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02/05/2013

às 9:10 \ Futebol

Se é Bayern é bom, mas não deslumbra

 

Lionel Messi, o melhor boleiro do planeta, sob risco de romper o músculo quadríceps femural direito, caso pisasse no gramado do lendário Camp Nou, assistiu sentado no banco de reservas a confirmação de uma espécie de Queda de Constantinopla, um divisor de águas, no mundo da bola.

O time do El Pulga, o Barcelona – dominou o futebol mundial nos últimos quatro anos vencendo quatorze campeonatos dos dezenove disputados – tomou três gols do Bayern de Munique e não fez nenhum. Isso depois de já ter levado quatro e tampouco ter conseguido balançar as redes do adversário, no primeiro jogo da semifinal da Liga dos Campeões da UEFA, cujo nível de futebol e organização rivaliza com a Copa do Mundo.

As duas vitórias do Bayern agregadas à vantagem do rival Borussia Dortmund sobre o Real Madrid criou fato inédito. Pela primeira vez, haverá uma final 100% alemã na Champions, prevista para 25 de maio em Wembley, na Inglaterra. O jogo está sendo considerado como símbolo da eventual transferência geográfica do melhor futebol europeu. Ou seja, da Espanha, vencedora da mais recente Copa do Mundo seguido do triunfo na Eurocopa, para a Alemanha.

Em todo caso, ficou patente que o Barça não é mais o melhor time do mundo, como constatou o zagueiro Gerard Piqué i Bernabeu. No entanto, os humilhantes sete gols acumulados do Bayern não foram suficientes para apagar o legado do Barcelona e muito menos para chamar para si deslumbre equivalente ao do time catalão nos últimos anos.

A admiração pelo Bacelona emergiu em um tempo no qual a maioria dos times priorizavam o sistema defensivo. Não perder parecia ser mais importante que ganhar. A equipe catalã passou a buscar o gol de forma frequente mesmo quando vencia por folgada diferença. A filosofia de adaptar um modo antigo de jogar com os imperativos da modernidade veio da cachola do ex-técnico do Barça, influenciado pelo holandês Joham Cruyff, o genial Pep Guardiola. Ele sustentava uma singeleza lógica. Enquanto se tem a posse de bola, o adversário não faz gols e, simultaneamente, tem maiores chances, neste espaço de tempo, de chegar à meta do inimigo.

A concepção do Pep Team é bonita e astuta, mas não é fácil de executar. Ela exige além de talentosos jogadores, um entrosamento quase perfeito para troca de passes. Isso foi possível no Barcelona porque fora alguns reforços posteriores, a maioria dos boleiros jogam juntos desde a escolinha do time calão, La Masia. Ela incorpora também uma noção nova de que o futebol moderno não depende só de dons natural, mas de um longo aprendizado.

Porém, parafraseando o sábio, o futebol é uma caixinha de surpresas. No primeiro jogo, no Allianz Arena de Munique, o Barcelona teve 71% da posse de bola e, no tempo restante, o Bayern enfiou quatro. O time de Jupp Heynckes mostrou que não basta apenas ter a posse de bola, é preciso saber o que fazer com ela. Em Camp Nou, o templo culé, bastaram cinco alemães em permanente marcação entre a linha divisória do campo e a intermédiária inimiga e tudo aquilo que Guardiola lapidou com esmero caiu por terra.

Isso nos remete à seguinte questão, por que o time alemão não será louvado quanto o Barcelona de Guardiola? Ou o Ajax de Cruyff, Santos de Pelé ou Botafogo de Garrincha? Resposta: Porque não há nada de novo nos gramados a nordeste do Rio Reno. A eficácia e pragmatismo são traços de identidade do futebol alemão nos seus melhores momentos. Não faz muito tempo se dizia na Europa que o futebol era um esporte que 22 disputavam a bola e no final, os alemães ganhavam. Por este Oscar eles já foram aplaudidos seguidas vezes ainda que sem se levantar da poltrona.

Por Antonio Ribeiro

17/04/2013

às 14:39 \ Europa

O coração na armadura

Os bordões da catedral londrina de Saint Paul dobraram para Margaret Thatcher. O eco lembrou o fim da existência terrena que a partir de agora pertence a história como a figura política feminina que mais influenciou o século XX. O Reino Unido despediu-se de Thatcher em um funeral solene, com honras militares onde a rainha igualou-se na condição de enlutada com a grande parte de seus súditos. Houve uma minoria de protestos para completar o quadro geral dos casos onde a grandeza não é divina, mas humana.

A controversa Thatcher deixou unanimidade. Além da relevância histórica que transcende as margens do Tamisa, “Dama de Ferro”, o apelido outorgado por jornal soviético, não encontrou questionamentos de veracidade – nem por parte dela mesma. No entanto, David Liddelow teve prova cabal de que mesmo as ligas metálicas mais resistentes tem um ponto de fusão onde a maleabilidade é possível.

Em 1980, David tinha 9 anos de idade. Margaret já era bem conhecida por seguir ao pé da letra a máxima de seu conterrâneo Winston Churchill na qual o celebrado primeiro-ministro inglês sustentava que era “bom ser honesto, mas também importante estar certo.” Neste movimento, a admissão de Thatcher de estar errada não está nos registros ou testemunhos conhecidos.

Filho de pároco anglicano, David escreveu para Margaret Thatcher: “Noite passada, quando estávamos fazendo nossas orações, meu pai disse que todos fizeram coisas erradas salvo Jesus. Repliquei que não achava que a senhora tinha feito coisas erradas porque era primeira-ministra. Afinal, quem está certo, eu ou meu pai?”

Dias depois, David recebeu a resposta escrita a mão em papel com o timbre do 10 Downing Street e assinada por Thatcher: “Há momentos em que dizemos ou fazemos certas coisas que mais tarde, não gostaríamos de tê-los feito. Deveríamos nos desculpar e tentar não repetir!” E adicionou: “Fazemos o melhor, mas o nosso melhor não é tão bom como o de Jesus. Se você e eu devêssemos pintar um quadro, ele não seria tão bom como os dos grandes artistas. Não, nossas vidas não são tão boas como a de Jesus.”

Isso não impediu, ainda bem, que um cartunista inglês tenha desenhado para a ocasião da despedida derradeira, uma charge que mostra Thatcher adentrando os portões do Paraíso. Ao deparar com o marido refestelado e tomando um single malt em mesa apoiada nas nuvens, ela pergunta: “Denis, até agora, quem estava no comando aqui?”

Por Antonio Ribeiro

16/04/2013

às 8:12 \ Terrorismo

“Estarei na próxima”

A onda de choque da primeira explosão derrubou Bill Iffrig. O maratonista de 78 anos de idade levantou-se e cruzou a linha de chegada –  terceira vez em Boston. Em seguida, depois da segunda explosão durante a maratona mais tradicional dos tempos modernos, o natural de Lake Stevens, no estado Washington, disse que estará presente na próxima.

Quando o terror age com sua habitual covardia, ataca a humanidade inteira. Em um primeiro instante, emergem duas perguntas. Quem fez? E a natural incompreensão, por que? Se não se sabe ainda quem, para que a “Justiça jogue todo o seu peso”, como prometeu Barack Obama, a segunda resposta é a de sempre. Embora os terroristas e seus simpatizantes da hora possam avançar as mais esdrúxulas justificativas, trata-se de uma sandice.

Da parte das pessoas de bem haverá o luto respeitoso e a solidariedade com os parentes e amigos das vítimas, na sua maioria de espectadores. Entre eles estava um bostoniano de 8 anos de idade. Como milhares, Martin Richard foi assistir ao evento que reúne atletas do mundo inteiro e congrega tantas pessoas diferentes como em nenhum outro momento na sua cidade, apaixonada por esporte e pelas cores dos locais Celtics, New England Patriots e Red Sox. A irmã de 6 anos de idade do garoto assassinado perdeu uma perna e a mãe sofreu traumatismo craniano.

Desta vez, no entanto os terroristas tocaram diretamente em um grupo de indivíduos cuja resiliência está entre as mais admiráveis do planeta. Enquanto profissionais se esforçam para chegar primeiro, raro momento do esporte onde seus companheiros são também amadores, a maior parte dos maratonistas competem contra si mesmos. A crença férrea na vitória os faz continuar em frente até a linha final. É um dos melhores exemplos para luta permanente contra o terrorismo.

