12/10/2009
às 9:10 \ FrançaCirculando, circulando, circulando

Frédéric Mitterrand no Palácio do Elisée
“Circulez, circulez, circulez“, dizem os policiais franceses. A ordem, intercalada por gestos e sopros no apíto, busca dar fluência ao tráfego quando motoristas curiosos diminuem a velocidade para ver o resultado de um acidente no trânsito. O governo de Nicolas Sarkozy tenta algo semelhante depois que a parlamentar européia Marine Le Pen, vice-presidente da Frente Nacional, a extrema direita francesa, evidenciou o passado pedófilo do ministro da Cultura, Frédéric Mitterrand. “O caso está encerrado”, resume a posição do governo, Xavier Bertrand, aliado do presidente da República, em entrevista ao jornal Le Parisien.
A julgar por pesquisa do Instituto BVA, revelada hoje, a manobra do governo é desnecessária. Dois em cada três franceses acham que o ministro não deve pedir demissão. Mas a biografia de Mitterrand, a cada descoberta, fica manchada como pele de leopardo. O Quotidien de La Réunion, o principal jornal na Ilha da Reunião, departamento francês no Oceano Índico, revelou que o ministro testemunhou em favor de dois jovens condenados por estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos, em Saint-Denis, a capital insular. Mitterrand é padrinho de um deles, o filho da maquiadora do seu antigo programa na TV estatal France 2.
Em 2006, Mitterrand enviou carta ao tribunal da Reunião com papel timbrado da Academia da França em Roma, a Villa Médicis, da qual era diretor na época. O ministro lembrou a consciência dos jovens pela gravidade do crime confesso e enfatizou a capacidade de recuperação. “Eu me responsabilizo pessoalmente à facilitar toda medida de reintegração na sociedade”, escreveu o ministro. E foi mais longe: “Diretor da Villa Médicis, disponho de um certo número de contratos que poderão beneficiá-los.”
Perguntado sobre a carta, Mitterrand foi bem menos emotivo do que quando apareceu na TV para justificar seu turismo sexual com menores na Tailândia, durante os anos 70. Reagiu irado com indignação: “É imundo, repito, é nojento.” O ministro vê — só ele — uma campanha orquestrada desde que defendeu a lei Hodapi que protege obras com direitos autorais na internet. O caso Mitterrand veio à tona quando o ministro manifestou-se contrário a detenção e extradição do diretor de cinema Romain Polanski, condenado à revelia nos Estados Unidos por ter relação sexual com uma adolescente de 13 anos.
Sem dizer contra quem exatamente, Mitterrand ameaçou entrar na Justiça por difamação. “Eu não sou paranóico, mas se meu sobrenome fosse Tartampion (João Ninguém), não sofreria estas indignidades.”, disse o sobrinho do falecido presidente da França, François Mitterrand. “A política é um universo que conhecemos bem, mas quando nos chamamos Mitterrand não há surpresas.” O afilhado do ministro da Cultura, condenado a 15 anos de prisão, tem o mesmo nome do padrinho Frédéric. “Circulez, circulez, circulez.”
Tags: Frédéric Mitterrand, Nicolas Sarkozy, Villa Médicis, Xavier Bertrand



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