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Arquivo de 16 de abril de 2012

16/04/2012

às 9:51 \ França

Condenados a seis ou meia dúzia

A menos de uma semana para o voto do primeiro turno da eleição, a previsão de quem será o próximo Presidente da França ainda é aventura de alto risco. A julgar pelos grandes comícios dos dois principais candidatos em Paris, eles estão empatados. A equipe do socialista François Hollande afirma ter reunido 100.000 simpatizantes no Bosque de Vincennes. Os organizadores da campanha do conservador Nicolas Sarkozy dizem que o recandidato à Presidência atraiu o mesmo número de militantes na Praça da Concórdia. Observadores mais ponderados  e os que não brotaram na última chuva julgam que os volumes foram semelhantes, mas o total de cada um deve ser dividido por dois para se chegar próximo a exatidão.

A mais recente pesquisa de opinião dá Sarkozy com um ponto à frente de Hollande na etapa inicial. No segundo turno, Hollande retoma a dianteira com seis pontos de vantagem. Se não se sabe ainda quem será o Presidente da França, tem-se absoluta certeza que os desafios do vencedor serão exatamente os mesmos – salvo o período de adaptação à função no caso do eleito ser outro que o atual presidente.

Um francês em cada dez está desempregado. Se o universo de estudo for apenas entre jovens, o índice duplica. Ou triplica, dependendo da geografia. Para pagar a sua monumental dívida pública, a França teria que trabalhar do primeiro dia do ano até por volta do 15 de agosto exclusivamente para alcançar o objetivo. Ou seja, sem poder gastar um centavo para comprar uma migalha de baguete.  Impraticável. Entretanto, o governo francês gasta mais que seus vizinhos alemão, holandês, espanhol e italiano. Um relatório do Tribunal de Contas francês sustenta que se medidas de rigor não forem adotadas nas finanças públicas, a dívida pode chegar a 100% do Produto Interno Bruto (PIB) já em 2015.

A França compra mais do vende desde o verão europeu de 2004. O déficit na balança comercial é 70 bilhões de euros. No livro “La France sans ses usines”, os autores Marie-Paul Virard e Patrick Artus fazem uma constatação edificante: “As salsichas de Frankfurt vendem melhor que os vinhos de Bordeaux”. A França possui 100.000 empresas que exportam. É muito? Na Alemanha, país que os franceses tem em conta como a  unidade de medida econômica mais apropriada,  250.000 empresas exportam. As exportações francesas representam 4% do comércio mundial fora Rússia e países da OPEP, mas já foi 6%, em 1999.

Se o total das despesas mensais francesas fosse 10.000 reais, o país ficaria endividado todo mês em 3.000 reais. A situação perturbaria o sono de qualquer indivíduo dotado de um mínimo de lucidez, mas a França vem operando assim, no vermelho, desde 1975. Este é um dos temas que os candidatos à presidência mais se esforçaram para não abordar. Não é raro que políticos evitem questões embaraçosas durante as eleições. Em contrapartida, é espetáculo surreal o nível de desprezo dos candidatos franceses pela gravidade da situação econômica. Isso acontece no  momento em que o Velho Continente passa pela sua crise mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial.

A revista britânica The Economist colocou Sarkozy e Hollande no lugar dos dois personagens masculinos que conversam passivamente sem dar a menor atenção à uma mulher nua, sentada ao lado deles no famoso quadro Le déjeuner sur l’herbe (O piquenique sobre a relva), do impressionista de Édouard Manet. A montagem ilustrou reportagem de capa que aborda a quase completa recusa dos principais candidatos de trazer os  problemas mais prementes do país à mesa do debate público.

Independente de quem seja o próximo Presidente da França, ele estará por um bom tempo algemado pela situação econômica do país. A sua margem de manobra será mínima. Em efeito, as políticas serão inexoravelmente semelhantes. O Fundo Monetário Intenacional (FMI) prevê um crecimento economico anêmico de 0,5% do PIB para França neste ano e um pouco mais de 1% em 2013.

Qualquer programa político audacioso está comprometido. Salvo, evidentemente, se os políticos quiserem continuar fazendo vista grossa ou, menos provável, se embarcarem em políticas aventureiras. Neste caso, a próxima ilustração poderá se inspirar no óleo de Théodore Géricault, Le Radeau de la Méduse (A Balsa da Medusa), que retrata um grupo de naufragados de uma fragata que enfrentaram a desidratação, a loucura e até o canibalismo.

Por Antonio Ribeiro

 

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