Blogs e Colunistas

01/03/2015

às 14:16 \ Paris

Joyeux anniversaire Riô

GenovevaGenoveva é santa padroeira de Paris — também de Irapuru no interior do estado de São Paulo e das calamidades, especialmente invocada apara obter chuva em tempos de seca. A margem do Rio Sena, no arco esquerdo da Ponte Tournelle, está fincado o monumento art deco de 5, 30 metros altura mais vistoso do orago.

Os nativos daqui dizem, jocosamente, que se trata da “Nossa Senhora do Míssel”. Isso devido ao formato pontiagudo da obra, o conjunto imagem sob pedestal.

Diferentemente do Redentor no Corcovado, Genoveva foi posta de costas para cidade. Ela não abraça Paris, mas está ali, contida em seu manto de cimento armado, como sentinela protetora, mirando para o leste de onde vieram a maioria dos invasores da capital da França.

Estima-se que de 300 mil a 500 mil brasileiros visitam Paris anualmente. No entanto, nem todos sabem que há um ponto significativo entre o monumento da patrona de Paris com o Cristo que abraça o Rio.

O autor de ambas esculturas monumentais é o franco-polaco Paul Maximilien Landowski (1875- 1961) que nunca pisou no Rio e tampouco esteve na inauguração da estátua de Genoveva em 1928 em razão de uma viagem a Argélia.

O Blog de Paris felicita os seus leitores cariocas e festeja a 9.170 quilômetros de distância, o aniversário de 450 anos da Cidade Maravilhosa, gêmea em beleza da Cidade Luz.

Por Antonio Ribeiro

21/02/2015

às 6:30 \ Arte

O polêmico, o americano e uma vez mais, o bom

Chris Kyke

Chris Kyke: “Engajei na defesa do meu país e não para escolher em que guerra lutar”

Ainda que o sinônimo “controverso” tenha sido cogitado, chegou a hora deste espaço levar ao ar a palavra “polêmico”, sempre evitada pelo uso indiscriminado e quase tão frequente quanto “complicado”, em especial na prosa diária do repórter quando refere-se ao trânsito nas grandes cidades brasileiras.

“A questão é polêmica”, o “trânsito está complicado”, dizem. No mais das vezes, a questão não é nada polêmica. E não se sabe ao certo pelo vago e genérico “complicado” quantos quilômetros de engarrafamento e minutos de retenção.

American Sniper, o último filme de Clint Eastwood, levanta polêmica onde tem sido exibido. Baseado na autobiografia de mesmo nome e de autoria do fuzileiro naval texano Christopher Scott “Chris” Kyle — vendeu 1,2 milhão de cópias nos Estados Unidos —, a fita de celuloide com 35 milímetros de largura e duração de 2 horas e 45 minutos conta a história do mais letal atirador de elite do seu país.

Kyle reivindica ter matado de forma legítima 255 pessoas — 40 só na Batalha de Faluja, 69 quilômetros a oeste de Bagdá, às margens do Eufrates. Todos — qualquer gênero ou idade — que pela luneta do seu rifle de ferrolho .300 Win Mag, apresentaram-se como inapelável ameaça de morte aos colegas expedicionários durante as suas quatro incursões no Iraque.

Os registros oficiais contabilizam 167 mortes pelo gatilho de Kyle. O conjunto da obra rendeu ao autor um peso de condecorações capaz envergar a coluna vertebral: duas Silver Star, cinco Bronze Star, duas Achievement Medal, uma Commendation Medal e mais dezoito outras honrarias de menor graduação.

AWeCOAs recompensas formais de exímio matador e reconhecimento pelos seus pares como “Legenda” não provocaram incomodo na consciência de Kyle. Ele afirma, no livro e no filme, através do protagonista, o ator Bradley Cooper, que o seu único arrependimento foi não ter conseguido salvar mais vidas.

Naturalmente, a situação atrai uma saraivada de críticas e acusações. Antigas e novas. Desde as mais rudimentares até as mais bem elaboradas. No fundo, o problema parece ser a palavra “American” ao lado de Sniper.

