
Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.
Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.
Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.
Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.
Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.
Acho que seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.
O mea culpa é uma condenação da qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.
















