Blogs e Colunistas

19/09/2014

às 5:31 \ Europa

No lugar da independência, a divisão

escocia

O líder nacionalista escocês Alex Salmond no lugar de promover a independência do seu país com o Reino Unido, dividiu a Escócia em duas. A frase que você acaba de ler comporta duas derrotas, mas não, necessariamente, igual número de vitórias.

A primeira é clara e nítida. Quase nove em cada dez eleitores escoceses — alguns com apenas 16 anos de idade e outros mais propensos a abstenções eleitorais — foram às urnas e 55% deles cravaram “não” a independência enquanto que 45% mostraram-se favoráveis ao rompimento de uma união que já festejou bodas de 300 anos.

Se a Union Jack se manteve no alto dos mastros fincados na Escócia e a libra esterlina recuperou força com o resultado do referendo, muitos parlamentares ingleses começam a recriminar a “passividade imprudente” com a qual o primeiro-ministro britânico David Cameron administrou o risco separatista.

Doravante, deputados ingleses estão nada inclinados a conceder mais autonomia para Escócia em troca de eventual “traição” e, simultaneamente, reivindicam menos interferência dos 59 parlamentares escoceses em questões inglesas. Cameron reagiu prometendo mais “votos ingleses nas questões inglesas.”

Seria impreciso investir nas particularidades escocesas — algumas exóticas como o ritual Quarup — para justificar o sonho de independência. A questão se encaixa em paisagem mais ampla. A Escócia foi a bola da vez nos movimentos separatistas em que se explora o orgulho fora do lugar e promete quimeras, no caso, a independência, para aplacar desesperançosos. Por trás do separatismo há sempre um grupo interessado em governar o futuro país. Isso é mais forte do que qualquer outro motivo.

Até fins dos anos 90, o grêmio dos separatistas era um partido marginal no qual apenas um entre quatro escoceses votavam a favor. Ou seja, se houvesse um desejo real e incontido pela independência, o Partido Nacionalista Escocês seria o mais popular do país. Aliás, como acontece em casos semelhantes.

Em termos de autonomia, a situação só melhorou para o lado escocês. O exemplo emblemático foi a criação de parlamento próprio em Edimburgo dotado de vastos poderes inclusive os de formar um governo, decidir sobre questões internas, legislar sobre educação, saúde, justiça e convocar referendos — Londres tem prerrogativas na defesa e política fiscal.

Tampouco parecia sério o argumento que ficar integralmente com as receitas da exploração do petróleo compensaria desmantelar uma integração que permitiu a Escócia se desenvolver mais do que se fosse pequena nação independente com população de 6 milhões de habitantes.

Por Antonio Ribeiro

03/09/2014

às 11:06 \ Democracia

Duzentos milhões de presidentes

200milhoes

 

Por Nelson Ascher, especial para o Blog de Paris

Há gente bem intencionada que já está celebrando a provável vitória eleitoral de Marina. Acham um avanço ainda maior que levar primeiro um ex-operário e, em seguida, uma mulher à presidência seria eleger uma mulher negra e de origem humilde. Há nisso uma dimensão simbólica relevante, mas de exagero fácil.

Quando Obama foi eleito comemorou-se o que seria a reabilitação dos Estados Unidos que tinham passado abominável. Houve escravidão e racismo nos EUA, como, aliás, na maior parte do mundo. Mas é também verdade que a escravidão lá foi abolida pelos americanos. Muitos deles foram os responsáveis por combater o racismo local, enquanto que a Alemanha, por exemplo, só parou de matar judeus, ciganos, homossexuais depois de ser  derrotada por força militar externa.

Muitos dos que celebraram a tal reabilitação dos EUA estiveram entre os primeiros a acusar de racista quem se opôs à Obama e suas políticas. Assim, como é raro ver essa dimensão simbólica se realizar sem ambiguidade e como sua importância e alcance são dificílimos de aferir, talvez seja melhor combater o racismo no mundo real e deixar a democracia representativa desempenhar seu papel, não funções acessórias

Se a cor e o sexo do(a) presidente ou de qualquer outro(a) representante é tão importante, se não vale mais o princípio de que qualquer pessoa pode representar quaisquer outras desde que se comprometa a cumprir o que prometeu a seus eleitores, aos poucos, a democracia representativa vai se transformar numa impossibilidade prática e provavelmente teórica também.

