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Posts com a tag ‘separação’

O cão da namorada

terça-feira, 26 de janeiro de 2010 | 7:20

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Tenho uma namorada que é demasiadamente apegada ao seu animal de estimação, um cão. Não sou pela criação de animais de estimação e o apego dela está causando sérios problemas em nosso relacionamento. Parece loucura mas possivelmente terminaremos o nosso namoro por causa de um cão.

A Psicanálise nasceu na língua alemã e renasceu na língua francesa com a obra de Jacques Lacan, uma obra consagrada ao retorno a Freud. Neste retorno, ele introduziu o conceito de parlêtre, que diz respeito ao ser humano e significa o ser da fala. O conceito foi traduzido em português por falesser, graças a MDMagno, psicanalista e tradutor de mais de um seminário do mestre francês. Trata-se de um achado, de um neologismo particularmente feliz por causa da referência a falo e a falecer.

Os seres humanos é que são os falesseres mas, segundo Lacan, o cão também pode ser considerado um deles. Se não fala, escuta o dono, e, se for bem educado, atende. Sempre que possível, fica com ele na sala, no sofá diante da televisão, na cama… Olha para o dono com ternura, e, como não fala, nunca o contradiz. O que ele mais quer é ficar junto e, para isso, não impõe condições. O amor do cão é incondicional, como o da mãe pelo recém-nascido.

Agora, esta relação é diferente da que se estabelece entre dois seres adultos que expresssam o seu desejo, podem entrar em desacordo, porém também podem coincidir e alcançar uma felicidade única, a felicidade propiciada pelo amor dos falantes, cantada desde sempre em prosa e verso.

Se o seu namoro pode acabar por causa de um cão é porque vocês estão se confundindo. O porquê disso eu não sei. Só sei que é possível descobrir o motivo analisando os fatos.

Isso posto, seria bom se perguntar por que você é tão contrário aos animais de estimação, que foram e são tão amados. Sobretudo pelos artistas e escritores. Para Chateaubriand, o gato era um animal filosófico em quem ele se espelhava. A propósito de Micetto, o gato dado ao escritor pelo papa, Chateaubriand escreveu, na  volta do Vaticano para a França, que procurava fazê-lo esquecer a Capela Sistina e o sol da cúpula de Michelângelo sob a qual ele passeava esquecido da Terra.

Por Betty Milan

Perversidade

terça-feira, 12 de janeiro de 2010 | 1:06

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Você  é a minha unica opção. Não tenho condições de pagar um especialista e não posso abrir a minha história para qualquer um. Não quero expor meu marido e minha cunhada, que tiveram uma paixão na adolescência e praticaram o incesto. Foi ela que me contou isso e ele confirmou numa conversa dura e dolorosa.

Quando me casei, os dois não se falavam e ficaram dois anos afastados porque ele achava que ela havia revelado a verdade no intuito de prejudicar o casamento, por ciúmes. Agora, eles voltaram a se falar, mas eu não me dou bem com ela - que, aliás, não faz a menor questão disso. Nas discussões que tivemos, me disse que o casamento acabaria quando ela bem entendesse, pois o irmão ainda gostava dela.

Neste fim de semana, viajamos para a casa de parentes e eu me senti excluída quando fizeram as fotos de família. Percebi o carinho do meu marido pela irmã. Conversamos sobre isso e ele respondeu que não quer escolher entre ela e eu. Que estou sendo imatura, pois só pretende refazer a própria história. Já faz um bom tempo que estamos brigando. Ele não dormiu em casa ontem e eu estou pensando em me separar.

Existem  basicamente duas maneiras de lidar com o passado. A primeira consiste em se valer dele para intervir no presente. Isso é o que a sua cunhada faz, procurando atravancar a sua vida. A segunda consiste em se valer do presente para dar ao passado um sentido novo. Isso é o que o seu marido tenta fazer, vencendo a resistência da irmã.

Na medida em que você se entrega ao ciúme, você avaliza o discurso da sua cunhada e a fortalece. A conduta dela é perversa, pois nada além do prazer conta. Ter praticado o incesto na adolescência é uma coisa. Insistir nele, na vida adulta, é outra. O seu marido não quer isso e precisa ser ajudado.

Você ajuda não dando ouvidos à sua cunhada para que ele possa refazer a própria história sem romper. Ou seja, para refazê-la verdadeiramente. Romper com a irmã não é o que ele quer e ninguém pode exigir isso.

Sua situação não é fácil, mas se você tiver sabedoria, poderá transformá-la e ficar casada de outra forma, tendo um companheiro grato pela sua coragem e pela força que você deu a ele. A vida é assim: requer empenho para que possamos tirar o melhor partido dela.

Por Betty Milan

O perfeito

terça-feira, 17 de novembro de 2009 | 6:23

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Durante toda a vida me esforcei para ser o melhor filho, o irmão mais querido, o namorado perfeito, o funcionário exemplar, o chefe compreensivo, o amigo de todas as horas… Conquistei a admiração de todos que me cercam. Graças ao seu consultório sentimental, percebi que muito do que fiz foi para satisfazer o desejo do outro e ser adorado, me sentir assim superior. Por conta disso, modéstia, resignação, conformismo, contenção e aparência de humildade são características minhas. Mas, como não poderia deixar de ser, muitas vezes o desejo do outro se mostra incompatível com o meu.

Me casei por conta de uma gravidez inesperada e estou no casamento há oito anos. No início, me esforcei para agradar minha esposa e fiz dela uma mulher feliz. Há algum tempo, no entanto, já não consigo satisfazê-la em nenhum plano. Gostaria muito de me separar, pois somos pessoas que não têm os mesmos objetivos. Só que tenho pavor da reprovação dela, dos meus três filhos e dos amigos.

Caí na armadilha da traição e a história quase foi revelada. Na ocasião, vivi os piores dias da minha existência. Cheguei até a pensar em suicídio. Preciso aprender a decepcionar os outros para viver.

Você sabe o que se passa com você e o que você quer. No entanto, não consegue sair da  posição de objeto do “desejo do outro” em que se encontra. O seu e-mail mostra que a capacidade de analisar a própria situação não basta para mudá-la. Noutras palavras, ele expõe claramente o limite da reflexão. Por isso, para a psicanálise o “Penso, logo existo” de Descartes deve ser substituído por um “Digo, logo existo”. A gente só enxerga o que a consciência não alcança falando e sendo ouvido. Quem fala pode se surpreender com o que diz. Se devidamente escutado, se valerá do que disse e mudará a sua vida.

Para superar o pavor, o melhor é procurar um analista. O pavor é datado do passado e a rememoração permitirá encontrar a explicação que irá libertá-lo. Você tem de fazer um trabalho com você mesmo para conseguir dizer não e conquistar a liberdade desejada. Ademais, é possível se divorciar sem romper. Para tanto, sua esposa, seus filhos e seus amigos deverão ser convencidos da necessidade da separação e isso acontecerá se você estiver convicto e se valer da capacidade de persuasão que tem.

Por Betty Milan

A coluna

quarta-feira, 14 de outubro de 2009 | 18:14

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Leio sua coluna desde que começou e ela tem sido um consultório sentimental para mim. Tiro partido dos relatos de pessoas com problemas diferentes e das observações que você faz para resolver os percalços da minha vida.

Cheguei a mandar uma mensagem para você há dois anos, quando eu ainda era casada e vivia uma crise que culminou com a separação. Na época, o que me afligia era uma dúvida quanto à separação. Me separo ou não? Porque estava casada havia 23 anos com o meu único parceiro sexual, mas com quem eu já não sentia mais prazer.

Não obtive resposta para a minha dúvida. Talvez porque, embora estivesse muito aflita, o meu caso fosse prosaico. No momento, passo por uma experiência que me parece absurda, louca, porém é absolutamente prazerosa.

Prosaico significa comum. Eu não deixo de responder a um e-mail porque a história do consulente é comum. Através da análise, é possível chegar ao que há de particular na história e mostrar a universalidade do drama. Com isso, todos os leitores da coluna podem se beneficiar.

Um dos critérios da seleção do e-mail  é a possibilidade que o consulente me dá de chegar a uma resposta bem fundada. Você talvez não tenha me dado elementos suficientes no primeiro e-mail que enviou.  Mas o que importa agora é você ter deixado um casamento que não dava prazer para viver uma experiência prazerosa.

Folgo em saber que isso decorre da leitura desta coluna, já que você tira partido dos relatos de pessoas e das minhas observações para resolver os percalços da sua vida. O consultório sentimental tem de funcionar assim mesmo, exatamente aliás, como o romance.

Nele, a pessoa se debruça sobre uma história que nada tem a ver com a própria e tira  ensinamentos preciosos. Não há livro mais importante do que Madame Bovary, de Flaubert, o precursor do romance moderno, para refletir sobre o casamento e o adultério. As mulheres adúlteras que escrevem para esta coluna vivem num tempo em que o imperativo da fidelidade não tem o mesmo peso e a infidelidade não tem as mesmas consequências – porque tivemos a revolução dos anos 60 e a luta feminista -, mas a leitura de Madame Bovary permite refletir sobre o descompasso entre o casamento e o ideal do amor. Descompasso que a vida cotidiana produz inevitavelmente.

Por Betty Milan

Desconsolo

quarta-feira, 9 de setembro de 2009 | 14:58

Como aceitar que uma pessoa, depois de 17 anos de casamento, avance sobre a poupança de anos de trabalho e simplesmente vire as costas para o marido e o filho? O dinheiro era para o estudo do filho e ela sabia disso. Hoje, não existe contato e o filho acabou sendo a maior vítima da conduta da mãe. Acho difícil entender e aceitar esta situação.
 
A conduta da sua esposa é inaceitável. Mas se você não tiver como convencê-la ou obrigá-la legalmente a devolver o dinheiro, só resta aceitar e tirar do fato uma lição. Bem diz o provérbio popular: “O que não tem remédio, remediado está”. Deve existir um provérbio equivalente em todas as línguas, porque há na vida mil e uma coisas inaceitáveis. Profundamente injustas e incompreensíveis, sobre as quais não vale a pena tergiversar.

O Buda recusava todas as discussões abstratas porque elas lhe pareciam inúteis. Formulou a célébre parábola do homem ferido por uma flecha que não deseja tirar a flecha antes de saber a casta, o nome do responsável e dos seus pais, bem como o país de onde são originários. Proceder assim, diz o Buda, é correr um risco de morte, eu ensino a tirar a flecha.

Fazer isso, no seu caso, é aceitar a realidade. E é sobre a sua dificuldade em aceitá-la que você deve se debruçar. Para se sentir melhor e não prejudicar o seu filho com a sua dificuldade e o seu desconsolo. A vida espiritual do pai interfere tanto quanto o estudo na educação do filho. Tudo que você fizer por você, estará fazendo por ele.

Na impossibilidade de consultar um analista para saber como você lida com a sua fantasia e com a realidade, você pode se aprofundar no ensinamento do budismo, que não é uma religião, e sim uma filosofia. O budismo dispensa toda relação pessoal com um Deus, porque é uma doutrina essencialmente ateia, em que não há nem crente e nem divindade. Diferentemente do judaísmo, do  cristianismo e do islamismo, não sabe o que é pecado, arrependimento e perdão, três conceitos patéticos. Entre os livros de referência, está O que é o budismo?, escrito por Jorge Luis Borges e sua companheira, Alicia Jurado.

Por Betty Milan

Triângulo infeliz

terça-feira, 4 de agosto de 2009 | 14:17

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Tenho 38 anos, sou casada há 13 e mãe de um filho de 12. Meu marido e eu estamos fazendo terapia de casal. A terapeuta percebeu todos os nossos problemas. Disse que precisa primeiro tratar da gente e depois do menino, que também está sofrendo.

Meu marido não entende nada do que eu falo. Então, fui falando cada vez menos. Temos problemas de comunicação e o sexo é péssimo. Eu fujo, fico o mais distante possível para não dar “ideias”. Não era assim antes do casamento. Mas, depois que o meu filho nasceu e meu marido se mostrou imaturo em várias circunstâncias,  eu fui me desinteressando do sexo com ele. Não entende que as preliminares começam com a gentileza cotidiana e o companheirismo. Tenho que explicar tudo que diz respeito ao sentimento.

Quando ele quer sexo, se aproxima como uma criança manhosa, procurando colo. Com olhos pidões e um biquinho. Me pergunto se ele quer mulher ou mãe e fico sem vontade nenhuma. Gosto de sexo quente e para não trair, fui me anulando como mulher. Tem horas que eu queria ter 65 anos, para  não pensar mais no assunto.

Aos 38 anos você queria ter 65 para não pensar em sexo. Como se as mulheres de 65 não pensassem em sexo. Ninon de Lenclos, dama francesa do século XVII, que reunia no seu salão a sociedade libertina da época, recusou o último amante aos 80. Mas o desejo que você expressa mostra o quanto o seu marido pidão e a ideia de traí-lo provocam repugnância em você. Como ele não entende nada do que você diz e você foi falando cada vez menos, a hipótese de uma separação pode ser aventada e a terapia de casal deve servir para considerar isso.

Se a meta desta terapia for salvar o casamento a qualquer preço é porque ela tem um pacto com a repressão. Nada é mais contrário à felicidade. Ninguém é obrigado a ficar onde está. Você e o seu marido podem mudar de posição. Ou redescobrindo a possibilidade de ficar junto, o que depende de uma escuta nova, ou se separando, caso essa escuta não ocorra.

Um casal  que não se comunica e não tem uma boa vida sexual, ou seja, que não se entende, acaba traumatizando os filhos. Melhor ter pais separados do que continuamente traumatizados. Ninguém precisa continuar casado porque se casou um dia. A cabeça das pessoas muda. E não há razão para não aceitar a mudança.

Por Betty Milan

Pai separado

terça-feira, 14 de julho de 2009 | 15:10

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Será que o meu tema é tão irrelevante ou fim de fila assim? Vou mudar a formulação para ver se você me responde. Em junho de 2008 foi sancionado o projeto de lei que institui a guarda compartilhada dos filhos de pais separados, sempre que não há acordo entre eles.

Você acha possível respeitar alguém que seja contra a guarda compartilhada em caso de pais adultos, sadios e capazes? Possível respeitar quem opta por seu próprio umbigo em detrimento da realização dos filhos? Quem manipula vidas humanas por vingança? Sempre digo que o dia das mães é o dia da ilusão da onipotência.

Gostaria que você me ajudasse a entender os papéis paterno e materno na vida de uma criança.

Nenhum tema é irrelevante ou fim de fila. Mas o espaço do consultório sentimental é destinado a pessoas que se apresentam com uma história e uma questão pessoal. Você me escreveu mais de uma vez para saber o que eu penso da guarda compartilhada, porém nunca contou a sua história. Lógico que eu sou favorável à prática de compartilhar, sempre que possível. Deixei isso claro em alguns textos anteriores.

Estou respondendo agora ao seu e-mail porque, embora você não conte a sua história, deixa transparecer uma grande urgência de ter o seu ponto de vista aprovado aqui. De ouvir que os homens estão tão capacitados quanto as mulheres a se ocupar dos filhos. Que nenhum pai ou mãe responsável tem o direito de privar o filho do convívio com o cônjuge. Que a vingança não pode ser autorizada por se tratar de um sentimento destrutivo.

O seu ponto de vista é correto, porém isso não o autoriza a desrespeitar quem discorda dele. O desrespeito prejudica os filhos, que não podem se opor à separação dos pais, mas têm o direito de gostar dos dois. Quem se separa precisa agir com delicadeza, dedos de luva.

Convencionalmente, o papel do pai é facilitar a aceitação da lei, sem a qual a socialização é impossível. No entanto, nada impede a mãe de fazer isso desde que ela não viva na ilusão da onipotência. Porque, neste caso, ela não tem noção do limite e não pode facilitar nada. É a chamada mãe fálica, caracteristicamente autoritária. Está sempre certa e tem orelha de eucatex, ou seja, não ouve.

Por Betty Milan