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gay

02/03/2010

às 23:27 \ Relacionamentos

Beco sem saída

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Meu nome é Marcio e escrevo para dividir a minha dúvida sentimental. Para que você me ajude a tomar decisões e, quem sabe, ajude outros cujos casos sejam parecidos com o meu.

Há mais de um ano, tenho uma grande amizade com um colega de trabalho, que me estendeu a mão quando fiquei muito mal por ter terminado a relação com meu ex-namorado. Embora eu seja discreto quanto ao fato de ser gay, me senti à vontade para compartilhar a minha dor com o colega. Ele não tem preconceito e me deu força nos momentos difíceis. Sou muito grato.

Só que agora eu o desejo e fico imaginando mil estratégias para conquistá-lo. Sempre desisto porque ele é hetero, noivo inclusive. Estou entre “a cruz e a espada”. Um lado meu quer seduzi-lo, um outro teme estragar a relação de amizade. Me apaixonei pelo amigo. O que fazer? Tentar arrumar um novo namorado logo ou investir nele? Sei que esta seria a opção mais difícil e escrevi com o coração pulsando a mil.

A relação entre amigos não envolve sexualidade e o seu sentimento não é o do amor verdadeiro. Porque, neste sentimento, o respeito pela liberdade do outro é fundamental e a liberdade envolve a vocação sexual da pessoa. Se o homem a quem você é tão grato é hétero e quer se casar, insistir na paixão é contrariar a vocação dele. A cada estratégia que você imagina, você o desrespeita.

Sei bem que qualquer um pode se surpreender desejando um outro cujo sexo não é aquele para o qual pende habitualmente. Também sei que a sedução pode ser uma forma de violência, mas o que caracteriza a relação entre os verdadeiros amantes é a delicadeza. Você que sabe da gratidão é um homem delicado.

Entendo que o seu coração pulsasse quando me escreveu, porque o ato de transgredir pode ser excitante. Só que isso não justifica ir em frente, fazer o possível e o impossível para seduzir quem não tem preconceito contra a homossexualidade, mas tem preferência por um parceiro de outro sexo. Melhor não correr o risco de atolar num beco sem saída.

Sei de uma mulher que transou com outra pela internet imaginando que se tratasse de um homem. Ao descobrir que havia transado com pessoa do mesmo sexo, ficou frustradíssima, teve muito ódio e rompeu. Viver não é fácil e se torna mais difícil quando a contenção é impossível.

Por Betty Milan

29/12/2009

às 6:31 \ Análise

Infeliz

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Tenho 21 anos e sou gay. Nenhum problema quanto à minha condição sexual. Me aceito. Quando eu era criança, apesar de ausente e violento, meu pai brincava de manipular meu pênis. Minha mãe tem vários problemas de saúde e nunca se importou com a sexualidade do filho. Não sou assumido em casa.

Na infância, fantasiava que era uma garota. Na pré-adolescência, me via como um ser ‘híbrido’, cujo pênis não impediria os outros garotos de se aproximarem. Hoje, que posso manter relações sexuais livremente, não encontro o meu papel.  Me sinto mal na condição de passivo, tenho dores e desconforto. Também não  sou física e mentalmente ativo. Isso me deixa ansioso.

Manipular o pênis de uma criança é um ato abusivo, que deveria ser punido por lei. Quando a criança é o filho, trata-se de um ato incestuoso. Óbvio que o seu pai interferiu na sua sexualidade. Era ausente, mas com o prazer que proporcionava ‘brincando’ com o seu pênis, tornava-se presente. Você se apegou à brincadeira porque com ela deixava de ser órfão. E a palavra órfão aqui não é casual, pois a sua mãe também era ausente.

Você cresceu sendo a garota do próprio pai. Normal que, na condição de passivo, tenha dores e desconforto. Anormal seria se tivesse prazer. Por outro lado, você não se dá bem na posição de ativo e nem podia se dar. Ativo era o seu pai, um homem com quem você não tem como se identificar.

Quando você se separar da criança que você foi e do pai que teve, a sua vida sexual se tornará possível. Você ficará livre de um pênis que o atormenta e saberá do falo, a flor da qual jorra alegria.

Para se liberar, você precisa reconstruir sua história, vir a ser um outro para  você mesmo. A reconstrução requer trabalho e o melhor recurso, no seu caso,  é a análise porque levará a uma simbolização nova. Se eu fosse você, não hesitaria. Quanto antes você se dispuser a falar para ser ouvido e se ouvir verdadeiramente, melhor. A vida é uma só.