Só mulher pode representar as mulheres, só negro os negros, homossexual os/as homossexuais, pobre os pobres, se só uma mulher negra, homossexual e pobre pode representar qualquer outra mulher negra, homossexual e pobre, então, no limite, ninguém poderá representar ninguém minimamente diferente. Ou seja, qualquer outra pessoa (e, muito menos, outras pessoas — no plural).

Cada qual só poderá representar alguém 100% idêntico a si — e mesmo gêmeos univitelinos acabam se diferenciando um pouco que seja, simplesmente por levarem uma vida diferente, ainda que apenas em termos milimetricos de dessemelhança.

Só o pretenso pobre Lula pode falar em nome dos outros e verdadeiros pobres, que seriam também o povo mais autêntico. A tendência na política, portanto, é de tornar cada vez menor a diferença e/ou a distância que separa representante de representado.

Ao fim e ao cabo, cada qual só poderá representar a si e ser representado também por si mesmo. De modo que, aqui no Brasil, acabaremos tendo 200 milhões de congressistas e o mesmo número de presidentes da república. A democracia neste caso se transformaria num novo paradoxo de Zenão.

Porém, em outra área acontece o contrário. Trata-se do ambientalismo. Certos membros da espécie humana se colocam como procuradores dos interesses de outras espécies animais e até mesmo do mundo vegetal. Outrora os ambientalistas defendiam a natureza, entidade difícil de definir, mas o faziam em nome de nossa própria espécie. Tentavam provar que a sobrevivência de tal ou qual espécie animal, que a maior proliferação desta ou daquela vegetação, que a manutenção da biodiversidade eram sobretudo benéficas para o homem.

Contudo, têm-se multiplicado os militantes que vêem a nossa espécie como problema. Algo daninho para o resto da natureza e para o planeta. Nós seríamos um mal do ponto de vista exatamente de quem? Como membros de nossa espécie sabem se outras espécies têm pontos de vista e/ou interesses e quais seriam eles? Se soubessem, quem disse que essas outras espécies querem que sejam esses militantes que as defendam?

Há algo aí entre arrogante e pura e simplesmente delirante. Um homo sapiens não pode falar em nome de um outro homo sapiens minimamente diferente, mas pode falar em nome de todas as outras formas de vida.

Perde-se fácil de vista o conjunto de pressupostos básicos da idéia mesma de democracia representativa. Entre os mais importantes estão os seguintes:

1) o representante representa alguém, ele não é nem precisa ser o alguém representado;

2) o representado não é representado em todo o seu ser, em cada detalhe do que ele(a) é, mas apenas em algumas questões que sejam, a um tempo, objetivamente formuláveis e de natureza política; e o representante não está no seu cargo, no congresso, no palácio presidencial como ele mesmo em pessoa, mas, sim, como o portador do programa e/ou das propostas que ele foi eleito e contratualmente encarregado de aplicar.

3) tudo não é político — e, aliás, um bom programa político atual (diametralmente contrário ao que prevalece há mais de um século) seria a despolitização, ou seja, consistiria em retirar áreas cada vez maiores e mais numerosas do alcance ou do âmbito da política, equivaleria a desestatizar o máximo da vida humana, devolvendo-a à esfera privada;

4) a relação entre representado e representante é ou deveria ser a rigor de natureza contratual, trate-se de mero síndico ou vereador, de deputado, senador, prefeito, governador ou presidente, o representante eleito é, para todos os efeitos, procurador do eleitor, procurador para o qual o voto equivale a procuração de poderes restritos e provisórios, se bem que renováveis ou modificáveis, mas isso também de acordo com regras contratuais; (afinal, não se acha que seu procurador precisa ser também seu sósia, e isso vale ainda mais para os advogados — será que só gays podem advogar para gays, negras para negras?);

5) presume-se também que tudo poderia funcionar assim porque, afinal, o que nos assemelha uns aos outros deveria ser talvez mais relevante do que o que nos diferencia.

Cabe-me escolher o meu representante para que defenda tal ou qual interesse meu. Por exemplo, menos impostos e a redução do tamanho do Estado. Não deveria importar se é homem ou mulher, homo ou hetero, palmeirense ou corinthiano, muçulmano ou budista. Tampouco se gosta de carne vermelha ou é vegano. A bem dizer, nem sequer deveria ser importante se concorda comigo, se aprova ou crê no que foi eleito para defender. De mesmo que nem sempre o réu espera de seu advogado a crença na inocência que foi contratado para defender.

O que cabe a mim e aos demais querer do representante político é que, em sua área de ação, atue como o melhor advogado. Se possível que o faça pelo mais baixo custo. Numa democracia representativa, vale ou deveria valer para o síndico como para o/a presidente da república.

Voltando à esfera simbólica. O que há para se comemorar na primeira eleição de uma negra, de um gay, de um muçulmano não é a conquista positiva de um grupo. Mas a remoção de um empecilho ou obstáculo negativo que estava ou estaria atrapalhando o bom funcionamento da sociedade e de sua democracia representativa. Neste contexto, o racismo ou qualquer outra discriminação é basicamente algo que impede o cidadão, independentemente de sua cor, sexo, religião, etnia, poder representar outros.

 Nelson Ascher é jornalista, poeta e tradutor de poesia.

LEIA TAMBÉM NO BLOG DE PARIS: “Decifra-me ou te devoro”

Por Antonio Ribeiro

01/09/2014

às 22:52 \ Brasil

Decifra-me ou te devoro

deciframeDebater é uma arte mapeada. Lembra o jogo de xadrez. Para cada abertura, há uma defesa correspondente que leva a fase das variantes, o jogo intermediário, a etapa imediatamente anterior às finais.

Bons debatedores se preparam a vida inteira para o improviso. Na hora H, puxam a arma certa do arsenal acumulado ao longo dos anos. Há também os debatedores com dom natural. Nesta categoria dotada de instinto repentista, o santo baixa mais facilmente.

Atualmente, nenhum candidato à Presidência do Brasil deu provas de ser debatedor nato. Falta o carisma que não é compensado com os remendos e aditivos artificiais da marquetagem.

Aliás, como é ruim este time de personal trainers pago com salários de boleiros renomados. Captaram algum sinal emitido pelos manifestantes em 2013? O desempenho da clientela aponta para a negativa.

Dilma Rousseff foi programada para depenar tucano. Seu aplicativo não funciona contra Marina Silva. E a cintura de automata que Lula ou o conselheiro de plantão dá corda, mostra-se muito dura para inverter o movimento. Imagine trocar de estratégia que exige raciocínio em lapso curto de tempo.

Embora tenha o programa de governo mais redondo, o bom moço mineiro Aécio Neves vive em um eterno dilema: bato ou não bato, vou ou não vou? Quando decide, não sabe bem como modular o ataque. Muito ou pouco? O resultado é quase sempre fraco.

Marina com a firmeza de quem já enfrentou desarmada jagunço no mato, não tem medo de “Vossa Excelência”. Sabe onde dói e é ali, mesmo que machuca sem piedade ou complexo. Quando atacada, esquiva na evasiva. Ninguém sabe bem o que diz, mas Marina não deixa dúvidas de onde quer chegar.

A acreana será uma boa presidente? Há dúvidas muito bem embasadas. Contudo, não se alcançou está etapa ainda. Por vezes, ela parece nem existir. A disputa por enquanto, resume-se a ganhar a eleição. A ex-senadora vai levando fácil como uma esfinge desafiadora: “Decifra-me ou te devoro.”

LEIA NO BLOG DE PARIS : “Marine e Marina, coincidência de terceira via

Por Antonio Ribeiro

31/08/2014

às 8:36 \ Brasil-França

Marine e Marina, coincidência de terceira via

A Grande Beleza

A Grande Beleza

Em comício para cerca de mil simpatizantes em Brachay, vilarejo de 60 habitantes na região Champanha-Ardenas, onde sete entre dez eleitores votaram na Frente Nacional, Marine Le Pen, líder da extrema-direita xenófoba da França, pregou a prática de uma “outra política”. Mas a francesa fez saber que se o eleitorado lhe der uma maioria na Assembléia Nacional, nos moldes da política atual, bem entendido, ela governará.

Em tempo: qualquer semelhança com Marina Silva é mera coincidência de terceira via ou contato de terceiro grau. Além, claro, de plataformas comuns nas questões do casamento civil entre indivíduos do mesmo sexo, aborto e de outros pormenores.

