
Alguns jornais caíram como patos na história concebida pelos sindicados franceses de que funcionários de empresas estatais estão suicidando mais que de costume. Ninguém se deu ao trabalho de verificar se o índice de suicídios aumentou na França - ele é estável. Se alguém quiser demonstrar que houve aumento de suicídios entre torcedores do Flamengo e do Corinthians é possível usando o mesmo método. Basta classificar os mortos pela preferência futebolista. Como os dois times tem as maiores torcidas, conclui-se que há um surto de suicídios nas fileiras do Mengão e do Timão. O mais curioso são as justificativas que surgem para explicar o falso fenômeno.
Agora, a bola da vez é a “identidade nacional.” Quatro meses antes das eleições regionais, o governo Sarkozy lança mão do nacionalismo como recurso eleitoreiro, esforça para alçar a questão predileta da extrema-direita a condição de debate premente — a Frente Nacional cuja boa parte dos eleitores votram em Sarkozy nas presidenciais registra uma progressão nas pequisas de opinão. Tem se a impressão de que do dia para noite os franceses andam preocupadíssimos com os troncos e galhos das suas arvores genealógicas, com a sua cultura e tradições. Qual o quê? A questão é recorrente sempre que se aproxima uma eleição, nos piores momentos da história da França e quando quer se desviar a atenção de assuntos incômodos - basta ler os posts anteriores deste blog que nota-se não ter havido carência no último mês. Ministro pedófilo, nepotismo, corrupção…
Os jornais despacharam hoje especialistas dos cadernos agrícolas para La Chappelle-en-Vercors, no departamento da Drôme, interior da França. Isto porque esperava-se que o discurso de Nicolas Sarkozy aos agricultores - 59% deles votaram nele - iria detalhar a ajuda governamental, mais subsídios, anunciada semana passada para tentar tirar o setor rural do marasmo econômico. Qual foi o tema do discurso do presidente? Ora, a identidade nacional.
“Identidade é como o amor, quanto mais se teoriza, menos se sabe o que ele é, debatemos quando não sabemos mais vivê-lo”, diz o escritor Jacques Attali, ex-eminência parda de François Mitterrand. Tratar de identidade nacional na França, na maioria das vezes, não é dizer o que são os franceses, mas fazer um inventário do que eles não são e apresentar a recusa de se tornar algo imaginário. Ou seja, ser francês não é usar boina de feltro, mas como diz Sarkozy: “A burca não tem lugar aqui.” Ser francês é não ser “americano”, embora não se saiba bem o que é “americano.” Ser francês é discutir a melhor maneira de excluir, é pedir os documentos de identidade e de punir quem não os tem.
Alguns elementos identificam um povo, eles foram muito bem resumidos por Ernest Renan, em uma aula na Sorbonne, no século XVIII. Um território, uma língua, uma cultura, valores, história e destino comum. Nenhum deles é estável, evoluem com o tempo. O estado francês, por exemplo, foi cristão, ele é laico. Foi monarquia, agora é República. Olha ameaça mesmo é o jogo de sábado em Dublin, contra a Irlanda, quando a França joga sua última chance para ir a Copa da África do Sul.




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