Não se admite que nos conflitos modernos cuja situação não foge da crueza de matar e morrer, o papel do atirador covarde recôndito na tocaia, longe da linha de tiro, possa combinar com o uniforme de soldado dos Estados Unidos da América. Se está mais acostumado ver como herói, o GI que desembarca de peito aberto em praia da Normandia sob o fogo cerrado das metralhadoras inimigas abrigadas nas casamatas.

Para glorificar o extraordinário dos feitos bélicos, o valor ou a magnanimidade precisa ter parentesco com a nobreza dos cavalheiros medievais.

Zaitsev

Vasily Zaitsev

O filme Stalingrad, do diretor francês Jean-Jacques Annaud, por exemplo, em que atiradores de elite, o tenente russo Vasily Zaitsev e o major alemão Erwin König, se afrontam durante a batalha determinante da Segunda Guerra, não provocou a menor polêmica. Um soviético e um nazista. Jogo jogado.

Sniper Americano é bom filme. Bom no sentido exato do adjetivo. Nem mais nem menos. Dado a atual falta de lastro no significado de “bom”, a emulsão fotossensível depositada sobre uma base flexível de celulose contribui também com a semântica.

A invasão anglo-americana no Iraque parece um cavalo bravo. Isto pela facilidade de desencadear reações desgovernadas. Nos Estados Unidos, epicentro da discórdia,  as bilheterias arrecadaram quase 400 milhões de dólares.

Os academicos de Holywood colocaram o filme em seis raias de disputa do Oscar. Mais do que The Deer Hunter (O Franco Atirador), grande sucesso do diretor Michael Cimino, que lida com o impacto traumático nos veteranos que voltaram da Guerra do Vietnam e dos que não foram.

Clint Eastwood segurou as rédeas, sem afrouxar, do início ao fim do filme. Pelo emblema da sua figura, uma espécie de cruzamento entre John Wayne com John Ford, poderia ter descambado na patriotada. Ou ainda mais confortável para Clint que foi contra a invasão, abraçado o antiamericanismo de base que agrada a tantos que consideram os EUA como a origem de parte significativa dos males deste mundo.

O filme não entra no mérito se a guerra é moralmente justa nem se tem pertinência estratégica. Conta a história de um soldado. Verdade, Kyle é especial até por telefonar para mulher no meio de tiroteio. Porém, no fim das contas, está sujeito aos efeitos do sol e da chuva.

A câmera faz um trabalho sereno sem apelar para efeitos espetaculares. Ela enquadra com harmonia, escolhe o foco, roda sem se movimentar muito e deixa o resto por conta da ação. De fato, se observa melhor na posição estática. A técnica simples, a mais difícil, a favor da narrativa clara. Precisa e concisa, quase minimalista. Por certo, seca. Em tempos de estridência, a sobriedade lembra que há enorme virtude e força no comedimento.

 

Por Antonio Ribeiro

17/02/2015

às 13:23 \ Terrorismo

Flores para o terror

floresterroristaA calçada em frente ao numero 1 da rua Svanevej, codigo postal 2200, bairro Norrebro, Copenhague, capital do Reino da Dinamarca, se matriculou na história como o palco de morte do terrorista Omar Abdel Hamid El-Hussein. O facínora executou de modo covarde dois inocentes e feriu mais cinco. No entanto, quem passa pelo lugar percebe, no mínimo, o rastro de homenagem bizarra: flores.

Com alguma chance, o transeunte pode assistir outra cena. Desta vez, capaz de causar confusão. Jovens muçulmanos retiram as flores e, em seguida, as depositam alguns metros de distancia do lugar exato em que a polícia dinamarquesa abateu o jihadista. Pode se pensar que há algum senso de vergonha e pudor. Enfim, que estão em desacordo com a solidariedade a um terrorista. Mas não. A atitude é simplesmente respeito ao preceito do Islã que proíbe reverência aos mortos com flores. Simples assim. Ou talvez não.

Sacou? Tá ligado?