A artimanha, no entanto, não é nova. Ela passou de pai para filha. Jean-Marie, o patriarca dos Le Pen e fundador da Frente Nacional (FN), quando era indagado sobre suas convicções, tangenciava: “O FN não é de direita nem de esquerda, mas França.” Justiça se faça, nunca teve a astúcia para quebrar a hegemonia dos principais partidos com a promessa de que caso fosse eleito Presidente da República, governaria com as melhores ideias de cada lado.

E porque não? Atribua à causa uma disfunção completa da quantidade reduzida de neurônios por uma parte. Pondere, em seguida, que a oferta do produto no mercado é inexistente. Jamais se viu a alquimia ser colocada em prática em momento da história, em ponto algum do planeta, com resultado diferente do fracasso, desvario ou, simplesmente, erro igual a “barbeiragens” dos alunos de auto-escola.

No entanto, nem tudo está perdido. Há o Brasil autista e terra entre as prediletas para a fertilidade da esperança. Sobretudo agora, momento de melhores oportunidades. A propensão é grande para crer em algo capaz de livrar, ainda que por eventualidade, de mais um mandato federal do governo petista. Os requisitos mínimos de racionalidade tornaram-se miudezas sem muita importância.

LEIA NO BLOG DE PARIS O POST: “Hollande mente o tempo todo”

Por Antonio Ribeiro

30/08/2014

às 19:03 \ História

Um homem à frente de seu tempo

Nilo Peçanha

Nilo Peçanha

De fato Caetano Veloso é um homem à frente de seu tempo. Entusiasmado com a candidatura de Marina, de quem é dos cabos eleitorais mais celebrados, acaba de fazer uma revelação. Tanto no seu mural do Facebook quanto na sua conta do Instagram, Veloso previu que, caso Mariana seja eleita, “significará a chegada de evidentes fenótipos negros no posto da Presidência da República”. Se não tivesse dito, por certo, ninguém teria notado.

“Resultado óbvio da mistura de cafusos com mamelucos, Marina, além de vir do coração da Amazônia”, escreveu o poeta, “é a nossa respeitabilidade como nação.” E arrematou com admirável clarividência: “Recusar isso seria estar cego para toda luz.” Não há sombra de dúvidas, faz necessário agradecer ao Divino pela dádiva e o deleite de ser contemporâneo do cantor.

Fecha-se o pano.

Há exatamente cento dez anos, um homem e seus fenótipos foram enterrados no Rio de Janeiro com honrarias da Velha República. Isso porque foi o sétimo presidente do Brasil. De origem modesta, recebeu do pai, conhecido em Campos dos Goytacazes como “Sebastião da Padaria”, o nome de Nilo Peçanha. Detalhe edificante: era mulato. Devido ao profundo preconceito da época fez se o possível para eliminar os “fenótipos negros” dos retratos oficiais de Peçanha. Os traços faciais foram modificados e a pele esbranquiçada.

O diário britânico The Guardian não quer saber de aspectos que em nada qualificam ou desqualificam o Presidente da República como gênero e genótipo embora eles sejam usados como artimanhas eleitoreiras. Mas no Grande Prêmio Primeiro Isso e Primeiro Aquilo  jornal londrino, escolheu uma outra pole. Titúla que Marina pode ser a primeira presidente “verde” do planeta.

Por Antonio Ribeiro

26/08/2014

às 13:58 \ Europa

“Hollande mente o tempo todo”

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Mesmo antes de assumir a Presidência da França em maio de 2012, muitos franceses desconfiavam, mas  só um contingente em numero bem reduzido poderia ter afirmado com tanta autoridade quanto Arnaud Montebourg, até ontem, o todo-poderoso ministro da Economia: “François Hollande mente o tempo todo.”

A acusação pesada coaduna com a situação grave do país. A segunda maior economia da Europa estagnou. No primeiro semestre, a França registrou crescimento nulo e o governo socialista acha improvável chegar a hercúleo 1% até o fim do ano. O aumento renitente do desemprego deixou 3,6 milhões de inativos no mercado de trabalho. Jovens qualificados — os que podem e os que fazem acontecer — vão buscar oportunidades de trabalho fora da França.

Apesar da promessa de reduzir 50 milhões de euros nas despesas públicas, o governo de Hollande sob comando do primeiro-ministro Manuel Valls — anda dizendo que a esquerda francesa pode morrer — não atingirá a meta de 3,8% do Produto Interno Bruto. A recuperação da França patina enquanto outras economias da zona do euro se revitalizam.

