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Condenação

terça-feira, 16 de junho de 2009 | 8:22

Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.

Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.

Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.

Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.

Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.

Acho que  seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim  as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.

O mea culpa é uma condenação da qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.

Por Betty Milan

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Geladeira

terça-feira, 2 de junho de 2009 | 14:46

Pensei muito antes de escrever este e-mail. Por vergonha, talvez. Tenho 31 anos, sou casada há dez com um homem maravilhoso. Tenho um filho lindo e a  vida que pedi a Deus, mas o sexo é péssimo. Não tenho vontade alguma. O problema existe há anos e meu marido sofre com isso. Já troquei a pílula, larguei a pílula, experimentei testosterona e nada… a vontade não vem.

Meu pai, nos momentos de briga com minha mãe, dizia que ela era uma geladeira, e eu me sinto assim. Será que os comentários dele entraram na minha cabeça para não sair mais? As expressões que ele usava para falar de sexo eram de dar nojo.

Meu marido é um homem paciente, porém a frustração dele é visível, especialmente quando tenta uma aproximação e eu me viro para o outro lado. Passamos meses sem nada. Queria sentir uma vontade louca de sexo. Existe algo que eu possa fazer?

“Geladeira”, o seu pai dizia para a sua mãe quando eles brigavam. E você agora se sente como ela. Entrou no lugar que ela ocupava, o da mulher que não gosta de sexo. Isso é claro.

Como o seu pai usava expressões ‘que davam nojo’ para falar do assunto, a resposta à sua questão pode estar na obra de Nelson Rodrigues. Em Álbum de Família, Dona Senhorinha chama Tia Rute de sem-vergonha e esta responde que homem nenhum jamais a tocou. No universo da peça, que pode ter sido o mesmo de seus pais, sexo é sinônimo de sem-vergonhice e a mulher deve resistir a toda investida - ser uma geladeira. O sexo degrada e a mulher que goza é uma perdida. Se não se encolhe, ela é uma safada.

Até hoje, você se encolheu, agora não quer mais. A questão não é tomar ou não a pílula, ingerir ou não testosterona. Você precisa descobrir por que o discurso arcaico de seu pai e a reação de sua mãe calaram assim no seu espírito. Por que você ficou identificada com eles a ponto de não ter prazer sexual. Poderia ter desqualificado o machismo, que é um discurso fundado na inimizade entre os sexos, só gera infelicidade.

Em outras palavras, você precisa ousar o ‘não aos ancestrais’ para dizer ’sim a você mesma’ e renascer descobrindo o seu corpo. É isso o que o seu marido maravilhoso quer. Uma mulher que transa porque ama o próprio corpo e deseja acolher o outro. Uma mulher quente por ter um sexo erotizado pelo amor, que adora transar.

Por Betty Milan

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