
O alto falante é parecido com o do presídio ali ao lado do campo de treinamento dos juízes
A Baavianspoort Youth Prison ficou para trás. Não, não é ali que estão os árbitros da FIFA, escalados para uma sessão de treinamento diante dos jornalistas. O motorista que leva a equipe de VEJA anda mais um pouco e, agora sim, chegamos ao endereço correto, a Odendaal High School, a pouco menos de um quilômetro da carceragem destinada a jovens de 14 a 21 anos. Desde que o uruguaio Jorge Larrionda não viu a bola dentro do gol alemão, no mais polêmico lance desta Copa, e o italiano Roberto Rossetti não viu o argentino Carlitos Tevez impedido, no jogo contra o México, a turma do apito virou atração – e não por acaso havia pelo menos duas centenas de repórteres a cercá-los no campo universitário.
Vuuuuuuu, vuuuuuuuuu, vuuuuuuuuuu. Eles correm, fazem flexões e simulam situações de impedimento em meio ao já clássico e insuportável som das vuvuzelas. Mas onde elas estão? Cadê o público? Os alto falantes reproduzem o som típico das partidas de modo a habituar juízes e bandeirinhas com o ruído. Vuuuuuuuu, vuuuuuuuuuuu, vuuuuuuuuuuuu. Um gaiato diz que o local, com o som sendo emitido a todo vapor, parece com o pátio de um presídio, um pouco como aquele da vizinhança. Os fotógrafos habituados a trabalhar dentro de campo dizem que, nos estádios, tudo é muito mais barulhento. Eric Dansault, o bandeirinha de Brasil e Costa do Marfim, um francês sorridente, pequeno e dado a gesticular muito, diz já se ter acostumado com o estrondo, mas lembra que é fundamental treinar com elas, as vuvuzelas, ao fundo. “Por que é assim que vamos apitar, sem ouvir direito o apito, sem poder conversar com os jogadores”, diz a VEJA. Nada, ele diz, que o faça tirar o sono.
“Mas fiquei sem dormir depois da partida do Brasil, quando vi em detalhes o gol do Luis Fabiano, com dois toques da bola no braço”, admite. “Mas não há nada a ser feito, o futebol é humano, e por ser humano há erros”. Cuidadoso – porque a FIFA lhes proibiu de falar de questões técnicas a cerca a atividade – Dansault aceita conversar sobre a possibilidade, que já não parece tão distante, de existir no futebol um sensor eletrônico, nas traves ou na bola, que permite identificar um lance duvidoso de gol, como o do chute de Lampard que estourou no travessão e bateu dentro da meta do alemão Manuel Neuer. “Sou contra a tecnologia”,afirma. “Dúvidas fazem parte de um jogo, não há motivos para interrompê-lo a todo momento para resolver uma dúvida”. Uma provocação não tira o prumo de Dansault. “Mas vocês, juízes, devem ter orgulho próprio, não é justo que sejam criticados pelo mundo inteiro por um erro que poderia ser evitado com o uso de tecnologia”. A resposta, orgulhosa. “Sei disso, mas faz parte da nossa profissão, e enquanto a FIFA não decidir pelo contrário, assim é”.
Atrás de Dansault, um árbitro comenta com outro, avistando no gramados grupos de jornalistas a cercá-los como quem caça Messi para uma entrevista: “Essa turma adorou, dois erros num mesmo dia e viramos notícia, como sempre… quando tudo dá certo, e não há lance polêmico, não dizem nada”. Assim é a vida de quem apita, especialmente de quem apita Copa do Mundo. As mães deles que nos perdoem.
(Por Fábio Altman, de Pretória)