Durante a campanha eleitoral o candidato Hollande apontou as finanças como “inimigo numero 1″. No governo, perdeu dois anos empenhado em fazer a política do vai e vem ao zig-zag e, na confusão, ficou no mesmo lugar. Os dados não mentem. Por mais das vezes, incomodam. E no caso, o efeito provoca nos responsáveis, o convite para releitura.

Em um primeiro instante, Hollande aumentou os impostos. Avançou a esperança de acabar com o rigor orçamentário. Mais para frente, prometeu cortar gastos, baixar impostos e incentivar as empresas. Os investidores não acreditaram. Mas não só eles. Só dois em cada dez franceses confiam no seu presidente. Hollande recebe a maior descrença popular entre todos os presidentes a criação da Quinta República em 1958.

A justificativa apresentada por Montebourg para abrir fogo contra Hollande foi a divergência na condução da política econômica. O ex-ministro criticou o alinhamento do presidente ao que chamou de obsessiva austeridade fiscal imposta pela Alemanha aos paises da União Européia. Segundo o ex-ministro, ela trará recessão e, em seguida, a deflação.

O discurso de Montebourg pega carona e replica na França a fala do primeiro-ministro italiano Matteo Renzi — teve o melhor desempenho entre seus pares na eleição para o Parlamento Europeu. Ele sustenta o abrandamento no controle de gastos adotados durante a crise da dívida e aproveita os seis meses de mandato da Itália na presidência da União Européia para reforçar a posição.

Na verdade, Montebourg, virtual candidato à sucessão de Hollande em 2017 — o considera carta fora do baralho a longo termo — tomou a frente de um grupo do Partido Socialista (PS), do qual fazem parte os ex-ministros Benoît Hamon (Educação) e Aurélie Fillipetti. É a dissidência insatisfeita com as medidas do governo.  Acham demasiadamente impopulares. Portanto, segundo eles, serão incapazes de tirar o PS da posição de terceira força política do país como demonstrado de forma inapelável nas recentes derrotas eleitorais.

Hollande com os rebeldes na rua, corre risco de perder sua maioria na Assembleia Legislativa em votações determinantes. O primeiro teste será aprovar o orçamento de 2015 em dezembro. Diante do racha do Partido Socialista, Hollande não teve melhor alternativa para manter a governabilidade que, apenas cinco meses depois de nomear Valls, mandar o primeiro-ministro formar um novo gabinete. Diga-se de passagem, a tarefa envolveu dificuldade inédita. Alguns socialistas recusaram integrar o governo e os verdes desertaram.

Desta vez, a escolha tem a lealdade como credencial obrigatória. Emmanuel Macron, ex-banqueiro chez Rothschild, conselheiro de Hollande, irá substituir Montebourg em um ministério da Economia mais reforçado. Michel Sapin, amigo de Hollande e atual ministro da Fazenda e Contas Públicas, a ex-mulher do presidente Ségolène Royal (Ecologia) e o veterano do PS Laurent Fabius (Relações Estrangeiras) permanecem no governo.

Pode ser que Hollande aproveite a crise e, finalmente, encontre alguma direção. Pode ser que o presidente francês promova reformas necessárias. Isso, em um país que não conseguiu reformar nem seu o Partido Socialista como fizeram seus equivalentes na Espanha, Inglaterra, Alemanha. Acredite se quiser.

Por Antonio Ribeiro

09/07/2014

às 19:32 \ Copa 2014

Inferno

InfernoRIO — Antes do massacre Alemanha 7 x 1 Brasil, o professor Felipe Scolari lembrou em entrevista coletiva à imprensa que sempre faz do seu jeito e arrematou: “Gostou, gostou. Quem não gostou vá para o inferno.” De fato, justiça se faça, o treinador cujos resultados recentes foram perder a Eurocopa para Grécia em casa e rebaixar o Palmeiras para a segundona, cumpriu a promessa no Mineirão.

O inferno pode ser medido palmo a palmo. A mais elástica goleada sofrida pela Seleção Brasileira no espaço de um século. A maior derrota em uma semifinal na história das 20 copas. O resultado mais vexatório apresentado por um país anfitrião. E o improvável mesmo nas peladas de várzea: tomar 5 gols em menos de meia hora.

O atacante Fred tentou resumir o réquiem: “Uma cicatriz para toda vida”. Errou de novo. Cicatrizes podem desaparecer com cirurgias corretivas. A humilhação na gloriosa odisseia do futebol brasileiro permanecerá indelével até sob eventual intervenção de uma  força tarefa de dedicados revisionistas.

