França, François Hollande, duas horas atrasado devido à turbulência aérea, melhor dizendo, um raio.  Prato de resistência do cardápio: aspargos da primavera regado a creme holandês. Hollande chegou ao Kanzleramt, a Chancelaria em Berlim, a bordo de uma Mercedes Benz,  carro da marca que seus compatriotas franceses – e não só eles –  dividem preferência com a BMW.

Merkel abriu sorriso e ofereceu sua mão “de ferro” para o primeiro cumprimento do casal, sempre renovado pelo voto, símbolo do motor econômico e político da União Européia (UE) desde o inicio do jogo, quando Charles de Gaulle e Konrad Adenauer trocaram os primeiros passes. Nada de amor à primeira vista, beijos nas bochechas, tapinhas nas costas ou empatia imediata. O encontro foi educado e cordial como o início dos casamentos arranjados entre velhas famílias para uma irremediável convivência, vital para os descendentes.

A banda alemã entoou os hinos nacionais. A Marselhesa foi trilha sonora justa para a missão de Hollande, descrita pelo autor como a de “apresentar suas condições” para seguir na velha aliança. Ela passa atualmente por um pacto de austeridade fiscal assinado por 25 membros da UE. “Para quem são esses ignóbeis entraves / Esses grilhões há muito tempo preparados?”  O novo presidente francês quer rever o acordo para introduzir  uma “dimensão de crescimento” “atos tangíveis”. Leia-se, mais recursos para os países endividados da eurozona. Dinheiro de fundos do Banco Europeu de Investimentos, por exemplo. A chanceler não é contra o crescimerto econõmico. (Imagine!)  Frau Merkel sustenta, no entanto – e está certíssima – que ele deve ser feito via controle orçamentário e redução de gastos públicos ou se volta para casa um, o início do problema. Os franceses que operam no vermelho desde 1975, naturalmente, não gostam do aperto. Quem gosta?

A Canção dos Alemães, “Alemanha, Alemanha acima de tudo”, lembrou que o país da chanceler Merkel cresceu apenas nos primeiros três meses de 2012 o que se prevê para França durante o ano inteiro. Ou seja, 0,5% do Produto Interno Bruto. O desempenho da Alemanha livrou da recessão os 17 países que usam a moeda comum do Velho Continente. No mesmo período, a França estagnou com crescimento econômico nulo – 0,5% do PIB. Hollande mostrou uma certa dificuldade para caminhar em linha reta no tapete vermelho, Merkel com um jogo de ombro, ajeitou a rota.

Como era esperado e rege a tradição, o casal franco-alemão convidou os desabusados dirigentes gregos a respeitar as medidas de austeridade da UE  que até 2014, deve transferir para Grécia 380 bilhões de euros entre ajuda financeira, hair cut do setor privado e fundos europeus. Isso corresponde a 33.600 euros para cada grego. Equivale a cinco anos de salário mínimo para todos os habitantes do país, incluindo as crianças e os aposentados. Ainda assim é cada vez menos sustentável a permanência na zona do euro de um país incapaz de formar um governo nos nove últimos meses e com a perspectiva não conseguir exportar uma azeitona.

O primeiro encontro não foi momento para decisões. Como bom aluno da Escola Nacional de Administração (ENA), François Hollande anunciou que uma comissão de especialistas foi convocada para estudar a situação da França. É sempre enfadonhamente assim com os enarques quando surge um problema grave. Não é nenhuma garantia, longe disso, mas quem sabe dia 23 de maio, na reunião de cúpula semestral da UE se possa ter algo mais claro. Até lá, nota-se que o tédio voltou e a decepção pode vir por aí, em breve.

Por Antonio Ribeiro

15/05/2012

às 11:19 \ França

Troca de guarda

Nicolas Sarkozy e François Hollande

Durante cerimônia escrupulosamente sóbria, solene, simples e elegante no Palácio do Élysée, em Paris, François Hollande, de 57 anos de idade, tornou-se o sétimo presidente da Quinta República Francesa. Ele é segundo socialista a governar o país. Mas contrário à posse de François Mitterrand, em 1981, desta vez o júbilo cedeu lugar à temperança devido à tarefa que aguarda o novo presidente, arrancar a França da mais profunda crise econômica desde a Segunda Guerra Mundial.

No melhor discurso de sua carreira essencialmente de político profissional, breve e sem lirismo, Hollande convidou seus compatriotas a terem confiança nos recursos “consideráveis” da França. Fez um diagnóstico grave da situação: “Uma dívida maciça, crescimento econômico fraco, competitividade degradada, desemprego elevado e uma Europa que sofre para sair da crise.” Prometeu um estado imparcial – “ele é propriedade de todos” – e sua garantias para o funcionamento de uma  justiça independente. “Não podemos ter sacrifícios de um lado e privilégios de outro”, disse Hollande, sob o olhar atento da bela primeira-dama Valérie Trierweiler, a outra metade do primeiro casal de separados na história da Presidência francesa.

Para marcar diferença com seu antecessor Nicolas Sarkozy, acusado de onipresente e hiperativo, Hollande afirmou que estabelecerá as prioridades, mas não decidirá tudo, em todos os assuntos nem em todos os lugares. Hollande citou todos os presidentes da Quinta República adicionando a cada um, uma frase resumindo sua contribuição à França. Na vez de Sarkozy, o presidente alterou a seqüência, desejou seus melhores votos  na “nova vida” do ex-presidente. Enquanto, Hollande seguia para depositar flores no Túmulo do Soldado Desconhecido no Arco do Triunfo, Sarkozy já estava correndo com guarda-costas no Bosque de Boulogne, nos arredores de Paris.

Antes de embarcar para Alemanha onde encontra a chanceler Angela Merkel, Hollande nomeou primeiro-ministro o deputado socialista e prefeito de Nantes, Jean-Marc Ayrault, de 62 anos de idade. (Ayrault pronuncia-se Errô) O jatinho Falcon 7x, da Presidência francesa, no qual Hollande embarcou rumo a Berlim teve que retornar a Paris após ser atingido por um raio em pleno voo. O novo presidente trocou de avião e decolou outra vez em um dia marcado por anúncios. O primeiro registrou que o crescimento econômico da França foi nulo no primeiro trimestre de 2012, 0% do Produto Interno Bruto (PIB). No mesmo período, a Alemanha cresceu 0,5% do PIB, índice equivalente a previsão para França até o fim do ano.

Por Antonio Ribeiro

07/05/2012

às 8:40 \ França

Monsieur Normal: “A França não é um país qualquer”

Apreciado o tamanho da multidão que ocupou a Praça da Bastilha em Paris após a vitória de François Hollande, constata-se fácil, ela esteve à altura para comemorar a volta dos socialistas, ausentes da Presidência da França durante 17 anos. A julgar pela efervescência – lembrou a conquista do campeonato mundial de futebol em 1998 – o momento pode se matricular como mais uma tomada de um lugar repleto de simbolismos para os nativos e povos alhures. Isso antes do protagonista da noite subir ao palco. Quando Hollande começou a falar, a razão ficou mais evidente. Tratava-se, acima de tudo, da derrota de Nicolas Sarkozy.

Observadores mais atentos, menos apaixonados, esperançosos de que o momento histórico pudesse encontrar seu par, suspeitaram de que, finalmente, era chegada a hora. O candidato inodoro e insípido, eleito à Presidente da República iria aproveitar o seu melhor instante até aqui para receber quem sabe, o espírito de grandeza de um Charles de Gaulle ou algo da retórica apurada de um François Mitterrand ou buscar na rica literatura dos seus compatriotas alguma inspiração arrebatadora. Definitivamente, o estilo flamante não é o de François Hollande. O mais próximo da arte de bem falar que se pode pinçar no discurso do novo presidente foi o seguinte: “Meço a honra que foi me concedida e a tarefa que me espera.”

