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Archive for the ‘África do Sul’ Category

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Port Elizabeth: praia, sol e força política

A 'cidade dos ventos', com menos de 250.000 pessoas: oito jogos, igual à Cidade do Cabo (Foto: AFP)

Para os jogadores da seleção, instalados num hotel com belíssima vista para o Oceano Índico, e para os torcedores que seguem o Brasil, que trocaram os casacos e gorros por chinelos e bermudas nesta sexta-feira, a viagem de Johannesburgo para Port Elizabeth pode ter sido motivo de comemoração. A temperatura por volta de meio-dia, quatro horas antes da partida entre Brasil e Holanda, era de 27 graus, com céu absolutamente limpo e uma agradável brisa para amenizar o calor. A seleção tem chance de voltar para cá dentro de alguns dias – mas ninguém quer que isso aconteça. O estádio Nelson Mandela Bay é o palco escolhido para a disputa do tenebroso jogo entre os perdedores das semifinais, brigando pelo terceiro lugar, no dia 10, a véspera da grande decisão, em Johannesburgo.

Para quem estranhou a opção por Port Elizabeth, tanto para o jogo de quartas-de-final desta sexta como para a disputa de terceiro lugar, vale um lembrete: o presidente do comitê organizador local, Danny Jordaan, nasceu na cidade. A cidade tem menos de 250.000 habitantes (1 milhão é o total em toda a região da baía Nelson Mandela) e, apesar da bela faixa de praia com areia fina e água limpa, carece de atrações para justificar a realização de tantos jogos aqui (oito, igual à Cidade do Cabo). Mas Danny Jordaan certamente encomendou um lugar especial na lista de sedes à sua cidade de origem. A maior festa do esporte mundial pode ser um evento bilionário, com impacto em todos os cantos do mundo. Mas até numa Copa há espaço para que interesses individuais provoquem decisões difíceis de se entender.

(Por Giancarlo Lepiani, de Port Elizabeth)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Nas cidades, elefantes brancos à solta

O Nelson Mandela Bay, em Port Elizabeth: depois da Copa, sem compromissos

“Se esta é sua primeira visita à África do Sul, seja bem-vindo. E volte no futuro: precisamos dos seus dólares para terminar de pagar todos esses estádios de futebol.” A frase do simpático comandante do voo entre Johannesburgo e Port Elizabeth, nesta quinta-feira, é falada num tom de brincadeira, mas acaba revelando uma das preocupações que começam a emergir no país a dez dias do fim da Copa do Mundo. Com o encerramento da fase de grupos e das oitavas-de-final, só quatro cidades continuam dentro do roteiro do Mundial: Johannesburgo, Port Elizabeth, Durban e Cidade do Cabo. As outras sedes já se despediram da Copa, mas agora precisam fazer as contas para descobrir qual foi o saldo final da participação no torneio.

Para o trio formado por Johannesburgo, Durban e Cidade do Cabo, as preocupações são diferentes – afinal, são todas cidades de grande porte, com demografia favorável ao aproveitamento dos estádios e instalações construídas para o Mundial. Mas no caso das pequenas Rustemburgo, Nelspruit, Polokwane e Bloemfontein, começou a temporada de preservação dos elefantes brancos. Seus estádios, novinhos em folha, deram conta do recado na hora de receber a Copa. Agora, porém, surge a missão de encontrar algum uso para eles. Era um alerta que já se fazia muito antes do início do Mundial. E uma advertência que serve também ao Brasil, em que algumas das sedes escolhidas para 2014 não têm clubes capazes de encher suas futuras arenas.

Em Polokwane, por exemplo, o estádio Peter Mokaba, capaz de receber 42.000 torcedores com todo o conforto, custou 1,4 bilhão de rands sul-africanos, o equivalente a 320 milhões de reais. No instante em que o árbitro apitou a última partida realizada ali, nascia um elefante branco no país. Não existe nenhuma previsão de uso do estádio. Os responsáveis pela arena devem abrir uma disputa pela cessão da arena. Não se sabe se já existe algum interessado. Em Bloemfontein, palco do jogaço de oitavas em que a Alemanha eliminou a Inglaterra, há alguns jogos de rúgbi na agenda, mas nenhuma previsão de uso frequente para eventos com grande público. E o mesmo deve acontecer com o Nelson Mandela Bay, o estádio onde o Brasil joga na sexta.

