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segunda-feira, 1 de março de 2010

Riquelme, a estrela que se apagou em Buenos Aires

Riquelme contra o Estudiantes

É possível contar nos dedos de uma mão os craques – aqueles autênticos e incontestáveis, capazes de desequilibrar qualquer jogo – que não deverão aparecer nas convocações de suas seleções para a próxima Copa do Mundo. O Brasil tem sua dupla de Ronaldos, superastros aparentemente dispensáveis numa seleção que parece estar pronta para disputar a taça. A Itália tem Totti, também esquecido depois da reformulação a que foi submetida a atual seleção campeã do mundo. Por fim há Juan Román Riquelme, 31 anos, 54 jogos e dezoito gols pela Argentina. Ao contrário dos demais, ele está fazendo muita falta. Riquelme poderia ser a peça que falta para consertar a equipe do técnico Maradona, absolutamente perdida e ainda sem um maestro. Em junho, porém, o camisa dez permanecerá em Buenos Aires. Para decepção dos fãs do futebol clássico e bem jogado, Riquelme insiste em rejeitar a seleção – e, pior ainda, parece viver uma precoce decadência.

Temperamental e imprevisível como qualquer legítimo camisa dez surgido na Argentina, Riquelme já foi um dos jovens armadores apontados como candidatos a sucessor de Maradona. Campeão do Mundial Sub-20, cumpriu caminho idêntico ao de Diego – revelado pelo Argentinos Juniors, brilhou no Boca Juniors e foi transferido para o Barcelona. Também como Maradona, não emplacou na Catalunha e mudou para uma equipe de menor tradição. Se Diego fez sucesso no Napoli, Riquelme foi ídolo no Villareal, minúscula equipe espanhola que o craque carregou até uma inédita semifinal de Liga dos Campeões. Na América do Sul, foi o terror dos brasileiros: conquistou três Libertadores, superando os times do Palmeiras (em 2000 e 2001) e do Grêmio (em 2007). Na seleção, comandou a campanha competente dos argentinos na Copa-2006, e começou as Eliminatórias para 2010 em grande forma, marcando quatro gols em dois jogos e liderando um time promissor, com Leo Messi, Tevez e Aguero. Foi quando uma mal-explicada discordância com Maradona o levou a renunciar ao selecionado nacional.

Desde então, a Argentina de Maradona se perdeu – e Riquelme também. Enquanto a seleção sofre para se acertar, o jogador vai aos poucos perdendo seu brilho no Boca. Assediado pelo Corinthians no ano passado, Riquelme não quis mudar, e vem cumprindo campanhas apagadas. Na noite da última sexta-feira, o Blog da Copa acompanhou o desempenho do craque na partida entre Boca e Estudiantes de La Plata, na Bombonera. Assim como Ronaldo nos gramados brasileiros, Riquelme está nitidamente acima do nível dos outros atletas em atividade na Argentina hoje – a cada passe e a cada drible, exibe uma habilidade extraordinária e uma técnica refinada. No início da partida, quase fez um golaço de falta. Tirando as jogadas de bola parada, porém, ele pouco resolve – aparenta estar sem inspiração, desligado, desmotivado. Apesar da notável facilidade para executar até as jogadas mais complexas, prefere não arriscar. Parece entediado com o próprio talento.

Na quarta-feira, a Argentina enfrenta a Alemanha em seu último amistoso importante antes do Mundial da África do Sul. A armação da equipe deve ficar a cargo de Juán Sebastián Verón, veterano do Estudiantes, que é mais um segundo volante do que um verdadeiro “enganche”, como os argentinos chamam os homens responsáveis por ligar o meio ao ataque. E é justamente nessa função que a seleção está órfã. Diego Maradona pode escolher entre Messi, Tevez, Higuaín, Milito e Aguero no ataque, mas não encontra ninguém para alimentar essa artilharia. Riquelme estará em casa, descansando depois do jogo entre Boca e Vélez, na terça. Infelizmente, no entanto, pouca gente deverá se lembrar dele. No duelo de sexta, o Boca vencia por 1 a 0 (gol de outro veterano, Palermo, de pênalti) quando, numa distração de Riquelme, a equipe da casa perdeu a bola no ataque. Eram 46 minutos do segundo tempo. Num contra-ataque rápido, o Estudiantes empatou, mergulhando o Boca, na 12ª posição no campeonato, em uma crise. O blog perguntou aos jornalistas presentes à tribuna da Bombonera sobre Riquelme. Tão fanáticos pelo craque quanto os fiéis torcedores do Boca, estão decepcionados. “Lamento”, disse um deles. “Não dá mais. Está na hora de Román ir para o banco”.

Por Giancarlo Lepiani, de Buenos Aires


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