27/09/2012
às 10:44 \ Seleção BrasileiraMano convoca seleção. Dia de torcer contra seu ídolo
O esdrúxulo calendário do futebol brasileiro conseguiu transformar radicalmente um velho costume do torcedor. No passado, ter um jogador de sua equipe convocado para a seleção brasileira era motivo de orgulho. Se um clube emplacava vários jogadores numa mesma lista da CBF, a torcida contava vantagem e comemorava a superioridade de sua equipe sobre os adversários. Quando o técnico Mano Menezes divulgar sua próxima convocação, no entanto, os torcedores dos grandes clubes do país deverão torcer contra seus próprios ídolos. O treinador da seleção anuncia no início da tarde desta quinta-feira, no Rio de Janeiro, a lista de convocados para os amistosos contra Iraque e Japão, em outubro. Como os jogos não valem nada e o Campeonato Brasileiro não será interrompido por causa da seleção, é provável que muitos torcedores prefiram ver os atletas de seu time excluídos da relação de Mano.
Sentindo a reação negativa dos clubes e dos torcedores contra o número exagerado de partidas do Brasil nos últimos meses, Mano prometeu deixar alguns atletas de fora. O critério será o momento que cada clube vive. Jogadores de equipes que brigam pelo título do Brasileirão, por exemplo, devem ficar ausentes da relação. Mas cada equipe tem seu argumento para não ceder seus atletas. O Corinthians de Paulinho, por exemplo, se prepara para o Mundial de Clubes em dezembro. O São Paulo de Lucas tenta crescer para voltar à Libertadores. E o Santos de Neymar, o principal jogador da seleção, tenta recuperar a melhor condição física de seu astro – que encarou uma temporada extenuante justamente por causa da seleção.
Os jogadores ainda gostam de aparecer nas listas de convocados – mesmo com toda a pressão, mesmo com a enorme exigência do público, eles ainda enxergam na oportunidade de vestir a camisa amarela uma valorização importante de seu trabalho. Seus fãs, no entanto, não pensam mais assim. Afinal, a seleção não apenas desfalca as equipes bem no meio do campeonato como também submete os atletas a situações pouco animadoras. Fossem duelos contra Espanha e Alemanha, por exemplo, os amistosos de outubro teriam grande importância, por colocar os craques do Brasil frente a frente com alguns dos melhores jogadores do mundo. Mas a ideia de encarar o Iraque na Suécia e o Japão na Polônia não chega a empolgar ninguém.
Na quarta-feira, em visita à sede da Fifa, em Zurique, o presidente da CBF, José Maria Marin, voltou a reconhecer que a seleção anda enfrentando adversários pouco qualificados. O cartola reconheceu, porém, que não tem o que fazer para contornar a situação – os adversários da equipe são escolhidos pela empresa que comprou os direitos sobre todos os amistosos da seleção até 2022. Em entrevista publicada na edição de VEJA da semana passada, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, fez seu diagnóstico da situação (leia abaixo). Na avaliação dele, é preciso mudar a agenda da seleção. Sem isso, a equipe nacional corre o risco de perder de vez o apoio do público – o que, em meio à contagem regressiva para a Copa do Mundo de 2014, seria algo lastimável.
“A convocação da seleção era um evento que parava o país. Hoje, alcançou um grau de vulgaridade que não impressiona mais a ninguém. Os dirigentes precisam levar isso em conta em benefício do próprio futebol. A seleção brasileira está vulgarizada e banalizada. Isso é um problema a dois anos do Mundial no Brasil. Hoje, o torcedor dá muito mais valor a seu clube do que à seleção. O público está praticamente desprezando a seleção. A culpa não é do torcedor, mas do espetáculo que ele recebe.”
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