(Por Giancarlo Lepiani, de Port Elizabeth)

Dos Bafana Bafana aos Estrelas Negras

Como acontece com quase todos os vizinhos de continente, África do Sul e Gana têm suas antipatias, rusgas e rivalidades. Para muitos moradores de Johannesburgo, por exemplo, os imigrantes vindos de Gana não são confiáveis – assim como os nigerianos, carregam reputação duvidosa, de envolvimento com atividades pouco honestas. Injusta ou não, essa imagem negativa parece ter sido deixada de lado, pelo menos temporariamente, por causa da Copa do Mundo. A torcida pode não ser unânime, mas está claro que o apoio aos Bafana Bafana, eliminados logo na primeira fase, foi transferido para os Estrelas Negras de Gana, os últimos africanos na disputa. Nos dias que se seguiram à queda dos sul-africanos, o ânimo e o interesse da torcida local claramente murcharam. Agora, porém, a empolgação se reacendeu, justamente por causa de Gana.

Às vésperas da partida da seleção alvinegra contra o Uruguai, no estádio Soccer City, moradores de Johannesburgo exibiam com orgulho suas camisas (recém-compradas) da seleção que foi adotada por todas as outras torcidas africanas. Pelas esquinas da cidade, vendedores ambulantes agora oferecem a bandeira verde, amarela e vermelha de Gana – antes, era raro encontrar alguma delas em meio às cores sempre populares do Brasil, da Alemanha, da Argentina, da Espanha e, claro, da própria África do Sul. Se conseguir uma vitória contra os uruguaios na sexta, os Estrelas Negras têm tudo para conquistar ainda mais adeptos entre os times locais, já que terão alcançado uma semifinal inédita para os times africanos. E a expectativa de que o Brasil seria o segundo time na preferência dos sul-africanos terá sido desmentida: se encarar Gana na semi, pode jogar com torcida contra.

O melhor desempenho das seleções do continente até hoje foi chegar às quartas-de-final – em 1990, Camarões ficou perto de se classificar às semis num duelo contra a Inglaterra, mas não teve forças para superar a tradição do English Team. Uma das mais importantes forças do futebol do continente – junto com Nigéria e a própria seleção camaronesa -, Gana tem um time jovem, com atletas habilidosos e estilo de jogo agradável de se ver. Até por isso, conquistou a simpatia dos rivais locais, que afirmam que a seleção chegou até as quartas com méritos – e, por isso, merecem apoio nessa reta decisiva. Em Johannesburgo, muitos correm para tentar encontrar ingresso para o duelo com os uruguaios. Quem for ao Soccer City na sexta deve se preparar: o coro de vuvuzelas será mais alto que nunca para tentar empurrar os Estrelas Negras para a história.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

terça-feira, 29 de junho de 2010

Blatter se desculpa por erros dos árbitros

Um dia depois de a Fifa afirmar que não cogita usar câmeras de vídeo para resolver lances duvidosos em campo, o presidente da Federação, Joseph Blatter, se pronunciou sobre as duas falhas grotescas da arbitragem nos jogos de Argentina x MéxicoInglaterra x Alemanha e, após pedir desculpas aos times prejudicados, admitiu reabrir o debate sobre o uso de novas tecnologias.

“Falei com as delegações do México e Inglaterra e disse: ‘sinto muito’. Eles agradeceram e aceitaram que os erros de arbitragem fazem parte do jogo, embora tenham contribuído para suas eliminações”, declarou Blatter, em um pronunciamento oficial à imprensa nesta terça-feira. No jogo contra o México, o juiz validou um gol do argentino Carlitos Tévez, que estava impedido, e na partida entre Inglaterra e Alemanha, o árbitro não deu o gol de Frank Lampard, que bateu no travessão e entrou.

Segundo o presidente da Fifa, não faria sentido, diante desses dois casos, não reabrir o debate sobre o uso das novas tecnologias na arbitragem. “Pessoalmente lamento, quando se vê que os erros dos árbitros foram tão evidentes. Mas não é o fim da competição ou do futebol, isso pode acontecer.” E acrescentou: ”Há um dossiê sobre este assunto, pois é evidente que algo deve ser mudado. Cruzo os dedos para que até a final não aconteçam mais erros”.

Em busca de alternativas, Blatter anunciou que é estudada a possibilidade de se acrescentar dois novos assistentes de arbitragem no campo. As regras do futebol, de acordo com ele, determinam que deve haver um só árbitro, mas não limita o número de assistentes. ”O futebol é tão importante, não só no aspecto esportivo, mas também no social e no econômico, que é preciso avançar no controle de jogo, pois é certo que nos estádios há 32 câmeras de televisão, mas o ser humano que controla o jogo tem apenas seus dois olhos”, explicou. Ao mesmo tempo, ele ressalvou que para analisar o gol impedido de Tévez contra o México “não era preciso tecnologia”.

sábado, 26 de junho de 2010

Quem assume os Bafanas após Parreira?

Candidato forte: Pitso Mosimane (à esq.) pode substituir o treinador brasileiro (Foto: Getty)

Com a seleção sul-africana eliminada da Copa, o técnico Carlos Alberto Parreira passeava tranquilamente pelo shopping center Sandton City, em Johannesburgo na tarde deste sábado. A partida entre Uruguai e Coreia do Sul estava para começar, mas o treinador parecia não estar muito preocupado com o jogo. Quando parava para conversar com algum conhecido, era cercado pelos fãs dos Bafana Bafana, à caça de autógrafos ou de fotos tiradas no celular. Parreira, que não continua no cargo, deverá ficar no país até o fim de julho. Até lá, seu substituto já deve ter sido anunciado pela Associação Sul-Africana de Futebol, que prometeu, na sexta, divulgar o nome do escolhido nas próximas duas semanas. A imprensa local informa que um dos auxiliares de Parreira, Pitso Mosimane, pode assumir o comando do time. “Precisamos definir algumas coisas antes que qualquer anúncio seja feito. Tudo o que podemos dizer é que o técnico certamente será um sul-africano.” Parreira fez sucesso e foi aplaudido, ainda que não tenha classificado a seleção para a fase eliminatória. Mas muitos personagens importantes do futebol sul-africano aproveitaram a saída de Parreira para reivindicar a entrega do cargo a um profissional do próprio país.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Cartolas: a Copa é ‘perfeita’. Mas a bola…

Jordaan com a Jabulani: Comitê comemora organização; Fifa se preocupa com bola (Foto: Divulgação)

Na tarde de sexta-feira, cerca de duas horas antes do jogo entre Brasil e Portugal em Durban, a Golden Mile, o calçadão que fica diante da praia de Suncoast, estava absolutamente apinhado de torcedores vindos de dezenas de países. O local estava quase intransitável, mas não havia nenhum sinal de preocupação com segurança ou falta de estrutura. No meio dessa alegre confusão de turistas e sul-africanos, um grupo de guarda-costas escoltava o presidente do Comitê Organizador da Copa, Danny Jordaan, por uma entrada lateral do hotel Suncoast, de frente para o Oceano Índico. A reportagem de VEJA deu de cara com o cartola, mas Jordaan não quis falar – ele queria passar rapidamente em seu quarto antes de seguir para o jogo. Mas a festa de Durban certamente deixou Jordaan nas nuvens. Tanto que, neste sábado, durante uma entrevista coletiva concedida em Johannesburgo, o cartola, falando em tom de extremo otimismo, se gabava do trabalho dos sul-africanos na primeira metade do evento.

“O torneio já está 50% transcorrido, mas atingimos 100% dos objetivos, confirmando que o país era mesmo capaz de realizar este evento”, disse Jordaan. O dirigente comemorou o impacto da Copa para os sul-africanos e para os turistas. “Vem sendo uma jornada de descoberta e autodescoberta não só para os visitantes como também para as pessoas daqui. Muitos sul-africanos conheceram um novo país.” Não era só Jordaan que estava satisfeito. O secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, disse que a África do Sul, que até o ano passado tinha questionada sua capacidade de aprontar tudo a tempo, está fazendo um trabalho exemplar. “Se no dia 11 de julho, na final, o nível for o mesmo de hoje, direi que terá sido uma Copa perfeita”, afirmou o francês. “O país está acima de todas as expectativas. Crescemos em número de turistas e ingressos vendidos na comparação com a Alemanha-2006. Não há uma só parte desta Copa em que não superamos os Mundiais passados”, exagerou.

No fim, Valcke fez referência aos boatos de que a Fifa já preparava um plano B – Austrália ou Inglaterra – caso os sul-africanos não tivessem ajeitado tudo dentro dos prazos. “Agora, é a África do Sul que será o plano B para os próximos Mundiais”. O sucesso de público é fato: 2.284.796 pessoas assistiram aos 48 jogos da primeira fase nos estádios, uma média de cerca de 47.600 torcedores por partida. Não há relatos de problemas sérios de organização – as principais dificuldades, como o trânsito em Johannesburgo e as reclamações por causa do barulho incessante das vuvuzelas, já estavam dentro do script. É, realmente, um Mundial feito corretamente, ainda que a custos maiores do que se previa. A Fifa só admitiu um problema neste sábado, e ele não é de sua responsabilidade direta. Pela primeira vez, a entidade máxima do futebol mundial reconheceu que a bola Jabulani, criada pela alemã Adidas, é problemática. Valcke afirmou que a Fifa “não é surda” e não ignorou as queixas dos jogadores (principalmente goleiros). Mas, é claro, não existe chance alguma de trocar de bola no torneio: Valcke promete tratar do assunto, ouvindo técnicos, jogadores e a Adidas, só depois da Copa.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

terça-feira, 22 de junho de 2010

O sem-vergonha e os envergonhados

Na saída das delegações de África do Sul e França, no estádio Free State, em Bloemfontein, nesta terça-feira, as atenções que estavam voltadas à entrevista do técnico francês Raymond Domenech – desmoralizado pela eliminação, pela derrota por 2 a 1 e pelo papel vexatório na Copa – se desviaram para a saída dos vestiários. O presidente sul-africano Jacob Zuma saía do espaço reservado aos Bafana Bafana acompanhado de uma de suas três mulheres, de turbante e enrolada num pano que imitava a pele de uma onça. Sorridente, apesar da queda da seleção sul-africana logo na primeira fase, Zuma tinha visitado os jogadores para dar os parabéns pela dedicação e esforço. Não se sabia se ficaria com a mesma esposa ao deixar Bloemfontein ou se chamaria alguma outra para entretê-lo no retorno a Pretória, onde normalmente despacha.

Logo em seguida, começaram a sair os jogadores franceses. Distantes uns dos outros, com cara de poucos amigos, não conseguiam esconder o constrangimento pela participação esdrúxula no Mundial – duas derrotas, um empate, só um gol marcado, lanterna de seu grupo. A maioria não quis falar – Henry, por exemplo, mal dirigia o olhar aos jornalistas; outro astro do time, Ribery, também se calou. O capitão Evra, que foi sacado do time no jogo desta terça, estava visivelmente abalado. Lamentou o vexame, assim como Malouda, autor do único gol francês na Copa, e o meia Gourcouff, expulso logo no primeiro tempo, depois de acertar uma cotovelada num zagueiro sul-africano. Falando em voz baixa, em tom de desculpas, parecia atordoado com os acontecimentos das últimas semanas. O voo da conturbada delegação de volta a Paris certamente não será dos mais agradáveis.

Os Bafana Bafana começaram a sair em seguida. Aparentando abatimento e exaustão, não pareciam satisfeitos com a vitória sobre a França – pelo que se viu na saída da equipe, realmente acreditavam que seria possível conseguir uma vaga nas oitavas. Entre os que falaram aos jornalistas – a maioria -, a palavra mais citada foi “orgulho”, a começar pelo primeiro a aparecer, o astro do time, Pienaar. O zagueiro Khumalo, que fez o primeiro gol do jogo desta terça, recebe os parabéns de um repórter e responde, simpático: “Não mereço, mas agradeço mesmo assim”. Conta que gostou de ter feito um gol, mas que isso não ameniza a dor pela desclassificação. O rápido meia Tshabalala, que marcou o primeiro gol da Copa e ganhou projeção internacional com suas boas atuações no Mundial, sai mancando e desanimado. Diz que a vitória contra os franceses teve “sabor agridoce”.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

Bafanas se despedem. E ganham aplausos

Os garotos fizeram bonito. A jornada que os Bafana Bafana precisavam cumprir para chegar à segunda fase da Copa do Mundo da África do Sul era tão épica quanto as histórias contadas por J.R.R. Tolkien, autor da trilogia O Senhor dos Anéis, nascido em Bloemfontein, no coração do país, em 1892. E foi nesta mesma cidade, pacata e com ar interiorano, que os sul-africanos chegaram a saborear o gosto dessa façanha que parecia impossível. Uma bonita vitória contra a França, 2 a 1, nesta terça-feira, no estádio Free State, quase deu à seleção anfitriã do Mundial uma inédita vaga nas oitavas-de-final. Faltaram mais gols: a seleção da casa foi eliminada só no critério de desempate, pois se igualou em pontos com o México, que avançou para a segunda fase junto com o Uruguai. Ainda assim, deixou para trás a França e o jejum de vitórias em Copas, e ainda apagou a má impressão deixada na derrota para o Uruguai em Pretória. Ao fim da partida, os quase 40.000 torcedores presentes ao estádio aplaudiram e acenaram para seus esforçados e modestos ídolos.

O palco do duelo desta terça parecia uma escolha insólita da tabela preparada pela Fifa. Ao invés de decidir seu futuro no torneio na metrópole Johannesburgo, na belíssima Cidade do Cabo ou na quente Durban, os sul-africanos jogaram todas as suas cartas na competição num acanhado estádio erguido numa cidade habitada por cerca de 370.000 pessoas. Quando a partida começou, no entanto, o local da festa começou a fazer algum sentido: com arquibancadas bem próximas do campo e uma acústica capaz de amplificar ainda mais o estrondo das vuvuzelas, o estádio lotado por uma pequena multidão vestida de amarelo empurrou os Bafanas para cima dos franceses. Depois de um início hesitante, a equipe local percebeu que o monstro francês não era tão feio quanto se temia e começou a atacar. E o gol veio na hora certa para um time que precisava de um placar gordo para seguir sonhando com a vaga.

Numa cobrança de escanteio acompanhada por um dos maiores vuvuzelaços já ouvidos nos barulhentos estádios sul-africanos, Khumalo subiu mais que Diaby e marcou de cabeça, aos 20 minutos. A África do Sul se animou e partiu com tudo para cima. Aos 23, Mphela arrancou sozinho e chutou rente à trave. Aos 25, a situação dos Bafanas ficou ainda mais promissora: Gourcouff, o único jogador capaz de armar as jogadas ofensivas da França, foi expulso depois de acertar uma cotovelada em Sibaya, numa disputa pelo alto dentro da área sul-africana. O time da casa ganhou moral e aumentou a pressão. Tshabalala, um dos destaques do jogo, cobrou falta perigosa aos 35. Um minuto depois, teve a chance de cabecear sozinho, mas mandou a bola pelo alto. De tanto tentar, a África do Sul enfim ampliou, numa jogada iniciada pelo próprio Tshabalala, pela esquerda. A bola espirrou na zaga, Masilela cruzou e Mphela empurrou para o gol.

O estádio quase veio abaixo quando Parker estufou as redes apenas um minuto depois, mas a jogada já estava parada – o atacante estava impedido. Para dar ainda mais moral aos anfitriões, o goleiro Josephs, que é reserva e só estava em campo porque o titular Khune estava suspenso, operou um milagre aos 40 minutos, espalmando para fora uma bola que parecia ter destino certo no fundo das redes. Os Bafana Bafana encerravam um primeiro tempo quase impecável, diante de uma França que desonrava a carteirinha de sócia do restrito clube das seleções campeãs do mundo. Jogadores como Ribery, astro de primeira grandeza no futebol europeu, e Gallas, zagueiro que veste a camisa 10 no Arsenal, tinham participações sofríveis na partida.

Na volta para o segundo tempo, o desmoralizado técnico Raymond Domenech botou em campo mais um dos astros franceses, o ponta Malouda, do Chelsea. Logo no começo da segunda etapa, entrou Henry, carrasco do Brasil em 2006, hoje no Barcelona. Mas quem brilhava era a limitada seleção da casa, formada em sua maioria por jogadores que atuam no próprio país e em times minúsculos da Europa. Aos 6 minutos, Mphela chutou por cobertura e acertou o travessão. O centroavante tentou de novo aos 13, exigindo grande defesa do goleiro Lloris. A França começou a esboçar algumas tramas perigosas, mas parecia desmotivada e apagada. Aos 17, Mphela ficou perto de marcar mais uma vez, mas bateu para fora. Os Bafanas tentaram de novo com Pienaar, aos 21.

Mas foi aí que os Bafanas deram sinais de que haviam chegado ao seu limite. Depois de alguns minutos de jogo truncado, a França deu as caras no ataque e diminuiu, com Malouda, aos 25. E a África do Sul sentiu o golpe. Os Bafanas se abateram e passaram a atacar com menos ímpeto e confiança, ainda que com a mesma persistência. A França passou a ficar mais tempo com a bola nos pés, mas sem qualquer objetivo que não estragar a festa sul-africana. No fim, pouco importou. Ainda engatinhando quando se trata de futebol internacional, os Bafana Bafana – cujo apelido significa “os garotos, os garotos” -, deram à torcida a tão esperada vitória no Mundial. Não se podia esperar muito mais deles. A principal missão, colorir e animar o primeiro Mundial do continente africano, foi cumprida com louvor.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

A maior vaia da Copa vai para Domenech

A torcida da França, minoria espremida numa arquibancada pintada de amarelo no estádio Free State, em Bloemfontein, se desdobrou para puxar a maior vaia desta Copa até agora, quando o sistema de som anunciou o nome do técnico Raymond Domenech, a cerca de meia hora do jogo contra a África do Sul. Também foi vaiado o nome de Anelka, que já se desligou da delegação depois do xingamento a Domenech. Thierry Henry foi muito aplaudido, mas começa o jogo no banco, de novo. Apesar da ausência de Anelka, o titular será Cissé. No anúncio da escalação dos Bafanas, aplausos para todos – e uma saudação ainda mais forte, com vuvuzelas e gritos, para Carlos Alberto Parreira.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

Partido critica capitão. Ele dá de ombros

Mokoena lamenta a derrota para o Uruguai: na mira dos políticos (Foto: Getty)

Por mais de oito décadas, o Congresso Nacional Africano (CNA) tentou a todo preço conseguir igualar os negros aos brancos que governavam a África do Sul. Graças ao magnetismo de Nelson Mandela e ao custo de centenas de mortes, o partido derrubou o apartheid, chegou ao poder e passou a ser a força política dominante no país. Agora, como se não tivesse coisa melhor para fazer – como resolver as questões HIV, pobreza e crime -, a liga jovem do partido lançou uma campanha: quer tirar o capitão Aaron Mokoena da formação titular dos Bafana Bafana. E a briga não tem nada de política: os militantes do CNA são mesmo palpiteiros que desaprovam o futebol do zagueiro, que atua no Portsmouth, da Inglaterra. “Ele comete erros que não podem acontecer num jogo como o desta terça”, disse o porta-voz Floyd Shivambu. “Respeitamos o capitão por sua capacidade de liderança, mas devemos ser honestos na defesa de nossa nação.”

Mokoena já avisou que não liga para as críticas. O zagueiro, que se formou na fraca liga local e chegou a jogar em clubes como o Ajax, da Holanda, já teve que passar por coisas muito piores do que uma trapalhada no gramado – como um dos lances de gol do Uruguai, nos 3 x 0 de Pretória – e uma reclamação de políticos que querem aparecer. Quando tinha 11 anos e morava numa favela próxima a Johannesburgo, conseguiu escapar por pouco de um massacre promovido por uma facção radical negra rival do CNA. Quarenta e seis pessoas morreram – em sua maioria, garotos como ele. O capitão dos Bafanas se safou de maneira inusitada: sua mãe o vestiu com roupas de menina e ele conseguiu chegar até um posto policial. “Depois do que aconteceu naquele dia, não tenho mais medo de nada”, conta Mokoena. Ouvir algumas cornetadas e jogar contra Thierry Henry nesta terça? Ele tira de letra.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

Parreira muda tudo para tentar milagre

Os Bafana Bafana têm uma missão de amargar nesta quarta-feira, em Bloemfontein. Precisam derrotar a França, uma seleção que jamais conseguiram superar, por uma diferença de pelo menos três gols. Ainda que essa façanha seja alcançada, faltará torcer para que México e Uruguai, que jogam ao mesmo tempo, em Rustemburgo, não empatem. Um resultado igual confirma a classificação das duas equipes à segunda fase. Se houver vencedor na partida, tanto os sul-africanos como os franceses poderão sonhar com a vaga nas oitavas – desde que consigam uma goleada. Nos dois primeiros jogos, as duas seleções somaram só um ponto cada uma.

Para tentar viabilizar o milagre em Bloemfontein, o técnico brasileiro dos Bafanas, Carlos Alberto Parreira, estudava fazer até cinco mudanças na equipe que foi atropelada pelo Uruguai em Pretória. O treinador disse que as trocas – duas delas por causa de suspensões – já foram até treinadas. Os nomes dos novos titulares, porém, não foram revelados. Uma das trocas mais prováveis inclui a mudança da formação da equipe, que jogou até agora com só um atacante, para a entrada de um segundo homem de frente, Bernard Parker, ao lado do centroavante Mphela.

Parreira disse não temer o impacto de uma eliminação logo na primeira fase, algo que nunca aconteceu com um país anfitrião de Copa ao longo de 80 anos de história do torneio. Segundo ele, cair com a África do Sul seria uma “decepção”, mas jamais um “fracasso”. “Sempre existe uma primeira vez para tudo, e as pessoas se esquecem que caímos num grupo forte demais. Em outras Copas, os times da casa pegaram várias molezas. Se a espetacular combinação de resultados necessária para dar a vaga aos Bafanas não acontecer, o jogo desta terça pode marcar a despedida de Parreira como técnico depois de 42 anos na profissão.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

Dia de vestir amarelo em Bloemfontein

Na África do Sul pós-apartheid, a expressão preferida para definir o país é rainbow nation, a “nação arco-íris”, referência à convivência pacífica, ainda que nem sempre cômoda, entre as diferentes etnias que formam sua população. Nesta terça-feira, no entanto, o país amanheceu pintado de amarelo, a cor dos Bafana Bafana, que têm tudo para se despedir precocemente da primeira Copa do Mundo realizada no país e no continente negro. A essa altura, a eliminação da equipe logo na primeira fase, ainda que decepcionante, já não parece mais preocupar tanto seus torcedores. Todos parecem preparados para uma saída honrosa, com uma sonhada vitória sobre a França, a partir das 11 horas (no horário de Brasília), no estádio Free State, em Bloemfontein.

Se um triunfo contra os franceses não for o bastante para garantir a vaga, terá sido, pelo menos, uma despedida mais adequada para uma seleção que cativou a torcida e conquistou o apoio irrestrito da população, mas transformou-se em enorme decepção com a goleada sofrida para o Uruguai, em Pretória. Passados cinco dias da surra levada no estádio Loftus Versfeld, os sul-africanos entraram no espírito do “sair de cabeça erguida”. As autoridades do país e a federação de futebol local pediram aos torcedores que saíssem às ruas vestindo amarelo e carregando a bandeira multicolorida adotada no governo de Nelson Mandela (1994-1999).

Os jornais abraçaram a campanha, incentivando o público a apoiar os Bafanas mais uma vez. Deu resultado: a camisa da seleção era vista sob os casacos de boa parte das pessoas que circulavam por Johannesburgo no início da manhã. As rádios recebiam telefonemas animados de torcedores que pegavam a estrada a caminho da pequena Bloemfontein. E no aeroporto, grupos de torcedores munidos de vuvuzelas e enrolados em bandeiras enchiam os voos rumo à cidade que receberá a partida. Num desses voos, torcedores dos Bafanas – brancos, que nunca foram fãs de futebol antes da Copa – confessavam ter tirado folga do trabalho para levar seus filhos a Bloemfontein e ver de perto o que deve ser a última partida da África do Sul neste Mundial.

Eles dividiam os assentos com franceses envergonhados pelo vexame proporcionado por sua seleção – ninguém ousava exibir a camisa dos Bleus em público – e com um estudante universitário loiro que viajava sozinho, debruçado sobre o livro Should I Stay or Should I Go, volume de ensaios que discutem se vale a pena seguir morando na África do Sul de Jacob Zuma, da criminalidade endêmica, dos índices brutais de contágio por HIV, do monumental abismo que separa o estilo de vida dos pobres e ricos. Antes da Copa, talvez fosse mesmo melhor ir embora. Depois deste Mundial, com ou sem uma vitória redentora dos Bafanas, pode ser a hora de repensar esses planos e apostar num país que começa a engatinhar na direção certa – ainda que muito distante do arco-íris.

(Por Giancarlo Lepiani, de Bloemfontein)

sábado, 19 de junho de 2010

O problema da ultra câmera lenta

Dividida no jogo Alemanha x Sérvia: jogadas são duras, mas na TV parecem violentas (Foto: Getty)

A Copa do Mundo é espetáculo de televisão – e a mais interessante novidade tecnológica de 2010 na tela são as imagens em ultra câmera lenta. Há duas delas em cada jogo. Os lances são registrados a uma velocidade de 300 frames – ou quadros – por segundo, dez vezes mais rápido que as gravações normais. O resultado é um balé cadenciado, chuteiras que se entrelaçam, bolas amassadas nas testas dos jogadores, carrinhos que parecem demorar uma eternidade. Recursos como esse já foram usados em Olimpíadas, mas pela primeira vez despontam no mundial de futebol.

Descobre-se, por meio das morosas cenas, uma camada até então desconhecida. “Lances antes invisíveis aparecem na televisão, e o futebol soa mais violento do que realmente é”, disse a VEJA o comentarista de arbitragem da TV Globo, Renato Marsiglia, ex-juiz. Esporte de contato, o futebol é feito também de resvaladas de corpo, camisas puxadas e toques ligeiros de pés, sem que o apito soe, porque o olho humano é incapaz de percebê-los. Na lentidão multiplicada, tudo é ressaltado. “É um novo avanço da tecnologia a trabalhar contra os juízes”, diz Marsiglia. “Se a vida deles já era complicada, agora piorou”.

(Por Fábio Altman, de Johannesburgo)

Fifa engorda cofres. E a sede paga a conta

Dinheiro em caixa: alemães compram produtos licenciados em barraca da Fifa (Foto: Getty)

Um representante da Fifa revelou neste sábado que a entidade máxima do futebol mundial deverá abocanhar cerca de 3,2 bilhões de dólares com a realização da Copa do Mundo de 2010. O valor, disse o porta-voz Nicolas Maingot, é mais que suficiente para sustentar todas as despesas da Fifa pelos próximos quatro anos – tanto que a entidade promete investir 75% do dinheiro nos seus projetos de desenvolvimento da modalidade nos países pobres. A Copa é, com folgas, a maior fonte de receitas da Fifa, que cobra valores estratosféricos das empresas que desejam ligar suas marcas à realização do torneio.

Enquanto a dona da bola conta seus lucros com a festa na África do Sul, o país-sede faz as contas para saber qual será o real tamanho do buraco que o evento deixará em seus cofres. Os anfitriões torraram cerca de 8,3 bilhões de dólares para promover o torneio, e terão dificuldades para cobrir essas despesas – afinal, a África do Sul aceitou conceder inúmeros incentivos fiscais justamente para beneficiar a Fifa. A entidade teria recebido garantias de que não precisaria pagar impostos sobre a comercialização de produtos, direitos de transmissão e quase todas as formas de receita ligadas à Copa.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A Copa em 3D, e sem vuvuzela: espetáculo

O 3D, a nova onda do cinema, é cansativo. Depois dos dez minutos iniciais, da surpresa tecnológica, torna-se aborrecido – aquele imenso óculos a pesar no nariz e os trecos que saltam da tela sem motivação aparente, saltam por saltar. Quem viu Avatar – e quem não viu Avatar? – sabe do que se trata. Para o crítico de cinema Roger Ebert, o 3D no cinema, apesar de todo burburinho econômico a cercá-lo, é uma tolice. Presta desserviço à arte. Elimina, por exemplo, um tradicional recurso de narrativa, criador de suspense, o da imagem desfocada em segundo plano. Alfred Hitchcock não seria Alfred Hitchcock se fosse forçado a filmar em 3D. É uma tentativa de aproximar o cinema da realidade, o que terminar por matar o charme e fascínio da grande diversão de nosso tempo. Imaginemos: qual seria a graça de ver um dos filmes de Woody Allen em 3D? Nenhuma.

A longa introdução – o nariz de cera, no jargão de jornalismo – termina aqui com uma constatação: para o futebol, o 3D é espetacular. Assisti a partida entre Argentina e Coreia do Sul na sala de cinema 3D instalada dentro do Centro Internacional de Televisão em Johannesburgo (na foto acima). Nas imagens mais abertas, pouco se nota o efeito. Nas fechadas, rentes ao gramado, o efeito é magnético. Lá vem Messi, rápido, com dribles curtos, e ele parece vir em nossa direção. Higuaín marca e, ao correr para comemorar, tem-se a impressão de estar saltando da tela, susto semelhante ao do trem que espantou as pessoas que foram ao cinema pela primeira vez para acompanhar a criação dos irmãos Lumière. Dúvidas muito comuns nas transmissões pela tevê – aquela bola espirrada na grande área está indo na direção do gol ou não? – com o 3D desaparecem. Percebe-se facilmente para onde ela caminha, mesmo a levíssima e insinuante Jabulani.

Ainda demora para que o 3D funcione adequadamente nos televisores domésticos. E os óculos serão sempre um estorvo. Mas é recurso que começa a ganhar espaço. No Brasil, a Globo, em parceria com a rede Cinemark,  fará algumas exibições de partidas da Copa em salas de cinema, na semana que vem.  Será boa oportunidade – ainda que para poucos – de perceber como o 3D muda o futebol, especialmente em eventos muito bem cuidados como o Mundial. Não é o espetáculo tecnológico pelo espetáculo tecnológico – é a chance de estar dentro do estádio sem necessidade de comprar ingressos, pegar fila, tomar frio e, no caso do Brasil, se sujeitar à violência. O 3D com a bola rolando é craque. Já estou reservando meu ingresso para outras partidas da Copa, as que serão realizadas em outras cidades, e não em Johannesburgo, onde está a equipe de VEJA. E, além do mais, há uma vantagem imensa: nas salas fechadas é terminantemente proibido tocar a vuvuzela.

(Por Fábio Altman, de Johannesburgo)


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