Blogs e Colunistas

17/11/2014

às 17:52 \ História

Chapéu mais caro do mundo encontra cabeça disposta comprá-lo por 1,9 milhão de euros para não ser usado

napohat

Qual a principal utilidade do chapéu desde os primórdios? Resposta: proteger a cabeça contra as intempéries climáticas. Mas há quem use a cobertura como adereço. Ou seja, serventia prática nenhuma. Uma variante comum: o porte do ornato como símbolo de poder. Doravante, há caso ímpar. O de quem paga 1,9 milhão de euros (2,5 milhões de reais) por exemplar. Mais raro ainda: a compra não tem o uso pessoal como objetivo.

Aconteceu em Fontainebleau, subúrbio de elevado preço do metro quadrado à 55 quilômetros sudeste de Paris e vizinha de magnífico parque florestal. Durante leilão organizado pela Maison Osenat, Karim Hong Kuk, presidente do grupo de produção alimentar sul coreano Harim, arrematou chapéu bicórnio (duas pontas) de Napoleão Bonaparte por soma jamais desembolsada na aquisição de peça moldada em feltro de castor.

Trata-se de um dos 19 exemplares identificados e autenticados que pertenceram ao imperador francês nascido na Córsega. Estima-se que durante os 15 anos em que governou a França, Bonaparte tenha usado cerca de 120 chapéus. Metade deles foram encomendados a chapelaria parisiense Poupard et Delaunay que fabricava um para o imperador afrontar cada estação do ano.

O desenho do bicórnio de Napoleão tem quase tanta fama quanto a forma elegante da Torre Eiffel. Na verdade, os contornos do chapéu são mais conhecidos na cultura popular do que os traços físicos do imperador que deixou a França com menor área desde que colocou a coroa na própria cachola. Porém, mais gloriosa. Isso tanto pelas batalhas vitoriosas e sobremaneira no campo penal, devido a introdução do código napoleônio, referência maior pelos seus derivados no universo jurídico.

De fato, o hábito não faz o monge. No mais das vezes, ocorre o contrário. Um duque inglês esqueceu de abotoar a parte inferior do seu paletó e pronto, virou moda. Napoleão conferiu fama ao chapéu de dois bicos, uma variação do tricórnio usado no período colonial americano, colocando as extremidades não em paralelo ao nariz e a nuca (“en colonne”), mas com a linha que vai de um ombro a outro (“en bataille”).

Conta a lenda que a escolha teve caráter estratégico. Dito de outro modo: para dar melhor visibilidade e identificar o imperador na confusão dos campos de batalha e entre as plumagens dos seus generais. Em ocasiões engaladas, os carabinieri, policiais italianos, ainda usam o bicorne assim, a maneira de Bonaparte. Desta vez, por exibicionismo ou por alguma outra razão não declarada.

O chapéu lendário pertencia a coleção da Casa Grimaldi, os soberanos de Mônaco. O príncipe Albert II justificou a venda de parte da herança do bisavô Louis II para pagar reformas do palácio — lembra mais uma fortaleza no topo de um rochedo à beira do Mar Mediterrâneo, em Monte Carlo. O bicórnio de Bonaparte teria sido recuperado originalmente em junho de 1800, durante a famosa Batalha de Marengo contra a monaquia austríaca dos Habsburgos, no Piemonte, noroeste da Itália. Joseph Giraud, veterinário nas cavalariças do imperador, recolheu o chapéu e o levou para casa como troféu de guerra.

O colecionador Karim, admirador de Bonaparte desde a adolescência nos bancos do colégio, achou o preço pago pelo chapéu insignificante. De fato, mais dificil foi usá-lo de tal forma que hoje, o adorno pode se exibir em uma redoma de vidro na Ásia, continente em que o imperador francês, um tenente desconhecido até dominar a Europa com pouco mais de trinta anos de idade, nunca colocou as botas. Conquistou, no máximo, admiração sem preço. Embora o Lula tenha declarado certa altura, como os que afirmavam altivos que a Terra era plana: “Quando Napoleão esteve na China…”

Kim e Jean-Louis David: bons tratos ao chapéu do admirador

Kim Hong Kuk e o quadro de Jean-Louis David: bons tratos ao chapéu do imperador

Por Antonio Ribeiro

12/11/2014

às 16:41 \ Brasil

A castástrofe permanente

tiro

 

Em um país no qual são assassinados, em média, um indivíduo a cada 10 minutos como informa o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2014, só há algo mais relevante, a inépcia para reverter rapidamente a curva. Enquanto não acontece, o cidadão corre risco permanente de nos 10 minutos seguintes ir para o cemitério e, simultaneamente, virar número na estatística tenebrosa.

