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Infância

06/05/2011

às 19:32 \ Casamento, Infância

Sem meta


Leio semanalmente sua coluna, procurando uma história que me faça entender meus problemas. Tenho medo das pessoas, não tenho amigos e não sinto saudade da minha mãe, que mora em outro estado e eu evito. Há pouco tempo faço terapia. Me faz bem, embora o processo seja lento e exija tempo. Às vezes, eu me sinto como era aos 5 anos: frágil, insegura, incapaz de arrumar um emprego melhor. Estou ansiosa, confusa, frustrada…

Curso o terceiro ano de psicologia. Sou a pessoa mais inadequada no curso e em tudo o que faço. Não realizo coisa alguma. Aliás, eu não sonho com nada. Simplesmente vivo por viver, sem meta. Eu me sinto presa a uma vida que não escolhi. Quando penso na infância com meus pais, a palavra que me ocorre é inferno. Eles brigavam o tempo todo e até se agrediam. Há pouco, descobri, através da minha irmã, que, no oitavo mês de gravidez, minha mãe levou um tombo provocado por meu pai. Isso me angustiou muito. Gostaria de começar uma vida do meu jeito, fazendo as minhas escolhas, porém não sei como. Aos 25 anos, eu me sinto impotente.

Você se apresenta dizendo que não tem e não realiza nada. Não tem amigos, não tem saudade, não tem coisa alguma… O que você espera do consultor que recebe essa apresentação? Que ele proceda como seu pai, durante a gravidez de sua mãe, fazendo pouco de você?

Você provoca a rejeição. Como se o fato de ter sido rejeitada no ventre da sua mãe devesse se repetir em sua vida. Para viver do seu jeito e fazer escolhas nas quais você se reconheça, terá de nascer de novo. Não mais de um pai e de uma mãe, e sim de suas palavras, do que você disser em sua análise, da porta que vai abrir rememorando o passado para que não mais se repita.

Hoje, você dá murro em ponta de faca. Mas pode mudar, enveredando seriamente, através da análise, por um caminho desconhecido e que você só vai descobrir caminhando. Claro que teria sido melhor nascer de um pai e de uma mãe que vivessem em paz e desejassem a criança que foi concebida, porém a origem a gente não escolhe. Não há como. O que podemos é inventar nossa trajetória. Sua meta pode ser essa. Aos 25 anos, você tem a vida pela frente, muito tempo para se definir e ser feliz.

Por Betty Milan

08/10/2010

às 15:52 \ Relacionamentos

Posição de vítima


Aos 13 anos tive depressão e síndrome do pânico. Fiz psicoterapia durante três anos e recebi alta. Considero que o tratamento foi um sucesso. Sempre fui uma criança introspectiva e insegura. Quando minha irmã nasceu, eu tinha 7 anos e padeci de ciúme. Mamãe era impaciente e rigorosa. Mas o grande problema sempre foi meu pai, que é depressivo. Na minha infância, ele bebia e eu morria de medo. Quando eu o questionava sobre algo, ele me punia com o olhar, com palavras ou com surras. Quando estava ‘atacado’, ele me chamava para conversas horríveis, queixando-se da vida e gritando. O Dia dos Pais era um inferno: ele se escondia em casa e nós éramos obrigadas a ouvir as lamúrias.

Hoje, tenho 32 anos e sou casada há seis. Conheci meu marido na época da escola, e, depois da faculdade, nós nos reencontramos. Ele sempre foi dono de si, decidido. Isso era o que eu mais admirava nele. O problema é que ele não sabe conversar. Toma o diálogo por uma bronca e emburra. Daí, eu entro em pânico. O resultado disso é eu tolerar o que não gosto. Às vezes, ensaio o que vou dizer, mas, quando chega a hora, choro sem parar. Associo esse comportamento ao que vivi na infância com meu pai. Sei também que é uma maneira de me vitimizar. Como mudar e viver em paz?

Você começa seu e-mail dizendo que a psicoterapia foi um sucesso. Se tivesse sido, você não entraria em pânico quando seu marido emburra. Conseguiria falar o que tem a dizer. O fato é que você continua apegada a uma reação da sua infância e se entrega ao medo, repetindo-se numa conduta arcaica. O que a impede de crescer e sair da posição de vítima? Quando você sair dela, seu marido não terá como ficar na posição em que está. Você mudando, a relação muda, e, para tanto, você precisa responder à questão que se impõe.

Nossa história subjetiva tem uma lógica, e, às vezes, para ser feliz, é preciso conhecê-la. Na verdade, só temos a ganhar com isso, porque nos tornamos sujeitos de nossos atos, ou seja, livres. Aos 32 anos você tem uma vida pela frente. Faça dela a sua, empenhando-se em descobrir a sua verdade. O medo resulta da paixão da ignorância. Espero que você possa abrir mão dessa paixão para ser ouvida e deixar de tolerar o que não gosta, para encontrar assim a paz que procura. A conversa tanto depende de seu marido quanto de você. Quando um não quer, dois não brigam.

Por Betty Milan

07/07/2009

às 15:13 \ Relacionamentos

O bonzinho

Getty

Percebo que sempre me relaciono com o mesmo tipo de mulher. Embora eu não seja um cara rico, atraio mulheres que eu poderia chamar de interesseiras ou aproveitadoras. Sinto que isso acontece porque sou o tipo do cara “bonzinho”, que dá atenção, faz gentilezas. Corro atrás, ligo, mas sem excessos. Como posso mudar este perfil? Hoje em dia, não é aconselhável ser assim. Devo ser um cara meio insensível, que não dá bola, espera as mulheres correrem atrás?

Interesseira significa movida pelo interesse e não pelo amor, que implica  gratuidade. Lacan diz mesmo que, no amor, a gente dá aquilo que não tem. Em que posição você fica para atrair mulheres interesseiras? Esta é a primeira pergunta que precisa ser feita. E a resposta está no seu e-mail. Você se apresenta como  um cara que  dá o que tem e não como quem entrega o que falta. Oferece bondade, atenção, gentileza, que são os atributos de quem ama, mas não são a expressão do amor paixão. O amante entra em cena com o “sem você eu não existo”, mostrando a carência.

Possível que você não suporte se mostrar assim. Digo isso porque você imagina resolver o problema apresentando-se como “quem não dá bola”, espera “as mulheres  correrem atrás”. A solução imaginada por você revela o desejo de ser cortejado. Nada de errado nisso, mas para que o seu desejo possa se realizar é preciso encontrar a parceira que queira estar na posição do trovador. Pode não ser fácil.

Sendo homem, você deseja  a posição da dama, a que ficava no pedestal. Isso certamente tem  a ver com a sua infância, a relação entre os seus pais, e a da sua mãe com você.  Seria bom rememorar para saber mais sobre o seu desejo e se tornar mais flexível. A vantagem do conhecimento de si é a maleabilidade, sem a qual a vida não pode ser boa.

Quem se enrijece numa posição, quem não tem ginga, sofre. A gente precisa aprender a dançar com a música  e este aprendizado não tem fim porque a vida surpreende. Requer a nossa transfiguração, a mudança de perfil. Neste sentido, ela é como o teatro e nós como os atores que encarnam diferentes personagens.

Por Betty Milan


 

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