A próxima grande maratona está agendada para o domingo, 21 de abril, em Londres, uma cidade que já foi atacada brutalmente pelo terror em 2005. Desde então, mais precavidos, os londrinos continuam tocando o cotidiano sem se mostrarem aterrorizados. É justamente o que a barbarie deseja menos. Não será surpresa que Boston faça igual. Nick Bitel, diretor executivo da Maratona de Londres confirmou a corrida: “Ela vai acontecer com um sistema de segurança revisto e reforçado.” O mundo livre estará torcendo para os 36.000 maratonistas, gente como Bill Iffrig, e contra o terrorismo.

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Por Antonio Ribeiro

14/04/2013

às 8:04 \ Europa

Curta e fina

A última na França dá conta de um diálogo no Vaticano:

– Olá, eu sou o Papa Francisco, o papa dos pobres.

– Encantado! Eu sou François Hollande, seu fornecedor!

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Por Antonio Ribeiro

11/04/2013

às 13:16 \ Europa

O canal e a mancha

O inverno europeu persiste em ocupar período, por consenso científico concedido pelos ocidentais, próprio a primavera. Mas não é a apropriação meteorológica indevida a razão da semana atípica no Velho Continente. Faz tempo em que os dias não passam sem que a chanceler alemã Angela Merkel não seja acusada de responsável por alguma desventura do euro, a moeda comum de 17 países. Seguido de pedido que seus compatriotas paguem a conta. Desta vez, no entanto, as atenções concentraram-se no legado de Margaret Thatcher e no futuro de François Hollande.

Ainda que um e outro tenham confrontado problemas similares, poucos casais poderiam representar tão bem a antítese quanto a fenomenal diferença entre o francês e a inglesa. Nem mesmo a secular rivalidade entre os seus países, separados por bem mais que os 34 quilômetros na parte mais estreita do Canal da Mancha. E, certamente, mais profunda que os 174 metros de água fria e salgada.

Na longa linhagem de governantes, segundo preceitos da Revolução Francesa, o republicano Hollande lembra mais um monarca. A semelhança com a figura trágica de Louis XVI, o rei guilhotinado, honesto e bem intencionado, é notável. Hollande é a principal figura de uma aristocracia política. Independente da cor da bandeira. Tal qual no Antigo Regime, impacientes com a crise econômica e social, e sem que se aviste uma luz ao fundo do túnel, a maioria dos franceses não reconhece mais os privilégios dos seus eleitos como a contrapartida dos serviços prestados à sociedade.

Inegavelmente, Margaret Thatcher tinha mais ares de rainha que Elizabeth II. No entanto, a conservadora modernizou a sociedade inglesa como nenhum outro dito progressista fez em parte alguma no planeta. Estamos falando da Inglaterra dos anos 80. Um país que tinha mercado de trabalho mais engessado e dependente do diktat sindical que a França de 2013. Um ambiente político mais entravado que atual Itália. Uma monarquia, como poder moderador, menos respeitada que na Espanha hoje.

Não é por nada que mentes européias mais lúcidas clamam por mais thatcherismo do que buscam em Hollande, governante mais de promessas que promissor, como atalho para melhores tempos. Não é exatamente liberalismo que querem embora mal não faça para os tempos bicudos. Passivos como Hollande carburam extremismos e populismos. Desastrosos paliativos. Líderes como Thatcher provocam debates vibrantes. É aí, na fricção de energias, que emergem as soluções. Isso desde o Big Bang, a origem do universo

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Por Antonio Ribeiro

09/04/2013

às 16:17 \ Europa

A dona de casa sensata

"Aqui são 48 contra 1, sinto muito pelos 48"

Thatcher foi uma liberal no senso clássico do termo. O indivíduo é mais valioso que o coletivo.  Não tem nisso nada de “neo”. A única novidade é que ela colocou, efetivamente, o pensamento na ordem do dia – e na prática. Isso depois de décadas de tentativas sem êxito. Quais? Debelar a inflação por decreto, controlar  os preços e os salários, se imiscuir nas relações entre capital e trabalho e diminuir o desemprego com paliativos. Enfim, aquela velha história. Nunca deu certo em parte alguma nem em tempo nenhum.

