Blogs e Colunistas

Arquivo de dezembro de 2009

31/12/2009

às 17:37 \ Paris

Um excelente 2010!

polrogerMeu caríssimo leitor,

Poucos programas de índio são tão autênticos quanto passar o reveillon nos Champs Elyseés, em Paris. A virada do ano talvez seja o momento menos propício para flanar em uma das avenidas mais belas do mundo. Nenhum atrativo particular; a certeza de enfrentar temperatura glacial; o risco de trombar com hordas de bêbados e gangues de piromânicos que transformaram o incêndio de veículos em prática mais perigosa que os esportes de inverno nesta época do ano.

Mas há algo quase tão ruim, ou ao menos, bem mais dolorido no bolso do freguês – em sua maioria, incautos turistas que visitam a capital da França à procura do que fazer nas últimas horas do ano. As escorchantes ceias de reveillon, as promoções a preço fixo de alguns restaurantes. O tédio e a afronta a paladares, ainda que pouco sensíveis, são garantidos.

Vai aqui a dica derradeira de 2009. Alternativa para o programa de índio e a roubada. Uma noitada romântica para um casal em Paris. Sai por menos de 150 euros (375 reais). Para cada pessoa suplementar, adicione 30 euros. Compre duas garrafas de champanhe Pol Roger no Nicolas, a maior rede de cavistas da França – 32 euros cada uma. Trata-se do néctar preferido de sir Winston Churchill, autor da máxima: “Meu gosto é simples, fico facilmente satisfeito com o melhor”.

Uma garrafa acompanha as ostras e o foie gras. Reserve a segunda para abrir em uma ponte do rio Sena com vista para Torre Eiffel que se encanta com a iluminação estroboscópica à meia-noite. Na peixaria Boulonnaise, Praça Maubert Mutualité com boulevard Saint Gemain, encomende duas dúzias de ostras Fines de Claire Marennes Oléron - 19 euros. Peça para serem abertas e colocadas em bandeja de isopor em uma cama de algas, não custa nenhum centavo a mais.

No número 60 da rua Saint Louis en l’Ile,  coração da Ilha Saint Louis, compre 180 gramas de foie gras na La Petite Scierie – 34 euros. Caminhe um pouco mais até o numero 40 e entre na padaria do Philippe Martin. Peça uma baguette à l’ancienne, um dos melhores pães feitos como antanho em Paris – 1,10 euros. Atravesse a rua e vá à sorveteria Berthillon. Compre ½ litro do soverte de caramelo à manteiga salgada – 8,70 euros. Peça uma caixinha isotérmica para acondicionar o sorvete, ela também está incluída no preço. Passe em um dos mercadinhos da cidade, compre guardanapos, couverts e copos para pic-nic quase tão resistentes quanto os verdadeiros por menos de 5 euros.

Você pode ceiar traquilamente no quarto do hotel e depois, sair para dar uma volta. Drible trânsito, vá de metrô que funciona até tarde. Sugiro ir a ponte Alexandre  III para abrir o segundo Pol Roger à meia noite. A dica vale para todas as noites do ano.

Um excelente 2010 para você!

Por Antonio Ribeiro

30/12/2009

às 16:56 \ Terrorismo

Apertem os cintos e mantenham a guarda

I WANT YOU

I WANT YOU

Medidas de segurança são criadas para proteger. No entanto, elas complicam o cotidiano. No transporte aéreo de massa, o efeito está entre os mais fortes. Isto porque os aviões tornaram-se alvos preferidos de terroristas. Mas para continuar operando com eficiência e rentabilidade, horários de decolagem e pouso devem ser respeitados. A equação que tenta conciliar segurança com conforto e privacidade está aumentando o tempo entre um ponto e outro. O passageiro é obrigado a chegar no aeroporto com muito mais antecedência que outrora, onde submete-se a uma bateria de controles para  o embarque. E quando nem verificações rigorosas garantem segurança?

