PATROCÍNIO

Archive for julho, 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Brasil-2014: o que copiar (e o que mudar)

Na noite de domingo, a Copa do Mundo era da África do Sul. Na manhã desta segunda-feira, ela está nas mãos do Brasil, que tem quatro anos para preparar a festa. O primeiro Mundial realizado em continente africano pode ser considerado um bom ensaio aos brasileiros – afinal, assim como no Brasil, o desafio dos sul-africanos era realizar uma festa bem-sucedida e empolgante, mas dentro de suas possibilidades. A anfitriã do Mundial-2010 gastou mais do que devia, mas deu conta do recado. No geral, foi um sucesso. Mas não faltaram alguns tropeços, inevitáveis quando se trata de um evento de proporções tão monumentais. A seguir, alguns exemplos sul-africanos que o Brasil deve seguir no caminho até 2014 – e outros que devem ser driblados para sediar uma Copa ainda melhor dentro de quatro anos:

O QUE O BRASIL DEVERIA COPIAR

Foi num aeroporto sul-africano que aconteceu a maior falha da Copa da África do Sul. Nas horas que antecederam o jogo de semi entre Alemanha e Espanha, em Durban, o aeroporto King Shaka ficou congestionado e não deu conta de todos os pousos previstos. Muitos torcedores perderam a partida. O episódio está sob investigação, mas parece ter sido um caso de falha isolada, com uma soma de problemas inesperados. No geral, a estrutura aeroportuária sul-africana funcionou bem e aguentou o tranco. Aeroportos menores, como o de Port Elizabeth e Bloemfontein, foram reformados e readequados à demanda, mas sem exageros desnecessários para o futuro. Os maiores, como o de Johannesburgo, sofreram intervenções mais radicais. Não houve caos nem mesmo nos dias de maior concentração de torcedores. Como os aeroportos são o ponto crítico do projeto brasileiro, vale a pena usar os exemplos.

A preocupação com a criminalidade foi uma característica comum nas candidaturas da África do Sul e do Brasil. Com treinamento incansável, qualificação das forças de segurança e reforço material e de pessoal na polícia, os sul-africanos realizaram uma Copa sem casos graves de violência urbana. Os assaltos, inevitáveis em qualquer grande cidade, aconteceram, é claro. Mas nem de longe chegaram ao número que se temia antes da Copa. Entre as dezenas de milhares de turistas que desembarcaram no país, a opinião mais frequente é de que a sensação de segurança durante o Mundial foi muito maior do que se esperava. Ponto para 2010 – e modelo a ser estudado para 2014.

O QUE O BRASIL PODE MELHORAR

Os estádios construídos para o Mundial de 2010 foram palcos mais do que adequados para receber o torneio. Três deles – Soccer City, em Johannesburgo, Moses Mabhida, de Durban, e Green Point, na Cidade do Cabo – estão entre os melhores do mundo (e, de quebra, também figuram entre os mais bonitos do planeta). Nos estádios menores, não havia o mesmo conforto nem o mesmo luxo, mas todos funcionavam bem para receber partidas de menor destaque. Mas dois aspectos importantes preocupam: os custos ficaram muito acima do previsto inicialmente e pelo menos quatro estádios (Nelspruit, Rustemburgo, Port Elizabeth e Polokwane) devem ficar às moscas a partir de agora. Para 2014, a lição é não descuidar dos cofres e evitar o nascimento de elefantes brancos.

O transporte público, setor problemático em muitas das sedes sul-africanas da Copa, recebeu investimentos multimilionários na contagem regressiva para o Mundial. Dessas obras resultaram corredores de ônibus, novas linhas de trem e frotas renovadas nos sistemas de transporte urbano. Ainda assim, faltaram opções de transporte coletivo em quase todas as sedes. Em outros casos, as obras previstas não ficaram prontas a tempo – em Johannesburgo, por exemplo, a renovação do sistema de ônibus não chegou a ser totalmente concluída. Assim como a África do Sul, o Brasil precisa investir em transporte em muitas de suas sedes. Mas o desafio é fazer isso dentro dos prazos – e com projetos bem feitos, capazes de realmente transformar a locomoção nas cidades.

O QUE O BRASIL PRECISA MUDAR

Os gastos com o Mundial passaram dos limites, apesar das promessas de que a Copa seria feita dentro das possibilidades que o país oferecia. Os prazos para as obras ficaram no limite, os trabalhos tiveram de ser acelerados e os custos dispararam. Para complicar a situação, os sul-africanos ficaram reféns de sindicatos ligados à construção dos estádios e à prestação de vários serviços ligados ao Mundial. Perto do fim das obras, inúmeras greves atrapalharam o andamento dos preparativos – e gastou-se ainda mais dinheiro para resolver esses impasses. Esse é o desafio número um do Brasil: não gastar mais do que pode ou deve.

A preparação dos sul-africanos que receberam os turistas deixou a desejar em muitas das sedes de 2010. Funcionários treinados e capazes de ajudar apareciam com frequência nos estádios, locais históricos, atrações turísticas, lojas e restaurantes. Mas, com frequência parecida, os visitantes se deparavam com pessoas que não tinham sido preparadas para acolher os torcedores de outros países. No caso do Brasil, a atenção que deve ser dispensada a esse treinamento é ainda maior – afinal, se houve falha de comunicação num país em que o inglês é um dos idiomas oficiais, mais difícil ainda será num lugar onde se fala português.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

África do Sul: agora, uma Olimpíada e F-1

A festa de encerramento do Mundial: show à moda sul-africana (Foto: AP)

Foi um grande sucesso, com alguns tropeços que não atrapalharam a avaliação final. E com o fim da primeira Copa do Mundo num país africano, a anfitriã África do Sul começa a ensaiar seus próximos passos. O trabalho de recolocar o país no mapa depois das décadas de trevas do apartheid registrou um avanço monumental com o Mundial. Agora é a hora de aproveitar o embalo para conseguir subir mais alguns degraus. Nos negócios e nas relações com o resto do mundo, o impacto só vai começar a ser sentido a partir de agora – e ainda há as contas a pagar em função da realização da Copa no país. Mas no âmbito esportivo, já surgem os primeiros frutos da organização exemplar do Mundial deste ano. A começar pela provável inclusão do país entre as sedes das provas do circo da Fórmula 1.

No domingo, o principal dirigente da categoria, Bernie Ecclestone, confirmou que há planos de colocar a África do Sul de volta no roteiro das corridas, possivelmente na Cidade do Cabo, num novo circuito, que ficaria pronto dentro de três anos. A África do Sul não recebe um Grande Prêmio desde 1993 – as corridas eram realizadas em Kyalami, circuito próximo de Pretória. O outro sonho sul-africano – esse, muito mais ambicioso – é repetir a façanha inédita da Copa trazendo ao continente, pela primeira vez na história, uma edição dos Jogos Olímpicos. De novo, a Cidade do Cabo seria uma candidata natural – já chegou até a concorrer oficialmente. Mas é fortíssima a tendência de que a também litorânea Durban seja a concorrente na próxima eleição do COI, que escolherá a sede da Olimpíada de 2020.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Seleções | 09:40

Depois da Copa, a nova ordem no futebol

A primeira Copa do Mundo que não teve pelo menos uma das quatro seleções mais famosas do planeta na final (Brasil, Itália, Alemanha e Argentina) terminou com o surgimento de uma nova grande força – e com sinais preocupantes de decadência para duas outras. Também adiou mais uma vez uma revolução há muito esperada: a ascensão dos africanos ao grupo das grandes seleções. A seguir, quem mais ganhou e quem mais perdeu no primeiro Mundial disputado no continente africano:

SOBEM:

A Espanha, campeã mundial, não conseguiu apenas sua primeira taça. Foi também uma vencedora de Copa com estilo próprio, que conseguiu conquistar o Mundial jogando de uma forma muito diferente das adversárias – o que promete influenciar outros times, sinal de que é, de fato, candidata a potência da bola. Atual campeã europeia e mundial, subiu ao primeiro escalão do futebol.

A Holanda, vice, apesar da nova derrota em finais – sua terceira na história -, provou mais uma vez sua força. Isso apesar de não ter trazido à África do Sul uma geração especialmente talentosa (já tinha vindo à Copa com equipes muito melhores, mas se deparou com gigantes como o Brasil e a Alemanha no caminho). Falta, ainda, o salto final, com a conquista do primeiro troféu.