Em notável estado choque pós goleada — e com a chancela do cordenador técnico Carlos Alberto Parreira, no dia seguinte, portanto com tempo para reflexão — o goleiro Júlio César, veterano de copas, asseverou ter sido um fenômeno “inexplicável”. Isso como se a razão tivesse tomado um foguete para lua fugindo do Império da Fatalidade.

Não. Todo efeito tem causa. Nada acontece por geração espontânea tal como demonstrado pelo microbiologista francês Louis Pasteur. O time alemão atual tem uma divisão de boleiros muito talentosos. O Brasil de 2014 possui bem menos. Mas não foi a proporção que fez a diferença brutal. A questão é puramente técnica.

Desde de 2006 quando perderam uma copa em casa, os alemães vem se empenhando em reproduzir com teuta aplicação e pragmatismo os fundamentos das nossas mais celebradas vitórias no passado. Valorizam o toque de bola, a precisão dos passes e a mobilidade em ritmo rápido, condizente com o futebol moderno. Todos juntos e no mesmo sentido, os fatores facilitam chegar ao objetivo final, o gol.

Introduziram também uma variante na prancheta que deu certo na prática. O goleiro como líbero. Manuel Neuer é o último zagueiro. Não é novidade para quem acompanha o Bayern de Munique, campeão da Bundesliga, Liga dos Campeões — a final foi contra outro time alemão, o Borrússia — e base da Mannschaft.

Jogar junto contribui para o entrosamento. No entanto, ainda que com jogadores da mesma equipe, a comissão técnica alemã só deu folga aos jogadores uma vez.  Trata-se de engano sustentar que a vergonha do 8 de julho se deu porque don Scolari não treinou o time com este ou aquele boleiro. O Brasil não treinou o suficiente ponto. Os moradores de Teresópolis com vista para os gramados da Granja Comary se espantaram com abstinência. Nem a presença de Neymar teria evitado a debacle.

Seria prova de imbecilidade se o 7 x 1 sobreviva apenas como uma página negra. Parafraseando Winston Churchill: “Se estiver atravessando o inferno, continue andando.” Passa da hora do Brasil aposentar a autossuficiência sem lastro, a soberba fora do lugar, a arrogância que tenta esconder o arcaísmo incompatível com o futebol moderno e sobretudo, a corrupção da cartolagem.  Valeria a pena debruçar sobre o exemplo alemão.

Por Antonio Ribeiro

07/07/2014

às 8:59 \ Copa 2014

O querubim dez para as duas

querubim

RIO – O futebol brasileiro já teve um anjo de pernas tortas. Na verdade, uma “caneta” era mais curta que a outra. Ambas faziam a alegria do povo. Falando assim, o seu nome nem precisa ser citado. Isso porque a maioria dos amantes do esporte bretão em qualquer ponto do planeta sabe quem é ele.

Agora, o Brasil tem outro querubim. Desta vez com os pés como os ponteiros do relógio que marcam 10 para as 2, mais comum nos bailarinos clássicos. Naturalmente, Garrincha está no panteão da história boleira. David Luiz, de 27 anos de idade, ainda segue uma carreira cuja perspectiva deixou de ser de promessas e dá claros sinais de promissora. A comparação não termina aqui.

Em 1962, a maior estrela da Seleção, o Zeus da nossa mitologia, ou simplesmente Pelé, machucou-se no segundo jogo do bicampeonato no Chile, um empate de 0 a 0 com a Tchecoslováquia. Em seguida, Garrincha foi mais Garrincha que nunca. Pavimentou o caminho para a segunda vitória épica. Por certo, contou com ajuda de Didi, Nilton Santos, Amarildo e outros imortais da Academia Brasileira da Bola.

Neymar está fora da Copa devido à joelhada covarde do lateral colombiano Camilo Zuñiga aos 41 minutos do segundo tempo na partida que colocou em cartaz um clássico na semifinal, o Brasil x Alemanha. O Brasil perdeu uma dose imensa de esperança. Muito da graça de uma das melhores copas saiu do palco em uma maca de cor laranja cujo formato anatômico lembra o caixão funerário.