O engenheiro mecânico nigeriano Umar Faruk Abdulmutallab, muçulmano de 23 anos,  suspeito de ter sido treinado pela rede Al Qaeda no Iêmen, passou nos controles do aeroporto de Amsterdam. Embarcou no voo transatlântico 253 da Northwest Airlines, na noite do dia 25 de dezembro. Quando o Airbus da Northwest iniciou descida para Detroit, Abdulmutallab injetou líquido químico na pentrita, poderoso explosivo não detectado pelo sistema de segurança. Não fosse o alerta de um passageiro e a intervenção de outro, que dominou Abdulmutallab, teria havido uma explosão dentro da aeronave com 290 pessoas a bordo.

Houve falhas no controle de identidade. Abdulmutallab estava entre os 550.000 nomes da Terrorist Identities Datamart Environment (TIDE), lista oficial americana de indivíduos vinculados com o terror. O pai de Abdulmutallab, um proeminente banqueiro de Lagos e ex-ministro da Nigéria, havia prevenido as autoridades americanas sobre o comportamento radical do filho. Inteligência e listagem de terroristas são recursos de prevenção adicional. Nem todo terrorista tem antecedentes criminais. Os insanos que derrubaram as Torres Gêmeas, em Nova York, tinham fichas limpas, mas embarcaram com estiletes.

O incidente no voo da Northwest encetou acalorada discussão sobre as eventuais medidas de segurança para evitar o próximo ato de terrorista no ar. Desta vez, o protagonista, é um scanner 3D capaz de mostrar os contornos do corpo inteiro do passageiro e revelar a presença de objetos suspeitos. A tecnologia de ponta é bem mais eficaz que os atuais detectores de metais e máquinas de raio-X. Ela seria capaz de identificar a massa explosiva costurada no gancho da cueca de Abdulmutallab. Teme-se, no entanto, que imagens de passageiros sem roupas possam ser surrupiadas por funcionários da segurança aeroportuária e depois, desaguarem na internet. E, aí, como faz? A julgar pelos precedentes, a segurança prima sobre a privacidade. O obstáculo real será o custo da engenhoca. Nem todo aeroporto tem recursos para se equipar. Apenas 6 aeroportos nos Estados Unidos utilizam o sistema como detector principal.

scanner

Outra medida decorrente do incidente, bem mais controversa, é a proibição aos passageiros de levantarem dos assentos, nem para ir ao banheiro acompanhado por um tripulante, durante os 90 minutos finais dos voos. E não só. Eles não poderiam ter nada no colo, seja um laptop ou um simples travesseiro. Trata-se de algo absurdo, mas sobretudo ineficiente. O que é capaz de conter um terrorista durante um voo e nos últimos minutos? Os exemplos estão aí. Resposta: outro passageiro. O vigilantismo tem sido o mais eficaz sistema contra terroristas no ar. Uma vez que o que terrorista já está a bordo, todos os sistemas anteriores falharam. Dois fatores tem contribuído para evitar a tragédias neste caso, a reação física dos passageiros contra os terroristas e o reforço das portas que dão acesso à cabine de comando.

É uma triste constatação de tempos bicudos, mas quem embarca em aviões deve estar preparado para reagir em defesa própria e dos demais passageiros.

Por Antonio Ribeiro

24/12/2009

às 13:33 \ Paris

Caríssimo leitor: um muito Feliz Natal!

De Paris, um abraço

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

19/12/2009

às 5:52 \ Diplomacia

Recordar é viver

Blábláblá

No blog DE PARIS, você lê primeiro. Dia 15 de novembro de 2009, seguido ao encontro entre Sarkozy e Lula em Paris e durante visita de Barack Obama à Ásia, escrevemos aqui que a 15ª Reunião das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15) em Copenhague seria um fracasso. A chamada do blog na Veja.com foi Copenhague é fracasso anunciado.

Na quinta-feira passada, um dia antes do encerramento da reunião na capital dinamarquesa, explicamos aqui porque os Estados Unidos e China – Lula e Brasil sempre foram coadjuvantes na questão – tinham bons motivos para não mudarem suas posições. Deu no que deu.