O Uruguai dificilmente repetirá o desempenho deste Mundial nas próximas competições, pois foi bem mais longe do que seu time permitia sonhar. Mas a campanha sensacional e o quarto lugar conquistado na África recolocaram o nome do país bicampeão no mapa da bola. Ainda valorizaram jogadores que não tinham o reconhecimento que mereciam, a começar pelo Bola de Ouro Forlán.

NA MESMA:

O Brasil repetiu a campanha de 2006, com uma derrota nas quartas-de-final. Não foi uma total surpresa, pela forma que o time vinha jogando até aquele momento. A seleção mais vencedora da história segue com o mesmo desafio: conseguir se organizar para aproveitar totalmente todos os talentos que tem à disposição. E a missão terá de ser cumprida em casa, dentro de quatro anos.

A Alemanha trouxe uma novidade à África: um estilo de jogo mais leve, criativo e bonito de se ver. Influência de uma preciosa safra de jovens craques, essa mudança no jeito de jogar não deu o resultado esperado: como em 2006, a seleção caiu na semi. Não levanta um título há vinte anos. Precisa desencantar para alcançar o patamar da Itália – e sonhar em chegar no do Brasil.

As seleções africanas seguem com a mesma fama. São cheias de talentos individuais, mas não conseguem formar seleções campeãs, nem mesmo quando têm uma inédita chance de jogar em casa. Seus craques já disputam os campeonatos mais importantes do mundo, mas faltam organização e estrutura nas próprias federações locais. Continuam sonhando em alcançar uma inédita semi numa Copa.

DESCEM:

A França foi o grande fiasco do Mundial. Chocou os torcedores e especialistas ao apresentar um futebol paupérrimo, sem rosto nem organização, apenas quatro anos depois de chegar à final da Copa. Para completar, deu vexame com as brigas entre técnico, jogadores e dirigentes. Começa a dar pistas de que o título de 1998 e o vice de 2006 foram só milagres do supercraque Zidane.

A Itália, assim como a França, caiu logo na primeira fase, mas pelo menos teve comportamento digno – faltou mesmo futebol. Os italianos trouxeram à África do Sul uma equipe que mesclava jovens jogadores e remanescentes da conquista de 2006. Não deu o resultado previsto. Carece de boas revelações, mas pode estar atravessando apenas uma etapa de transição entre duas gerações.

A Inglaterra perdeu uma chance de ouro de se confirmar entre as grandes campeãs. Contava com um técnico experiente e famoso por ganhar a qualquer preço; tinha uma equipe cheia de astros no auge, como Rooney, Terry e Gerrard; caiu numa chave fácil. Não adiantou: foi atropelada pela Alemanha. Como a França, ela é uma ex-campeã que parece não pertencer ao primeiro escalão.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Felipe Melo: ‘De forma alguma sou vilão’

O lance da expulsão do jogador, na partida em que a Holanda eliminou o Brasil (Foto: AFP)

Felipe Melo recusou o título de “vilão” da eliminação do Brasil nas quartas-de-final da Copa do Mundo 2010. Em entrevista à TV Globo, o volante disse que sua expulsão na partida contra a Holanda não pode apagar o que fez de bom pela Seleção Brasileira.

“De forma alguma sou o vilão. Parece que tudo o que o Felipe Melo faz é errado. As coisas boas as pessoas esquecem. Tudo o que eu fiz não pode ser apagado por um cartão vermelho”, declarou, salientando que quer disputar o Mundial de 2014, no Brasil. “Meu sonho ainda não acabou.”

Ele admitiu ter perdido a cabeça no lance da expulsão, mas afirmou que isso aconteceu porque tinha muita vontade de ajudar o time a vencer.  ”Naquele momento, perdendo o jogo por 2 a 1 e com as jogadas não dando certo, acabei fazendo uma falta mais forte. Mas de forma alguma eu entrei para ‘quebrar’. Se eu quisesse entrar para ‘quebrar’ o Robben, ele não voltaria mais para o campo.”

Ao falar de seu comportamento em campo, o jogador fez questão de destacar que não é “mau caráter”. ”Eu sou um jogador de caráter muito forte, dentro de campo tenho uma garra muito grande. Mas as pessoas veem isso de outra forma.”

domingo, 11 de julho de 2010

Fatos que marcaram a Copa

Durante 31 dias e 64 jogos, muitas notícias e imagens marcaram a competição. Porém, alguns ficarão lembrados na memória. Confira alguns desses fatos.

As notas da festa dos heróis de vermelho

>> O título inédito da Espanha foi conquistado com a camisa número dois, azul, mas os campeões do mundo subiram à tribuna para receber suas medalhas e a taça Fifa com o tradicional fardamento vermelho – agora enfeitado com uma estrela dourada sobre o escudo, referência ao primeiro Mundial da Fúria.

>> No momento mais importante de sua carreira, o autor do gol da vitória se lembrou de um jogador do Espanyol, time rival do seu Barcelona, morto em decorrência de um ataque cardíaco no ano passado. “Dani Jarque está sempre conosco”, dizia a inscrição na camiseta que Iniesta vestia por baixo do uniforme. “Queríamos sentir a força de Jarque conosco”, explicou o jogador.

>> Outro titular da Espanha que homenageou um companheiro morto foi o lateral-direito Sergio Ramos, que depois da partida exibiu uma camiseta com a foto de Antonio Puerta, jogador do Sevilla, ex-clube de Ramos. Puerta foi vitimado por um ataque cardíaco sofrido num jogo do campeonato espanhol, em Sevilha, em 2007.

>> Entre os torcedores ilustres presentes à partida, o príncipe Felipe disse que a seleção campeã é um “tesouro”. “Passei o jogo todo sob enorme tensão, mas valeu a pena”, contou o herdeiro do trono. O tenista Rafael Nadal, também presente à tribuna, disse que chorou “como um menino” depois do apito final. “O país inteiro tem que ficar muito orgulhoso.”

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Jogadores | 20:06

Ao vivo, Casillas beija namorada repórter

Para quem tinha acabado de levantar a taça de campeão do mundo, nada mais justo. O goleiro Casillas não resistiu ao encontro com a namorada, a repórter Sara Carbonero, e a beijou enquanto ela tentava entrevistá-lo, pouco depois da volta olímpica da Fúria. Depois de agarrar a moça, ele saiu rapidamente, a caminho dos vestiários. Ela, desconcertada, ainda teve que seguir na transmissão da TV espanhola. Na primeira partida da Espanha, uma derrota para a Suíça, a presença de Sara na cobertura desta Copa foi criticada no país – para muitos, sua proximidade era uma distração para o jogador. Depois deste domingo, no entanto, ninguém mais deve reclamar. Assista à cena no vídeo a seguir:

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Espanha campeã!

Confira algumas imagens da inédita conquista espanhola. Campeã da Copa do Mundo da África do Sul 2010.

Jogadores | 19:30

Campeã do jogo coletivo perde os troféus individuais. Forlán ganha a Bola de Ouro

Para uma seleção que se consagrou e chegou ao topo do mundo praticando um jogo baseado no conjunto, nada mais adequado. Veio o tão sonhado título, mas não os troféus individuais mais importantes. David Villa era candidato à Chuteira de Ouro, mas teve de se contentar com a de prata. Villa, Xavi e Iniesta concorriam à Bola de Ouro, mas o atacante só ficou com a de bronze. Um alento – se é que vale dizer isso numa noite em que a Espanha conquistou o mundo – foi a escolha de Iker Casillas como melhor goleiro da Copa, dono da Luva de Ouro. Outro prêmio, desta vez coletivo, foi para a Fúria: o de seleção campeã em fair play.

No resto da lista de prêmios da Fifa, o grande destaque é a revelação alemã Thomas Muller, 20 anos, dono do prêmio de melhor jogador jovem da Copa – esse era uma barbada – e, como se não bastasse, da Chuteira de Ouro, por causa dos cinco gols e três assistências no Mundial. O espanhol Villa e o holandês Sneijder também fizeram cinco gols cada, mas só conseguiram um passe para gol, que era o critério de desempate. Villa ficou com a prata e Sneijder com o bronze porque o espanhol jogou menos que o holandês, o que significa uma média de gols maior. Villa ainda recebeu 16,9% dos votos para craque da Copa, terceiro lugar.

A prata foi para Sneijder, com 21,8% dos votos dos jornalistas credenciados a cobrir o Mundial. E a Bola de Ouro foi para um jogador de que não se esperava quase nada neste Mundial: Diego Forlán, do Uruguai, com cinco gols – todos bonitos – e honroso quarto lugar na classificação final do Mundial. Candidatos ao prêmio antes da Copa não faltavam: Kaká, Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney. Nenhum apareceu nem sequer na lista dos dez finalistas. Único dos favoritos a entrar na relação final, Messi decepcionou. Forlán, que defendeu uma seleção modesta e a levou até as semifinais, foi uma escolha surpreendente, mas justa.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Final: Holanda e Espanha

Fogos e glória na coroação dos novos reis

Com a rainha Sofia, o príncipe Felipe e a princesa Letizia nas tribunas, os presidentes da Fifa, Joseph Blatter, e da África do Sul, Jacob Zuma, coroaram os novos reis da Espanha no estádio Soccer City, em Johannesburgo. Depois da entrega das medalhas de prata aos holandeses e de ouro aos espanhóis, o capitão Casillas, à frente dos 22 companheiros de seleção, pegou a taça, a beijou e a ergueu, coberto de papéis picados dourados. Depois que os espanhóis desceram do palco de volta ao gramado para dar a volta olímpica, uma espetacular queima de fogos disparada a partir da borda da cobertura do estádio iluminou o céu de Johannesburgo e ajudou a acender a festa da Fúria junto à torcida. Os heróis espanhóis – Iniesta, Xavi, Villa, Puyol, Piqué – se revezaram na exibição da taça aos torcedores. Às 18h30 (no horário de Brasília), três horas depois do pontapé inicial da partida mais aguardada de suas vidas, começaram a retornar ao vestiário, agora eternizados na história e cobertos de glória.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Jogos, Seleções | 18:02

Espanha, campeã de muitos passes e gols escassos, bate Holanda e conquista a taça

Iniesta decide a Copa do Mundo: a quatro minutos do fim, o gol do título (Foto: AP)

No futebol, o gol não é só um detalhe, como diz a frase erroneamente atribuída ao técnico do tetra, Carlos Alberto Parreira. Para a nova campeã do mundo, no entanto, ele não é o principal objetivo do jogo, e sim a consequência de uma estratégia e um estilo que poucas equipes são capazes de praticar. Dona da Copa do Mundo pela primeira vez em sua história, a Espanha é a campeã da posse de bola e do controle da partida – parece fazer um jogo à parte, excluindo o adversário da disputa. E foi assim que a Fúria derrotou a Holanda neste domingo, no estádio Soccer City, em Johannesburgo, por 1 a 0, no finzinho da segunda etapa da prorrogação, com gol solitário de Iniesta. Os espanhóis chegaram ao título inédito marcando apenas oito gols no torneio inteiro, a pior marca em oitenta anos de história das Copas. Ainda assim, não formam uma seleção que joga feio ou desagrada quem gosta de futebol. Pelo contrário: a Fúria sabe o que faz com a bola e fica com ela o máximo de tempo possível. Pode não ter feito a melhor campanha, mas é a justa campeã.

A final deste domingo deixou claro que o jogo de paciência e toque de bola da Fúria não é significado de futebol feio, sem talento ou chato de se ver. Os espanhóis foram os donos do jogo durante 120 minutos, e só não marcaram antes por causa das circunstâncias da partida. A adversária nesta decisão, que carrega a fama de sempre montar equipes que apresentam futebol vistoso e de se admirar, se limitou aos contragolpes – e às faltas violentas, que renderam aos seus atletas nada menos que nove cartões amarelos no decorrer do duelo. Quando a partida se encaminhava para uma injusta disputa de pênaltis, Iniesta, um dos símbolos da maneira espanhola de jogar, apareceu para resolver o jogo. A Espanha torna-se o oitavo país a conquistar uma Copa, e logo em sua primeira final. É também o primeiro europeu a conquistar a taça fora de seu continente. Por fim, é a nova líder do ranking da Fifa, desbancando o Brasil. Atual campeã europeia e agora campeã do mundo, está no topo do futebol mundial.

A Espanha já começou o jogo assustando, com um golpe de cabeça perigoso de Ramos, aos 5 minutos, após falta batida por Xavi. Stekelenburg espalmou. A Holanda deu seu primeiro chute a gol aos 8, com Kuyt, aproveitando uma bobeada da zaga. Casillas segurou com facilidade. Mas a Fúria dominava o jogo, marcando a saída de bola holandesa e sufocando o adversário. O jovem Pedro, que fez apenas sua segunda partida como titular da Espanha, se entendia perfeitamente com Villa – sinal de que Vicente del Bosque já poderia ter colocado a revelação do Barcelona no time muito antes. Sergio Ramos, aos 11, e Villa, aos 12, deram novos sustos nos holandeses. Aos 18, Sneijder bateu falta e soltou uma bomba. Casillas encaixou de novo. Aos 21, Robben deu sua primeira arrancada e acendeu a equipe laranja, que começou a equilibrar as ações. O jogo era disputado com muito vigor – só na metade do primeiro tempo foram mostrados quatro cartões amarelos, dois para cada lado.

O que era rispidez se transformou em violência aos 27 minutos, quando o volante De Jong acertou uma patada em cheio no peito de Xabi Alonso. Levou só o amarelo. Não era só De Jong que perdia a paciência: a seleção espanhola controlava a partida no seu ritmo, com toques envolventes e precisos, sem pressa para resolver as jogadas. A Holanda, frustrada por não conseguir se impor, só conseguia chegar perto do gol espanhol em lances de bola parada – como num escanteio aos 37, jogada ensaiada que deixou Mathijsen na cara do gol. O zagueiro furou feio. No resto do tempo, o domínio todo espanhol, com controle do andamento do jogo e constante domínio da bola, principalmente nos pés da dupla Xavi e Xabi, escoltada pelo eficiente Busquets. Já nos acréscimos do primeiro tempo, a Holanda ainda arrumou uma rara chance de gol, em chute cruzado de Robben que Casillas jogou para escanteio. Os espanhóis terminavam a primeira etapa com 56% de posse de bola e 268 passes, com 75% de acerto (a Holanda deu 195 e acertou só 55%).

O primeiro lance de perigo do segundo tempo foi dos espanhóis, num desvio de cabeça de Puyol que o ataque da Fúria não soube aproveitar. A Holanda voltou a campo claramente instruída a manter a bola em seus pés por mais tempo. Mas é difícil superar a Espanha no jogo dela. E enquanto a Fúria trocava passes, a Holanda entrava duro – aos dez do segundo tempo, já tinham cinco amarelos. Aos 15, Pedro deixou o campo para a entrada de Jesus Navas. E dois minutos depois, a Holanda perdeu a chance mais incrível de toda a partida. Sneijder, em lançamento magistral, deixou Robben sozinho na cara do gol – e ele conseguiu perder, batendo em cima de Casillas. Mas foi só um acidente: a entrada de Navas deixou a Espanha ainda mais perigosa. Aos 24, em uma descida rápida de Navas, a bola sobrou para Villa na entrada da pequena área, e ele quase abriu o placar. Aos 31, numa linda tabela com Xavi, Villa deu trabalho mais uma vez. Stekelenburg mandou para escanteio, e na cobrança, Sergio Ramos subiu livre e testou pelo alto.

Nos minutos finais da partida, a Espanha avançou suas linhas, reforçou a pressão e costurou várias oportunidades. Passou por outra situação crítica quando, depois de um chutão da defesa, Robben se enfiou entre os zagueiros, ganhou na corrida da dupla Piqué e Puyol e invadiu a área. Quando preparava o chute, teve a bola roubada de seus pés por Casillas, numa saída corajosa. A cinco minutos do fim, Xabi Alonso deu lugar a Fabregas, outro craque em controlar a partida e trocar passes até abrir uma defesa dura de ser batida. E com ele em campo, a Fùria seguiu com maior domínio do jogo até o fim, mas sem conseguir marcar. Pela segunda vez consecutiva, a decisão da Copa ia para a prorrogação. No tempo extra, o ritmo da partida seguiu o mesmo, e a Espanha esteve muito perto de marcar aos 6 minutos, quando Fabregas foi lançado por Iniesta e, frente a frente com o goleiro, jogou fora uma chance de ouro. Aos 8, foi a vez de Iniesta ficar na cara do gol e perder a oportunidade. Vieram outras, com Navas e Fabregas.