O que sempre foi proibido e o que era autorizado permanecem inalteráveis durante séculos e séculos até hoje. O menor questionamento, por mais pertinente que seja, é impensável, permitido ou cogitado.

A maioria desses jovens europeus justificam a barbárie do terrorista — e não só eles — como se fosse uma reação natural. Quer dizer, caricaturistas ofenderam o profeta Maomé com imagens degradantes e, em consequência, receberam a justa punição. Qual? Nada menos que morte a bala.

Embora não se deva entrar na lógica da sandice, cabe perguntar, por simples efeito de reflexão: qual foi a provocação do vigia da principal sinagoga de Copenhague ou dos clientes da mercearia de produtos judaicos em Paris? Isso apenas para citar as vítimas fatais mais recentes entre tantas outras.

A resposta naturalmente é “nenhuma”. Posteriormente e de maneira mais profunda, argumenta-se que em um mundo civilizado não há provocação que mereça execução sumária como contrapartida.

O que há sim, é a prática cega de uma ideologia travestida de religião cuja natureza totalitária se arroga a explicar tudo, responder todas incertezas e não menos, apresenta a ordem a que todos devem se submeter. Se não for seguida a risca vem o pior: em seu nome se outorga a licença de matar de modo indiscriminado e por qualquer meio.

Em Nova York, Madri, Londres, Sidney, Nairobi, Amsterdam, Boston, Paris, Copenhague, Al-Baghdadi. Em toda parte, em cada canto do planeta em que há um mísero apreço pela liberdade e onde o cidadão livre se nega fazer parte obediente e submissa de um imenso califado nos moldes do século VII se mata inocentes em nome do Islã.

De passegem, outro ponto para reflexão: o aniquilamento completo de Israel e de todos que lá vivem, colocaria fim na sanha sangrenta? Isto feito, de que obra caritativa e benfeitoria para humanidade os justiceiros se ocupariam depois? Da farta distribuição de balinhas e bombons nos orfanatos?

Neste aspecto faz se necessário reconhecer no primeiro-ministro francês Manuel Valls a coragem rara entre seus pares. A de conciliar o  nome exato com o devido sentido. Algo indizível em público pelos pseudo moderados que, por vezes, de modo inconsciente e outras, malandramente, por insidiosa má fé, ajudam carburar a barbárie e a procrastinação contra ela através de eufemismos fajutas. Seus “sim, mas”, “yes, but”, “oui, mais”.

O nome do boi, como diz Valls,  é islamofascismo.

Por Antonio Ribeiro

15/02/2015

às 2:22 \ Terrorismo

Terror jihadista faz escala em Copenhague

disparosPouco mais de um mês depois do atentado terrorista em Paris que deixou 17 mortos, na redação do jornal satírico Charlie Hebdo e numa mercearia de produtos judaicos, foi a vez de Copenhague tornar-se alvo insidioso do jihadismo covarde. Não foi por acaso. A Dinamarca é o país europeu depois da Bélgica de onde, proporcionalmente a sua população de 5,6 milhões de habitantes, saem mais voluntários jihadistas para os conflitos armados na Síria e Iraque. Só em dezembro do ano passado a polícia identificou 110 deles que ajudaram engrossar as fileiras dos grupos terroristas Estado Islâmico (EI) e Al Qaeda.

Durante encontro em um café do centro cultural Krudttønden em que acontecia debate cujo tema era “arte, blasfêmia e liberdade de expressão”, um terrorista mascarado conseguiu chegar até entrada do prédio e fazer mais de vinte disparos com arma automática, segundo registro sonoro levado ao ar pela BBC —  um detector de metais impediu o atirador de invadir a sala da reunião. Os relógios do Reino da Dinamarca  marcavam 15 horas e 30 minutos.

O documentarista Finn Nørgaard, de 55 anos de idade, que havia saído da sala, foi morto. O jihadista feriu ainda três policiais entre os quais, dois responsáveis pela proteção do artista sueco Lars Vilks, de 68 anos de idade, que em 2007 retratou o profeta Maomé como um cão. A caricatura junto com mais uma dezena, entre elas a de autoria de Kurt Westergaard que mostra Maomé com um turbante em forma de bomba, foi publicada pelo jornal dinamarques Jyllands-Posten e, posteriormente, reproduzida na França nas páginas do Charlie.

