11/02/2010
às 13:55 \ ParisBar café: o declínio de uma instituição

Ainda está para nascer melhor cronista dos modos e costumes parisienses do que o autor de A Comédia Humana, o escritor francês Honoré de Balzac (1799 -1850). É de sua autoria o mais fundo conceito do bar café, considerado instituição no seu país. “O café da esquina é o parlamento do cidadão comum.” Le bistrot du coin ao lado da Torre Eiffel, do vinho e do queijo, da moda e dos museus, e tantos outros estereótipos que desenham no imaginário, a cédula de identidade da França, não é só lugar de consumo. Ali junto ao balcão de zinco, entre cadeiras raquíticas e sobre as mesas de madeira esculpida pela frequência, pode-se aferir em ritmo cotidiano, a disposição do espírito nacional. Incontornável ponto de visita de quem apropria-se dos hábitos locais mesmo que por breve momento, como fazem os turistas.
Contudo, o tecido formado pelos tradicionais bares cafés se rarefaz desde a década de 60. Eram 200.000 à época enquanto hoje, sobraram apenas 30.000. A maioria dos 64 milhões de franceses observavam o fenômeno como sucedâneo natural dos tempos e com certo descaso, semelhante ao desaparecimento das lendárias concierges, as zeladoras dos prédios. Só no ano passado, 2.000 pequenos cafés e bistrôs de bairro fecharam para sempre, uma média de 6 por dia. A rapidez da extinção tocou o sinal de alarme, rompeu os portões do Senado para se instalar no plenário como pauta de debate. A questão é premente se considerada a perda de 12% no faturamento dos proprietários de cafés em 2009.
Várias pistas explicam o declínio dos cafés, também conhecido como a “sala de estar dos pobres”. Os proprietários reclamam dos impostos pesados, dos encargos sociais que se adicionam aos salários dos empregados, das campanhas governamentais contra o consumo de bebidas alcoólicas e da lei anti-tabagista cujo efeito, foi o desaparecimento da nuvem de nicotina e 6% da clientela. Na lista de queixas figura também a perda de poder aquisitivo dos franceses. No lugar de pedirem a tradicional entrada de ovos com maionese seguida de filé com fritas regado com vinho e arrematar com um crème brûlée, os clientes preferem aplacar a fome com refeições mais rápidas e baratas. O sanduíche de baguete com presunto acompanhado de Coca Light, por exemplo.
Pagar mais de 1,50 euro por uma xícara de café expresso tornou-se proibitivo em tempos de crise. A máquina de expresso caseiro, tipo Nespresso, o da publicidade do ator americano George Clooney, quebrou o monopólio do tradicional café preparado com famosas máquinas italianas nos bares parisienses. Os cafés de esquina passaram a sofrer concorrência direta de redes com ambientes espaçosos, confortáveis e com conexão gratuita e sem fio à internet como Starbucks, onde há vários tipos de café. Se antes era pitoresco, turistas toleram bem menos o mau humor dos garçons, as idiossincrasias dos donos cujo senso comercial de antanho, a lei da oferta e procura, deu lugar ao decreto do “entre, consuma o máximo, pague e vá embora.” O cliente que faz um pedido fora do cardápio ou prefere outra mesa difenrente da indicada, parece ofender o estabelecimento comercial.
O governo preconiza medida geriátrica para salvar os cafés que restaram. “O bar café deve oferecer múltiplos serviços”, diz o ministro das Cidades e Espaço Rural, Michel Mercier. Leia-se, transformar-se em uma espécie de entreposto do estado. Ou seja, além de propor comes e bebes, deve vender bilhetes do metrô, selos postais, loteria. Já é o caso de muitos, sem conseguir inverter a curva. Na verdade, os pequenos bares cafés são vítimas mais frágeis daquilo que o governo francês faz de modo exemplar. Quando uma empresa vai bem, impõe taxas. Se continua sobrevivendo, criam regulamentações. Quando começam a dar prejuízo, subsidiam.
Já nos anos 80 alguns anteviram a crise criando o que pode ser considerado como a nova geração dos cafés parisienses, a chamada revolução Costes-Stark – junção dos nomes dos proprietários do Café Costes e do designer Philippe Stark, que decorou o interior. Os bares café foram recriados com ambientes mais luxuosos, atmosfera temática – poéticos, musicais, étnicos, artísticos, literários, esportivos – serviço atencioso, quase sempre de jovens que reconhecem o cliente na segunda visita.
Tags: George Clooney, Honoré Balzac, Michel Mercier, Philippe Stark, Torre Eiffel



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