A premissa acima só tem algum significado no conjunto de ideias e princípios que forjaram as democracias modernas. O cidadão, por exemplo, é bem mais que o bobo a ser enganado em período eleitoral ou genero especial de vaca leiteira, o Bos taurus que só tem existência considerável quando paga os impostos. No resto do tempo, não é estatística, mas gente cuja vida tem valor tanto para família e amigos como para o governo da hora.

Em um país que tem, em média, 6 homicídios por hora, 53 mil no total, o que é a ameaça do ebola que fez 5 mil mortes no Oeste da África? A seca, a ansiedade da prova do Enem, a investigação do petrolão? Qual a importância do nome do próximo ministro da Economia? O que são os desagrados do cotidiano perto de uma situação mais grave que as calamidades públicas renitentes?

Trata- se de uma “catástrofe natural” que aumenta o seu efeito nefasto todo ano. No entanto, não provoca as reações de governantes que mobilizam fundos e braços quando a natureza manifesta a sua fúria. Está ai, um estado de sítio informal de uma população inteira. Merecia ser tratado como a primeira prioridade, na primeira hora seguinte a sua constatação.

Por Antonio Ribeiro

28/10/2014

às 15:30 \ Brasil

Debate na tv francesa sobre reeleição de Dilma por margem curta. O novo cenário: país dividido e oposição real. E o velho: economia frágil e corrupção renitente

Convidado por Michel Field, apresentador do programa Le 5 à 7, da LCI, a TV francesa de notícias 24 horas por dia, participei junto com Stéphane Monclaire, professor de ciências políticas na Sorbonne e especialista em assuntos brasileiros, de debate sobre a reeleição de Dilma Rousseff por margem reduzida de votos. O novo cenário: país dividido e oposição real. E o velho: economia frágil e corrupção renitente.

O vídeo do debate (em francês):

Por Antonio Ribeiro

27/10/2014

às 17:37 \ Brasil

De Dilma, os europeus querem saber mais sobre o futuro

Dilma

A imprensa européia tratou a reeleição de Dilma Rousseff quase como um rito democrático protocolar. Mesmo a revista britânica The Economis que na semana anterior tinha aconselhado o voto em Aécio Neves lembrou que nas últimas três décadas, apenas três presidentes na América Latina não conseguiram se reeleger.

A percepção pode causar espanto em quem acompanhou de perto a eleição mais acirrada da história republicana. A vitória de Dilma teve uma margem de apenas de 3% dos votos. Ela tampouco reflete a violência do debate no qual foi usada uma das armas mais pesadas do arsenal da infâmia. Lula, principal porta-voz do PT, para desqualificar o adversário que acabou colhendo mais de 51 milhões de votos, o acusou de pertencer a partido semelhante aos “nazistas”.

Tampouco levou-se muito em conta que a mentira encontrou condições climáticas e campo fértil para brotar viçosa e conquistar corações e mentes, sobretudo, dos mais inocentes. Os europeus conhecem de cor o discurso do medo e, por mais das vezes, dedicam solene indiferença. O estadista prussiano Otto von Bismarck sustentava no século XIX que as guerras, as eleições e as caçadas eram momentos propícios para as lorotas deslavadas.

Os europeus de um modo geral estavam mais interessados nas eleições na Ucrânia para saber se os eleitores do leste iriam escolher deputados mais favoráveis à União Européia ou à Rússia de Putin. No domingo, enquanto o Brasil fervia, as emissoras de radio e TV na França levavam ao ar mais boletins sobre as legislativas na Tunísia onde os islamistas perderam a eleição.

