Blogs e Colunistas

ódio

01/02/2010

às 20:26 \ Relacionamentos

Insensatez

mulher-triste2

Há três anos eu namoro um rapaz que já foi casado e tem uma filha. No começo do relacionamento, a ex-mulher dele fez de tudo para perturbar a nossa relação. Hoje, eu às vezes sinto ódio, uma raiva incontrolável da tal mulher. Mesmo sem nunca a encontrar.

Meu namorado e eu brigamos muito. Eu quero que ele tenha o ódio que eu tenho. Sou infeliz por não esquecer dela e transformo o namoro num verdadeiro inferno por causa de uma mulher que faz parte do passado dele e só. O pior é que eu já sabia, quando comecei a namorar, que ele havia sido casado. Como superar o problema?

“Diga que você odeia a sua ex-mulher como eu. Se você não disser, é porque você não me ama.” Parece telenovela, mas é o seu discurso. Você exige do namorado que ele se entregue ao ódio e prove que a ama sofrendo e sendo como você. Uma insensatez porque não traz benefício algum, ou melhor, só o benefício de uma satisfação narcísica.

O seu e-mail me lembrou o poema de Drummond: “Dois amantes se amam cruelmente/ e com se amarem tanto não se vêem/ um se beija no outro, refletido/ Dois amantes que são? Dois inimigos”. Além de cruel, a sua exigência é tão contrária ao seu namorado quanto a você mesma. Como se livrar  dela? Perguntando-se, por exemplo, que relação existe entre o triângulo formado por você, seu namorado e a ex-mulher e o outro triângulo em que você  viveu primeiro, formado por você, seu pai e sua mãe.

A resposta talvez permita entender por que você não deixa a ‘ex’ existir no passado e não ocupa sozinha a cena do presente. Ou seja, por que você precisa estar continuamente em companhia de uma outra mulher, imaginando que ela ameaça a sua vida? O que tem isso a ver com a sua mãe?

Você é vítima de um gozo masoquista e seria bom saber qual a origem do mesmo para se desapegar dele e entender que o amor não requer provas. Que as provas são para os atletas. Os amantes se amam e nada mais.

A sua paixão de hoje é a do ódio, que se alimenta da paixão da ignorância. Superar o problema é renunciar a estas duas paixões, e, para tanto, você precisa se voltar para a sua história.

Por Betty Milan

21/10/2009

às 18:59 \ Análise

Compulsão por compras

57420462

Tenho 27 anos, sou professora de escola pública e curso Direito. Resolvi escrever para você porque perdi o rumo. Destruí todos os meus planos por irresponsabilidade e imprudência. Por ter a compulsão de comprar. Comprei tudo o que precisava e o que não precisava e acabei num endividamento total. Hoje, não tenho mais cartão de crédito e recebo menos da metade do meu salário, por causa dos empréstimos que fiz. Estou sendo insistentemente cobrada.

Meu emprego é o pior do mundo. Além de ser mal remunerada, ainda tenho de aguentar coordenadores fingidos e adolescentes sem interesse algum em aprender. Por isso, fui fazer Direito para tentar outro emprego. Mas como estou endividada não posso investir e me preparar para a carreira jurídica.
 
Sinto ódio de mim mesma, porque poderia ter usado o meu salário de professora para me formar. Só me restou a angústia e o desespero. O que eu faço? Será que é possível recomeçar? Ou será que é tarde? Necessito de uma resposta urgente.

Em 1919, Freud escreveu: “Podemos reconhecer no inconsciente a supremacia de uma compulsão de repetição… dependente da natureza íntima das pulsões, suficientemente poderosa para se sobrepujar ao princípio do prazer, dando a certos aspectos da vida psíquica o seu caráter demoníaco”.

Esse texto, que sintetiza o drama narrado por você, bastaria para desculpabilizá-la. Mas eu cito ainda um texto de 1938, em que Freud se vale da palavra compulsão, zwang em alemão, para designar a palavra do oráculo: “… o zwang do oráculo, que deveria inocentar o herói, é um reconhecimento da implacabilidade do destino…”

O inconsciente é implacável como foi no seu caso. Você agiu compelida por ele e precisa parar de fazer o mea culpa. Só precisa se perguntar o que tem a compulsão de comprar a ver com a sua história. Procure descobrir. Isso é decisivo para você não se repetir, escapar ao que há de demoníaco na condição humana, a pulsão de morte.

Claro que é possível recomeçar, sempre é. Você deve se valer do que aconteceu para aprender a se refrear. O termo usado para isso nas empresas é redirecionar e cabe a cada um de nós ser o empreendedor da própria vida. O segredo do bem-estar é fazer tudo de propósito. Não é fácil, requer aprendizado, porém é possível.

Por Betty Milan

11/08/2009

às 12:50 \ Relacionamentos

Fora

ilustra-mulher-homem

Há cerca de um ano levei um fora de alguém que eu amava muito. Foi o meu primeiro amor. O rompimento não desestruturou apenas minha vida afetiva, mas a minha vida como um todo. Quase surtei. Aliás, surtei: abusei de drogas (lícitas e ilícitas), larguei trabalho, pós-graduação, casa e praticamente fugi da cidade por um tempo. Hoje estou de volta, só que ainda me sinto péssima. Tenho evitado sair, não tenho vontade de conhecer pessoas, de fazer nada. Virei uma ilha.

Não sei o que me martiriza mais: a perda, o sentimento de culpa (porque nos últimos meses de namoro eu estava insuportavelmente ciumenta) ou saber que fui enganada (mais tarde vim a saber que havia uma outra pessoa e isso era público). Eu nem desconfiava da existência dessa ‘outra’ que foi alçada à condição de titular absoluta. Será que é um desses fatores ou são todos eles reunidos?

Uma ilha de sofrimento. Porque perdeu e porque sabe que se deixou enganar. O namorado se foi e você ficou com o ódio dele, de si mesma e da outra. Ódio demais para uma pessoa só.

Para se livrar do primeiro ódio, o que você sente pelo ex, é preciso se debruçar sobre a relação. Nela você encontrará as razões pelas quais ele foi embora. Para se livrar do segundo ódio, o de si mesma, você tem de levar em conta que nós frequentemente não enxergamos o que está a um palmo do nariz. Porque a realidade contraria a fantasia que todos nós tendemos a privilegiar. Não há portanto razão para se culpar e se autoflagelar. Do terceiro ódio, o da “titular absoluta”, você se livra quando conseguir se curar da paixão pela Outra, existente na nossa cultura. Paixão que deu origem a uma das grandes peças de Nelson Rodrigues, A Falecida.

A paixão pela Outra implica no culto da vingança, que tem origem no Brasil colônia. Naquela época, o concubinato era quase uma regra entre os escravos. Para as filhas de família rica, as alternativas eram a vida monástica ou o casamento. No matrimônio, a mulher aceitava o homem a ela destinado e também as relações adúlteras dele. A Outra estava implícita no contrato do casamento e não o ameaçava. Mas sempre que o marido se ausentava, a esposa se vingava da escrava suspeita, ordenando ao capataz que marcasse o seu rosto a fogo ou a chicoteasse até morrer. A senhora via na Outra, A Mulher, um mito arcaico que a modernidade perpetua e é o  suporte do ódio entre as mulheres.  E consequentemente, do machismo.

Por Betty Milan


 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados