Blogs e Colunistas

09/07/2014

às 19:32 \ Copa 2014

Inferno

InfernoRIO — Antes do massacre Alemanha 7 x 1 Brasil, o professor Felipe Scolari lembrou em entrevista coletiva à imprensa que sempre faz do seu jeito e arrematou: “Gostou, gostou. Quem não gostou vá para o inferno.” De fato, justiça se faça, o treinador cujos resultados recentes foram perder a Eurocopa para Grécia em casa e rebaixar o Palmeiras para a segundona, cumpriu a promessa no Mineirão.

O inferno pode ser medido palmo a palmo. A mais elástica goleada sofrida pela Seleção Brasileira no espaço de um século. A maior derrota em uma semifinal na história das 20 copas. O resultado mais vexatório apresentado por um país anfitrião. E o improvável mesmo nas peladas de várzea: tomar 5 gols em menos de meia hora.

O atacante Fred tentou resumir o réquiem: “Uma cicatriz para toda vida”. Errou de novo. Cicatrizes podem desaparecer com cirurgias corretivas. A humilhação na gloriosa odisseia do futebol brasileiro permanecerá indelével até sob eventual intervenção de uma  força tarefa de dedicados revisionistas.

Em notável estado choque pós goleada — e com a chancela do cordenador técnico Carlos Alberto Parreira, no dia seguinte, portanto com tempo para reflexão — o goleiro Júlio César, veterano de copas, asseverou ter sido um fenômeno “inexplicável”. Isso como se a razão tivesse tomado um foguete para lua fugindo do Império da Fatalidade.

Não. Todo efeito tem causa. Nada acontece por geração espontânea tal como demonstrado pelo microbiologista francês Louis Pasteur. O time alemão atual tem uma divisão de boleiros muito talentosos. O Brasil de 2014 possui bem menos. Mas não foi a proporção que fez a diferença brutal. A questão é puramente técnica.

Desde de 2006 quando perderam uma copa em casa, os alemães vem se empenhando em reproduzir com teuta aplicação e pragmatismo os fundamentos das nossas mais celebradas vitórias no passado. Valorizam o toque de bola, a precisão dos passes e a mobilidade em ritmo rápido, condizente com o futebol moderno. Todos juntos e no mesmo sentido, os fatores facilitam chegar ao objetivo final, o gol.

Introduziram também uma variante na prancheta que deu certo na prática. O goleiro como líbero. Manuel Neuer é o último zagueiro. Não é novidade para quem acompanha o Bayern de Munique, campeão da Bundesliga, Liga dos Campeões — a final foi contra outro time alemão, o Borrússia — e base da Mannschaft.

Jogar junto contribui para o entrosamento. No entanto, ainda que com jogadores da mesma equipe, a comissão técnica alemã só deu folga aos jogadores uma vez.  Trata-se de engano sustentar que a vergonha do 8 de julho se deu porque don Scolari não treinou o time com este ou aquele boleiro. O Brasil não treinou o suficiente ponto. Os moradores de Teresópolis com vista para os gramados da Granja Comary se espantaram com abstinência. Nem a presença de Neymar teria evitado a debacle.

Seria prova de imbecilidade se o 7 x 1 sobreviva apenas como uma página negra. Parafraseando Winston Churchill: “Se estiver atravessando o inferno, continue andando.” Passa da hora do Brasil aposentar a autossuficiência sem lastro, a soberba fora do lugar, a arrogância que tenta esconder o arcaísmo incompatível com o futebol moderno e sobretudo, a corrupção da cartolagem.  Valeria a pena debruçar sobre o exemplo alemão.

Por Antonio Ribeiro

07/07/2014

às 8:59 \ Copa 2014

O querubim dez para as duas

querubim

RIO – O futebol brasileiro já teve um anjo de pernas tortas. Na verdade, uma “caneta” era mais curta que a outra. Ambas faziam a alegria do povo. Falando assim, o seu nome nem precisa ser citado. Isso porque a maioria dos amantes do esporte bretão em qualquer ponto do planeta sabe quem é ele.

Agora, o Brasil tem outro querubim. Desta vez com os pés como os ponteiros do relógio que marcam 10 para as 2, mais comum nos bailarinos clássicos. Naturalmente, Garrincha está no panteão da história boleira. David Luiz, de 27 anos de idade, ainda segue uma carreira cuja perspectiva deixou de ser de promessas e dá claros sinais de promissora. A comparação não termina aqui.

Em 1962, a maior estrela da Seleção, o Zeus da nossa mitologia, ou simplesmente Pelé, machucou-se no segundo jogo do bicampeonato no Chile, um empate de 0 a 0 com a Tchecoslováquia. Em seguida, Garrincha foi mais Garrincha que nunca. Pavimentou o caminho para a segunda vitória épica. Por certo, contou com ajuda de Didi, Nilton Santos, Amarildo e outros imortais da Academia Brasileira da Bola.

Neymar está fora da Copa devido à joelhada covarde do lateral colombiano Camilo Zuñiga aos 41 minutos do segundo tempo na partida que colocou em cartaz um clássico na semifinal, o Brasil x Alemanha. O Brasil perdeu uma dose imensa de esperança. Muito da graça de uma das melhores copas saiu do palco em uma maca de cor laranja cujo formato anatômico lembra o caixão funerário.

Até este ponto, David Luiz tem sido um destemido. Para o número 4 da Seleção não há jogada ruim ou dividida temerária. Ele vai em todas. Melhor: tem ganhado a maioria. Todo torcedor gostaria de vê-lo defender as cores do seu time. E se pudesse, qualquer cartola compraria  seu passe como um dos melhores investimentos do mercado. Garotas gostariam de namorá-lo. Pais escolhem David Luiz para nome de batismo de filhos e mais e mais meninos o levam no dorso da camisa amarela.

Um dos erros menos questionáveis de Felipão — e provável arrependimento do treinador — foi não ter entregue de cara a braçadeira de capitão ao carismático zagueiro de Diadema. Mas ele é o líder de fato do time. No campo, o seu futebol estimula. Desprovido de arrogância, é capaz de  um carinho contagiante: consolou Hulk e William depois que os companheiros perderem penâltis e até o adversário James Rodrígues recebeu um afago após a derrota para o Brasil. Os companheiros o apelidaram de “Prefeito” devido ao tempo que ele gasta distribuindo autógrafos e sendo atencioso com os fãs. Porém, quando Thiago Silva foi agraciado com um cartão amarelo por besteira que até peladeiros sabem que não é permitido — impedir o goleiro repor a bola em jogo — David Luiz reprimiu seu capitão: “Não, Thiago! Não!

É muito, mas não é tudo.

O seguro David Luiz foi eleito pela Fifa o melhor jogador da primeira fase da Copa. Em 480 minutos jogados, recuperou 28 bolas e desarmou 13 adversários. Durante 5 partidas, fez apenas 9 faltas e não recebeu sequer uma advertência. Joga limpo. Percorre, em media, quase 9 quilômetros por jogo e entre dez de seus passes, 8 chegam ao destino certo. Só brinca fora do campo.

Embora seja zagueiro, fez mais gols que muitos atacantes renomados — um deles de falta, decisivo, que pertence à categoria superior, o chamado golaço aço aço pelo memorável locutor Jorge Curi. Mais importante: debaixo da longa cabeleira cacheada se materializa o que nunca pode faltar nas relações, a confiança.

O drama de Neymar é muito maior que o de 1962. Mais profundo que o de 1966, quando Pelé foi posto para fora da relva inglesa a força de seguidas pancadas numa caçada liderada pelo truculento zagueiro português Morais.  O Brasil de 1962 não dependia tanto de Pelé. Havia mais recursos para suprir a ausência da estrela do time.

Até antes do jogo contra a Colômbia, o atalho do Brasil de 2014 para chegar ao gol era uma ligação direta entre a zaga e Neymar. O meio campo cuidou quase exclusivamente da função defensiva. Como Fred tem sido o espectador mais privilegiado da competição, se condicionou a jogar para o camisa 10 empurrar a bola para o fundo das redes. A prática solidificou a premissa de que o Brasil menos Neymar é um tanque sem poder de fogo.

No entanto, a partida contra a Colômbia foi a pior de Neymar na Copa. Por alguns minutos no primeiro tempo, a melhor do Brasil. O time apoderou-se dos espaços no centro do tabuleiro verde com Fernandinho e Paulinho jogando o que sabem e, em efeito, o domínio do jogo. Os chutões deram lugar a brasileiríssima troca-de-passes — o volume foi duas vezes superior ao da Colômbia. Pode se supor com boa dose de otimismo que na falta de bom desempenho da estrela maior, o resto do time chamou mais responsabilidade para si. Só o futuro dirá se o momento foi inconscientemente premonitório.

A Copa do Brasil estimulou o sonho da vitória tendo Neymar como figura de proa. Não seria diferente da maioria delas em que os atacantes são destaques. Mas a história é uma dama caprichosa. Ela nunca cansa de servir surpresas vindas das fontes menos prováveis. A contusão de Neymar deixou o Brasil órfão. Mas a Seleção ainda tem um anjo da guarda. Um David contra a situação Golias, a que forja os grandes heróis. Ele é um zagueiro de 1, 89 metro de altura. Não seria nenhuma desonra ganhar com a sua ajuda. O fato completaria nossa tradição de maiores vencedores no futebol. Falando assim, o seu nome nem precisa ser citado.

Por Antonio Ribeiro

30/06/2014

às 15:48 \ Copa 2014

Chorar não é sinônimo de amarelar

chorar

RIO — Curioso: não querem que a molecada chore e simultaneamente acham don Scolari durão demais. Qual é o ponto de equilíbrio? Na verdade, não há. Pura carência. Falta de vitória acachapante. Se houvesse, o choro seria bonito e a personalidade rígida uma das razões do sucesso.

Chorar não é sinônimo de amarelar. Choro pode ser um sinal de medo, mas nem todo choro é reflexo do medo. E com isso não se sustenta a ausência de uma notável apreensão por disputar uma copa em casa com a tal “obrigação de ganhar”. É natural.

Na Suécia, em 1958, Pelé chorou copiosamente no peito de Gilmar após a conquista da primeira Copa do Mundo. Liberou o medo contido? Claro que não. Era emoção de alegria de um jovem que viu o pai chorar de tristeza ao pé do rádio depois do Maracanazo.

O goleiro Júlio César chorou antes da disputa de pênaltis contra o Chile. Gesto seguido, enxugou o rosto com o dorso das luvas ásperas e foi lá para debaixo dos três paus. Pegou dois tiros. O Brasil venceu de raspão.

Na engenharia inversa, não se vê uma gota de lágrima rolar pelas bochechas do Felipão à beira do gramado. Aquela carranca toda inspira alguma segurança? Resposta: Não mesmo. Na verdade tenta mascarar uma indisfarçável ansiedade.

Os diagnósticos da psicologia quase nunca fazem unanimidade. Isso até entre os doutos da área. No entanto, se associados a teorias boleiras ficam mais divertidos.  Ainda mais prosaico é quando o país de milhões de técnicos de futebol se converte em território de alguns curandeiros de última hora. Todos prontos e altivos para receitar a emoção ideal dentro das quatro linhas.

Por Antonio Ribeiro

30/06/2014

às 7:22 \ Copa 2014

Matar ou morrer, rezar e torcer

DavidNeymar

RIO — Agora é matar ou morrer. A Copa do Mundo entrou na fase dramática em que o destino se define em uma só partida, seja no tempo regulamentar, na prorrogação ou na roleta russa, dito de outro modo: na disputa de pênaltis. Antes, o Brasil ainda não tinha sido, realmente, ameaçado de deixar a Copa. Neste ponto, duas conclusões emergem sem dar muita margem de dúvida. Por apenas um dado estatístico, o mais importante,  154 gols colocam a Copa do Brasil entre as três melhores. A segunda constatação, talvez menos objetiva, é que a Seleção Canarinho ainda que no aconchego do lar, não apresentou um desempenho semelhante aos nossos melhores na história da competição.

Porém, aos trancos, barrancos e devido à ajuda do árbitro japonês, à sorte da trave e do travessão, ao imenso talento de Neymar e à segurança de David Luiz, ainda estamos vivos. Isso nos remete a seguinte questão: qual a probabilidade de um futebol mediano ir longe em uma disputa de tão alto nível? Numa análise racional chega-se fácil a índice baixo. Ou melhor, pouco confiante. A desconfiança na Seleção tem sido o sentimento mais comum entre os lúcidos. Ele aumentou na partida contra o Chile. A vitória lembrou mais um método inusitado para reduzir população de cardíacos.

A esperança não se esgotou, sobretudo, porque acredita-se que o time brasileiro tem potencial, aquele que venceu a Copa das Confederações. A crença de que o professor Felipe Scolari, mais motivador do que estrategista brilhante, venha tentar outros rumos é mínima. Mesmo na hipótese que alguém lhe apresente a imagem de uma guilhotina  ou da forca para rememorar o mundo real. Felipão materializa de forma emblemática uma lógica bem particular no “país de 200 milhões de técnicos”. A mudança de uma ideia representa derrota maior que a própria derrota. Chame de  estóico o nativo de Passo Fundo para não driblar adjetivo mais feio.

A favor de don Scolari há o fato inalterável no caso de se trocar seis por meia dúzia. Ou Jô por Fred, se preferir. No entanto, argumenta-se que se poderia mudar o esquema tático. Reforçar o meio campo, por exemplo. O do Brasil não constrói nem cria. O problema é que Felipão — nunca ganhou competição longa que exige variar e modular em função de adversários distintos — jamais treinou o time para tal situação ou formulou um plano B. Ele montou o esquema e, em seguida, foi testando peões para preencher as posições fixas no tabuleiro ponto.

Resta rezar e torcer.

Trave

Por Antonio Ribeiro

19/06/2014

às 9:43 \ Copa 2014

Novo rei em fim de reinado

FelipeVIA hora é de felicitar o time do Chile cuja vitória no Maracanã pos fim a um reinado no futebol. A derrota espanhola causou a eliminação e a sua ressaca sombreou em Madri a proclamação do novo monarca Felipe VI. A elite branca chilena deu um show e da arquibancada, carburou a turma de Aléxis Sánchez no gramado.

Mas seria injusto neste mesmo momento deixar de reverenciar uma geração de talentosos boleiros ibéricos. Durante uma meia dúzia de anos, eles conquistaram com as cores de suas equipes campeonatos nacionais e a Liga dos Campeões. É verdade que neste particular contaram com a ajuda de uma legião de estrangeiros, mas ganharam sozinhos duas Eurocopas e a Copa do Mundo na África do Sul.

Mais importante: a geração de Iniesta e Casillas trouxe de volta para o tapete verde dos estádios o futebol bonito do toque de bola preciso e uma alegria para os espanhóis que enfrentam uma profunda crise econômica com índice desemprego recorde sobretudo entre os mais jovens europeus — os mais desesperançados percebem as instituições como responsáveis pela crise.

Felipe VI terá uma margem de manobra diferente dos boleiros que tomam parte ativa no jogo. A Constituição só lhe permite, na prática, arbitrar e moderar.

InestaCasillas

LEIA TAMBÉM O POST NO BLOG DE PARIS: “A chanceler da Copa

 

Por Antonio Ribeiro

18/06/2014

às 12:38 \ Copa 2014

A chanceler da Copa

Chanceler2Imperadores romanos foram insultados tanto no Circo Máximo quanto no Coliseu. Na Antiguidade, quem tinha boca, vaiava Roma. Mães cuja culpa maior na vida foi terem gestado um árbitro de futebol, vem sendo chamadas de prostitutas nos estádios brasileiros sem mesmo que se conheça sua identidade e desde que Charles Miller desembarcou no país com duas bolas de couro na bagagem. Durante este período, um contingente incalculável de boleiros tiveram sua masculinidade questionada até por torcedores do próprio time. Treinadores são agraciados com a Comenda do Burro sempre que não fazem o esperado pela arquibancada.

Tudo acontece sem provocar a menor marola. A razão é simples: constata-se fácil que o ambiente das arenas esportivas a exemplo das várzeas é diferente de um convento de freiras ou mosteiro budista. No entanto, não existe ponto como os estádios em que os indivíduos expressam tão abertamente e a plenos pulmões o que sentem no peito — nas alcovas fala-se baixinho. Nas ditaduras mais repressoras o estádio  foi por vezes um território da liberdade. Isso porque o cidadão sente-se protegido pelo anonimato. O individuo no meio da massa é, simultaneamente, um e muitos. O estádio em certa medida confira um refúgio democrático por excelência.

Mas na tarde de estréia da Copa do Mundo 2014, o mundo mudou. Ou melhor, andam dizendo que ele é diferente. Em um aspecto trata-se da pura verdade. É o seguinte. Dilma Rousseff no dia em que deveria ser o momento glorioso planificado por Lula quatro anos atrás, entrou no Itaquerão pela garagem. No sentido figurado, a porta dos fundos. Sentou-se na última fileira da Tribuna de Honra, encostada na parede. E desde 1930, ano da primeira Copa do Mundo, o presidente do país-sede não fez o discurso de abertura. Faltou coragem a presidente de fazer mesmo um mísero aceno. Salvo o temor das vaias e o medo de que os fatos do mundo real possam ser usados na campanha eleitoral, ninguém obrigou Dilma se comportar desta maneira.

Veio o primeiro gol do Neymar. O diretor de edição da TV fez como todos os seus colegas fariam mundo a fora nestas horas. Mostrou os torcedores e, em seguida deteve-se nas “celebridades” presentes no estádio. A imagem de Dilma Rousseff apareceu no telão do Itaquerão. Neste exato momento, os torcedores se deram conta que junto a alma estava também o corpo presente. Gesto seguido, parte  dos 62 mil “arquibaldos” sugeriram a Dilma tomar suco de caju no idioma próprio dos estádios. Depois, repetiram a dose por mais duas vezes em ocasiões distintas.

Naturalmente, os insultos acenderam o alerta do lulo-petismo e a patrulha, desta vez, se camuflou em hábitos de madre-superiora para continuar atirando. Raras vezes tanta bobagem foi dita em tão pouco tempo. Teria acontecido no pais de 56 mil homicídios por ano, o maior crime lesa-pátria da história. Numa tentativa de manipulação demagógica com o laivo do preconceito racial, acusaram os torcedores de elite branca endinheirada. Alguns chegaram a pensar que o pessoal da ala VIP da Papuda tinha recebido uma derrogação para ver a partida de estréia. Lula, de conhecida língua solta e para quem ex-presidente Itamar Franco era um “filho da puta”, engrossou o coro. Dias antes, declarou ao jornal esportivo francês L’Équipe que iria assistir inteiramente a copa em casa porque poderia tomar uma cervejinha a mais sem ser reprimido. Pelo que disse depois do jogo, levantou a suspeita que ainda estava sob o efeito. Mas não só de uma a mais.

O pais só se deu conta que a Terra ainda estava na sua órbita quatro dias depois. A chanceler Angela Merkel foi a Arena Fonte Nova vestida de vermelho para combinar com cor do time alemão e não correr o risco de passar despercebida. Sentou-se na primeira fileira da Tribuna de Honra ao lado do impopularíssimo presidente da FIFA Sepp Blatter. Levantou-se e acenou para elite branca baiana. Esbanjou simpatia. E depois do jogo, ainda entrou no vestiário dos homens para posar ao lado dos jogadores da seleção do seu país que golearam o Portugal de Cristiano Ronaldo. Se desembarcasse no Brasil, um extra-terreste poderia pensar que era Merkel a presidente do pais-sede da Copa 2014.

Por que Angela Merkel não tem medo? Talvez porque ela saiba que desde os primórdios, os indivíduos, pretos, brancos, mestiços, de qualquer cor de derme ou classe social vaiam ou aplaudem seus governantes muito em função do desempenho no poder. E também que misturar raça a comportamento foi prática política que mergulhou a Alemanha no seu período mais sombrio.

chancelertime

Por Antonio Ribeiro

14/06/2014

às 14:33 \ Brasil

Fazer amor em São Paulo

O escritor americano Norman Mailer tinha jornalismo correndo nas veias. Nas melhores horas, baixava o santo, o xangô da lucidez. O demiúrgo dizia que o colunismo era o jornalismo senil. Entretanto, não perdia o Norte. Se fosse preciso capturar a atenção do leitor no dia seguinte, era capaz de escrever exatamente o contrário do que havia escrito no dia anterior — sempre com a mesma graça e talento. Norman Mailer tinha jornalismo no sangue.

Esta semana, renovamos o prazer de ler a coluna de Zuenir Ventura em O Globo. O colunista tem o jornalismo no sangue. Zuenir sustentou que “não entende São Paulo”. De fato, Deus do céu, São Paulo é das coisas mais complicadas que brotaram no planeta Terra apesar das melhores intenções do padre Anchieta. Não é prudente nem de pensar. Embaralha os neurônios.

Justiça se faça. A afirmação do colunista configura, no mínimo, um gesto de humildade. Muitos não entendem de física quântica. Outros não conseguem, como os bons cirurgiões, fazer transplante de medula óssea. No entanto, os atrividos e ousados acham que são interessantes quando abordam tudo, qualquer coisa e o tempo todo. Até assuntos que notavelmente não sacam xongas. Pior: não tem um pingo de vergonha para apresentar a evidência.

Mas o colunista tem jornalismo no sangue. Ou melhor, “Brutus é um homem honrado”, diria Marco Antonio. Nunca é demais reforçar o argumento com testemunho pertinente. Foi feito. E quem melhor que o saudoso Bussunda? O humorista afirmava ser São Paulo o lugar mais estranho em que fez amor.

Os mortais podem achar que em cima do capô do carro, os degraus que levam ao apartamento da namorada, a areia a da praia é alguma coisa. Mas o  que é fazer amor no avião, na calada do voo se comprado a transar em São Paulo? Nada, não é? Ora, ora.

Doravante, os casais que fazem amor em São Paulo sabem que os quatros pés da cama, o sofá ou qualquer outro suporte do prazer, tocam uma espécie de Shangrila. E quem foi concebido naquela terra, está devidamente informado que o desempenho de papai e mamãe aconteceu em um dos lugares mais especiais.

Ficamos sabendo também, de quebra, que além dos indecifráveis paulistas e paulistanos há o inatingível que povoa o cérebro de quem agregou presença naquelas bandas. Quer prova? Tome de forma inapelável. “A cidade e o estado estão, como se sabe, enfrentando muitas dificuldades: engarrafamentos de até 344 km, violência urbana, greves, manifestações e até falta de água. Pois bem, nada disso abalou o prestígio do governador … “

Ainda bem que Deus, na sua divina sabedoria, achou melhor fazer os cariocas, os parisenses e demais terráqueos mais simples de entender.

notwitter

Por Antonio Ribeiro

02/06/2014

às 12:59 \ Europa

Senso de oportunidade coroa Juan Carlos I como o Breve

O-BreveDepois de ocupar por quase quatro décadas o trono da Espanha, o rei Juan Carlos I abdicou em favor do Príncipe de Asturias, o seu filho Felipe, de 46 anos de idade. As surpresas ainda que esperadas — como a morte e a chuva — por vezes, trazem a pergunta “Por que agora?”

Tem boas chances de ganhar um prêmio eventual quem apostar como as causas da renúncia: a fragilidade de saúde do monarca, o desgaste das acusações de corrupção que pesam sobre a sua filha caçula, a infanta Cristina e o genro Iñaki Urdangarin —  um regalo de 6 milhões de euros subtraídos dos contribuintes espanhóis. E também, o preparo do príncipe herdeiro, o primeiro com diploma universitário, para tocar o reinado em momento econômico de recessão e desemprego elevado, quando os desejos separatistas na Catalunha e no País Basco e as idéias republicanas por toda parte voltam com força.

No entanto, se não for considerado o peso da personalidade de Juan Carlos I, de 76 anos de idade, em particular, o apreço para preservar as instituições, corre-se o risco de errar o centro do alvo. Muitos absolutistas — a monarquia inclui a categoria — não abririam mão do poder ainda que com a saúde debilitada e sob acusações pesadas. A história está repleta de exemplos. O rei ibérico poderia isolar-se no Palácio da Zarzuela e assistir alí, na maior zona de conforto das montanhas El Pardo, a sua popularidade deteriorar-se até a hora derradeira neste mundo.

Mas se fosse o caso, as consequências danosas poderiam ir bem além do círculo familiar de Vossa Majestade. Está em jogo a sobrevivência do regime monárquico parlamentar espanhol como fator de equilibrio democrático em uma península marcada por profundas divisões tanto regionais como de convicções, renovadas a cada geração que emerge dos berçarios espanhois e são incentivadas por pelo resto da vida.

Porém, parece necessário, segundo os padrões atuais, o fim do “juancarlismo” tão útil na transição sem banho de sangue da ditadura franquista e na tentativa de golpe dos guardas civis, comandados pelo tenente-coronel Antonio Tejero, em 1981. Tempos em que manter um país unido era mais eloquente que matar um elefante em caçada na Africa — isso logo depois de dizer que o desemprego disseminado entre os suditos mais modestos trazia insônia. Os jovens espanhóis não tem muito fixada a imagem do rei guardião da democracia. Dos Pireneus ao Atlântico, do Cantábrico ao Mediterrâneo, se quer algo menos pessoal, uma figura real mais ausente e menos visível. Real, real como emblema da Espanha, melhor o Real Madrid.

É aqui o grande desafio do futuro rei Felipe VI cuja maior transgressão nos códigos da realeza foi o casamento com uma linda plebéia, a jornalista de TV Letizia Ortiz. Poderá o jovem monarca — não herdou o carísma ou a simpatia campechana e sim, as limitações constitucionais de 1978 — conservar o pacto de poder que manteve o pai no trono sendo, digamos, mais discreto, assim como sua mãe Sofia? Será capaz de facilitar as reformas necessárias e abrandar as intempestivas? O futuro dirá. Será injusto então acusar Juan Carlos I, o Breve, de não ter tentado uma vez mais, o melhor ritual de passagem em tempos de permanente transformações.

felipe

Por Antonio Ribeiro

14/05/2014

às 14:23 \ Brasil, Copa 2014

Problema não é os estádios modernos, mas a vista grossa com a corrupção endêmica e não fazer o que foi prometido

Maraca

Durante os últimos meses se fala no elevado custo dos estádios em que se estima terem sido gastos entre 8,5 e 9 bilhões de reais. Por certo, há suspeitas embasadas de superfaturamento. Naturalmente, a situação deve ser investigada. A FIFA afirmava que não era necessário 12 estádios. Bastavam 8 para realizar a Copa.

Ademais, se sustenta com boa dose de simplismo redutor que no lugar dos estádios dever-se-ia construir hospitais, escolas, melhorar o sistema de transportes públicos e a segurança da população. O preço dos estádios se transformou quase na principal razão de todas as mazelas do país.

O Brasil é a sexta maior economia do planeta. Em 2013, o governo federal arrecadou 1,138 trilhão de reais. Há recursos mais do que suficientes para construir estádios, escolas, hospitais e melhorar um dos piores sistemas de transportes públicos do mundo. O problema está na incapacidade da classe política nacional de administrar o bem público e de aproveitar qualquer oportunidade para roubar endemicamente como nunca.

Um estudo realizado pelo Departamento de Competitividade e Tecnologia (Decomtec) da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) revelou os prejuízos econômicos e sociais que a corrupção causa ao país. O valor chega a espantosos 69 bilhões de reais por ano, quase oito vezes mais do que o custo total das arenas esportivas.

Sem o roubo descarado, o número de matriculados na rede pública do ensino fundamental saltaria de 34,5 milhões para 51 milhões de alunos. Um aumento de 47,%, que incluiria mais de 16 milhões de jovens e crianças. Nos hospitais públicos do SUS, a quantidade de leitos para internação, que hoje é de 367.397, poderia crescer 89%. Isso significariam 327.012 leitos a mais para os pacientes.

Há um fenômeno recorrente no Brasil. Invariavelmente se passa bem longe do cerne das questões. Em efeito, atira-se na sombra do alvo. Quando muito. Nove bilhões de reais são irrelevantes em relação aos 600 bilhões de reais, repito, 600 bilhões de reais, gastos anualmente para sustentar a maquina do governo. Que não funciona, diga-se de passagem. O contribuinte paga todo ano, mais de 66 vezes o preço dos estádios. Bom lembrar: sem ter a contrapartida.

Um levantamento do jornal Folha de São Paulo revela que das 167 obras do PAC, bem menos da metade foram concluídas. Outras 88 intervenções estão incompletas, sabe-se lá quando serão concluídas, e 11 delas, note bem, nunca sairão do papel. Este é legado da Copa que o Brasil quis sediar sem ter sido forçado ou induzido. Uma tremenda oportunidade perdida de deixar ao cidadão melhorias após uma competição que vai durar apenas um mês. E depois de 13 de julho de 2014, como fica? Resposta: no mesmo lugar.

Não há nada de errado em construir modernos estádios de futebol ou reformá-los. Isso não significa deixar de fazer o que deveria ser feito. Uma coisa não está em absoluto condicionada a outra. Por este raciocínio não se tapa um buraco de rua. Não se constrói um ambulatório em detrimento a uma ponte se há caixa para pagar ambos.

A um mês do início da Copa, a imprensa internacional tem reverberado as preocupações com os preparativos. Por vezes, a ênfase é que alguns estádios não estão prontos. Incluso aí, o Itaquerão, palco do jogo de abertura. Em conversa com Jean-Baptiste Boursier, apresentador do telejornal “Le Soir”, da BFM, principal canal de informação da TV francesa, abordamos a situação. Você pode acompanhar o papo aqui.

BFMTVRibeiroBP

Por Antonio Ribeiro

07/05/2014

às 5:44 \ Arte

Guerra e Paz em Paris

PortinariGuerraPaz

Cai a noite em uma tremenda terça-feira de labuta em Paris. O Salão de Honra do Grand Palais, o maior espaço para exposições de arte da capital francesa, parece mais diminuto. Há mais gente reunida nos 1.200 metros quadrados que a população de Brodósqui (Brodowski) em 1903, quando Cândido Portinari nasceu em uma fazenda de café próxima ao município paulista. São mais de 700 pessoas.

A razão é inédita na Europa — e não existe previsão para acontecer de novo. Talvez nunca mais. Depois de restaurado no Brasil e antes de voltar ao lugar de origem, a sede das Nações Unidas em Nova York, o díptico monumental Guerra e Paz — dois painéis de 14 metros de altura por 10 de largura — a derradeira obra de Portinari, o principal pintor brasileiro, está à mostra em Paris.

Guerra

Guerra

Até 9 de junho os visitantes do Grand Palais — estima-se que eles serão mais de 300 mil — terão o privilégio reservado só aos delegados onusianos que, quando se dirigem à Assembléia Geral percebem Guerra e quando deixam o recinto, vislumbram Paz. O público que visita a ONU não tem acesso à obra de Portinari, os dois conjuntos de óleo pintados entre 1952 e 1956 em 28 compensados navais que medem, em sua maioria, 2,20 por 5 metros.

Em 2008, a possibilidade de uma exposição de arte brasileira com alto nível em Paris, só equivalente à mostra do barroco mineiro no ano Brasil-França, era remota. Voltando da Escandinávia, onde fez palestra sobre o pai, o obstinado João Cândido Portinari, de 75 anos de idade, decidiu fazer escala em Paris para encontrar o amigo José Maurício Bustani, embaixador brasileiro na França.

João propôs a José convencer os franceses expor a obra paterna. Em um primeiro instante, Bustani — durante 7 anos, quanto foi diretor-geral da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ), o diplomata flertou frequentemente com o Guerra e Paz na ONU — achou a proposta ousada, mas não impossível de materializar.

Os tempos eram propícios. Sarkozy se entendia maravilhas com Lula (Leia o post “Dois Pintos no lixo“). Queria vender caças Rafale para FAB e implementar a “parceria estratégica” com o fabrico de submarinos e helicópteros. Por que não cogitar que poderia haver margem para agrado? Seria oportunidade, na visão do Itamaraty, colocar em prática o “soft power” brasileiro no exterior mais comum pela via do futebol pentacampeão mundial e a MPB.

A idéia chegou aos ouvidos de Lula que assuntou Sarkozy por carta. Durante viagem a Brasília, o ex-presidente francês prometeu ao colega brasileiro: “Vamos inaugurar a exposição juntos em Paris.” Mas a confluência dos astros não ajudou. O Salão Nobre do Grand Palais com seu pé direito de 17 metros, o único espaço capaz de receber os painéis, estava em reformas, dessas que ainda são possíveis na França. O tempo passou. Sarkozy perdeu a eleição para Hollande. Lula deixou o governo ou quase isso. Dilma escolheu os caças suecos Gripen NG. O projeto não decolou, submergiu.

Contudo, ele não caiu no esquecimento. Ao menos, não para o filho João. Em julho do ano passado, ele apresentou o projeto à ministra da Cultura Marta Suplicy. Em escala em Paris, quase sempre obrigatória na rota de autoridades brasileiras, Marta usou seu francês de colégio de freiras em favor de Portinari junto à ministra da cultura da França Aurélie Filippetti. Marta contou ao Blog de Paris que os nativos alegavam um obstáculo técnico: “Os franceses diziam que os painéis de Portinari tinham dezesseis metros de altura.”

Paz

Paz

Na verdade o ministério da Cultura francês considerava Portinari pouco conhecido para atrair público — ainda que com entrada franca — ao Grand Palais, conhecido pelas filas padrão INSS que provocam suas exposições. Desfeito o mal entendido, o projeto rumou novamente para a pista de decolagem. Mas faltava combustível. Ou melhor, dinheiro para montagem.

“O projeto foi aprovado em dezembro do ano passado, um mês cuja atenção está mais voltada para festas de fim de ano”, disse João Cândido ao Blog de Paris. Um task force foi montado para captar recursos. Em apenas três meses, uma “vaquinha” do Banco do Brasil (2 milhões de reais), BNDES (2 milhões), Petrobrás (1 milhão), Caixa Econômica Federal (1 milhão), GDF Suez (1 milhão), Grupo Casino/Pão de Açucar (1 milhão) e Alstom (500 mil) reuniu os 8,5 milhões de reais necessários para levar o Guerra e Paz para Paris em três aviões de carga.

Coube à arquiteta carioca, especializada em museografia e funcionária do Museu d’Orsay, Virgínia Fienga, fazer a cenografia do Guerra e Paz no Grand Palais com preciosa ajuda do iluminador franco-brasileiro Thomas Klug. Foi necessário 10 toneladas de metal para montar as estruturas que sustentam os dois painéis monumentais. “O sucesso da montagem está escondido do público”, disse Fienga ao Blog de Paris.

A arquiteta ergueu em frente aos painéis um muro de 17 metros de altura por 50 metros de comprimento e colou placas de espelhos que refletem as pinturas. O efeito provoca a sensação de um espaço mais amplo. Ademais, a espessura de 1,5 metros do muro oco, permitiu instalar ali, toda parafernália eletrônica controlada por computadores, os projetores dos vídeos, holofotes e os cabos elétricos.

João Cândido tem ainda outro sonho antes do Guerra e Paz voltar definitivamente para seu lugar de origem: expor a obra do pai na estação de trens Grand Central, em Nova York, por onde passam diariamente 750 mil pessoas. “Somos favoráveis, mas o problema maior é a segurança”, disse ao Blog de Paris, Micheal Adlerstein, Subsecretário Geral da ONU. “Em um museu se pode controlar quem entra, não é o caso de uma estação de trens.” Mas há outro impecilho, o custo. A começar pelo mais barato, o aluguel: 25 mil dólares por dia.

Guerra e Paz no Grand Palais

Guerra e Paz no Grand Palais

Por Antonio Ribeiro
 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados