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separação

17/11/2009

às 6:23 \ Relacionamentos

O perfeito

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Durante toda a vida me esforcei para ser o melhor filho, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas… Conquistei a admiração de todos que me cercam. Graças ao seu consultório sentimental, percebi que muito do que fiz foi para satisfazer o desejo do outro e ser adorado, me sentir assim superior. Por conta disso, modéstia, resignação, conformismo, contenção e aparência de humildade são características minhas. Mas, como não poderia deixar de ser, muitas vezes o desejo do outro se mostra incompatível com o meu.

Me casei por conta de uma gravidez inesperada e estou no casamento há oito anos. No início, me esforcei para agradar minha esposa e fiz dela uma mulher feliz. Há algum tempo, no entanto, já não consigo satisfazê-la em nenhum plano. Gostaria muito de me separar, pois somos pessoas que não têm os mesmos objetivos. Só que tenho pavor da reprovação dela, dos meus três filhos e dos amigos.

Caí na armadilha da traição e a história quase foi revelada. Na ocasião, vivi os piores dias da minha existência. Cheguei até a pensar em suicídio. Preciso aprender a decepcionar os outros para viver.

Você sabe o que se passa com você e o que você quer. No entanto, não consegue sair da  posição de objeto do “desejo do outro” em que se encontra. O seu e-mail mostra que a capacidade de analisar a própria situação não basta para mudá-la. Noutras palavras, ele expõe claramente o limite da reflexão. Por isso, para a psicanálise o “Penso, logo existo” de Descartes deve ser substituído por um “Digo, logo existo”. A gente só enxerga o que a consciência não alcança falando e sendo ouvido. Quem fala pode se surpreender com o que diz. Se devidamente escutado, se valerá do que disse e mudará a sua vida.

Para superar o pavor, o melhor é procurar um analista. O pavor é datado do passado e a rememoração permitirá encontrar a explicação que irá libertá-lo. Você tem de fazer um trabalho com você mesmo para conseguir dizer não e conquistar a liberdade desejada. Ademais, é possível se divorciar sem romper. Para tanto, sua esposa, seus filhos e seus amigos deverão ser convencidos da necessidade da separação e isso acontecerá se você estiver convicto e se valer da capacidade de persuasão que tem.

Por Betty Milan

14/10/2009

às 18:14 \ Casamento

A coluna

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Leio sua coluna desde que começou e ela tem sido um consultório sentimental para mim. Tiro partido dos relatos de pessoas com problemas diferentes e das observações que você faz para resolver os percalços da minha vida.

Cheguei a mandar uma mensagem para você há dois anos, quando eu ainda era casada e vivia uma crise que culminou com a separação. Na época, o que me afligia era uma dúvida quanto à separação. Me separo ou não? Porque estava casada havia 23 anos com o meu único parceiro sexual, mas com quem eu já não sentia mais prazer.

Não obtive resposta para a minha dúvida. Talvez porque, embora estivesse muito aflita, o meu caso fosse prosaico. No momento, passo por uma experiência que me parece absurda, louca, porém é absolutamente prazerosa.

Prosaico significa comum. Eu não deixo de responder a um e-mail porque a história do consulente é comum. Através da análise, é possível chegar ao que há de particular na história e mostrar a universalidade do drama. Com isso, todos os leitores da coluna podem se beneficiar.

Um dos critérios da seleção do e-mail  é a possibilidade que o consulente me dá de chegar a uma resposta bem fundada. Você talvez não tenha me dado elementos suficientes no primeiro e-mail que enviou.  Mas o que importa agora é você ter deixado um casamento que não dava prazer para viver uma experiência prazerosa.

Folgo em saber que isso decorre da leitura desta coluna, já que você tira partido dos relatos de pessoas e das minhas observações para resolver os percalços da sua vida. O consultório sentimental tem de funcionar assim mesmo, exatamente aliás, como o romance.

Nele, a pessoa se debruça sobre uma história que nada tem a ver com a própria e tira  ensinamentos preciosos. Não há livro mais importante do que Madame Bovary, de Flaubert, o precursor do romance moderno, para refletir sobre o casamento e o adultério. As mulheres adúlteras que escrevem para esta coluna vivem num tempo em que o imperativo da fidelidade não tem o mesmo peso e a infidelidade não tem as mesmas consequências – porque tivemos a revolução dos anos 60 e a luta feminista -, mas a leitura de Madame Bovary permite refletir sobre o descompasso entre o casamento e o ideal do amor. Descompasso que a vida cotidiana produz inevitavelmente.

Por Betty Milan

09/09/2009

às 14:58 \ Casamento, Relacionamentos

Desconsolo

Como aceitar que uma pessoa, depois de 17 anos de casamento, avance sobre a poupança de anos de trabalho e simplesmente vire as costas para o marido e o filho? O dinheiro era para o estudo do filho e ela sabia disso. Hoje, não existe contato e o filho acabou sendo a maior vítima da conduta da mãe. Acho difícil entender e aceitar esta situação.
 
A conduta da sua esposa é inaceitável. Mas se você não tiver como convencê-la ou obrigá-la legalmente a devolver o dinheiro, só resta aceitar e tirar do fato uma lição. Bem diz o provérbio popular: “O que não tem remédio, remediado está”. Deve existir um provérbio equivalente em todas as línguas, porque há na vida mil e uma coisas inaceitáveis. Profundamente injustas e incompreensíveis, sobre as quais não vale a pena tergiversar.

O Buda recusava todas as discussões abstratas porque elas lhe pareciam inúteis. Formulou a célébre parábola do homem ferido por uma flecha que não deseja tirar a flecha antes de saber a casta, o nome do responsável e dos seus pais, bem como o país de onde são originários. Proceder assim, diz o Buda, é correr um risco de morte, eu ensino a tirar a flecha.

Fazer isso, no seu caso, é aceitar a realidade. E é sobre a sua dificuldade em aceitá-la que você deve se debruçar. Para se sentir melhor e não prejudicar o seu filho com a sua dificuldade e o seu desconsolo. A vida espiritual do pai interfere tanto quanto o estudo na educação do filho. Tudo que você fizer por você, estará fazendo por ele.

Na impossibilidade de consultar um analista para saber como você lida com a sua fantasia e com a realidade, você pode se aprofundar no ensinamento do budismo, que não é uma religião, e sim uma filosofia. O budismo dispensa toda relação pessoal com um Deus, porque é uma doutrina essencialmente ateia, em que não há nem crente e nem divindade. Diferentemente do judaísmo, do  cristianismo e do islamismo, não sabe o que é pecado, arrependimento e perdão, três conceitos patéticos. Entre os livros de referência, está O que é o budismo?, escrito por Jorge Luis Borges e sua companheira, Alicia Jurado.

Por Betty Milan

04/08/2009

às 14:17 \ Casamento

Triângulo infeliz

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Tenho 38 anos, sou casada há 13 e mãe de um filho de 12. Meu marido e eu estamos fazendo terapia de casal. A terapeuta percebeu todos os nossos problemas. Disse que precisa primeiro tratar da gente e depois do menino, que também está sofrendo.

Meu marido não entende nada do que eu falo. Então, fui falando cada vez menos. Temos problemas de comunicação e o sexo é péssimo. Eu fujo, fico o mais distante possível para não dar “ideias”. Não era assim antes do casamento. Mas, depois que o meu filho nasceu e meu marido se mostrou imaturo em várias circunstâncias,  eu fui me desinteressando do sexo com ele. Não entende que as preliminares começam com a gentileza cotidiana e o companheirismo. Tenho que explicar tudo que diz respeito ao sentimento.

Quando ele quer sexo, se aproxima como uma criança manhosa, procurando colo. Com olhos pidões e um biquinho. Me pergunto se ele quer mulher ou mãe e fico sem vontade nenhuma. Gosto de sexo quente e para não trair, fui me anulando como mulher. Tem horas que eu queria ter 65 anos, para  não pensar mais no assunto.

Aos 38 anos você queria ter 65 para não pensar em sexo. Como se as mulheres de 65 não pensassem em sexo. Ninon de Lenclos, dama francesa do século XVII, que reunia no seu salão a sociedade libertina da época, recusou o último amante aos 80. Mas o desejo que você expressa mostra o quanto o seu marido pidão e a ideia de traí-lo provocam repugnância em você. Como ele não entende nada do que você diz e você foi falando cada vez menos, a hipótese de uma separação pode ser aventada e a terapia de casal deve servir para considerar isso.

Se a meta desta terapia for salvar o casamento a qualquer preço é porque ela tem um pacto com a repressão. Nada é mais contrário à felicidade. Ninguém é obrigado a ficar onde está. Você e o seu marido podem mudar de posição. Ou redescobrindo a possibilidade de ficar junto, o que depende de uma escuta nova, ou se separando, caso essa escuta não ocorra.

Um casal  que não se comunica e não tem uma boa vida sexual, ou seja, que não se entende, acaba traumatizando os filhos. Melhor ter pais separados do que continuamente traumatizados. Ninguém precisa continuar casado porque se casou um dia. A cabeça das pessoas muda. E não há razão para não aceitar a mudança.

Por Betty Milan

14/07/2009

às 15:10 \ Casamento

Pai separado

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Será que o meu tema é tão irrelevante ou fim de fila assim? Vou mudar a formulação para ver se você me responde. Em junho de 2008 foi sancionado o projeto de lei que institui a guarda compartilhada dos filhos de pais separados, sempre que não há acordo entre eles.

Você acha possível respeitar alguém que seja contra a guarda compartilhada em caso de pais adultos, sadios e capazes? Possível respeitar quem opta por seu próprio umbigo em detrimento da realização dos filhos? Quem manipula vidas humanas por vingança? Sempre digo que o dia das mães é o dia da ilusão da onipotência.

Gostaria que você me ajudasse a entender os papéis paterno e materno na vida de uma criança.

Nenhum tema é irrelevante ou fim de fila. Mas o espaço do consultório sentimental é destinado a pessoas que se apresentam com uma história e uma questão pessoal. Você me escreveu mais de uma vez para saber o que eu penso da guarda compartilhada, porém nunca contou a sua história. Lógico que eu sou favorável à prática de compartilhar, sempre que possível. Deixei isso claro em alguns textos anteriores.

Estou respondendo agora ao seu e-mail porque, embora você não conte a sua história, deixa transparecer uma grande urgência de ter o seu ponto de vista aprovado aqui. De ouvir que os homens estão tão capacitados quanto as mulheres a se ocupar dos filhos. Que nenhum pai ou mãe responsável tem o direito de privar o filho do convívio com o cônjuge. Que a vingança não pode ser autorizada por se tratar de um sentimento destrutivo.

O seu ponto de vista é correto, porém isso não o autoriza a desrespeitar quem discorda dele. O desrespeito prejudica os filhos, que não podem se opor à separação dos pais, mas têm o direito de gostar dos dois. Quem se separa precisa agir com delicadeza, dedos de luva.

Convencionalmente, o papel do pai é facilitar a aceitação da lei, sem a qual a socialização é impossível. No entanto, nada impede a mãe de fazer isso desde que ela não viva na ilusão da onipotência. Porque, neste caso, ela não tem noção do limite e não pode facilitar nada. É a chamada mãe fálica, caracteristicamente autoritária. Está sempre certa e tem orelha de eucatex, ou seja, não ouve.

Por Betty Milan

 

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