Vilks, ameaçado de morte desde a publicação da caricatura e alvo preferencial do ataque foi levado rapidamente para a câmara fria quando se ouviu os primeiros disparos durante a intervenção de Inna Shevchenko, lider do grupo feminista ucraniano FEMEN. Assim como Vilks, o embaixador da França na Dinamarca, François Zimeray, convidado como palestrante no debate, sobreviveu ao tiroteio. O debate continuou depois do atentado.

O terrorista fugiu em um Volkswagen Polo e abandonou o carro dois quilômetros mais para frente, perto de uma estação de trem. Através de uma telefone público chamou um radiotaxi que o levou a um parque proximo ao seu apaprtamento onde ficou uns vinte minutos. Voltou a sair as 16 noras e 37 minutos.  Por volta de uma hora do dia seguinte, perto da principal sinagoga de Copenhague, o terrorista executou com vários disparos na cabeça Dan Uzan, de 37 anos de idade e de crença judaica. Voluntário, Uzan fazia segurança de um Bar Mitzvá (filho do mandamento), rito que insere o jovem como integrante maduro na comunidade judaica. Havia mais de 80 pessoas na sinagoga de acordo com o rabino Rosenberg Asmussen. Neste segundo ataque, dois policiais ficaram feridos.

A polícia dinamarquesa organizou caçada a um homem descrito como “porte atlético,  1, 85 metro de altura, idade entre 25 e 30 anos” e que teria agido sozinho. Com a ajuda de um telefonema do motorista do radiotaxi que transportou o fugitivo a policia dinamarquesa localizou a casa do terrorista em Nørrebro, bairro popular e de desemprego elevado a noroeste da capital do pequeno reino escandinavo. Ao ser abordado por policiais na volta para casa às 5 horas da madrugada,  o terrorista respondeu atirando. Os policiais replicaram no mesmo dialeto. Resultado: o jihadista foi abatido.

Ao receber a notícia do atentado em Copenhague, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu reagiu: “Uma vez mais, um judeu europeu foi morto, simplesmente, porque era judeu e este tipo de atentado vai se reproduzir.” O governo de Israel criou um plano de ajuda no valor de 45 milhões de dólares que se adiciona a dispositivos existentes para encorajar judeus da França, Bélgica e Ucrânia a irem viver no pais entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo.

Em 2014, Israel recebeu 26 500 imigrantes, um aumento de 32% em relação a 2013.  “Estamos preparados para receber imigração de massa vinda da Europa,” assegurou  Netanyahu. O primeiro-ministro israelense já havia feito o mesmo convite aos judeus franceses após o atentado de Paris. A França liderou a aliá (retorno) para Israel com quase 7 mil casos no ano passado. Na época, o primeiro-ministro da França, Manuel Valls, declarou “Sem os judeus franceses a França não é a França.”

Depois do atentado em Copenhague foi a vez do rabino Jair Melchior, maior autoridade da comunidade judaica da Dinamarca, ecoar no tempo, a premissa do lendário resistênte contra tirania Winston Churchill de que as guerras não são vencidas com retiradas. “Se nossa forma de afrontar o terror é fugir para algum lugar, devemos todos ir para uma ilha deserta”, alertou Melchior. De fato, quanto mais espaço se cede, mais chance haverá de ele ser ocupado até que, no final, as vítimas acabam isoladas.

Omar El Hussein

Omar El Hussein

Atualização: • O Serviço de Segurança e Inteligência Dinamarquês (PET) informou que o terrorista morto nasceu na Dinamarca, tinha 22 anos de idade e  ficha criminal pesada incluse com posse ilegal de armas. Porém sem ligação aparente com grupos jihadistas, mas a gangues que traficavam drogas. “O extremismo islâmico lhe forneceu razão para a ação violenta”, afirmou um especialista do banditismo dinamarquês.