É bom lembrar, quando já se desenha Barack Obama como o grande vilão de Copenhague, que muitos gostam dele pelo que acham que ele faria. Isto  sem que  o presidente americano sequer tenha prometido ou cogitado ir em tal sentido.

Há os times que gostam e não gostam de Obama porque pensam que ele é uma espécie de socialista e ou incorpora nos EUA, algo que lembra o petismo. É  acepção das mais enganosas. Há os que chamam Obama de Ossama, como se ele fosse versão camuflada do turbante mais alto da organização terrorista Al Qaeda. Nem com muita boa vontade dá para levar a sério.

De Paris, um abraço

Por Antonio Ribeiro

18/12/2009

às 9:03 \ Voo AF447 (Rio-Paris)

O bizarro silêncio da Air France

O contrôle, a zona de turbulência, o Airbus e a rota

O contrôle, a zona de turbulência, o Airbus e a rota

É batata. Sempre que vai aparecer uma notícia ruim, o serviço de comunicação da Air France tenta tapar o sol com a peneira. Ontem, a política bizarra de informar às avessas foi igual. De manhã, a companhia distribuiu nota aos jornalistas informando que a Air France ganhou prêmio de “desenvolvimento sustentável”. À noite, emergiu a informação de que no dia 29 de novembro, no trajeto Rio-Paris,  o Aibus 330-200 do vôo AF 445 (antigo AF 447) passou por graves dificuldades exatamente na zona da tragédia aérea que matou 228 pessoas no início de junho de 2009. Detalhe edificante: a Air France não comunicou o incidente no prazo regulamentar às autoridades da aviação civil. Quando foi solicitado os dados das caixas-pretas, a companhia informou que eles tinham sido apagados pelos registros do voo seguinte da aeronave em questão.

Segundo o relatório do comandante de bordo (Air Safety Report), o Airbus A330-200 (mesmo modelo ao do acidente do AF 447), decolou do Rio de Janeiro às 17h20, entrou em uma zona de forte turbulência 60 milhas (96,5 quilômetros) antes do Ponto Dekon. O avião voava no nível 380 (11.500 metros de altitude) na rota UN886. As condições meteorológicas, ainda segundo o piloto, impediram a aeronave de seguir a rota. Ele foi obrigou fazer uma manobra de descida até o nível 360. Ou seja, baixou 2.000 pés (620 metros). A tripulação não conseguiu prevenir o Contrôle Atlântico (Recife). A tripulação lançou um aviso “Mayday”. Trata-se de procedimento obrigatório quando  a urgência da situação obriga alterar o nível de altitude. Serve para evitar colisão com outras aeronaves que cruzam o mesmo espaço aéreo.

Depois do pouso no aeroporto parisiense Charles de Gaulle, o comandante de bordo Hugues Faure redigiu o relatório. Ele foi entregue ao seu superior como determina o regulamento. No entanto a Air France não transmitiu o relatório no prazo estabelecido pela legislação – 72 horas – a Direção Geral da Aviação Civil (DGAC). O Escritório de Investigações e Análises da aviação civil francesa, o BEA, responsável pela busca das causas da tragédia do voo AF 447, foi informado do incidente não pela Air France, mas pelo piloto do voo JJ8055, da TAM, que estava próximo a zona no momento. Seguido ao pouso em Paris, o avião foi submetido a uma “limpeza reforçada” devido aos vômitos de passageiros – um deles, ocupante do assento 4T, conta que teve a impressão que a aeronave estava fora de controle durante a descida forçada.

