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Arquivo de 4 de novembro de 2009

04/11/2009

às 9:50 \ França

O Roberto Jefferson francês

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Sotaque ocitano provençal, humor rude, desde 1968, os franceses acostumaram ver o senador Charles Pasqua entre os protagonistas da política nacional. Ele foi o deleite dos cartunistas — sua figura lembra a de Don Camillo Tarocci (Fernand Joseph Désiré Contandin, o Fernadel), o vigário conservador do vilarejo italiano de Brescello, onde governava o prefeito comunista Pepone (Giuseppe Bottazzi), na versão cinematográfica da obra satírica de Giovanni Guareschi. Considerado os movimentos recentes, Pasqua seria para os brasileiros o equivalente de Roberto Jefferson, o pivô do mensalão (lembram-se?), da oratória cepeiana que evocava o “rato maaagro” e o melhor conselho ao “capitão do time”, eufemismo para “chefe da quadrilha”, o “Sai, sai daí Zé”.

Filho de policial, Pasqua iniciou a carreira como vendedor na destilaria Paul Ricard, fabricante do favorito aperitivo aromatizado com o anis, o Pastis 51. Ele foi um dos fundadores do Serviço de Ação Cívica (SAC), a milícia que combateu nos anos 60 os inimigos do general Charles de Gaulle, sobretuto, os contrários à independência da Argélia e os comunistas. Chrirac dconfiou a ele a cooordenação da sua campanha eleitoral vencedora à presidência da França. E pelo jeito, Pasqua está terminando a longa trajetória pública com a condenação para viver um ano atrás das grades, embora prometa, com ar desafiador, escapar mais uma vez tal qual fez em frequêntes ações judiciárias de corrupção onde seu nome apareceu. “Eu sou um animal de combate, se me procurarem, vão me achar”, diz ele.

O senador gaulista pelo departamento de Hauts-de-Seine, reduto político do presidente Nicolas Sarkozy, ex-ministro do Interior, de 82 anos, é acusado desta vez de receber propina felpuda – 1,5 milhão de euros – para obter junto ao ex-presidente Jacques Chirac, ele mesmo recentemente indiciado pela Justiça sob acusação de criar empregos fantasmas para correligionários e amigos, a condecoração da Ordem do Mérito Nacional para o traficante de armas israelense de origem russa, Arcadi Gaydamak. Pasqua apresenta uma outra versão, mas não menos comprometedora.

Segundo o velho senador, foi devido à intermediação do “agente do KGB” Gaydamak junto às autoridades servias que aconteceu a libertação de dois pilotos franceses, mantidos como prisioneiros depois que ejetaram-se de seus caças durante bombardeio aliado na guerra do Kosovo. “Jacques Chirac me autorizou negociar e desbloqueou 900.000 francos (137.200 euros) dos fundos especiais”, revela Pasqua. “Foi o Dominique de Villepin (ex-primeiro-ministro e o chefe de gabinete da presidência, na época) que me entregou o dinheiro”. Além de pedir a suspensão do segredo de estado sobre o assunto, o senador sugere ao fisco francês uma devassa nas contas dos políticos que ocuparam postos importantes no governo francês. “Reparem o que eles tinham 20 anos atrás e o que possuem agora, é um enriquecimento tão suspeito que levaria qualquer cidadão francês comum ao controle fiscal.”

Por Antonio Ribeiro


 

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