• A imprensa dinamarquesa diz que se trata de Omar Abdel Hamid El-Hussein na imagem ao lado.

• O jornal Ekstra Bladet afirma que duas semanas antes do atentato, o terrorista estava cumprindo pena na prisão por ter esfaqueado a perna de um passageiro de trem suburbano.

• Dois suspeitos foram presos sob a acução de colaborarem como o terrorista para esconder armamento e encontrar refúgio.

 

Por Antonio Ribeiro

24/01/2015

às 11:23 \ História

Em nome do pai

WSCemnodopaiO filho seria um fracasso. Era a aposta do pai. A profecia quase se concretizou. Por pouco ela teria sido compartilhada de forma mais ampla. Pelos ingleses e curiosos de pequenos detalhes e tramas no imenso tecido do Império Britânico. Por exemplo, a trajetória de um impulsivo político visionário cujos erros de julgamento eram hereditária reincidência. Mas houve herr Hitler. O patrono da mais insidiosa tirania da humanidade fez uma contribuição por via indireta. Talvez a melhor do psicopata austríaco: criou a oportunidade para o filho Winston demonstrar o engano do pai, o lorde Randolph Churchill (1849-95).

O destino, o que se crê trivial fatalidade, não é na prática, completamente imune ou blindado. Por mais das vezes, está sujeito a dribles improváveis. Thomas Edward Lawrence avança no livro Sete Pilares da Sabedoria que nada é antecipadamente gravado na pedra. “Nada está escrito”, lança desafiador o jovem tenente do exercito inglês (Peter O’Toole) quando Ali (Omar Sharif), chefe tribal dos Harith, preveniu em cena de Lawrence da Arábia, filme épico de sir David Lean, que a travessia do inóspito Deserto de Nefud até a cidade costeira de Aqaba, sob domínio otomano, equivalia ao suicídio.

Se um homem decide, apesar de suas fraquezas e adversidades impostas pelas circunstâncias colocar a seu favor os recursos disponíveis e os acumulados durante a sua trajetória, pode sim, reverter o curso da história. Isso Winston Leonard Spencer Churchill fez com estilo sobranceiro e, registre-se, uma vez mais, de forma original que se emparelhada a outras, empalidece as demais. O ex-primeiro-ministro britânico mudou para melhor a história pessoal, a dos seus contemporâneos e deixou legado inspirador para os que vieram após sua morte, 50 anos atrás, dia por dia.

Winston conta ter crescido como uma moedinha de cobre, perdida no bolso do colete de Randolph. Candura de filho com pai, uma figura febril do Partido Conservador britânico cuja carreira foi mais de promessas do que, efetivamente, promissora. Menos atraente que a prosa de Churchill, Nobel de Literatura, justiça se faça, o menino era quase invisível no ponto de vista paterno. Detestado nos internatos dos descendentes da nobreza e herdeiros das fortunas inglesas, em Ascot, Brighton e Harrow, Winston suplicava ao pai para ir buscá-lo nas férias de Natal. Suas cartas ficavam sem resposta.

No entanto, até o fim e de modo recorrente, Winston Churchill — The Last Lion, na trilogia de William Manchester, o mais lúcido e escrupuloso da legião de biógrafos — foi visitado pela visão quimérica do pai. “Hoje é 24 de janeiro, dia da morte de meu pai, data que morrerei também.” Exatos 12 depois, a predição foi consumada — e sucedida por funeral cujas honrarias o Reino Unido só dedicou a Isaac Newton, William Gladstone e aos vencedores do “ogre” Napoleão, no mar (Trafalgar) e na terra (Waterloo), o Almirante Horatio Nelson e o Duque de Wellington.

Corroído pelo sífilis, depois de lenta agonia, permeada por crises de paranóia e alucinações, Randolf Churchill morreu com apenas 46 anos de idade no ostracismo. Winston tinha só 20. Talvez não tenha sido o maior drama. O pai não viu o filho contornar o Eduardo VI e a jovem Elizabeth II para achegar-se ao parapeito central do Palácio de Buckingham e acenar com os dedos em forma de “V” na direção da multidão que, numa troca simbiótica, o aplaudia de modo efusivo.