No Velho Continente, a curiosidade maior não é bem como Dilma manteve o poder, mas de que maneira irá governar com situação até então inédita. Ou seja, o país nitidamente divido em dois. Se adicionados os 32,3 milhões de eleitores que não quiseram votar em Dilma ou Aécio, é praticamente impossível se ter algum sucesso fazendo de conta que se obteve unanimidade na preferência nacional.

O vespertino francês Le Monde pergunta quem será o ministro da economia capaz de tirar o país da estagnação cuja previsão de crescimento para 2014 é perto de zero e a inflação acumulada em 12 meses, bate em 6,75%? O principal diário da Alemanha, o Allgemeine Zeitung, afirma que a reeleição de Dilma não põe fim nas investigações de corrupção na Petrobrás e que, finalmente, depois de 12 anos, a oposição parece ter acordado além de ter doravante um cacife de votos formidável.

Por Antonio Ribeiro

08/10/2014

às 18:31 \ Brasil-França

Monsieur Neves surpreende como intruso no cenário idílico

LCIRibeiro

Boa parte da imprensa francesa esperava um cenário idílico nos trópicos. A disputa de duas mulheres no segundo turno da eleição presidencial no Brasil. De um lado, teria-se a primeira presidente-mulher e do outro, uma espécie de “Lula de saias”, personagem “pétillante”, como  dizem os nativos aqui. Tão adstringente e crepidante quanto o efeito das bolhas de champanhe nas papilas gustativas.

A chegada do senateur Neves, desconhecido como o soldado enterrado no Arco do Triúnfo e cujo nome Aécio, os franceses — e não só eles — têm uma certa dificuldade em pronunciar, colocou água no chope da expectativa. Foram pegos de surpresa

Convidado por Michel Field, apresentador do progama Le 5 à 7, da LCI, a TV de notícias 24 horas por dia, participei com muita honra junto  com o amigo Andrei Netto, correspondente de O Estado de São Paulo e Jean-Jacques Kourliandsky, especialista em América Latina do instituto IRIS, de debate sobre os resultados do primeiro turno e as perspectivas da reta final.

Confira o papo no vídeo abaixo.

Por Antonio Ribeiro

25/09/2014

às 5:42 \ Diplomacia

Pois bem, então qual seria o argumento de Dilma Rousseff para dissuadir os terroristas da sanha de matar inocentes?

ISIS

Quase que no mesmo instante em que a presidente do Brasil Dilma Rousseff subiu na tribuna da Assembléia Geral das Nações Unidas e diante de representantes de 120 países sustentou o diálogo para resolver todo tipo de conflito internacional, os terroristas do Estado Islâmico cortaram a garganta de mais um cidadão pacífico, o guia de montanhismo Hervé Gourdel, de 55 anos de idade. Desta vez, simplesmente, porque ele era francês. As três vitimas anteriores, dois americanos e um britânico, foram decapitadas por razão semelhante: a nacionalidade.

No dia anterior, ao desembarcar em Nova York, Dilma disse a jornalistas que “lamentava enormemente” os ataques aéreos dos americanos, franceses e aliados árabes às bases dos terroristas na Síria. Segundo a presidente, “o uso da força é incapaz de eliminar as profundas causas dos conflitos internacionais.” A noção da petista foi prontamente rebatida por Barack Obama cujo temperamento não tem os traços comuns aos belicosos de primeira grandeza e o perfil não lembra a figura do falcão: “Não pode haver negociação, a única linguagem que assassinos deste tipo entendem é a da força.”

Convite ao diálogo

Convite ao diálogo

As perguntas que emergem como lavas de vulcão é que tipo de diálogo a presidente do Brasil imagina possível com os sanguinários “Soldados do Califato”? Uma parte entra com o pescoço e os terroristas com o punhal afiado? Qual seria o argumento de Dilma para dissuadir os assassinos da sanha de matar inocentes? “Olha, meus queridos, não façam isso porque é feio”?

Dilma também explicou a seu modo inconfundível a contrariedade com os bombardeios: “Sabe quando você destampa a caixa e saem todos os demônios?” Talvez ela tenha pensado na Caixa de Pandora, mas a premissa partiu torta. O que se sabe é o seguinte: demônios não respeitam limites nem de caixas bem embrulhadas e muito menos, esperam que elas sejam abertas para agir tal qual o gênio da lâmpada. A existência dos demônios bastam para configurar ameaças, letais em última instância.