Até este ponto, David Luiz tem sido um destemido. Para o número 4 da Seleção não há jogada ruim ou dividida temerária. Ele vai em todas. Melhor: tem ganhado a maioria. Todo torcedor gostaria de vê-lo defender as cores do seu time. E se pudesse, qualquer cartola compraria  seu passe como um dos melhores investimentos do mercado. Garotas gostariam de namorá-lo. Pais escolhem David Luiz para nome de batismo de filhos e mais e mais meninos o levam no dorso da camisa amarela.

Um dos erros menos questionáveis de Felipão — e provável arrependimento do treinador — foi não ter entregue de cara a braçadeira de capitão ao carismático zagueiro de Diadema. Mas ele é o líder de fato do time. No campo, o seu futebol estimula. Desprovido de arrogância, é capaz de  um carinho contagiante: consolou Hulk e William depois que os companheiros perderem penâltis e até o adversário James Rodrígues recebeu um afago após a derrota para o Brasil. Os companheiros o apelidaram de “Prefeito” devido ao tempo que ele gasta distribuindo autógrafos e sendo atencioso com os fãs. Porém, quando Thiago Silva foi agraciado com um cartão amarelo por besteira que até peladeiros sabem que não é permitido — impedir o goleiro repor a bola em jogo — David Luiz reprimiu seu capitão: “Não, Thiago! Não!

É muito, mas não é tudo.

O seguro David Luiz foi eleito pela Fifa o melhor jogador da primeira fase da Copa. Em 480 minutos jogados, recuperou 28 bolas e desarmou 13 adversários. Durante 5 partidas, fez apenas 9 faltas e não recebeu sequer uma advertência. Joga limpo. Percorre, em media, quase 9 quilômetros por jogo e entre dez de seus passes, 8 chegam ao destino certo. Só brinca fora do campo.

Embora seja zagueiro, fez mais gols que muitos atacantes renomados — um deles de falta, decisivo, que pertence à categoria superior, o chamado golaço aço aço pelo memorável locutor Jorge Curi. Mais importante: debaixo da longa cabeleira cacheada se materializa o que nunca pode faltar nas relações, a confiança.

O drama de Neymar é muito maior que o de 1962. Mais profundo que o de 1966, quando Pelé foi posto para fora da relva inglesa a força de seguidas pancadas numa caçada liderada pelo truculento zagueiro português Morais.  O Brasil de 1962 não dependia tanto de Pelé. Havia mais recursos para suprir a ausência da estrela do time.

Até antes do jogo contra a Colômbia, o atalho do Brasil de 2014 para chegar ao gol era uma ligação direta entre a zaga e Neymar. O meio campo cuidou quase exclusivamente da função defensiva. Como Fred tem sido o espectador mais privilegiado da competição, se condicionou a jogar para o camisa 10 empurrar a bola para o fundo das redes. A prática solidificou a premissa de que o Brasil menos Neymar é um tanque sem poder de fogo.

No entanto, a partida contra a Colômbia foi a pior de Neymar na Copa. Por alguns minutos no primeiro tempo, a melhor do Brasil. O time apoderou-se dos espaços no centro do tabuleiro verde com Fernandinho e Paulinho jogando o que sabem e, em efeito, o domínio do jogo. Os chutões deram lugar a brasileiríssima troca-de-passes — o volume foi duas vezes superior ao da Colômbia. Pode se supor com boa dose de otimismo que na falta de bom desempenho da estrela maior, o resto do time chamou mais responsabilidade para si. Só o futuro dirá se o momento foi inconscientemente premonitório.

A Copa do Brasil estimulou o sonho da vitória tendo Neymar como figura de proa. Não seria diferente da maioria delas em que os atacantes são destaques. Mas a história é uma dama caprichosa. Ela nunca cansa de servir surpresas vindas das fontes menos prováveis. A contusão de Neymar deixou o Brasil órfão. Mas a Seleção ainda tem um anjo da guarda. Um David contra a situação Golias, a que forja os grandes heróis. Ele é um zagueiro de 1, 89 metro de altura. Não seria nenhuma desonra ganhar com a sua ajuda. O fato completaria nossa tradição de maiores vencedores no futebol. Falando assim, o seu nome nem precisa ser citado.

Por Antonio Ribeiro

30/06/2014

às 15:48 \ Copa 2014

Chorar não é sinônimo de amarelar

chorar

RIO — Curioso: não querem que a molecada chore e simultaneamente acham don Scolari durão demais. Qual é o ponto de equilíbrio? Na verdade, não há. Pura carência. Falta de vitória acachapante. Se houvesse, o choro seria bonito e a personalidade rígida uma das razões do sucesso.