Thatcher fez dar. Muito a seu modo, é verdade. “Não há alternativa”, dizia ela. Não havia, mesmo. Ou era mais fracasso. Resistiu aos barões do sindicalismo radical inglês que, de forma intransigente, colocavam seus interesses proprios à frente e, em efeito, os primeiros-ministros de joelhos. Thatcher levou de volta o poder para onde os ingleses o legitimam pelo voto. Quer dizer, o numero 10 da Downing Street, sede do governo. Moradia apequenada para padrões de conforto no Leblon ou Jardins. E o fez enquanto a vasta maioria de pessimistas, inclusive os que compartilhavam seu ideário, pensava não haver mais solução.

Lê-se em la prensa, “morreu o ícone do neoliberalismo”. O que vem a ser exatamente? O autor da estrovenga ouviu dizer e achou bonito. Lembra mais relíquia ortodoxa que serve como objeto de decoração em mansão de oligarca russo.  Se preferem, os novos ricos amigos do Vladimir Putin. Nem os desafetos da Thatcher no Reino Unido a chamam de “neoliberal”. “Gritam chavões que caíram em desuso até em Cuba”, diria a blogueira Yoani Sánchez.

Gostem não gostem, Thatcher foi liberal ponto. Mais especificamente, uma dona de casa sensata que, com presciência fazia contas e economizava, como tantas outras, para fechar o mês da família no azul. Ela pode ter lido Friedrich von Hayek, Ludwig von Mises e Karl Popper, mas não era bem uma ideóloga que pregava doutrinas. O bom funcionamento da mercearia do pai – honesto como pastor de antanho e crente na responsabilidade individual – no térreo do apartamento em que cresceu, falava mais forte como empirismo bem sucedido.

Neoliberalismo foi termo cunhado pelo acadêmico alemão Alexander Rüstow em 1938 durante colóquio para diferenciar, de forma puramente didática, uma linha que, dizia ele, afluente do conceito clássico. Opositores da ditadura chilena nos anos 70 acharam por bem recuperar o termo. Deram-lhe uma conotação pejorativa sem nenhuma relação com o embasamento teórico e pronto. Os mais bobos repetem, neoliberal, neoliberal. Ouviram o galo cantar sem saber aonde. Thatcher não tem nada ver a com isso ainda que se possa  querer muito.

Em tempo: o governo Reino do Unido agendou para o 17 de abril, funeral com honras de estado para Thatcher. Trata-se de um reconhecimento merecido para quem “salvou o reino”, segundo o primeiro-ministro David Cameron.  No entanto, Thatcher deixou claro, enquanto viva, que não queria. Achava despesa desnecessária com dinheiro do contribuinte. Igual a ela mesma, all the way.

Por Antonio Ribeiro

04/04/2013

às 5:40 \ França

Tesoureiro de Hollande tem investimentos em paraíso fiscal

Jean-Jacques Augier, tesoureiro do socialista François Hollande na campanha presidencial francesa de 2012, é acionista através da sua holding financeira Eurane de duas empresas offshore em George Town, capital das Ilhas Caiman, paraíso fiscal britânico no Caribe.

A revelação é do vespertino francês Le Monde e do diário britânico The Guardian a partir de dados do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), consorcio americano de investigação jornalística que tem ao seu serviço, 160 repórteres em 60 países.

“Não tenho conta bancaria pessoal nem investimento pessoal direto nas Ilhas Caiman. Investi nas empresas por intermédio da filial na China da Eurane, a Capital Concorde Limited, uma holding que administra todos os meus negócios chineses”, disse Auguier. E arrematou: “O investimento aparece no balanço anual da filial. Nada é ilegal”

Na França, o código geral de impostos determina que se uma empresa com sede no país tem entidade jurídica instalada em paraíso fiscal, diretamente ou através de filial, e se essa entidade não tem atividade econômica real, mas possui bens passivos (dividendos, empréstimos, etc) eles devem ser, obrigatoriamente, declarados ao fisco francês.

Amigo de Hollande, Jean-Jacques Augier, 59 anos de idade, foi colega de formatura do Presidente da França, a turma “Voltaire”, na Escola Nacional de Administração (ENA) pública da França. Fez fortuna depois de ser convidado por André Rousselet, amigo do ex-presidente socialista François Mitterrand, para dirigir em 1987 a companhia de táxis parisienses G7 que à época, operava no vermelho. Após treze anos de administração bem sucedida, deixou a empresa com “parachute doré”, uma indenização de 11 milhões de euros. Além de negócios na China, o Augier edita a revista literária Books e Têtu, o primeiro mensal francês dedicado a leitores homossexuais.

A notícia de investimentos do ex-tesoureiro da campanha presidencial socialista em um paraíso fiscal emerge durante um dos maiores escândalos da política francesa recente que atingiu em cheio o governo François Hollande. Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França, foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra – negou durante quatro meses. Posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferiu o montante da conta para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.  Cahuzac fazia igual a quem ele era o principal responsável de perseguir, sonegava.

 Leia também: “Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

Por Antonio Ribeiro

03/04/2013

às 13:11 \ França

Cidadão acima de qualquer suspeita na República exemplar

É um daqueles casos em que a imaginação é obliterada pelos fatos. O parlamentar socialista Jérôme Cahuzac, ex-ministro do Orçamento da França no governo François Hollande foi indiciado pela Justiça por lavagem de dinheiro e fraude fiscal depois de confessar aos juizes de instrução Roger Le Loire e Renaud Van Ruymbeke, do Polo Financeiro do Tribunal de Grande Instancia de Paris, possuir conta bancaria não declarada no União dos Bancos Suíços, em Genebra, durante 20 anos e, posteriormente, quando foi eleito Presidente da Comissão de Finanças da Assembléia Nacional, transferir o montante para a filial suíça do banco Julius Baer, em Singapura.

Seria mais um caso corriqueiro de político se Cahuzac não fosse, ele mesmo, o responsável durante onze meses de caçar sonegadores do fisco francês. Isso em um governo cujo alto escalão é contumaz em ministrar lições de probidade em nome da “Republica exemplar”. E, sobretudo, por ter alegado inocência peremptoriamente desde de dezembro do ano passado quando emergiram as denúncias do Mediapart, um site de informação no web francês.

Em declaração que entrará para a história das lorotas deslavadas pronunciadas com desfaçatez no plenário da Assembléia Nacional da França, a versão atual mais próxima de Pinóquio na França – ou Dominique Strauss-Khan ou Lance Armstrong – disse o seguinte aos seus colegas deputados e sob o foco do canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat: “Eu não tenho e nunca tive uma conta bancaria no exterior, nem agora nem antes.”

O eleitor francês anotou mais um elemento que contribui sobremaneira no descrédito que ele tem pelos políticos e manifesta de forma mais nítida nas altas abstenções das eleições. No país onde se tem mais temor dos agentes do fisco que da polícia, o contribuinte se pergunta por que ele deve pagar impostos sempre mais onerosos se quem os monitora com modos de Big Brother e fome de Gargantua não dão exemplo?

A lorota atrevida de Cahuzac, cirurgião especialista em implante capilar para dissimular a calvice, provocou as perguntas naturais dos momentos onde o guardião da virtude é pego em flagrante delito e, em efeito, os embaraços voam em formação de esquadrilha: o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault e o presidente François Hollande sabiam das peripécias do seu ex-ministro?

Hollande apareceu na TV com ar enfezado. Disse, de cara, estar estupefato e colérico pela mentira e pelo “ultraje à República”. O governo, de acordo com o presidente, não protegeu seu ex-ministro. A imprensa francesa, em contrapartida, sustenta que o Ministério do Interior havia informado o presidente através de um relatório de três páginas. Havia também outro indício forte. Uma gravação na qual um interlocutor menciona a sua conta secreta na Suíça – peritos dizem que a voz tem alta probabilidade de ser a de Cahuzac. Hollande, ainda segundo ele mesmo, só soube da coisa feia ontem como todos mortais. “Das duas uma, ou o presidente sabia e é grave, ou não sabia e é um ingênuo, o que é igualmente grave”, disse Jean-François Copé, líder da UMP, a principal formação da oposição.