É espantoso que numa espécie de Terra do Nunca, por estar em clima de período eleitoral, se deu mais atenção ao fato de Dilma usar a oportunidade reservada ao Presidente da República para fazer discurso com fins eleitoreiros. Por certo a bajulação ao seu próprio governo foi inadequada, mas não seria muito diferente se fosse o caso de outro presidente de qualquer democracia brigando pela reeleição. Ademais, extraiu-se como relevante no discurso da presidente as suas diferenças com a candidata Marina Silva na questão das mudanças climáticas como se fosse grande novidade ou descoberta. Impressionante.

Enquanto isso, a jugular de Gourdel gotejava sangue na areia.

Alguns podem atribuir tamanha insensibilidade e indiferença com a barbárie a um país anestesiado por mais de 56 mil homicídios por ano. Mas no particular, seria um insulto grotesco a milhões de brasileiros que apesar de assistirem em seu cotidiano a disseminação do crime e sua impunidade ainda guardam o sentido da decência e humanidade. Entre estes brasileiros há um contingente de eleitores que irá votar em breve. Por menor que seja a quantidade de votos contra a leniência e desfaçatez que os governantes petistas têm em relação ao crime, haverá esperança de que a prática da barbárie não é aceita de forma tão natural como o mineral.

Por Antonio Ribeiro

21/09/2014

às 7:00 \ Europa

A próxima parada do separatismo europeu: Catalunha

Catalunha3

No Velho Continente há 37 movimentos separatistas e regionalistas com, no mínimo três representantes no Parlamento Europeu. Juntos, eles formam a Aliança Livre Européia. O referendo na Escócia representava acalento para o independentismo se alastrar como possibilidade de desmembrar uma região de país da União Européia (UE) e, em consequência, os seus líderes serem obrigados a se virar para acomodar a mudança.

O voto escocês, resultado de um processo democrático — e debates serenos mesmo sob o efeito etílico do uísque puro malte — tira ímpeto da onda para redesenhar o mapa da UE, mas não marca o seu fim. Se depender do presidente da região espanhola da Catalunha, Artur Mas e de seus aliados da Esquerda Republicana a próxima etapa será dia 9 de novembro.

A liderança separatista catalã vai propor aos seus conterrâneos duas questões: “Quer que a Catalunha seja um Estado? Quer que seja um Estado independente?” Isso acontece em uma região de 7,2 milhões de habitantes distribuídos em 32 quilômetros quadrados onde o nível de autodeterminação do governo local e autonomia orçamentária (29,3 bilhões de euros) são mais elevados que as dezoito torres do Templo Expiatório da Sagrada Família, a obra inacabada do arquiteto Antoni Gaudí, na capital Barcelona. No terço mais ao norte do Reino Unido, elas são apenas reivindicações.

Na Escócia, o plebiscito não foi convocado de forma unilateral ou licenciosa. O primeiro-ministro britânico David Cameron e o nacionalista Alex Salmond, então primeiro-ministro escocês, assinaram um tratado. Na Espanha, uma das nações mais descentralizadas do planeta, o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy, do Partido Popular, empenha-se para bloquear o referendo catalão (orçado em  mais de 10 milhões de euros), pelo menos por enquanto. Ele enviará a questão para o Tribunal Constitucional (TC) formular um parecer.

A análise pode durar meses. Bem provável que, ao final, a maioria dos 12 magistrados do TC seja contraria à manobra de secessão. No entanto, Mas poderá promover o referendo antes da decisão da mais alta corte espanhola. Outra alternativa seria convocar eleições regionais antecipadas associadas à consulta de separação.

Note-se aí, o desejo é de independência, mas nem tanta. Dito de outro modo: Catalunha emancipada, mas sem perder o sustento provido pelo dinheiro espanhol, uma espécie de divórcio com pensão alimentícia. Em ambos os casos, o referendo será considerado ilícito e, em efeito, a encrenca estará armada. Do ponto de vista dos separatistas, a desobediência civil configura passo almejado e, por certo, não uma transgressão institucional.