No inicio de dezembro, o BEA abriu uma investigação para apurar as causas. Solicitou a Air France os dados das caixas-pretas – registros dos parâmetros de voo (DFDR) e o áudios com vozes dos pilotos e seus eventuais interlocutores (CVR). A companhia informou que o A330-200 havia decolado para Bangalore na Índia depois der realizado o voo AF 445. Os dados antigos tinham sido apagados pelos registros do novo voo. Em efeito, as caixas-pretas registram os dados das ultimas 25 horas de voo, mas se acontece um novo voo, os dados mais recentes são gravados em cima dos antigos. As companhias aéreas utilizam um sistema de registros suplementar, o QAR. Ele serve, sobretudo, para orientar à manutenção no solo. Segundo o porta-voz do BEA, a Air France informou que os dados suplementares não tinham sido registrados devido a um erro de formatação.

Por Antonio Ribeiro

18/12/2009

às 6:54 \ Diplomacia

A dança de Lula e Sarkozy

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Por Antonio Ribeiro

17/12/2009

às 14:54 \ Diplomacia

A coreografia de Hu e Obama

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É um prazer estar longe de Copenhague. Não é nenhuma surpresa os dois principais convidados a estrelar naquele teatro – já com ares de circo – estarem a procura de boa motivação pessoal e outra que de codjuvante do fracasso. Nem se, cientificamente, estivesse provado que mundo iria de fato acabar, seria boa razão para eles. Refiro-me a Barack Obama e Hu Jintao (repesentado pelo premiê Wen Jiabao). Ambos estão umbilicalmente ligados ao grande satã da Conferência na capital dinamarquesa, o CO2, ainda que seu efeito para tornar o mundo um inferno seja tema controverso.

O americano representa um país amplamente responsável pelo estoque, o CO2 acumulado durante mais de um século de industrialização. Hu é o diretor geral encarregado do fluxo, a China é o maior produtor de CO2 do planeta e tudo leva crer que permanecerá na liderança durante os próximos 30 anos. Do ponto de vista, digamos, moral o par deveria estar na COP15 desde a hora um do primeiro dia e de lá sair, como os campeões das concessões. Mas vale lembrar uma máxima da política – quando os acordos parecem impossíveis – através de um diálogo entre dois militares britânicos no filme Lawrence das Arábias:

Coronel Brighton: Olhe sir, não podemos simplesmente não fazer nada

General Allenby: Por que não? Normalmente é o melhor.

Obama e Hu tem excelentes razões para não fazerem nada. A resistência do aparelho político-administrativo de Washington freia o entusiasmo ecológico das cidades e dos americanos. No caso de Pequim, a vontade do poder central é ostensivamente ignorada pelas províncias, empresas e autoridades locais. Ou seja, um é imobilizado pelos braços e o outro, pelas pernas. Naturalmente, os EUA recusam engajarem-se em uma redução elevada de emissão de gazes do efeito estufa. A China, por sua vez, não quer ouvir falar em controles externos, considerados “ingerência.”

No entanto, exigem que os dois mexam-se. Finalmente uma questão interessante em Copenhague. Ela não tem nada de técnica, de ambiental ou de salvadora do mundo. Ela é política e diplomática e em última instância, de imagem, de aparência. Deve-se agir se não o mundo acaba ou deve-se fazer alguma coisa se não é o fim do mundo?

Por Antonio Ribeiro

14/12/2009

às 18:33 \ França

A delação

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O implacável fisco francês cujo temor dispensa o aparato policial, encontrou um aliado de peso. Até ontem, apenas se rumorejava a sua existência devido à antecipado presente de Natal ofertado ao Ministério da Fazenda francês. Uma lista com nomes de 130.000 correntistas de contas numeradas na Suíça, mais especificamente, de clientes do HSBC Private Bank, de Genebra.

Sabe-se agora que, o delator ou paradigma da ética financeira, é franco-italiano, tem 38 anos, e atende pelo nome de Hervé Falciani. O período como funcionário de informática do banco britânico possibilitou seu gesto. A prisão em dezembro de 2008 sob acusação suíça de bisbilhotar dados bancários secretos, motivou a colaboração com as autoridades fiscais da França.