Ademais, Hollande comunicou aos franceses que estava tomando medidas consequentes. Quais são elas? Reforçar a independência da Justiça, um projeto que está sendo elaborado pelo Conselho da Magistratura, a ser votado mais para frente. Segundo, um projeto de lei do governo visando tornar público o patrimônio dos parlamentares e ministros. Uau! Terceira medida para pasmar e completar o “processo de intenções”: “Todo eleito condenado penalmente por fraude ou corrupção perderá o mandato.” Gesto final, embarcou para Casablanca, “We’ll Always Have Paris”, no Marrocos.

Leia também: “Hollande: outros dedos na mesma tomada

Por Antonio Ribeiro

02/04/2013

às 15:24 \ França

Hollande: outros dedos na mesma tomada

No início de mandato, todo governo novo comete erros infantis. “É batata”, diria o Nelson Rodrigues. Isso não significa que por volta dos 45 minutos do segundo tempo, governantes experientes façam só o certo. No entanto, depois de introduzir os dedos na tomada, a tentativa de levar choque torna-se menos provável.

O governo do Presidente da França e Co-príncipe de Andorra, François Gérard Georges Nicolas Hollande, não é assim tão imaturo mais. Os socialistas vão entrar daqui a um mês na puberdade do mandato quinquenal, farão um ano no descontrole do país. Porém, parecem fazer parte de categoria distinta. No lugar de testar se outra tomada passa corrente elétrica, trocam os dedos e os enfiam na mesma. O choque é igual.

O caso mais emblemático foi a criação de uma taxa de 75% nos rendimentos acima de um milhão de euros anuais dos franceses e residentes no país. Em um primeiro instante, a medida causou escárnio e provocou deboche. Quando se deram conta que não era anedota, investidores que tinham um pé atrás em relação a França, recuaram o segundo.

Enricados, como o empresário Bernard Arnault, ao invés de prepararem o formulário de Imposto de Renda, solicitaram residência do outro lado da fronteira. Menos discreto que outras celebridades que vão morar na Suíça ou Mônaco para fugir do fisco francês, Gérard Depardieu virou russo com passaporte entregue em mãos por Vladimir Putin e, doravante, reside oficialmente – ou espiritualmente –  em Néchin, na Bélgica.

"Jamais tive conta na Suíca ou no exterior"À época, o ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, foi indicado para explicar a tunga governamental. Isso com aquela retórica populista pela qual se aponta os bem sucedidos como causa dos males e sua punição, o desfecho natural. Detalhe edificante: Cahuzac, o responsável no governo socialista francês pela caça aos sonegadores do fisco, acaba de ser indiciado pela Brigada Financeira por lavagem de dinheiro depois de confessar possuir uma conta bancária não declarada na Suíça durante mais de 20 anos – antes negou tudo peremptório em frente aos deputados em sessão aberta na Assembléia Nacional com transmissão em tempo real pelo canal aberto de televisão Chaîne Parlementaire /Public Sénat.

Finalmente, o Conselho Constitucional, a mais alta corte da França, julgou a medida dos socialistas ilegal. Mas Hollande quer testar a mesma tomada com outros dedos. Dito de outro modo: agora, o presidente quer que as empresas paguem os 75%. Nem a administração fiscal apóia a medida que atinge em torno de 2.000 contribuintes e fará entrar menos de 200 milhões de euros nos cofres do estado. “A medida tem um símbologia política”, dizem os socialistas instalados no Palácio do Elysée. De fato, tem mesmo. Contudo, o sinal que ela envia é econômico: não motiva investimentos que a França carece tanto. É o inverso que acontece. Espanta.

A popularidade do “Presidente Normal” quando a França passa por uma crise extraordinária – dívida pública acumulada equivante a 90,2% du Produto Interno Bruto e desemprego com dois dígitos – despenca a velocidade inédita na história da V República desde 1958 quando foi criada. Apenas 3 em cada 10 franceses confiam no governo Hollande. Nicolas Sarkozy levou quatro anos para descer tão baixo. Há também uma outra diferença, a antipatia dos franceses por Sarkozy foi mais por como ele era do que pelas suas ações. A figura de Hollande causa menos desagrado, no entanto para muitos franceses cuja paciência esgotou, a sua ação é nula.

Estava escrito nas estrelas.

Leia também. “Os Arcos da Derrota

Por Antonio Ribeiro

28/03/2013

às 13:34 \ Esporte

Os Arcos da Derrota

Marquês de Pombal

Enquanto em Paris o Arco do Triunfo, velho ponto turístico da capital francesa, continua mesmerizando visitantes, o Rio tem uma nova atração que a prefeitura do balneário carioca aconselha ficar distante. Trata-se dos “Arcos da Derrota”. Eles ficam em cima de dois pilares junto ao Engenhão, estádio municipal sob auspícios do Botafogo e palco previsto para as provas de atletismo dos Jogos Olímpicos de 2016.

Segundo descritivo técnico, os arcos do Engenhão vencem vãos de 220 metros, no sentido leste oeste. De acordo com recente avaliação técnica da empresa alemã Schlaich Bergerman und Partner (SBP), responsável pela cobertura do Maracanã, a beleza pode desabar com vento de 63 quilômetros por hora, vindo de qualquer ponto cardeal.

Poder-se-ia argumentar que algumas arrojadas inovações arquitetônicas sofrem ajustes com o passar do tempo. Sucede que a estrutura do Engenhão não é, por assim dizer, nenhuma invenção da roda nem descoberta da pólvora. A cobertura do Estádio da Luz, em Lisboa, por exemplo, é muito semelhante à do Engenhão. No entanto, lá não houve problemas.

Ademais, “A Catedral”, do Benfica, é mais antiga. Foi construída em 2003 para a Eurocopa do ano seguinte. O estádio português tem capacidade superior – 65.600 lugares. Enquanto o Engenhão foi inaugurado nos Jogos Pan-Americanos de 2007 e acolhe menos torcedores – 46.900 lugares. Detalhe edificante: o Estádio da Luz custou 306 milhões de reais e gastaram-se 380 milhões de reais na construção do Engenhão, seis vezes mais do que o orçamento inicial.

Apesar de complicar a logística do Campeonato Carioca de futebol, a vida de atletas que têm o Engenhão como única opção para treinar, e de causar prejuízo ao Botafogo, o clube mais endividado do Brasil – o estádio alugado é a maior fonte de renda do Glorioso alvinegro –, Eduardo Paes, prefeito do Rio, tomou atitude sensata ao interditar o lugar. A segurança da população é prioridade em qualquer caso. Contudo, isso não basta.

Uma administração pública com um pouco de brio arregaçaria as mangas e não se sossegaria enquanto não transformasse o Engenhão em um dos estádios mais seguros do mundo. Evidentemente, vai sem dizer, o custo deve ser dos responsáveis pelos estragos não só da obra, mas da imagem do Rio. Parece piada ruim a cláusula contratual que isenta depois de apenas 6 anos os construtores (Delta e o Consórcio Odebrecht-OAS) de uma obra com a envergadura do Engenhão. Por vezes exagerado, o dito popular “Só no Brasil” aqui está em plena conformidade com a realidade.

O engenheiro Flávio D’Alambert, da empresa Projeto Alpha, responsável pelo projeto da cobertura do Engenhão, sustenta que a obra é segura. Ótimo. O Marquês de Pombal chegou a dormir ao relento depois do terremoto de Lisboa, em 1755. Isso para assegurar a população lisboeta que não havia mais perigo e que o fenômeno natural não era um castigo divino como sustentava o baixo clero local.

Se o projetista da cobertura do Engenhão acha que a cobertura do estádio é segura, ele poderia erguer uma barraca debaixo da estrutura e fazer ali seu escritório temporário. E quando o vento soprasse a mais de 63 km/h, convidar a família para um piquenique e seu amigos mais chegados para um convescote.

Leia também: “A história da frase ‘O Brasil não é um país sério’ que o francês Charles de Gaulle nunca disse é mais divertida.”

Por Antonio Ribeiro
 

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