Chorar não é sinônimo de amarelar. Choro pode ser um sinal de medo, mas nem todo choro é reflexo do medo. E com isso não se sustenta a ausência de uma notável apreensão por disputar uma copa em casa com a tal “obrigação de ganhar”. É natural.

Na Suécia, em 1958, Pelé chorou copiosamente no peito de Gilmar após a conquista da primeira Copa do Mundo. Liberou o medo contido? Claro que não. Era emoção de alegria de um jovem que viu o pai chorar de tristeza ao pé do rádio depois do Maracanazo.

O goleiro Júlio César chorou antes da disputa de pênaltis contra o Chile. Gesto seguido, enxugou o rosto com o dorso das luvas ásperas e foi lá para debaixo dos três paus. Pegou dois tiros. O Brasil venceu de raspão.

Na engenharia inversa, não se vê uma gota de lágrima rolar pelas bochechas do Felipão à beira do gramado. Aquela carranca toda inspira alguma segurança? Resposta: Não mesmo. Na verdade tenta mascarar uma indisfarçável ansiedade.

Os diagnósticos da psicologia quase nunca fazem unanimidade. Isso até entre os doutos da área. No entanto, se associados a teorias boleiras ficam mais divertidos.  Ainda mais prosaico é quando o país de milhões de técnicos de futebol se converte em território de alguns curandeiros de última hora. Todos prontos e altivos para receitar a emoção ideal dentro das quatro linhas.

Por Antonio Ribeiro

30/06/2014

às 7:22 \ Copa 2014

Matar ou morrer, rezar e torcer

DavidNeymar

RIO — Agora é matar ou morrer. A Copa do Mundo entrou na fase dramática em que o destino se define em uma só partida, seja no tempo regulamentar, na prorrogação ou na roleta russa, dito de outro modo: na disputa de pênaltis. Antes, o Brasil ainda não tinha sido, realmente, ameaçado de deixar a Copa. Neste ponto, duas conclusões emergem sem dar muita margem de dúvida. Por apenas um dado estatístico, o mais importante,  154 gols colocam a Copa do Brasil entre as três melhores. A segunda constatação, talvez menos objetiva, é que a Seleção Canarinho ainda que no aconchego do lar, não apresentou um desempenho semelhante aos nossos melhores na história da competição.

Porém, aos trancos, barrancos e devido à ajuda do árbitro japonês, à sorte da trave e do travessão, ao imenso talento de Neymar e à segurança de David Luiz, ainda estamos vivos. Isso nos remete a seguinte questão: qual a probabilidade de um futebol mediano ir longe em uma disputa de tão alto nível? Numa análise racional chega-se fácil a índice baixo. Ou melhor, pouco confiante. A desconfiança na Seleção tem sido o sentimento mais comum entre os lúcidos. Ele aumentou na partida contra o Chile. A vitória lembrou mais um método inusitado para reduzir população de cardíacos.

A esperança não se esgotou, sobretudo, porque acredita-se que o time brasileiro tem potencial, aquele que venceu a Copa das Confederações. A crença de que o professor Felipe Scolari, mais motivador do que estrategista brilhante, venha tentar outros rumos é mínima. Mesmo na hipótese que alguém lhe apresente a imagem de uma guilhotina  ou da forca para rememorar o mundo real. Felipão materializa de forma emblemática uma lógica bem particular no “país de 200 milhões de técnicos”. A mudança de uma ideia representa derrota maior que a própria derrota. Chame de  estóico o nativo de Passo Fundo para não driblar adjetivo mais feio.

A favor de don Scolari há o fato inalterável no caso de se trocar seis por meia dúzia. Ou Jô por Fred, se preferir. No entanto, argumenta-se que se poderia mudar o esquema tático. Reforçar o meio campo, por exemplo. O do Brasil não constrói nem cria. O problema é que Felipão — nunca ganhou competição longa que exige variar e modular em função de adversários distintos — jamais treinou o time para tal situação ou formulou um plano B. Ele montou o esquema e, em seguida, foi testando peões para preencher as posições fixas no tabuleiro ponto.

Resta rezar e torcer.

Trave

Por Antonio Ribeiro
 

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