Por Carlos Maranhão, de Johannesburgo
Ninguém dentro da seleção brasileira diz isso abertamente. Mas se ela tivesse a possibilidade de escolher um adversário para as oitavas seria naturalmente o que enfrentará na segunda-feira, 28 de junho, véspera do 52º aniversário da conquista do nosso primeiro campeonato mundial. Entre a Espanha que chegou à África do Sul como uma das favoritas ao título, começou mal e agora poderá crescer, o ferrolho da Suíça que preocuparia pela dificuldade que o Brasil sempre parece encontrar diante de equipes que jogam muito fechadas e o Chile, derrotado em todas as cinco partidas que disputou contra o time de Dunga, a opção, caso dependesse da vontade, não poderia ser outra.
Como país, o Chile é um encanto. Protegido em sua comprida e estreita faixa territorial pelo Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, ele fascina pela diversidade geográfica que vai do deserto de Atacama, no norte, às geleiras da Patagônia, no extremo sul. Habitado por uma população educada e instruída, terra de mulheres bonitas e vinhos magníficos, tem uma economia moderna, uma capital pujante e, entre vários motivos para se orgulhar, dois prêmios Nobel de literatura.
Como futebol, todos sabemos, suas credenciais são mais modestas. Dentro da América do Sul, bem atrás de Brasil e Argentina, luta para se manter no grupo intermediário, ao lado de Paraguai, Uruguai e Colômbia. Seu maior feito histórico foi realizar a Copa do Mundo de 1962, dois anos depois de sofrer um terremoto devastador que atingiu perto de 25% da população, entre mortos e desabrigados. O Chile terminou o certame em terceiro lugar, feito que dificilmente voltará a alcançar algum dia.
Aquele Mundial, que parece de uma época tão remota – os brasileiros, depois de acompanhar as transmissões pelo rádio, nas vozes de Pedro Luís, Jorge Curi ou Oduvaldo Cozzi, esperavam dois dias para ver os videoteipes em preto e branco, aliás uma novidade e tanto, pois na Copa anterior nem isso havia –, foi disputado em apenas quatro estádios, três dos quais com capacidade para menos de 20.000 pessoas. Só o Nacional do Santiago, com seus 70.000 lugares, oferecia dimensões à altura do torneio. Foi lá que Chile e Brasil fizeram uma das semifinais. Até então, a seleção brasileira jogava na litorânea Viña del Mar, na única arena, como se diz hoje em dia, construída especialmente para o evento. As demias haviam sido reformadas. Podiam entrar 18.000 torcedores nesse estádio, o Sausalito.
O Brasil ganhou por 4 a 2, dois gols de Garrincha – o maior craque da Copa, após Pelé ter se contundido na segunda partida – e dois de Vavá. Ao final do jogo, Garrincha foi expulso. O juiz peruano Arturo Yamazaki não viu o lance, denunciado pelo bandeirinha uruguaio Esteban Marino, em que ele atingiu o meio-campista Rojas. Nosso fabuloso ponta-direita não deveria jogar a final, mas Marino, misteriosamente, deixou o país às pressas. Sem seu depoimento, Garrincha acabaria sendo absolvido pela Fifa e pôde atuar na decisão (3 a 1 contra a Tchecoslováquia). A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antecessora da CBF, teria providenciado a viagem do bandeirinha para o Brasil. Um mês depois, ele seria contratado como árbitro pela Federação Paulista de Futebol.
Longos 36 anos mais tarde, brasileiros e chilenos se cruzariam pela segunda vez numa Copa. Foi em 1998, no Parc des Princes, em Paris, onde o Brasil golearia por 4 a 1. Duas coincidências curiosas. Na França, como será agora na África do Sul, era uma partida pelas oitavas. E na primeira fase a seleção brasileira vencera apertado na estreia por 2 a 1 (Escócia), ganhara a segunda com um folgado marcador de 3 a 0 contra um africano (Marrocos) e decepcionara na terceira diante de um europeu (a diferença é que não empatou, mas perdeu por 2 a 1 da Noruega). Naquela noite parisiense, nosso camisa 8 – ele mesmo, Dunga – cobrou uma falta na lateral que originaria o primeiro gol, assinalado por César Sampaio, que ainda faria o segundo. O terceiro e o quarto foram de Ronaldo.
Parte de tais histórias se baseia no saboroso livro O Mundo das Copas, de Lycio Vellozo Ribas, uma ótima sugestão de leitura, consulta ou companhia entre um e outro jogo deste Mundial.