sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Cafu, o senhor Copa: ‘Parreira pensou em deixar a seleção antes do Tetra’

Por uma década e meia, a lateral direita da seleção brasileira foi dominada por um único personagem: Cafu (clique aqui para ver fotos da trajetória do jogador na equipe). Aos 39 anos e com uma condição física superior a muitos jogadores em atividade nas grandes equipes no Brasil, o único atleta a disputar três finais de Copa do Mundo é o primeiro entrevistado pelo blog de VEJA.com dedicado à Copa do Mundo.
Na entrevista, realizada na casa de Cafu, em São Paulo, o dono de dois títulos mundiais revela que Carlos Alberto Parreira, treinador da seleção na conquista do tetra, em 1994, pensou em deixar o comando da seleção após uma derrota contra a Bolívia – o primeiro revés do time canarinho na história das Eliminatórias para a Copa. Sobre a próxima edição do torneio, Cafu acredita na conquista do hexa, mas avisa: “Acredito muito no futebol da Inglaterra e da Holanda”.
Qual é a maior lembrança das quatro Copas que você disputou?
Não tenho dúvidas. Erguer a taça, em 2002, foi um marco e a conquista de um sonho pessoal. Subir naquela estrutura para levantar a taça é uma cena que está na memória da população brasileira. Fico honrado de fazer parte dessa história.
O nome Cafu será lembrado também por ser até hoje o único a disputar três finais de Copa. Das três, qual foi a mais complicada?
São ocasiões distintas e em cada final houve um episódio diferente. Só que em 1994, as circunstâncias do duelo contra a Itália deixam a decisão como uma das mais complicadas da minha carreira. Nosso rival na época tinha um grande time. Do nosso lado, era uma pressão enorme de conquistar um Mundial depois de 24 anos de jejum. O Brasil soube usar a experiência dos seus jogadores e demonstrou uma grande força tática. Jogamos sem dar show.
Em 1994, você era uma das grandes novidades da seleção e ainda estava começando no time. Doze anos depois, era o capitão da principal equipe do mundo e com a grande responsabilidade de trazer o hexa. Quais foram suas primeiras reações no Mundial dos EUA e o que ficou diferente ao longo dos anos, até chegar à disputa na Alemanha?
As lembranças são nítidas. Em 1994, era um reserva e esperava oportunidade na equipe. Durante a competição, joguei algumas partidas por conta da lesão do Jorginho. Mas sempre entrei durante dez, vinte minutos. Era um Cafu que começava uma história na seleção e substituir o Jorginho era uma das tarefas mais árduas que tive como jogador. Mas estava preparado. Em 2002 foi completamente diferente. O Jorginho já havia se aposentado e eu tinha uma seqüência como lateral titular. Tive a honra de ser capitão de uma equipe vitoriosa e isso é fruto do trabalho que fiz com essa camisa.
Como você acabou se tornando capitão em 2002?
Antes do anúncio de Felipão no cargo de treinador, eu tinha sido capitão do Brasil em algumas oportunidades. Antes do início do Mundial, a comissão técnica optou pelo Emerson. Só que no último treino antes da estreia, ele sofreu uma lesão no ombro e foi cortado. Logo depois, o próprio Felipão veio conversar no meu quarto e perguntou se eu estava preparado para liderar a equipe. Não tive dúvidas. Disse que já estava pronto. Os jogadores foram avisados e não houve problema algum.
O que faltou ao Brasil para vencer a França na final da Copa de 1998 e nas quartas-de-final do Mundial de 2006?
A equipe não jogou bem. Tirando os problemas pessoais do Ronaldo na final da Copa da França, o mérito foi todo do adversário. Muita gente crucifica apenas um jogador no episódio de 2006 (o lateral Roberto Carlos foi muito criticado por ter sido flagrado arrumando as meias no lance do gol). Mas o erro foi coletivo. Trata-se de dois dias em que deu tudo errado para a seleção. E eu assumo culpa pelas derrotas.
Por causa de todos os recordes conquistados por você, há alguma mágoa com parte da torcida, imprensa ou com a própria CBF?
Sinceramente, não. O futebol é assim. O povo brasileiro sabe da importância que tenho na história do esporte no país. E eu acabei me adaptando às críticas desenfreadas da imprensa. Toda pessoa pública deve saber lidar com este tipo de situação. Mas minha história se resume na minha sala de troféus e conquistas. Se você olhar ao redor, terá uma ideia do que pude construir com o futebol. E sou muito grato por isso.
O que realmente aconteceu em um episódio específico nas Eliminatórias para 2002, quando você pediu o desligamento da seleção dias antes do clássico contra a Argentina? Na época, parte da imprensa relatava uma possível fuga ou abandono seu.
Esse episódio é muito interessante e ninguém comenta isso. Mas foi bem engraçado. Na derrota do Brasil para o Paraguai, acabei sendo expulso. Como a fase da equipe não era boa, as críticas eram intensas. Durante a viagem de retorno ao Brasil, pedi ao técnico do time na época (Vanderlei Luxemburgo) a dispensa do próximo jogo, contra a Argentina, já que estava suspenso. E ele aceitou normalmente. Questão de bom senso mesmo. Só que no dia seguinte, a imprensa só falava em abandono do Cafu da seleção. Falaram até que tinha até fugido. É uma situação comum e que acontece sempre.
A seleção atual já tem um dono da camisa 2?
O Maicon tornou-se titular absoluto com o Dunga na seleção e o seu próprio rival, Daniel Alves, já encontrou uma vaga na equipe: no meio. Mas ambos são potências da posição. De qualquer jeito, o Brasil está bem servido.
Quais são suas expectativas para a Copa de 2010? Quem são os favoritos?
O Brasil está bem preparado e com grandes possibilidades de conquistar o hexa. A seqüência, os bons resultados e o formato tático produzido pelo Dunga contribuem para a boa fase da equipe. Além da nossa seleção, acredito muito em Holanda e Inglaterra, que possuem times ofensivos e de grande qualidade. Mas não podemos esquecer França, Itália e Argentina.
Já passaram 19 anos desde sua primeira convocação. Tem algum episódio que não esquece?
É complicado falar de um só. Minha primeira convocação aconteceu em 1990, durante um jogo contra a Espanha. Mas um episódio inesquecível e que pouca gente conhece foi um fato de bastidores que aconteceu durante as eliminatórias da Copa de 1994. Em 1993, quando perdemos para a Bolívia, a primeira derrota brasileira na história da disputa, houve uma pressão enorme de todos os lados. Foi quando o Carlos Alberto Parreira, extremamente chateado com a situação do time, pensou em deixar o selecionado nacional. Foi neste momento que o elenco se reuniu e pediu a permanência do técnico, deixando claro que ele não tinha qualquer tipo de culpa pelo fraco desempenho contra os bolivianos. Ele aceitou e agradeceu o conselho do elenco, escondendo o fato para a imprensa. O resto da história todo mundo conhece: meses depois, fomos campeões com Parreira.
E despedida da seleção? Já pensou nisso?
Nunca conversei com a CBF a respeito disso, mas se acontecesse seria fantástico. Sinceramente não penso, mas se vier ficarei honrado.
Por Rafael Sbarai


















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