Por Betty Milan

09/12/2009

às 18:39 \ Infância

O uso do kilt

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Gosto de usar saia e usaria fora de casa, se não fosse o preconceito. Isso começou quando meu pai me obrigou a pôr a saia da minha irmã, por eu ter ido brincar na rua, contra sua vontade. Meu pai era um sujeito violento. Agredia minha mãe verbal e fisicamente. Na ocasião, passei a maior vergonha, pois ele chamou meus amigos e disse que, a partir daquele momento, deveriam me dar um nome de menina. Comecei a usar saia escondido e acabei gostando. Parei ao associar a saia  com “coisa de  mulher”. Acho que desencanei por um tempo, mas o gosto ficou apesar do medo de parecer gay.

Morei nos Estado Unidos quase cinco anos e lá comecei a ver alguns caras usando kilt. Descobri que há um movimento de homens que querem usar saia em vários lugares do mundo: EUA, Canadá, Europa, Argentina e recentemente Brasil. Antes da II Guerra Mundial,  as mulheres não podiam usar calças e agora podem usar tudo. Por que os homens não têm a mesma liberdade de escolha, por que se privam, por que essa repressão? O fato é que eu agora quero poder usar saia em qualquer lugar.

Tenho feito terapia e trabalhado muitas questões, principalmente a da ausência do meu pai como figura paterna e a da  sua violência. Apesar de estar com a cabeça mais esclarecida,  não consigo entender por que o meu pai fez aquilo. Será que a sexualidade dele não estava resolvida?

Você deve poder usar saia e até mesmo saia curta onde quer que você esteja sem ser recriminado. O direito à vestimenta que nos agrada é tão importante quanto o direito ao parceiro do mesmo sexo ou do outro. E você deve inclusive considerar a possibilidade de aderir ao movimento, que você menciona, e sustentar publicamente o seu desejo. Desde que não seja uma maneira de se vingar do seu pai. Porque a vingança maltrata quem se vinga.

Não saberia responder à questão relativa à sexualidade dele. Primeiro, porque não sei o que é uma sexualidade resolvida. Segundo, porque não sei nada sobre ele. Agora, seja qual for a problemática de um pai, ele não tem o direito de humilhar o filho. E o seu foi particularmente perverso. O que ele fez com você é ainda pior do que uma agressão verbal ou física.

O melhor partido que você pode tirar da sua análise, é se valer dela para se separar do seu ancestral, procurando entender qual o efeito da conduta perversa dele sobre a sua vida, ou seja, se existe ou não relação entre a humilhação a que você foi submetido e o gosto da saia. Se você está ou não às voltas com um gozo masoquista.

Por Betty Milan

19/05/2009

às 9:07 \ Sexo

Transexual

Sou transexual e, graças a Deus, vivo numa família que me apoia e tem boa condição financeira. Faço faculdade, trabalho, saio com amigas, enfim sou uma jovem de 22 anos “normal”. Ainda assim, quando ficam sabendo da minha condição sempre surge surpresa, curiosidade ou preconceito.

Eu sei que a sociedade ainda não conhece a mulher transexual e acaba generalizando, englobando todas no grupo GLBT. A grande maioria de nós, porém, não se sente incluída neste grupo. Não é um problema só meu e para solucioná-lo é preciso tempo. Não se trata de algo simples.

Gostaria que você me ajudasse, pois eu desejo ser uma mulher como qualquer outra, estou cansada das reações que eu causo quando sou “descoberta”.  A sociedade precisa entender que somos humanas como todos e temos o direito de viver normalmente.

Existe o heterossexual do sexo masculino e feminino, o gay, a lésbica, o bissexual masculino e feminino, o travesti masculino e feminino, o transexual masculino e feminino. Só aí são dez possibilidades de realização sexual. Há outras, claro. Como a do homem com a cabra, objeto erótico valorizado na antiguidade greco-romana e representado em Pompeia.

O “normal” – aquele que se realiza como heterossexual – é apenas um dos casos, ainda que sua via seja a da maioria. O preconceito existe porque a “anormalidade” ameaça o “normal”. Particularmente quando se trata da mulher transexual. Ela desperta o horror inconsciente da castração. No imaginário das pessoas, este ser foi vítima de uma mutilação, embora tenha sido objeto de uma intervenção cirúrgica desejada e consentida.

Agora, uma transexual não é uma mulher como qualquer outra, é diferente – pelo seu passado biológico. Enquanto você não aceitar a diferença, vai ser “descoberta”. Negar a verdade só reforça o preconceito, que não desaparece sem uma atitude consequente do transexual. A mesma que o homossexual teve e tem. A luta pelos seus  direitos começou há um século e não parou. Se você não viu Milk, o filme de Gus Van Sant, vá assistir.

A sociedade só vai entender que você é humana se o que você pensar e disser sobre si mesma servir para humanizá-la. Ou seja, servir para demovê-la da posição preconceituosa resultado da tendência à repetição - a pulsão de morte. O recurso de que você dispõe é a palavra certa, aquela que ilumina e comove. Não é fácil, mas o caminho é esse.

Por Betty Milan


 

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