O separatismo europeu vai fundamentalmente na contra-mão da história. No século XX, em um continente pequeno, países aliados e ex-inimigos em disputas, rixas, rancores e guerras sanguinárias se reuniram na formação da União Européia. Isso para ter mais força, influência e aplainar diferenças. O manejo força admiração mundial. No século XXI, em países ainda menores e com populações reduzidas, as lideranças locais, como os antigos senhores feudais, os duques e príncipes, carburam as particularidades para fragmentar tendo com objetivo último, assumir o governo.

Colaboração do leitor Maurício Martinez: Catalunha e País Basco no mapa da Espanha

Colaboração do leitor Maurício Martinez: Catalunha e País Basco no mapa da Espanha

LEIA NO BLOG DE PARIS O POST: “No lugar da independência, a divisão

Por Antonio Ribeiro

19/09/2014

às 5:31 \ Europa

No lugar da independência, a divisão

escocia

O líder nacionalista escocês Alex Salmond no lugar de promover a independência do seu país com o Reino Unido, dividiu a Escócia em duas. A frase que você acaba de ler comporta duas derrotas, mas não, necessariamente, igual número de vitórias.

A primeira é clara e nítida. Quase nove em cada dez eleitores escoceses — alguns com apenas 16 anos de idade e outros mais propensos a abstenções eleitorais — foram às urnas e 55% deles cravaram “não” a independência enquanto que 45% mostraram-se favoráveis ao rompimento de uma união que já festejou bodas de 300 anos.

Se a Union Jack se manteve no alto dos mastros fincados na Escócia e a libra esterlina recuperou força com o resultado do referendo, muitos parlamentares ingleses começam a recriminar a “passividade imprudente” com a qual o primeiro-ministro britânico David Cameron administrou o risco separatista.

Doravante, deputados ingleses estão nada inclinados a conceder mais autonomia para Escócia em troca de eventual “traição” e, simultaneamente, reivindicam menos interferência dos 59 parlamentares escoceses em questões inglesas. Cameron reagiu prometendo mais “votos ingleses nas questões inglesas.”

Seria impreciso investir nas particularidades escocesas — algumas exóticas como o ritual Quarup — para justificar o sonho de independência. A questão se encaixa em paisagem mais ampla. A Escócia foi a bola da vez nos movimentos separatistas em que se explora o orgulho fora do lugar e promete quimeras, no caso, a independência, para aplacar desesperançosos. Por trás do separatismo há sempre um grupo interessado em governar o futuro país. Isso é mais forte do que qualquer outro motivo.

Até fins dos anos 90, o grêmio dos separatistas era um partido marginal no qual apenas um entre quatro escoceses votavam a favor. Ou seja, se houvesse um desejo real e incontido pela independência, o Partido Nacionalista Escocês seria o mais popular do país. Aliás, como acontece em casos semelhantes.

Em termos de autonomia, a situação só melhorou para o lado escocês. O exemplo emblemático foi a criação de parlamento próprio em Edimburgo dotado de vastos poderes inclusive os de formar um governo, decidir sobre questões internas, legislar sobre educação, saúde, justiça e convocar referendos — Londres tem prerrogativas na defesa e política fiscal.

Tampouco parecia sério o argumento que ficar integralmente com as receitas da exploração do petróleo compensaria desmantelar uma integração que permitiu a Escócia se desenvolver mais do que se fosse pequena nação independente com população de 6 milhões de habitantes.

Por Antonio Ribeiro

03/09/2014

às 11:06 \ Democracia

Duzentos milhões de presidentes

200milhoes

 

Por Nelson Ascher, especial para o Blog de Paris

Há gente bem intencionada que já está celebrando a provável vitória eleitoral de Marina. Acham um avanço ainda maior que levar primeiro um ex-operário e, em seguida, uma mulher à presidência seria eleger uma mulher negra e de origem humilde. Há nisso uma dimensão simbólica relevante, mas de exagero fácil.

Quando Obama foi eleito comemorou-se o que seria a reabilitação dos Estados Unidos que tinham passado abominável. Houve escravidão e racismo nos EUA, como, aliás, na maior parte do mundo. Mas é também verdade que a escravidão lá foi abolida pelos americanos. Muitos deles foram os responsáveis por combater o racismo local, enquanto que a Alemanha, por exemplo, só parou de matar judeus, ciganos, homossexuais depois de ser  derrotada por força militar externa.

Muitos dos que celebraram a tal reabilitação dos EUA estiveram entre os primeiros a acusar de racista quem se opôs à Obama e suas políticas. Assim, como é raro ver essa dimensão simbólica se realizar sem ambiguidade e como sua importância e alcance são dificílimos de aferir, talvez seja melhor combater o racismo no mundo real e deixar a democracia representativa desempenhar seu papel, não funções acessórias

Se a cor e o sexo do(a) presidente ou de qualquer outro(a) representante é tão importante, se não vale mais o princípio de que qualquer pessoa pode representar quaisquer outras desde que se comprometa a cumprir o que prometeu a seus eleitores, aos poucos, a democracia representativa vai se transformar numa impossibilidade prática e provavelmente teórica também.

Só mulher pode representar as mulheres, só negro os negros, homossexual os/as homossexuais, pobre os pobres, se só uma mulher negra, homossexual e pobre pode representar qualquer outra mulher negra, homossexual e pobre, então, no limite, ninguém poderá representar ninguém minimamente diferente. Ou seja, qualquer outra pessoa (e, muito menos, outras pessoas — no plural).

Cada qual só poderá representar alguém 100% idêntico a si — e mesmo gêmeos univitelinos acabam se diferenciando um pouco que seja, simplesmente por levarem uma vida diferente, ainda que apenas em termos milimetricos de dessemelhança.

Só o pretenso pobre Lula pode falar em nome dos outros e verdadeiros pobres, que seriam também o povo mais autêntico. A tendência na política, portanto, é de tornar cada vez menor a diferença e/ou a distância que separa representante de representado.

Ao fim e ao cabo, cada qual só poderá representar a si e ser representado também por si mesmo. De modo que, aqui no Brasil, acabaremos tendo 200 milhões de congressistas e o mesmo número de presidentes da república. A democracia neste caso se transformaria num novo paradoxo de Zenão.

Porém, em outra área acontece o contrário. Trata-se do ambientalismo. Certos membros da espécie humana se colocam como procuradores dos interesses de outras espécies animais e até mesmo do mundo vegetal. Outrora os ambientalistas defendiam a natureza, entidade difícil de definir, mas o faziam em nome de nossa própria espécie. Tentavam provar que a sobrevivência de tal ou qual espécie animal, que a maior proliferação desta ou daquela vegetação, que a manutenção da biodiversidade eram sobretudo benéficas para o homem.

Contudo, têm-se multiplicado os militantes que vêem a nossa espécie como problema. Algo daninho para o resto da natureza e para o planeta. Nós seríamos um mal do ponto de vista exatamente de quem? Como membros de nossa espécie sabem se outras espécies têm pontos de vista e/ou interesses e quais seriam eles? Se soubessem, quem disse que essas outras espécies querem que sejam esses militantes que as defendam?

Há algo aí entre arrogante e pura e simplesmente delirante. Um homo sapiens não pode falar em nome de um outro homo sapiens minimamente diferente, mas pode falar em nome de todas as outras formas de vida.

Perde-se fácil de vista o conjunto de pressupostos básicos da idéia mesma de democracia representativa. Entre os mais importantes estão os seguintes:

1) o representante representa alguém, ele não é nem precisa ser o alguém representado;

2) o representado não é representado em todo o seu ser, em cada detalhe do que ele(a) é, mas apenas em algumas questões que sejam, a um tempo, objetivamente formuláveis e de natureza política; e o representante não está no seu cargo, no congresso, no palácio presidencial como ele mesmo em pessoa, mas, sim, como o portador do programa e/ou das propostas que ele foi eleito e contratualmente encarregado de aplicar.

3) tudo não é político — e, aliás, um bom programa político atual (diametralmente contrário ao que prevalece há mais de um século) seria a despolitização, ou seja, consistiria em retirar áreas cada vez maiores e mais numerosas do alcance ou do âmbito da política, equivaleria a desestatizar o máximo da vida humana, devolvendo-a à esfera privada;

4) a relação entre representado e representante é ou deveria ser a rigor de natureza contratual, trate-se de mero síndico ou vereador, de deputado, senador, prefeito, governador ou presidente, o representante eleito é, para todos os efeitos, procurador do eleitor, procurador para o qual o voto equivale a procuração de poderes restritos e provisórios, se bem que renováveis ou modificáveis, mas isso também de acordo com regras contratuais; (afinal, não se acha que seu procurador precisa ser também seu sósia, e isso vale ainda mais para os advogados — será que só gays podem advogar para gays, negras para negras?);

5) presume-se também que tudo poderia funcionar assim porque, afinal, o que nos assemelha uns aos outros deveria ser talvez mais relevante do que o que nos diferencia.

Cabe-me escolher o meu representante para que defenda tal ou qual interesse meu. Por exemplo, menos impostos e a redução do tamanho do Estado. Não deveria importar se é homem ou mulher, homo ou hetero, palmeirense ou corinthiano, muçulmano ou budista. Tampouco se gosta de carne vermelha ou é vegano. A bem dizer, nem sequer deveria ser importante se concorda comigo, se aprova ou crê no que foi eleito para defender. De mesmo que nem sempre o réu espera de seu advogado a crença na inocência que foi contratado para defender.

O que cabe a mim e aos demais querer do representante político é que, em sua área de ação, atue como o melhor advogado. Se possível que o faça pelo mais baixo custo. Numa democracia representativa, vale ou deveria valer para o síndico como para o/a presidente da república.

Voltando à esfera simbólica. O que há para se comemorar na primeira eleição de uma negra, de um gay, de um muçulmano não é a conquista positiva de um grupo. Mas a remoção de um empecilho ou obstáculo negativo que estava ou estaria atrapalhando o bom funcionamento da sociedade e de sua democracia representativa. Neste contexto, o racismo ou qualquer outra discriminação é basicamente algo que impede o cidadão, independentemente de sua cor, sexo, religião, etnia, poder representar outros.

 Nelson Ascher é jornalista, poeta e tradutor de poesia.

LEIA TAMBÉM NO BLOG DE PARIS: “Decifra-me ou te devoro”

Por Antonio Ribeiro

01/09/2014

às 22:52 \ Brasil

Decifra-me ou te devoro

deciframeDebater é uma arte mapeada. Lembra o jogo de xadrez. Para cada abertura, há uma defesa correspondente que leva a fase das variantes, o jogo intermediário, a etapa imediatamente anterior às finais.

Bons debatedores se preparam a vida inteira para o improviso. Na hora H, puxam a arma certa do arsenal acumulado ao longo dos anos. Há também os debatedores com dom natural. Nesta categoria dotada de instinto repentista, o santo baixa mais facilmente.

Atualmente, nenhum candidato à Presidência do Brasil deu provas de ser debatedor nato. Falta o carisma que não é compensado com os remendos e aditivos artificiais da marquetagem.

Aliás, como é ruim este time de personal trainers pago com salários de boleiros renomados. Captaram algum sinal emitido pelos manifestantes em 2013? O desempenho da clientela aponta para a negativa.

Dilma Rousseff foi programada para depenar tucano. Seu aplicativo não funciona contra Marina Silva. E a cintura de automata que Lula ou o conselheiro de plantão dá corda, mostra-se muito dura para inverter o movimento. Imagine trocar de estratégia que exige raciocínio em lapso curto de tempo.

Embora tenha o programa de governo mais redondo, o bom moço mineiro Aécio Neves vive em um eterno dilema: bato ou não bato, vou ou não vou? Quando decide, não sabe bem como modular o ataque. Muito ou pouco? O resultado é quase sempre fraco.

Marina com a firmeza de quem já enfrentou desarmada jagunço no mato, não tem medo de “Vossa Excelência”. Sabe onde dói e é ali, mesmo que machuca sem piedade ou complexo. Quando atacada, esquiva na evasiva. Ninguém sabe bem o que diz, mas Marina não deixa dúvidas de onde quer chegar.

A acreana será uma boa presidente? Há dúvidas muito bem embasadas. Contudo, não se alcançou está etapa ainda. Por vezes, ela parece nem existir. A disputa por enquanto, resume-se a ganhar a eleição. A ex-senadora vai levando fácil como uma esfinge desafiadora: “Decifra-me ou te devoro.”

LEIA NO BLOG DE PARIS : “Marine e Marina, coincidência de terceira via

Por Antonio Ribeiro
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados