Blogs e Colunistas

06/02/2012

às 9:23 \ Europa

Merkel faz campanha para o parceiro Sarkozy

Casal Merkozy: mesmo passo

Ele passa mais tempo com a alemã do que com Carla Bruni, a bela primeira-dama da França. A assertiva popular de conotação jocosa entre os europeus sobre a relação intensa do presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler Angela Merkel como toda caricatura é exagerada. No entanto, nenhum dueto que dirigiu a França e a Alemanha desde a criação da União Européia (UE), encontrou-se tanto em período equivalente quanto o casal “Merkozy”. Sem contar os contatos diários por telefone, desde junho do ano passado, os dois participaram juntos de sete reuniões de cúpula, embalados sobretudo pela crise do euro.

À doze semanas do primeiro turno das eleições presidenciais na França, Angela e Nicolas protagonizaram um fato inédito. Eles gravaram no Palácio do Elyseé, em Paris, uma intervenção conjunta de vinte minutos que será, simultaneamente, transmitida pela TV estatal francesa France 2 e sua equivalente alemã, a  ZDF. Ainda que camuflado pelas suas funções de chefes de estado, trata-se de engajamento direto de um governante alemão na campanha presidencial francesa como nunca houve. A eventual derrota eleitoral de Sarkozy que vai mal nas pesquisas de opinião, é considerada  por membros do governo Merkel como uma “catástrofe”.

Hollande: assim não

O candidato socialista François Hollande, franco favorito da eleição, já deixou claro que se eleito, sua primeira viagem internacional será à Alemanha para rever a posição comum das duas principais economias da UE e os tratados de cooperação mútua.  Hollande afirma que as medidas rigorosas preconizadas por Merkel para sair da crise, não podem existir sem que haja, ao mesmo tempo, ajuda de dinheiro público para incentivar a retomada do crescimento econômico. Leia-se, retomada do crescimento econômico da França, a situação já existe na margem norte do rio Reno. A posição do socialista sinaliza uma futura turbulência, uma vez que a oposição de Merkel é clara e persistente desde o início da crise.

Pelo segundo ano consecutivo, a Alemanha foi a locomotiva da economia européia, com um crescimento econômico de 3% em 2011, depois de ter crescido 3,7% em 2010. Em contrapartida, a França cresceu 1,5% em 2010 e deveria atingir a  duras penas, 1,7% em 2011. O desempenho permitiu que Berlim reduzisse seu déficit público a 26,7 bilhões de euros. Ou seja, 1% do Produto Interno Bruto. O déficit francês é cinco vezes maior. O outro avanço da Alemanha é a queda do desemprego. Estima-se em 3 milhões de desempregados na Alemanha, ano passado. Ou seja, o mais baixo nível desde a reunificação. Mais de 263.000 desempregados a menos que em 2010.  A taxa de desemprego alemã recuou em 2011 de 0,6% ponto percentual para se estabelecer em media a 7,1%. Na França, aconteceu o inverso: os desempregados aumentam de 152.000 no último ano e a taxa de desemprego aproxima-se de dois dígitos.

“Apoio Nicolas Sarkozy em todos os planos porque pertencemos a partidos amigos. É normal que apoiemos partidos amigos”, disse Merkel durante entrevista coletiva a imprensa. “Em maio de 2009, o presidente francês foi a Berlim e  deu seu apoio a minha reeleição, não vejo qual é o problema? François Hollande esteve no congresso do Partido Social Democrata alemão”, lembrou a chanceler. “Quando o chanceler  socialista alemão Gerhard Schröder esteve na França, quem ele apoiou?” Resposta: a candidata socialista Ségolè Royal.

Sarkozy quer emular na França o “Sonderweg”, exceção alemã, o modelo de sucesso na Europa majoritariamente em penúria econômica – tornou-se quase seu único argumento de campanha eleitoral, em recente entrevista na TV, ele mencionou a Alemanha 15 vezes. Sarkozy se respalda em uma pesquisa que mostra que 7 entre 10 franceses aprovam uma harmonização dos direitos trabalhistas e fiscais entre Alemanha e França. Mais de 80% dos franceses aprovam o reforço da amizade entre os dois  países que se opuseram diretamente em três grandes guerras desde Otto Bismarck e Napoleão III, no século XIX. E não só: 43% dos franceses acham que seu país tem destino comum com o antigo inimigo e portanto são obrigados à convergência de ação dentro da UE. Mais: muitos franceses percebem  oportunidades de emprego na futura necessidade de mão de obra qualificada, devido ao envelhecimento populacional na Alemanha.

Leia o post do Blog de Paris: “Sarkozy, o alemão

Por Antonio Ribeiro

01/02/2012

às 10:51 \ Diplomacia

EUA e França: voto não reduz diferenças entre as velhas democracias

Naturalmente há quem queira estabelecer paralelos entre a eleição presidencial americana e a francesa, projetando Mitt Romney como vencedor das primárias do Partido Republicano depois da acachapante vitória na Florida contra Newt Gingrich, o adversário dos sonhos dos democratas. Nesta altura, o exercício de alta especulação traz mais confusão que respostas. Mais que as naturais entre os dois países, ainda que velhas democracias, de tradições e processos eleitorais distintos.

Em primeiro lugar, o combate final entre Barack Obama e o desafiante republicano ainda nem começou enquanto a campanha eleitoral francesa vai de vento em popa. A eleição americana não tem dois turnos, como a francesa e a brasileira, portanto, aí já vai uma diferença de peso que complica a comparação desprovida de análise dos meandros.

Regra geral, na eleição de dois turnos, os candidatos tentam reunir o seu campo no início e isso implica, é do jogo, uma certa radicalização. Na etapa posterior, a estratégia principal é capturar o centro a exemplo das partidas de xadrez. Tanto na França como nos Estados Unidos, países politicamente polarizados, ninguém vence se não conseguir persuadir o eleitorado, digamos, flutuante. No caso dos EUA, agregam-se ainda os independentes e os desiludidos com o desempenho de Obama.

Neste sentido, Sarkozy deveria conter a migração do seu eleitorado para extrema-direita e, simultaneamente, trazer para seu terreno, simpatizantes da novata Marine Le Pen. Isto bastaria para chegar ao segundo turno. Para ganhar as eleições, o Presidente da França deve abarcar também boa parte dos eleitores do centrista François Bayrou.

Converter socialistas franceses em conservadores de direita ou fazer o caminho inverso constitui sucesso tão improvável quanto o engajamento de um palestino na causa sionista. Perda de tempo. Ganhar os seus e parte do centro foi o que trouxe a vitória a Sarkozy em 2007. Tentar agradar a gregos e troianos fez despencar sua popularidade. Perdeu aqui e não ganhou lá.

Do ponto de vista do eleitor francês de qualquer ponto do largo espectro político, Rommey e Gingrich estariam mais próximos do ideário do Front National. Salvo talvez na questão da imigração. Um candidato americano pode até pensar como a senhorita Le Pen, mas não ousaria verbalizar  em público o slogam “Americanos Primeiro” sem correr o risco de levar o pesado adjetivo xenófobo para casa. A candidata francesa não liga muito. Ela acha que isso, ainda que de forma indizível e em última instância, ser uma vantagem. Seu eleitorado de base gosta e aplaude. Em contrapartida,  e mesmo agradando os carolas franceses, Marine Le Pen não se sentiria muito a vontade colocando em evidencia seu cristianismo como fazem os republicanos americanos, as vezes de forma fundamentalista, a menos que a posição seja para enfatizar, segundo ela, os efeitos maléficos dos muçulmanos nas tradições européias. Não houve na outra margem do Atlântico guerras religiosas tão sangrentas como no Velho Continente.

Para os socialistas franceses, Obama não chega a ser um entre deles, sobretudo no aspecto econômico, mas é o “melhor” que os EUA podem fazer para se aproximar dos seus valores. A grosso modo, a chegada do democrata de tez amorenada à presidência é vista como um “progresso” da desigual sociedade americana, assim como o metalúrgico Lula, no Brasil. Detalhe: embora estima-se que a França tenha 5,5 milhões de muçulmanos, a maior comunidade da Europa, nenhum deles tem assento na Assembléia Nacional. Os americanos acham espantoso. Aliás, o censo do INSEE, o IBGE francês, nem contabiliza “muçulmanos” nos seus formulários do censo. De acordo como os preceitos da Republique, o indivíduo é um cidadão cuja crença religiosa não diz respeito ao estado, laico por princípio pétreo.

Na França, Sarkozy é percebido pela maioria como um conservador e representante do capitalismo puro e duro. Nos EUA, o presidente francês entra facilmente na galeria dos líderes estatizantes que não medem esforços para intervir com força e excesso de regulamentações na economia além de sempre que o interesse nacional está em perigo promover medidas protecionistas sem o menor complexo.

François Hollande só encontraria uma legenda nos EUA se ingressasse na ala moderada do Communist Party USA (CPUSA). Isso porque a despeito dos socialistas espanhóis, ingleses e alemães, o Partido Socialista (PS) francês não conseguiu se reformar para adequar-se à realidade de um mundo altamente competitivo. Continua atrelado e dependente ao poder dos sindicatos franceses cuja maioria é de funcionários públicos mais especificamente de professors dos estabelecimentos públicos. Não é anodina a proposta de Hollande para aumentar seu número. Evidentemente dizer claramente de onde vai tirar dinheiro para pagar salários e encargos sociais durante 62 anos e mais aposentadoria. Isso em um país de com deficit publico de 1,7 trilhão de euros, 86% do Produto Interno Bruto (PIB).  Mas, leia-se o de sempre, “aumentar os impostos” que nos EUA, a questão muito é mais sensível do que na França.

Em resumo e no absoluto, os EUA estão mais próximos à economia de mercado e a França, é bem mais liberal no aspecto político do termo. Para que se possa estabelecer uma comparação mais justa entre as eleições francesa e americana seria necessário admitir que as prévias nos EUA equivalessem à votação do primeiro turno na França, ainda que um terceiro candidato independente americano possa influenciar na dualidade da disputa final. O certo é que tanto Obama quanto Sarkozy não estão em posições confortáveis, o último bem menos que o primeiro. E o curioso é que se os votos confirmarem as pesquisas, a dupla Hollande e Obama não irá aproximar mais as visões de mundo dominantes em seus respectivos países. É bem provável que aconteça o contrário.

Por Antonio Ribeiro

30/01/2012

às 13:46 \ França, Futebol

Sarkozy, o alemão

“Se consegui em cinco anos? Sou lúcido: não.”

Raro encontrar em Paris um carro novo que depois de curto tempo de uso já não tenha, ao menos, um arranhão. Isso porque o número de vagas de estacionamento nas garagens e nas ruas é menor que a quantidade de automóveis em circulação. Apesar do espaço restrito, os motoristas precisam encaixar seus veículos em algum lugar urbano e, fatalmente, a operação implica em danos.

A analogia é próxima com situação da eleição presidencial na França. Os candidatos têm pouco terreno de manobra devido a profunda crise econômica que o país enfrenta, salvo se enveredam em propostas demagógicas que não conseguirão cumprir sem que empurrem o país para mais fundo no buraco. Eles tentam trocar a ordem dos fatores em uma equação de déficit publico gigantesco e orçamento modesto na esperança de mudar o resultado final da conta. Dito de outro modo: fazer das tripas coração. Nicolas Sarkozy não foge à regra, mas tenta fazer, doravante, à maneira alemã.

O presidente foi entrevistado por quatro jornalistas em rede de seis canais de TV no horário nobre de domingo. Estima-se que 16.5 milhões de telespectadores assistiram Sarkozy anunciar o aumento na Taxa de Valor Agregado (TVA) de 19,6% para 21,2% – a taxa equivale ao ICMS brasileiro. A partir de outubro, quatro meses depois da eleição, um carro de 15.000 euros terá 200 euros suplementares de imposto embutido no preço.

O presidente acredita, no entanto, que o acréscimo não incidirá no preço final. O comércio diminuirá sua margem de lucro porque a situação é de retração do consumo.  É o que ele  diz. O candidato socialista François Hollande, de 58 anos, fez saber que, caso seja eleito, eliminará o aumento que para ser aprovado deve ser votado no Parlamento. A medida alinha-se com a mudança feita pelo governo do ex-chanceler social-democrata  Gerhard Schröder em 2004, na Alemanha. (Relembrar é viver: Na mesma época das reformas na Alemanha,  o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin introduzia  na França a jornada semanal de trabalho de 35 horas que teve efeito contrário ao desejado, aumentou o desemprego.)

O aumento na taxa sobre o consumo vem como compensação na proposta de Sarkozy exonerar encargos patronais – economia de 13 bilhões de euros – nos salários dos trabalhadores que ganham entre 1,6 e 2,1 SMIC, o salário mínimo francês de 1.400 euros por mês. O presidente deseja aumentar a competitividade do seu país. “Em 10 anos, a França perdeu 500.000 empregos industriais”, disse, observando que para um salário de 4.000 euros, os encargos se elevam a 840 euros na Alemanha e o “dobro disso na França”, afirmou o presidente.

Sem anunciar oficialmente ainda sua candidatura, uma evidência que nem o mais distraído dos franceses duvida desde o primeiro dia do seu mandato, Nicolas Sarkozy, de 57 anos, tentou passar a imagem de presidente corajoso e do administrador zeloso que estimula o crescimento sem gastar. O presidente quer também taxar em 0,1% as operações financeiras das empresas cotadas na França – vai ser aplicado sobre a negociação de credit default swaps (CDS, na sigla em inglês),  o seguro contra calote – e criar, a exemplo do seu oponente socialista, um banco de desenvolvimento com fundo de 1 bilhão de euros para emprestar às pequenas empresas.

Desenhou-se no horizonte o fim da jornada de trabalho de 35 horas semanais quando o Presidente da França afirmou que irá propor que as empresas poderão, a partir do mês de agosto e independente da legislação vigente, concluir acordos com seus funcionários sobre a duração de trabalho  Neste ponto, o presidente mudou ainda que de forma subliminar, o velho slogam de campanha de “trabalhar mais para ganhar mais” para outro mais atual: trabalhar mais para manter o emprego. Ou nos casos mais dramáticos, trabalhar mais tempo para evitar o fechamento das empresas ou a sua deslocalização para fora da França onde o custo do trabalho é inferior. Menos consensual que os alemães,  a maioria dos sindicalistas franceses é radicalmente contra.

Antes da sua intervenção na TV, repleta de informações técnicas para o público em geral, Sarkozy recebeu o apoio da chanceler alemã Angela Merkel. Ela poderá até participar de seus comícios, segundo revelou Hermann Gröhe, secretário-geral da União Democrata Cristã (CDU), o partido de Merkel. No entanto, alguns acham que  a ajuda equivale ao beijo de Judas uma vez que a dirigente alemã encarna a figura máxima da austeridade na Europa que a França, irremediavelmente, acaba sendo obrigada a seguir. O orgulho nacional e o antigermanismo andam de braços dados.

Por Antonio Ribeiro

27/01/2012

às 10:14 \ Imprensa

Na revista Seleções Reader’s Digest:

Edição Janeiro 2012

 

Por Antonio Ribeiro

26/01/2012

às 14:07 \ França

Nicolas Sarkozy: três meses para operar o milagre

Faltam três meses para os franceses iniciarem o processo de escolha do seu novo presidente ou manter o atual, Nicolas Sarkozy. Segundo a média das pesquisas do mês de janeiro, a primeira hipótese parece ser a mais provável. O candidato socialista François Hollande ganharia de Sarkozy com margem de 6,5 pontos percentuais no primeiro turno. Na etapa final da votação, prevista para o dia 5 de maio, Hollande dobraria a vantagem atual sobre o oponente.

O Presidente da França, ainda de acordo com as pesquisas, corre o risco de não chegar ao segundo turno da eleição. Sua posição é ameaçada por Marine Le Pen, a candidata do Front Nacional, o partido da extrema-direita xenófoba francesa. Na terceira posição, a filha e herdeira política de  Jean Marie Le Pen está apenas a 3 pontos percentuais atrás de Sarkozy. A candidata é quem mais tira votos do presidente.

Durante viagem recente à Guiana Francesa, em conversa informal com jornalistas, Sarkozy revelou que caso perca a eleição, abandonará definitivamente a política. Ninguém levou muito a sério. A declaração foi tomada mais como jogada eleitoreira do presidente. Sarkozy tenta há meses sem sucesso fazer o que pode para reverter o quadro desfavorável. Ultimamente a ação se intensificou a ponto de alguns analistas julgarem ser um disfarçado desespero do presidente. Taciturno, ele anda fazendo balanço da sua trajetoria e lembrando líderes europeus – Margaret Thatcher, Gerhard Schroeder e Felipe Gonzalezque fizeram um bons governos, mas foram “injusticados” pelas urnas.

Marine Le Pen ironizou a declaração: “Não se faz confidência a dezenas de jornalistas a não ser que se queira que ela seja divulgada.” O ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, um dos 10 candidatos com menos chance de morar no Palácio do Elisée durante o próximo quinquênio, foi ainda mais duro com o velho rival. “Foi uma súplica, uma nova versão de Ne me quitte pas lançado ao eleitor”, disse em referência à canção imortalizada por Edith Piaf e Jacques Brel cuja tradução em português é Não me abandone.

O primeiro handicap de Sarkozy é o exercício do poder em tempos bicudos, de dificuldades econômicas. Depois do inicio da crise do euro, independente do ideário, os governantes europeus que se submeteram ao sufrágio foram derrotados ou, como na Itália, perderam a maioria parlamentar. As políticas de rigor, o aumento do desemprego, a angustia sobre o futuro do sistema de aposentadoria e benefícios sociais, mas sobretudo, a falta de perspectiva na retomada do crescimento econômico jogam contra os governos que buscam a reeleição. Na França, este quadro não mudará antes do dia voto.

Nicolas Sarkozy é visto como o presidente cuja ação não impediu ou pior, agravou a degradação do cenário econômico e social de um país no qual os governos – de direita e esquerda – não conseguem equilibrar o orçamento desde 1974. Isso não é uma questão de justiça, se efetivamente Sarkozy tem muita responsabilidade  ou apenas parcial, mas trata-se da vida como ela é. O eleitor fará a pergunta classica  dos fins de mandatos: “Minha vida melhorou depois que ele assumiu a presidência?” Em outro aspecto, Sarkozy será penalizado por algo que, inquestionavelmente, não pode dividir o peso com ninguém, a decepção que causou em tantos que depositaram esperança em 2007 nas promessas que ele não cumpriu.

Tornou-se remota a lembrança do ministro do Interior de atitude determinada, linguagem franca que prometeu uma “ruptura” para arrancar a França do imobilismo e miserabilismo. Já não existe mais a confiança popular no candidato que prometeu livrar o país das garras do sindicalismo radical que impede reformas prementes e de recompensar quem trabalhasse duro, aumentando seu poder aqusitivo.

Aos olhos da maioria do eleitorado francês o governo Sarkozy parece ter beneficiado o mercado financeiro, a especulação, grupos de empresários e executivos de salários extremamente elevados. Gente “parecida com ele”, dizem. No campo das reformas estruturais, a única obra do presidente que merece relevo foi  a de conseguir aumentar a idade para a aposentadoria, de 60 para 62 anos. A liderança, sobretudo, no cenário europeu tem efeito relativo. Em todo caso, não é suficiente para aplacar a imagem antipática e muitas vezes considerada como inadequada para a Presidência.  O francês médio acha que o seu presidente deve ter grandeza, dignidade, ser refinado, distinto e despertar admiração intelectual. Não são bem as características de Sarkozy. As críticas mais fortes ao presidente dizem respeito mais ao seu jeito rompante de governar do que do seu governo em si. Algo que a primeira-dama Carla Bruni só elducorou em modesta medida.

Ainda resta alguma chance a Sarkozy? A resposta é sim. Porém com a condição  de que o Presidente da França consiga demonstrar e convencer os eleitores que o socialista François Hollande é ainda pior do que ele para o futuro do país. Mas com dizia Santo Agostinho, “É preciso entender para crer e crer para entender”. Sarkozy tem três meses para operar o milagre.

Por Antonio Ribeiro

28/12/2011

às 10:17 \ O Melhor de Paris

Excelente 2012: dica de réveillon em Paris

Há mais de 20 anos, o meu tempo acumulado às margens do rio Sena, pedem-me dicas de como passar um réveillon simpático em Paris. A maioria dos brasileiros que vem à capital da França acredita que a avenida dos Champs Elysées está para Paris nesta época festiva assim como a Praia de Copacabana está para o Rio. Engano. Em seguida, segue programa que a meu juizo é uma boa pedida.

Poucos programas de índio são tão autênticos quanto passar o réveillon nos Champs Elyseés, em Paris. (Réveillons é o verbo francês réveiller — acordar, despertar — na forma imperativa.) A virada do ano talvez seja o momento menos propício para flanar em uma das avenidas mais belas do mundo. Nenhum atrativo particular; a certeza de enfrentar temperatura glacial; o risco de trombar com hordas de bêbados e gangues de piromânicos que transformaram o incêndio de veículos em prática mais perigosa que os esportes de inverno nesta época do ano.

Mas há algo quase tão ruim, ou ao menos, bem mais dolorido no bolso do freguês – em sua maioria, incautos turistas que visitam a capital da França a procura do que fazer nas últimas horas do ano. As escorchantes ceias de réveillon, as promoções a preço fixo de alguns restaurantes. O tédio e a afronta aos paladares, ainda que pouco sensíveis, são garantidos.

Alternativa para o programa de índio e  drible na roubada é uma noitada romântica para um casal em Paris. Sai por menos de 150 euros (375 reais). Para cada pessoa suplementar, adicione 30 euros. Compre duas garrafas de champanhe Pol Roger no Nicolas, a maior rede de cavistas da França – 32 euros cada uma. Trata-se do néctar preferido de Sir Winston Churchill, autor da máxima: “Meu gosto é simples, fico facilmente satisfeito com o melhor”.

Uma garrafa acompanha as ostras e o foie gras. Reserve a segunda para abrir em uma ponte do rio Sena com vista para a Torre Eiffel que se encanta com a iluminação estroboscópica à meia-noite. Na peixaria Boulonnaise, Praça Maubert Mutualité com boulevard Saint Gemain, encomende duas dúzias de ostras Fines de Claire Marennes Oléron – 19 euros. Peça para serem abertas e colocadas em bandeja de isopor em uma cama de algas, não custa nenhum centavo a mais.

No número 60 da rua Saint Louis en l’Ile,  coração da Ilha Saint Louis, compre 180 gramas de foie gras na La Petite Scierie – 34 euros. Caminhe um pouco mais até o numero 40 e entre na padaria de Philippe Martin. Peça uma baguette à l’ancienne, um dos melhores pães feitos como antigamente em Paris – 1,10 euros. Atravesse a rua e vá à sorveteria Berthillon. Compre ½ litro do soverte de caramelo à manteiga salgada – 8,70 euros. Peça uma caixinha isotérmica para acondicionar o sorvete, 50 centavos de euro. Passe em um dos mercadinhos da cidade, compre guardanapos, couverts e copos para pic-nic quase tão resistentes quanto os verdadeiros por menos de 5 euros.

Você pode cear traquilamente no quarto do hotel e depois, sair para dar uma volta. Evite o trânsito pesado, vá de metrô que funciona até tarde. Sugiro ir à Ponte Alexandre  III para abrir o segundo Pol Roger à meia noite. A dica vale para todas as noites do ano.

Um excelente 2012 para você!

Obs – O Blog de Paris será atualizado a partir do 25 de janeiro de 2012, mas não está descartada a hipótese de uma incursão ou outra aqui neste prazeroso campo de batalha.

Leia o post do Blog de Paris: “O choro obrigatório

Por Antonio Ribeiro

24/12/2011

às 13:00 \ Paris

Feliz Natal

Por Antonio Ribeiro

19/12/2011

às 13:56 \ Asia

O choro obrigatório

O norte-coreano aprende desde a tenra idade um curioso mecanismo de defesa ou mesmo, em última instância, de sobrevivência. Assim como, quando se inicia uma troca de tiros,  pego de surpresa, o indivíduo mais precavido se joga ao chão para evitar ser ferido por projétil. Trata-se da capacidade fenomenal de, na aproximação de uma câmera, engenhoca associada a coercitiva máquina de propaganda ditatorial, começar a chorar copiosamente sem motivo sincero. O sorriso falso também faz parte da mesma categoria, mas sua execução exige bem menos do que verter lágrimas forçadas.

Talvez a reação instintiva do norte-coreano seja a reprodução mais fiel da Síndrome de Pavlov em escala coletiva na asiática península Han. Entretanto, o choro obrigatório, seguido a morte do tirano Kim Jong-Il, é com certeza um dos exemplos mais emblemáticos do dano infligido pelas ditaduras nos sentimentos genuínos e íntimos do indivíduo. Nem ficar impassível quando pode haver razão legítima de contentamento é permitido sem que isso signifique escapar de inexorável punição. A ausência do choro no desaparecimento do “Estimado Líder” é malvisto e suspeito. Faz se necessário chorar e de preferência de maneira histérica com gestos que tentam exprimir a dor incontrolável.  Subjugado pelo medo, o indivíduo torna-se uma especie de carpideira com recompensa que deveria ser desnecessária, a que o cidadão de uma sociedade saudável se beneficia de pleno direito. Ou seja, viver sem ser constrangido, importunado, intimidado, compelido pelo estado a não ser ele mesmo, mas sim um autômato.

O livro “Sussurros”, do autor inglês Orlando Figes, que investiga o território até então inexplorado das vidas privadas na Rússia durante os anos terríveis da ditadura stalinista, lista abusos da tirania na alma do indivíduo semelhantes aos que se observa na Coréia do Norte. Jung Chang descreve em “Cisnes Selvagens” procedimentos análogos na China de Mao Tsé-tung. Mas isso pode vir com o atenuante de pertencer ao passado. O espantoso na Coréia do Norte, o pais mais opressivo e totalitário do planeta, é a atualidade. O fenômeno acontece agora. Quem assistir as imagens do funerais de Kim Jong-Il poderá perguntar se não está vendo documentário de outros tempos. Isso nos remete a outra questão. Até quando vai durar esta sandice? Aparentemente, os norte-coreanos ainda tem boas razões para continuar chorando. Desta vez de forma facultativa, mas não pública.

Leia o post do Blog de Paris: “Jacques Chirac torna-se o primeiro presidente eleito da França condenado por corrupção

Por Antonio Ribeiro

15/12/2011

às 8:07 \ França

Jacques Chirac torna-se o primeiro presidente eleito da França condenado por corrupção

O ex-presidente da França Jacques Chirac foi condenado pelo Tribunal Correcional de Paris a dois anos de prisão com suspensão condicional da pena. A sentença inédita contra um  presidente eleito da França diz respeito ao financiamento ilegal de 2,2 milhões de euros do  antigo partido de Chirac, o Reagrupamento pela República (RPR). O julgamento abordou também a criação de trinta empregos fictícios na Prefeitura de Paris entre 1977 e 1995, período em que Chirac era prefeito da capital francesa. A maioria dos contratados trabalhavam na preparação da campanha presidencial de Chirac, eleito em maio de 1995. Os funcionários-fantasmas  recebiam salários do município – estima-se  o gasto do dinheiro dos contribuintes para pagar remunerações ilícitas em mais de um milhão de euros. O ex-presidente foi condenado por desvio de verbas públicas, abuso de confiança e conflito de interesses por “multiplicar as conexões entre seu partido e a municipalidade”.

“Jacques Chirac faltou com a obrigação de probidade que pesa sobre os responsáveis públicos a despeito dos interesses dos parisienses”, declarou o juiz Dominique Pauthe. O ex-presidente, de 79 anos de idade, que governou a França em dois mandatos consecutivos, entre 1995 e 2007, sempre negou as acusações e afirmou não ter cometido nenhuma falha penal ou moral. “Os franceses sabem que sou honesto”, diz ele.  Chirac não estava presente na sala de audiência durante a leitura da sentença. Os médicos do ex-presidente justificaram a ausência devido a severos problemas neurológicos responsáveis por provocar lapsos de memória. “Para mim, é inadequado comentar o assunto”, disse o atual presidente da França, Nicolas Sarkozy.

Suspensão condicional da pena é um instituto de direito penal com a finalidade de permitir que o condenado não se sujeite à execução de pena de curta duração que priva a liberdade. Dito de outro modo:  mesmo condenado, o réu  não vai preso. No caso de Chirac, a condenação, um choque para classe política francesa, tem elevado valor simbólico na luta contra a corrupção na França e independência da Justiça.

Há quatro meses da eleição presidencial na França, o julgamento histórico relança o velho debate sobre a imunidade total do Presidente da República segundo rege o artigo 67 da Constituição que protegeu Chirac de ser punido judicialmente durante cerca de 20 anos. Muitos  consideram o estatuto penal especial a uma bizarrice na democracia francesa: ser inatacável nos tribunais e, simultaneamente, como todos aqueles que estão sujeitos à justiça, o Presidente da República pode apresentar queixa contra quem bem lhe aprecer.

O marechal francês Philippe Petain, chefe não eleito do governo de Vichy, colaboracionista com os ocupantes nazistas na França, foi o primeiro chefe de estado francês condenado pela Justiça. No fim da Segunda Guerra Mundial, uma corte especial montada às pressas sentenciou o marechal à pena de morte por alta traição. A condenação foi, posteriormente, convertida em prisão perpétua pelo general Charles de Gaulle, à época chefe do governo provisório. A clemência fez parte da política gaulista de conciliação nacional no pós-guerra e em razão da idade avançada do marechal. Ele tinha 85 anos quando foi condenado. Em pena posterior, os franceses apagaram da memória a imagem do herói da Batalha de Verdun na Primeira Guerra Mundial. Não há mais uma só rua na França com o nome de Pétain. Assim como “lula-petismo”, mas por razões distintas, o termo “pétainisme” virou referência pejorativa na França.

Embora condenado em processo que durou 16 anos e ter recebido, quando político ativo, a alcunha de “Super Mentiroso”, Chirac não corre o mesmo risco de Pétain. A maioria dos franceses tem afeição pelo ex-presidente, duraz opositor à invasão anglo-americana do Iraque. Sua popularidade é robusta e alta. Bem, não tanta quanto a de Lula no Brasil, onde magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF)  avisam da possível prescrição das acusações contra os 36 réus do mensalão, o maior show de corrupção do país, no qual a estrela do PT teve brilho indelével.

Leia o post do Blog de Pars: “Europa igual a ela mesma e Inglaterra idem

Por Antonio Ribeiro

12/12/2011

às 12:36 \ Europa

Europa igual a ela mesma e a Inglaterra idem

Mais de seis décadas depois das tropas do Exército Vermelho da União Soviética  terem  entrado em Berlim marcando o fim do III Reich nazista, a Alemanha dominou a Europa. Isso sem dar um tiro e durante apenas uma hora e meia de conversa – o papo entre a chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês Nicolas Sarkozy e o primeiro ministro britânico David Cameron, a troca  rancorosa que pôs fim, ainda que de maneira informal, na União Européia de 27 países.

A Alemanha ditou as novas regras de sua liderança. Uma vez mais, como rege a tradição do Velho Continente, sem garantias efetivas  de que será seguida de fato. O bloco de 17 países onde circula o euro, moeda em situação agonizante, deverá fazer um pacto fiscal e equilibrar seus orçamentos. O grupo se compromete a escrever em suas constituições o acordo que tem como objetivo salvar o euro e por conseguinte, o que sobrou da União Europeia. Quem desrespeitar o rigor orçamentário que limita o déficit público a 3% do Produto Interno Bruto e a dívida acumulada em 60% do PIB, sofrerá sanções ainda não definidas e sem base legal – tanto Alemanha e França estão fora das regras com 4,3%  e 7,1% do PIB, respectivamente. Nada sobre como estimular o crescimento econômico para pagar as dívidas e nenhuma palavra sobre as urgentes reformas estruturais com objetivo de acelerar a competividade. Nunca os eurocéticos tiveram tanta razão para reforçar sua repelência pela integração continental.

Na vigésima segunda reunião para tratar da crise do euro, sim vigésima segunda, o casal “Merkozy”, apelido da dupla que governa as maiores economias da eurozona,  queria ver  o quanto o britânico Cameron estava disposto a apoiar a iniciativa do lado continental do Canal da Mancha. Rapidamente descobriram que o apoio só viria com concessões à Grã Bretanha consideradas “inaceitáveis”. A mais significativa, o abrandamento e o direito de veto na regulação dos mercados que atingiria em cheio as operações da City londrina, o centro financeiro do Reino Unido e  o mais importante da Europa. Os serviços financeiros ingleses representam 9% do PIB da Grã-Bretanha e empregam cerca de um milhão de pessoas. O dia em que os ingleses decidirem deixar os funcionários da União Européia em Bruxelas controlar as transações finaceiras na City poderá se perguntar se os pubs fecharam na noite anterior ou amanheceram com as portas abertas.

Acuado por uma crise econômica profunda em seu país, Cameron decidiu tomar ainda mais distancia da Europa. A decisão não traz nenhuma surpresa se considerada a história inglesa, sobretudo, em momentos quando o interesse de sobrevivência britânico fica mais sensível e bem distinto  dos vizinhos. Afirmar que a Inglaterra se isolou, como fazem alguns analistas “at large” que só acompanharam a construção européia de binóculos, é uma imprecisão primária e total desprezo pelo caráter insular histórico do reino que, sabe-se bem, não abrange apenas o aspecto geográfico.  Parece que Cameron retirou uma espécie de Excalibur nacional das rochas e empunhou a arma em defesa de uma ilha nublada e chuvosa.  A realidade é  bem outra, muitos primeiros-ministros britãnicos bloquearam coisas que não correspondiam aos interesses do país – desde Thatcher com o orçamento da UE a Tony Blair com a retenção dos impostos. A Inglaterra sempre prezou mais a parceria com os Estados Unidos. Trata-se de uma posição distinta da alemã que se considera parceira dos americanos, mas com os pés firmes na Europa. E bem diferente da França – opera no vermelho desde 1975 –  se vê completamente européia e bem favorável a UE desde que o bloco tenha marcantes traços franceses.

Quem move os destinos da Europa é a Alemanha dirigida pela chanceler Angela Merkel. Desta vez, isso não acontece pela baioneta ou blindados, mas pela força econômica germânica que produz recorrentes superávits internos e os recursos dos seus pagadores de impostos, cada dia mais indignados de serem as formigas nortistas da Europa que sustentam as cigarras do sul do continente. Algumas, como no caso grego, sem cadastros para pagar os tributos pecuniários que o estado impõe a pessoas singulares e coletivas. Mas a chanceler, como todo líder alemão depois da Segunda Guerra Mundial, manobra com prudência para que sua liderança natural não desperte tanta germanofobia associada à tirania de outrora.

O casal Merkozy tem profundas divergências, o funcionamento do fundo de resgate (FEEF), o papel do Banco Central Europeu e o envolvimento dos credores privados na eventual falência dos estados. No entanto, a timidez alemã é uma brecha em que Nicolas Sarkozy tenta se inserir para tirar melhor proveito político. Ele transformou-se em um falastrão que, simultaneamente, submete-se às imposições alemãs e gesto seguido, torna-se porta-voz contundente delas. Isso quando sua popularidade não consegue decolar às vésperas de uma eleição presidencial na qual ele figura em terceiro lugar nas pesquisas de opinião com apenas 33% de aprovação. Sarkozy quer que seus compatriotas vejam no seu 1, 65 de altura – 3 centímetros mais baixo que Napoleão – o estadista que salvou o euro.

No mundo dos números, mais pragmático e palpável, os bancos europeus venderam um total de 178 bilhões de euros em seguros, os credit-default swaps, as Bolsas de Valores registraram perdas e os spreads de títulos soberanos aumentaram novamente – os juros dos bônus para 10 anos das dívidas  italiana e espanhola  atingiram níveis de difícil sustentação.  As agências de classificação de risco estão na iminência de revisar o rating de todos os países da União Européia. Fica claro que a reunião dos líderes  europeus na semana passada não conseguiu formular medidas efetivas de curto prazo para encerrar a crise de dívida no continente.

Leia o post do Blog de Paris: “Meryl Streep rouba o papel talhado para os líderes europeus

Por Antonio Ribeiro

 

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