A eloquência e o carisma não são traços indispensáveis na liga que forja grandes homens. Muitas vezes, elas ajudam camuflar até a mediocridade. As boas idéias e os grandes feitos acabam por sobrepor as belas palavras e repetição de princípios nobres que não encontram lastro na ação. Enquanto Nicolas Sarkozy, segundo ele próprio, prepara sua partida da vida pública, de braços dados com Carla Bruni, Hollande acordou abraçado com a França real. Um país com índices econômicos aos frangalhos, povoado por indivíduos, nativos e adotados, a procura de um senso de identidade comum que lhes possa trazer, não os tempos gloriosos, mas simplesmente a idéia de nação e a perspectiva perdida da prosperidade.

Além do reconhecimento e da lucidez, Hollande deixou entender que deseja exportar a idéia do fim da austeridade e a inserção de uma dimensão de crescimento no plano de salvação da Zona do Euro. Seria bonito se uma coisa não tivesse estreita ligação com a outra. Seria mais crível se as armas não fossem o decreto e pressão baseada na força dos votos de um país entre os 25 que assinaram um pacto. A França “não é um pais qualquer”, como bem diz Hollande, mas não tem força significativa sozinha, sem que seja parte completamente engajada no projeto europeu. Isso passa forçosamente pela estreita parceria com a vizinha Alemanha. Está é a normalidade. François Hollande, o “Monsieur Normal”, irá se enfronhar completamente a partir do dia 15 maio, data da sua posse. Normal em qualquer país.

Por Antonio Ribeiro

06/05/2012

às 13:10 \ Futebol

François Hollande eleito Presidente da França

Harris Interactive: 52,1% Hollande – 47,9% Sarkozy

TNS Sofres: 52% Hollande – 48% Sarkozy

Opinion Way: 52,5% Hollande – 47,5 % Sarkozy

CSA: 51,8% Hollande – 48,2 % Sarkozy

IFOP: 52,7% Hollande – 47,3 % Sarkozy

 

Por Antonio Ribeiro

06/05/2012

às 7:51 \ França

Final eletrizante

Todas as pesquisas de intenções de voto indicam o socialista François Hollande como o novo presidente da França. A previsão nunca se alterou desde o início da campanha, 8 meses atrás. Nos últimos dias, o conservador Nicolas Sarkozy contribui para uma chegada final eletrizante. Conseguiu reduzir a vantagem contra o oponente para 4 pontos percentuais. A diferença ainda é significativa, mas o presidente-candidato aposta em uma tradição francesa: boa parte do eleitorado de extrema-direita que ele vem conquistando é o mais tímido e arredio para declarar seu voto. Os indecisos estão em torno de 16%.

Mais de 46 milhões de eleitores franceses estão inscritos para decidir o páreo. Duas certezas, a participação será alta – até 12h horário de Brasília, sete em cada dez eleitores já tinham votado – e a vitória de um ou outro, será por margem reduzida. A votação se encerrará às 16 horas de Brasília e gesto seguido, irá emergir uma previsão mais precisa do resultado. Antes disso, como é tradição do Blog de Paris, o leitor ficará sabendo da pesquisa de boca de urna. Na França, a divulgação antes do fechamento das urnas é proibida. Os franceses recorrem à imprensa estrangeira – há outras circunstâncias quando isso acontece, mas não vem ao caso agora…

Se François Hollande vencer, o prefeito de Nantes, o deputado socialista Jean-Marc Ayrault  e a secretaria-geral do PS, prefeita de Lille, Martine Aubry, são os favoritos para ocupar o posto de primeiro-ministro da França. O atual ministro das Relações Exteriores Alain Juppé é o mais provável primeiro-ministro, no caso de vitória do presidente-candidato Nicolas Sarkozy.

Apenas 5% da população européia (Dinamarca, Áustria, Bélgica, Eslovênia e Chipre) são governados pela esquerda. Os socialistas perderam três de quatro eleições que disputaram desde o começo da crise do euro e das dívidas soberanas, um acúmulo de 19 derrotas desde 2007. Caso venha perder, Sarkozy entrará para história como o terceiro presidente francês que não conseguiu se reeleger. Georges Pompidou morreu antes de completar o mandato e Valery Giscard d’Estaing foi derrotado por François Mitterrand, o ultimo presidente socialista francês – François Hollande vem tentando imita-lo até no gestual e tom de voz.

Os europeus podem mudar seus dirigentes de tempos em tempos, mas apenas no pressuposto cristalino de que as eleições não anunciem câmbios significativos de rota. Esquerda ou direita, dentro ou fora do euro, os governos continuam fiéis ao altar da austeridade. Os políticos têm permissão para um desviozinho aqui ou uma ênfase ali. Mas ninguém ousa desviar radicalmente do catecismo de rigor orçamentário.

Leia o post do Blog de Paris: “É no sacolejar do caminhão que os melões se arrumam

Atualização: Hollande está na frente em todos os territórios ultramarinos da França, como a candidata socialista Ségolène Royal, em 2007, salvo na pequena ilha de Saint-Barthélémy, favorável a Sarkozy. Se a eleição na França dependesse apenas dos eleitores franceses que votaram no Brasil, Hollande já seria o presidente com 47% em Brasília, Rio e Recife.

Por Antonio Ribeiro

04/05/2012

às 15:51 \ Sem Categoria

“É no sacolejar do caminhão que os melões se arrumam”

As conjecturas não são muito bem vindas para quem aprecia a precisão e lida com informações verificáveis. Não gosto delas pela incompatibilidade com meu oficio. No entanto, por dever humanitário, podemos tentar aclarar as trevas e sugerir direção às almas desgarradas do bom senso.

Há por aí, dois ventos que sopram em direções diametralmente opostas e, como consequência, formam confusão.

O primeiro é uma assertiva que, caso François Hollande venha ser eleito presidente da França, iria impor outros rumos para a Europa no que diz respeito à política de austeridade, cujo  pacto leva abaixo 25 assinaturas de chefes de estados e ministros europeus sob auspícios do casal Merkozy.

Por último, no caso dos franceses permitirem pelo voto igual circunstância, haveria um divorcio entre as duas maiores economias do Velho Continente. Em efeito, a frágil armadura da eurozona seria perfurada. Isso devido à eventual intransigência de posições da chanceler alemã Ângela Merkel e François Hollande.

Ora, ora. Hollande precisa ganhar as eleições de domingo, 6 de maio. Até lá, a personagem do valente é obrigatória ainda que ele a tenha desempenhado quase nunca na carreira política. Depois, como ensinava o ditador argentino Juan Domingo Perón: “No sacolejar do caminhão, os melões se arrumam.”

A França com situação econômica aos frangalhos precisa mais do que nunca da parceria alemã. Desde o berçário da União Européia, a Alemanha precisa, sobretudo, de uma caução moral da França para não ficar muito evidente de que é ela quem dá as cartas. Não é difícil advinhar quem precisa mais de quem. E se Hollande for eleito, quem cederá mais, ele ou Merkel?

Caso Hollande seja eleito, o mais provável é que ele vai se contentar com alguns gestos simbólicos de Berlim “para francês ver” que lhe permitam dizer que conseguiu mudar o rumo da questão em favor do “crescimento”. Tornar-se defensor dos países europeus endividados e romper com a Alemanha não faz sentido com a tradição da diplomacia francesa construída na forte premissa de que os dois países são os motores da União Européia. A aventura fagilizaria ainda mais a imagem econômica do país junto aos mercados.

As eleições na França, Grécia e Holanda são importantes para frau Merkel. Mas a chanceler mede e pondera  às eleições regionais no Norte e no Oeste da República Federal, no Schleswig-Holstein, dia 6 de maio, e na Renânia do Norte-Vestfália, dia 13. Elas serão projeções do que pode acontecer com a chanceler mais para frente.

Sabe quem vota? Aquele que está cansado e não quer mais pagar o substancial da conta europeia, o contribuinte alemão.

Atualização: A última pesquisa antes da votação realizada pelo Instituto Ifop-Fiducial e depois do debate revela a menor diferença entre os dois candidatos desde o início da campanha eleitoral. Ela é agora de 4 pontos percentuais: Hollande 52% e Sarkozy 48%.

Por Antonio Ribeiro

03/05/2012

às 7:09 \ França

Debate Sarkozy x Hollande: Quem ganhou?

Nicolas Sarkozy e François Hollande gastaram, cada um, exatos 72 minutos e 17 segundos. Durante quase três horas, 17,8 milhões de franceses assistiram o debate presidencial na televisão mais tenso da história da República. E finalmente, a troca mais densa da campanha eleitoral no que diz respeito aos problemas prementes da França, até aqui deliberadamente escamoteados pelos candidatos.

Naturalmente, as críticas pesadas emergem primeiro como resultado deste tipo de dramaturgia das democracias modernas. Na percepção de Sarkozy, ele debateu com um mentiroso, arrogante e inexperiente. Hollande, a julgar pelas suas palavras, confrontou um irresponsável com retrospecto danoso para a França. Mas tudo isso é parte do jogo, o tempero. No particular, molho apimentado. Mas o debatedor mais agressivo e combativo na disputa não é necessariamente o essencial. O importante, em última instância, é saber quem ganhou o debate?  Isso significa em termos práticos, quem atingiu seu objetivo eleitoral.

François Hollande conseguiu passar a impressão de firmeza e aptidão para preencher o papel de presidente. Trata-se do maior desafio para quem briga contra o ocupante de um posto que se postula. Em frequentes interrupções na fala do oponente, ele não se deixou dominar. Ser nocauteado por Sarkozy era o que a entourage do socialista mais temia que pudesse acontecer e simultaneamente, a situação que a parte adversa apostava. Isso não aconteceu em nenhum instante. Hollande confortou sua posição de favorito.

Os cinco anos de mandato fizeram Sarkozy perder o hábito de ser confrontado frente a frente. Salvo em dois momentos: quando era entrevistado por jornalistas ou quando discutia uma questão de igual para igual com outro chefe de estado. Durante o debate, houve instantes em que o presidente reagia como se estivesse no segundo caso. Isso jogou em favor de Hollande. Ainda que o presidente tenha chamado o oponente de pequeno caluniador, ele respeitosamente, deixava seu opositor concluir o raciocínio.

Sarkozy perdeu o debate? A resposta é “não”. Em um show de retórica, como é o caso de um debate televisivo, o presidente foi responsável pela melhor linha: “Hollande quer menos ricos. Eu, menos pobres”. Sarkozy não demoliu seu oponente, segundo a tradição dos debates na França, isso não traduz ganhos significativos nas pesquisas de opinião. Seria ilusão imaginar que um candidato iria roubar votos no campo adversário. Mais que do massacrar Hollande, Sarkozy precisava ampliar a confiança junto ao eleitorado no qual ele tem potencialmente mais chances de colher votos. Ou seja, os eleitores que votaram em  Marine Le Pen no primeiro turno. Neste aspecto, o presidente candidato foi bastante efetivo.

Resumo da ópera: ganhou o eleitor francês. A ele foi dada a melhor oportunidade de conhecer, às vezes, com raro detalhamento técnico e mais clareza, as propostas dos candidatos. Assim como ver nitidamente a formidável diferença de personalidades do próximo presidente da França. A vitória final será apertada.

Atualização: A última pesquisa antes da votação realizada pelo Instituto Ipsos e depois do debate revela a menor diferença entre os dois candidatos desde o início da campanha eleitoral. Ela é agora de 5 pontos percentuais: Hollande 52,5% e Sarkozy 47,5%

Por Antonio Ribeiro
 

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