A lista de Falciani contém clientes de várias nacionalidades. Estima-se que a evasão entre os contribuintes franceses oscila entre 4 e 6 milhões de dólares. O HSCB nega. Os discretos porta-vozes do banco afirmam que trata-se de, no máximo, uma dezena de contas. O que se dá como certo na revelação não é os saldos das contas, mas o histórico da movimentação. Sobretudo, pagamentos e transferências. Nem tudo é considerado fraude de antemão, mas deverá ser explicado.

Um agente da Direção Nacional de Investigações Fiscais francês declarou, sob anonimato, ao jornal econômico Les Echos que Falciani se crê em missão messiânica: “Ele acha que os métodos do seu antigo empregador colaboraram na crise financeira mundial e que seu papel agora, é ajudar a reparar o dano.”

Se considerada em ambiente ideal, no vácuo e sem partículas de suspensão no ar, a atitude de Falciane poderia forçar admiração. No entanto, ela segue uma triste linhagem francesa, a da delação. Seu milésimo gol aconteceu durante a ocupação nazista, quando a Gestapo contabilizou 5 milhões de cartas anônimas de compatriotas que denunciavam compatriotas.

Ainda hoje, mesmo nas desavenças entre vizinhos na França, a ameaça de denuncia ao fisco é das armas mais poderosas. Algo impensável alhures. Quem no Brasil, durante uma pendenga, diz ao seu desafeto: “Vou te denunciar a Receita Federal”. Quem?

Suspeita-se que Falciani recebeu compensação monetária do estado francês para denunciar o “capital impuro”, segundo sua adjetivação, para “moralizar o sistema financeiro.” Eric de Montgolfier, Procurador da República, no balneário francês de Nice, interrogou Falciani. Gesto seguinte, abriu processo judicial.

Perdulário e com uma déficit público monumental em tempo de penúria financeira – 1.430 bilhões de euros ou 73,9 % do PIB, em 2009 – o estado  francês busca recursos onde é possível. Invariavelmente, eles saem do bolso dos contribuintes. Recentemente, emergiu de uma greve de policiais a denúncia de que eles sobem na hierarquia na razão direta em que aplicam multas.

Por Antonio Ribeiro

13/12/2009

às 17:21 \ Europa

Berlusconi é agredido após comício na Itália

Il Cavaliere, Il Duce e o agressor

Il Cavaliere, Il Duce e o agressor

Silvio Berlusconi foi ferido depois de um comício em Milão, a segunda maior cidade da Itália. Massimo Tartaglia, de 42 anos, lançou no rosto do primeiro-ministro uma estatueta de alabastro, réplica do Duomo, a catedral milanesa. O político italiano, de 73 anos, caiu no chão após o golpe. Os seguranças o levantaram e o colocaram dentro do carro oficial. Sangrando, o nariz e dois dentes quebrados, corte profundo no lábio superior, Berlusconi foi levado para o hospital milanês San Raffaele. Por precaução médica, ficará 48 horas internado sob observação. O autor da agressão, um tipógrafogo sem antecedentes criminais e filiação partidária que, segundo um primo, está em tratamento psiquiátrico há dez anos, foi preso. (Atualização: o tratamento teria terminado em 2003)

No encontro com simpatizantes do partido Povo da Liberdade (PDL), na  praça central da capital lombarda, Berlusconi discursou, enquanto uma dezena de manifestantes, em coro, gritavam “bufon” (palhaço) e “renúncia”. Berlusconi retrucou três vezes  do alto do palanque: “Vocês deveriam ter vergonha.” A agressão aconteceu no final da reunião,  por volta das 18h30, na Itália, quando Berlusconi, caminhando na direção do seu carro, parou para cumprimentar simpazantes e assinar autógrafos.

No dia 5 de dezembro, 350.000 italianos desfilaram nas ruas de Roma pedindo a renúncia do Cavaliere, o homem mais rico da Itália, acusado de envolvimento com a Máfia, em casos de corrupção, fraudar o fisco e de organizar orgias em sua casa de campo — a mulher, Veronica Lario, entrou com pedido de divórcio. Não é a primeira vez que Berlusconi é agredido fisicamente. Em 2004, Roberto Dal Bosco, um turista lombardo, lançou o tripé de sua máquina fotográfica na cabeça do primeiro-ministro em campanha política na capital italiana. Na época, Berlusconi ficou com um hematoma na orelha direita.

Emilio Fede, diretor do hospital milanês San Raffaele, contou a imprensa italiana que Berlusconi se considera abençoado por um milagre. “Se tivesse sido atingido um centímetro acima teria perdido o olho”, disse ele. Segundo a imprensa italiana, o primeiro-ministro manifestou um sentimentro “amargura” pelo incidente, mas não abandou o espírito aguerrido: “Eles não irão me parar.”

A agressão a Berlusconi lembra o atentado contra o ditador fascista italiano Benito Mussolini. No dia 7 de abril de 1926, na Praça do Campidoglio, em Roma, a irlandesa Violet Gibson, de 50 anos, na época, disparou três vezes na direção do Duce após seu discurso no Sétimo Congresso de Cirurgia quanto pronunciou a famosa frase: “Se eu ficar, sigam-me; se recuar matem-me; se eu morrer, façam vingança.” Um tiro de pistola atingiu a extremidade do nariz de Mussolini. Gibson, irmã do Barão de Ashbourne, chanceler da Irlanda, foi expulsa da Itália. Ela passou o resto de seus dias em um sanatório na Inglaterra. Morreu em 1956.

Veja abaixo o vídeo do momento exato da agressão. Imagens da AP:

Por Antonio Ribeiro

11/12/2009

às 20:18 \ Américas

Culto à personalidade

stalinlula2Do ponto de vista jornalístico, puramente técnico, um fato perde a relevância quando ele torna-se recorrente, corriqueiro. Informar não significa participar de um processo de comunicação, sobretudo, quando ele é propaganda oficial. Mas há algo pior. A ajuda ao culto à personalidade de um governante ainda que de forma inconsciente.

Os grandes jornais brasileiros ainda acham ser notícia quando Lula fala “merda”. Não é bem o palavrão na oratória do Presidente da República que espanta. É a frequência em que o presidente diz bobagens e que sua fala chula encontra destaque nas folhas do dia seguinte.

O Pravda, jornal oficial da União Soviética, tinha como missão primeira, cultivar a imagem de seus líderes. Se  Stalin passasse o dia dormindo, a manchete do dia seguinte poderia ser que o Pai da Pátria sonhou bom futuro para a federação comunista.

Em uma democracia não acontece assim. Mas Lula já percebeu que no Brasil, se tocado o nervo central, o sistema reage. Lula disse isso, Lula disse aquilo. E vamos comentar o que disse o Lula. Ele está nas mais irrelevantes questões. Onipresente indiscriminadamente, notícia ou não. Um sistemático automatismo pela ausência do devido recuo e  reflexão.

Um exemplo edificante com ampla ressonância. Lula diz: “Copenhague só vai ser o que vai ser porque o nosso querido país teve a coragem de, há um mês, apresentar as metas que apresentamos.” Além expressão megalomaníca fora do lugar, a afirmação é falsa e tem a importância de papo de botequim. Relevância mínima.

Muitas edições dos jornais britânicos circulam sem o nome do primeiro-ministo Gordon Brown na primeira página. Le Figaro e Le Monde fazem igual com Nicolas Sarkozy, conhecido por não perder a menor oportunidade de se mostrar. Nem Barack Obama, querido de grande parte da imprensa americana, recebe tanta “canja” quanto Lula. Não passa um só dia onde o nome do presidente brasileiro não esteja estampado no rosto dos jornais.

Não venham dizer que isso é coisa de gênio político. É apenas ocupação velhaca do espaço — e sempre sobre assunto na cirsta da onda — deixado por brutal falta de senso crítico, espírito livre e muitas vezes medo da patrulha que quando confrontada ou ignorada, revela sua real natureza, a de Tigre de Papel.

Em tempo: aqui não se fala palavrão. Não mesmo.

Por Antonio Ribeiro

 

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