Na virada da primeira para a segunda metade da prorrogação, o artilheiro Villa deu lugar a Fernando Torres, que começou esta Copa como titular mas perdeu a posição por causa de suas atuações decepcionantes. Aos 4 minutos da prorrogação, o zagueiro Heitinga fez falta em Iniesta na entrada da área e levou seu segundo amarelo. Com dez em campo, a Holanda tinha pouco mais de dez minutos para segurar o empate e tentar levar o título nos pênaltis. Não conseguiu. Aos 11 minutos da segunda etapa da prorrogação, num contragolpe, Fernando Torres lançou pata a área, a zaga rebateu e Fabregas pegou o rebote, lançando para Iniesta, sozinho, enfim abrir o placar, faltando apenas quatro minutos para o fim do jogo. Titulares e reservas da Espanha invadiram o gramado para dar início à festa, que promete seguir noite adentro – em Johannesburgo, em Barcelona e em Madri.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Um invasor em campo e vaias para Zuma

A impecável festa preparada pelos sul-africanos antes da final da Copa do Mundo ficou a centímetros de ser estragada por um invasor de campo, nocauteado por um segurança quando já esticava a mão para agarrar a taça Fifa. O invasor entrou pelo lado oposto ao túnel que trazia as seleções, momentos antes da entrada dos times. Foi contido pelos policiais e arrastado pelo campo até o próprio túnel. Os jogadores, pegos de surpresa, demoraram a notar o que tinha ocorrido. Logo em seguida, o sistema de som do estádio anunciou a entrada dos presidentes da Fifa, Joseph Blatter, e da África do Sul, Jacob Zuma. Vaias receberam a dupla.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

Torres no banco. O Barça tem 7 titulares

Havia apenas uma dúvida em torno das escalações de Holanda e Espanha para o jogo deste domingo, no estádio Soccer City. Entre os espanhóis, o mistério era o nome do companheiro de ataque de David Villa. E ele será Pedro, do Barcelona, e não Fernando Torres, que foi o artilheiro da Eurocopa e começou a Copa como titular da equipe. O Barça, aliás, tem sete dos onze titulares da Espanha, o que deixa claro que o estilo de jogo da Fúria é bastante influenciado pelo clube catalão. Na Holanda, nenhuma surpresa: todos os titulares do técnico Bert van Marwijk estão à disposição e confirmados para a partida. Os holandeses vão jogar a final com Stekelenburg; Van der Wiel, Heitinga, Mathijsen e Van Bronkhorst; De Jong, Van Bommel e Sneijder; Robben, Van Persie e Kuyt. A Espanha vai a campo com Casillas; Sergio Ramos, Piqué, Puyol e Capdevila; Busquets, Xabi Alonso, Xavi e Iniesta; Pedro e David Villa.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)

No adeus, festa com luzes, música e dança

A África do Sul começou a se despedir da Copa do Mundo com um belo espetáculo neste domingo, no estádio Soccer City. O show de encerramento do Mundial foi empolgante, colorido e criativo. Não houve cenários suntuosos nem números ensaiados demais – o espetáculo teve a cara da África do Sul, com música, dança e muita espontaneidade. O país mostrou o que dele se espera, com referências à natureza e às tradições africanas, mas sempre com um sabor contemporâneo, tentando fugir do óbvio. O primeiro número músical foi o de Shakira, com a música-tema da Copa, Waka Waka (na foto abaixo). O ponto alto do show foi sem dúvida a iluminação que transformou o estádio Soccer City num grande telão – o gramado projetou imagens diversas, desde lances do torneio até todas as bandeiras dos países participantes. O melhor momento foi a apresentação do grupo vocal sul-africano Ladysmith Black Mambazo, com a música Rain, acompanhada da entrada de alegorias representando elefantes, que caminhavam ao redor de uma lagoa projetada no centro do gramado. Foi um show na medida certa: zero de ostentação, muita inventividade e belas cenas para entreter uma plateia que, pouco mais de uma hora depois, passaria momentos de nervosismo extremo torcendo por suas seleções.

(Por Giancarlo Lepiani, de Johannesburgo)


Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados