
Os garotos fizeram bonito. A jornada que os Bafana Bafana precisavam cumprir para chegar à segunda fase da Copa do Mundo da África do Sul era tão épica quanto as histórias contadas por J.R.R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis, nascido em Bloemfontein, no coração do país, em 1892. E foi nesta mesma cidade, pacata e com ar interiorano, que os sul-africanos chegaram a saborear o gosto dessa façanha que parecia impossível. Uma bonita vitória contra a França, 2 a 1, nesta terça-feira, no estádio Free State, quase deu à seleção anfitriã do Mundial uma inédita vaga nas oitavas-de-final. Faltaram mais gols: a seleção da casa foi eliminada só no critério de desempate, pois se igualou em pontos com o México, que avançou para a segunda fase junto com o Uruguai. Ainda assim, deixou para trás a França e o jejum de vitórias em Copas, e ainda apagou a má impressão deixada na derrota para o Uruguai em Pretória. Ao fim da partida, os quase 40.000 torcedores presentes ao estádio aplaudiram e acenaram para seus esforçados e modestos ídolos.
O palco do duelo desta terça parecia uma escolha insólita da tabela preparada pela Fifa. Ao invés de decidir seu futuro no torneio na metrópole Johannesburgo, na belíssima Cidade do Cabo ou na quente Durban, os sul-africanos jogaram todas as suas cartas na competição num acanhado estádio erguido numa cidade habitada por cerca de 370.000 pessoas. Quando a partida começou, no entanto, o local da festa começou a fazer algum sentido: com arquibancadas bem próximas do campo e uma acústica capaz de amplificar ainda mais o estrondo das vuvuzelas, o estádio lotado por uma pequena multidão vestida de amarelo empurrou os Bafanas para cima dos franceses. Depois de um início hesitante, a equipe local percebeu que o monstro francês não era tão feio quanto se temia e começou a atacar. E o gol veio na hora certa para um time que precisava de um placar gordo para seguir sonhando com a vaga.
Numa cobrança de escanteio acompanhada por um dos maiores vuvuzelaços já ouvidos nos barulhentos estádios sul-africanos, Khumalo subiu mais que Diaby e marcou de cabeça, aos 20 minutos. A África do Sul se animou e partiu com tudo para cima. Aos 23, Mphela arrancou sozinho e chutou rente à trave. Aos 25, a situação dos Bafanas ficou ainda mais promissora: Gourcouff, o único jogador capaz de armar as jogadas ofensivas da França, foi expulso depois de acertar uma cotovelada em Sibaya, numa disputa pelo alto dentro da área sul-africana. O time da casa ganhou moral e aumentou a pressão. Tshabalala, um dos destaques do jogo, cobrou falta perigosa aos 35. Um minuto depois, teve a chance de cabecear sozinho, mas mandou a bola pelo alto. De tanto tentar, a África do Sul enfim ampliou, numa jogada iniciada pelo próprio Tshabalala, pela esquerda. A bola espirrou na zaga, Masilela cruzou e Mphela empurrou para o gol.
O estádio quase veio abaixo quando Parker estufou as redes apenas um minuto depois, mas a jogada já estava parada – o atacante estava impedido. Para dar ainda mais moral aos anfitriões, o goleiro Josephs, que é reserva e só estava em campo porque o titular Khune estava suspenso, operou um milagre aos 40 minutos, espalmando para fora uma bola que parecia ter destino certo no fundo das redes. Os Bafana Bafana encerravam um primeiro tempo quase impecável, diante de uma França que desonrava a carteirinha de sócia do restrito clube das seleções campeãs do mundo. Jogadores como Ribery, astro de primeira grandeza no futebol europeu, e Gallas, zagueiro que veste a camisa 10 no Arsenal, tinham participações sofríveis na partida.
Na volta para o segundo tempo, o desmoralizado técnico Raymond Domenech botou em campo mais um dos astros franceses, o ponta Malouda, do Chelsea. Logo no começo da segunda etapa, entrou Henry, carrasco do Brasil em 2006, hoje no Barcelona. Mas quem brilhava era a limitada seleção da casa, formada em sua maioria por jogadores que atuam no próprio país e em times minúsculos da Europa. Aos 6 minutos, Mphela chutou por cobertura e acertou o travessão. O centroavante tentou de novo aos 13, exigindo grande defesa do goleiro Lloris. A França começou a esboçar algumas tramas perigosas, mas parecia desmotivada e apagada. Aos 17, Mphela ficou perto de marcar mais uma vez, mas bateu para fora. Os Bafanas tentaram de novo com Pienaar, aos 21.
Mas foi aí que os Bafanas deram sinais de que haviam chegado ao seu limite. Depois de alguns minutos de jogo truncado, a França deu as caras no ataque e diminuiu, com Malouda, aos 25. E a África do Sul sentiu o golpe. Os Bafanas se abateram e passaram a atacar com menos ímpeto e confiança, ainda que com a mesma persistência. A França passou a ficar mais tempo com a bola nos pés, mas sem qualquer objetivo que não estragar a festa sul-africana. No fim, pouco importou. Ainda engatinhando quando se trata de futebol internacional, os Bafana Bafana – cujo apelido significa “os garotos, os garotos” -, deram à torcida a tão esperada vitória no Mundial. Não se podia esperar muito mais deles. A principal missão, colorir e animar o primeiro Mundial do continente africano, foi cumprida com louvor.
(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)