O pai tampouco acompanhou a reviravolta espetacular para culminar na apoteose. O coturno nazista ocupava praticamente toda a Europa. Onde não subjulgou com a esteira dos Panzer, contava com colaboradores entusiasmados e a resistência contida pelo terror da Gestapo. Hitler tinha como aliados Mussolini e Stalin. Roosevelt, de costas para a guerra na outra margem do Atlântico, parecia mais preocupado com a reeleição. Churchill era um solitário pilar de determinação. No inicio, seu melhor armamento era um arsenal de palavras que entrelaçadas formavam formidável eloquência para mobilizar os povos de língua inglesa contra a tirania. Só palavras? Bem, ele confidenciou a um amigo possuir último recurso na eventualidade do invasor desembarcar nas regiões costeiras das Ilhas Britânicas. “Lutaremos com garrafas quebradas”.

Stefan Zweig explorou com habilidade aspectos secretos dos seus biografados a ponto deles tornarem-se a força motivadora e explicativa de atos e fatos. Trata-se de um percurso perigoso para historiadores rigorosos. O risco de cair no psicologismo é permanente. Mas no caso de Churchill há um consenso até agora sem contraposição satisfatória. A relação com o pai Randolph foi determinante.

Fréderic Ferney acaba de lançar na França um ensaio histórico — e quase literário — inteiramente dedicado à questão, Tu serás un raté, mon fils! (Você será um malogro, meu filho!, em tradução livre). A leitura é desaconselhada para quem procura relato frio e seco de eventos na tábua cronológica. O livro tem mais sabor para quem já foi iniciado, ao menos, por uma biografia de Churchill — há dezenas. Ferney parte do princípio de que uma ferida profunda pode influenciar a formação da personalidade, mas é a sua superação, uma espécie de cura, que tem capacidade de forjar grandes homens. Churchill foi um deles, em nome do pai.

Assista em seguida um ótimo documentário sobre Winston Churchill:

Por Antonio Ribeiro

16/01/2015

às 9:00 \ Religião

Papos no ar

papasnoarJá se argumentou que o Sol girava em torno da Terra porque, no espaço de um dia, a estrela incandescente dava o ar da graça no leste, percorria toda a abóboda celeste e sumia no oeste, deixando atrás de si o breu da noite e intactos, os mistérios da fé.

A iluminação pública e o aclareamento do engano só chegaram bem mais tarde. No mesmo embalo, pode se dizer agora que altitudes elevadas não fazem bem ao papado. Isso por duas apostas na coincidência.

Durante viagem à Àfrica a bordo de um jato da Alitalia, o ex-Papa Bento XVI afirmou que o uso de preservativos aumentava o risco de contrair Aids — até um professor de Harvard chancelou a fala pontifícia embasado em pesquisas.

O racíocinio era o seguinte. O preservativo propicia confiança excessiva na ausência de risco de contaminação. Em efeito, aumenta o número de relações sexuais. E finalmente, pela falácia chega-se ao inegável: maior número de relações sexuais, mais ampla a disseminação do vírus.

Equivale dizer que o cinto de segurança e o air bag foram temeridades introduzidas nos carros modernos. O motorista sentindo-se mais seguro, pisa fundo no acelerador e, em consequência, aumenta o índice de acidentes.

Em viagem aérea rumo à Manila, o Papa Francisco disse aos jornalistas: “Se, meu bom amigo, o doutor Gasparri (responsável pela organização das viagens papais), xingar minha mãe, pode esperar que levará um soco. É normal.»

No caso de um papa, o “normal”, no mínimo, seria ignorar o insulto. Isso se viesse da boca de qualquer pecador. Se a injuria fosse proferida por um de seus assessores, o esperado no máximo, seria que o papa mandasse entregar um bilhete azul para o funcionário do Vaticano. E bola para frente, San Lorenzo.

Os mais carolas de braços dados com os tolerantes talvez digam que o perdão seria o gesto condizente com a batina branca. Pode-se avançar até a hipótese de que a declaração de Francisco ainda que pouco usual, faça parte de nova pastoral para aproximar o rebanho desgarrado da Igreja.

Naturalmente, o Blog de Paris não acha que as cabines pressurizadas fazem mal aos papas. A questão é o ar que se respira aqui em baixo no momento das declarações. Elas não melhoram as coisas antes de desembacar na África, continente com maior incidencia de Aids nem depois de atentado terrorista justificado pela a estupidez como uma reação provocada.

Ademais, o Papa Francisco tornou-se o principal candidato para figurar na capa do próximo número do Charlie Hebdo. Se for o caso, o Papa não irá distribuir sopapos. Uma razão suplementar para concluir que foi inadvertida entrega de subsídios para aduzir premissas ruins.

Por Antonio Ribeiro

15/01/2015

às 7:52 \ França

Simples assim: blasfemar pode, matar não

Plantu inspirado em Delacroix

Plantu inspirado em Delacroix

Depois de séculos aqui nesta velha democracia francesa em que houve muito sangue derramado e tinta escorrida no papel, os nativos chegaram a seguinte conclusão: blasfemar pode, matar não. Quando isso aconteceu, os representantes dos cidadãos, legitimamente eleitos, reuniram em assembléia e legislaram a expressão da vontade popular em forma de lei, instrumento institucional que pune a transgressão, ampara o direito e tem na República ampla anuência da maioria.

Desde então, nos mais de 640 mil quilômetros quadrados do território metropolitano da França, departamentos além mar e onde está fincada uma bandeira tricolor — tremula sob efeito do vento e ao ritmo de modos, costumes e tradições — como símbolo de soberania francesa, a Declaração dos Direitos do Cidadão e do Homem de 1789, as formas mais recentes da Constituicão e dos Códigos Civil e o Penal, embasados em principios simples e incontestáveis, resolvem as diferenças na ausência de bom senso entre os homens.

Se as fronteiras balizam o espaço físico do país, a legislação em vigor determina os limites de comportamento do indivíduo — e vai sem dizer, da imprensa, cultos e crenças. Por mais profundos, os preceitos religiosos como nas questões sobre o divórcio, aborto, transfusão de sangue e reprodução de imagens de figuras sagradas são respeitáveis e jamais determinantes na República laica. Ponto.

Por Antonio Ribeiro

12/01/2015

às 19:18 \ Imprensa

Rir é o melhor remédio

tudoehperdoadoCharlie Hebdo voltará a circular quarta-feira, 14 de janeiro de 2015. Mas desta vez, não com a tiragem habitual, os 45 mil exemplares semanais. Tampouco,  1 milhão ou 5 milhões, como foi anunciado. A tiragem do tabloide satírico parisiense será de 7 milhões de exemplares. Recorde mundial para uma única edição de jornal. O hebdo (semanário, em francês) terá dezesseis páginas, tradução em cinco idiomas (inglês, espanhol, árabe, turco e italiano) será distribuído em trinta países. Cada exemplar custará 3 euros.

Os jornalistas que trabalham na redação e com equipamentos emprestados pelo jornal Liberation prometem a mesma verve e carituras inéditas de Charb, Cabu, Tignous e Wolinski, cartunistas executados pelos terroristas Chérif e Said Kouachi. A capa do tabloide satírico (não é revista) mostra a caricatura do Profeta Maomé  segurando um cartaz no qual se lê, “Je suis Charlie” (Eu sou Charlie). O título da primeira página será “Tudo é perdoado”. Detalhe:  uma lágrima salta do rosto da caricatura. “Nosso Maomé é muito mais simpático do que o que foi evocado, aos gritos, pelos terroristas”, disse o cartunista Luz, o autor do  desenho .

A reunião de pauta da mais aguardada edição começou — e bem ! — com a tradicional pergunta do redator-chefe Gérard Biard aos presentes: ” Senhores e senhoras, quais foram os principais fatos da semana?” Os jornalistas, sobreviventes do atentado terrorista que fez 17 mortos, se entreolharam e, em seguida, começaram a rir. Um deles sugeriu reportagem sobre ocorrência, antes da semana passada, das mais improváveis no planeta: Os sinos da catedral medieval Notre-Dame de Paris dobraram para a publicação mais anticlerical da França. O espírito Charlie continua vivo.

Atualização: Desde o dia em que foi ás bancas os exemplares de Charlie Hebdo esgotam em minutos. A gráfica consegue, no máximo, imprimir 600 mil exemplares por dia.

Por Antonio Ribeiro

11/01/2015

às 18:22 \ Paris

Paris, capital do mundo livre

republique

A simbologia foi forte. Começou em uma praça chamada República e terminou em outra, a da Nação. Entre os dois pontos, mais de 1,5 milhão de pessoas caminharam por uma linha reta, o bulevar de 2,85 quilômemetros de distancia cujo nome honra a memória de Voltaire — reformista francês celebre pela defesa das liberdades individuais, direitos civis, destemido e habil com a sátira para fustigar a hipocrisia do clero e da nobreza durante o Iluminismo.

Nem quando foi libertada da ocupação nazista, menos ainda depois da conquista francesa da Copa de 1998, tantos — e diferentes — foram às ruas motivados pelo mesmo sentimento. Os que conheciam Charlie Hebdo, jornalzinho tinhoso de 45 mil exemplares por semana, os que nunca leram uma linha ou riram de suas caricaturas, os que nunca ouviram falar seu nome, se identificaram com ele. Bradavam uma palavra singela de significado imenso: “Liberdade”. Já escorreu muito sangue da espada e tinta da pena para entrega-la assim, na bandeja.

Até alguns corretos da política da hora que, não faz muito tempo, empunharam cartazes em que se lia “Sorry”, desculpando-se pela publicação das caricaturas de Maomé, hoje informavam de vários modos: “Je suis Charlie”. Poderiam ter  dito desta vez, “Pensei melhor, logo sou Charlie.”

O inédito não parou por aí. O cortejo foi encabeçado, logo atrás dos parentes e amigos das 17 vítimas do atentado terrorista, por mais de 50 chefes de estado. Estavam lá de braços dados François Hollande, Angela Merkel, David Cameron, Mariano Rajoy, Matteo Renzi. E também, contribuindo com a preciosidade do momento, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, o representante russo e o enviado ucraniano.

Muitos acharam que era uma temeridade reunir tantos quando ainda se sente odor de pólvora expelido pelas Kalachinikov dos terroristas. Finalmente, não houve nem um mísero incidente ou uma banalidade do cotidiano que irrita o parisiense, cujo estresse é tido como traço de identidade. (Talvez, vá lá, o tombo da primeira ministra da Dinamarca na escadaria do Palácio do Eliseu) O dispositivo policial parecia bem modesto para a envergadura do evento. Ou melhor, foi diluído na gigantesca massa humana. Ordeira e pacífica. O medo foi vencido com serenidade.

Mais cedo, François Hollande declarou que neste domingo invernal e ensolarado, Paris era o centro do mundo. Pode-se argumentar que o “presidente modesto” tenha exagerado na dose do tinto que regou o almoço para seus ilustres convidados. Mas é inegável que, pelo menos no senso figurado, Paris foi nestas 24 horas, a capital do mundo livre. Isso porque, mais uma vez, na prática, respondeu de forma exemplar à ameça terrorista. Ela também inédita e teimosa.

Assista vídeo exclusivo do Blog de Paris “A Republica atacada por corvos”  feito durante a manifestação clicando aqui.

 

Por Antonio Ribeiro

09/01/2015

às 20:00 \ Paris

Charlie é nomeado cidadão honorário de Paris…

 

... e o hashtag "#JeSuisCharlie" tornou-se o mais reproduzido na história do Twitter.

… e “#JeSuisCharlie” tornou-se o hashtag mais reproduzido na história do Twitter.

Por Antonio Ribeiro
 

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