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Posts com a tag ‘família’

Perversidade

terça-feira, 12 de janeiro de 2010 | 1:06

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Você  é a minha unica opção. Não tenho condições de pagar um especialista e não posso abrir a minha história para qualquer um. Não quero expor meu marido e minha cunhada, que tiveram uma paixão na adolescência e praticaram o incesto. Foi ela que me contou isso e ele confirmou numa conversa dura e dolorosa.

Quando me casei, os dois não se falavam e ficaram dois anos afastados porque ele achava que ela havia revelado a verdade no intuito de prejudicar o casamento, por ciúmes. Agora, eles voltaram a se falar, mas eu não me dou bem com ela - que, aliás, não faz a menor questão disso. Nas discussões que tivemos, me disse que o casamento acabaria quando ela bem entendesse, pois o irmão ainda gostava dela.

Neste fim de semana, viajamos para a casa de parentes e eu me senti excluída quando fizeram as fotos de família. Percebi o carinho do meu marido pela irmã. Conversamos sobre isso e ele respondeu que não quer escolher entre ela e eu. Que estou sendo imatura, pois só pretende refazer a própria história. Já faz um bom tempo que estamos brigando. Ele não dormiu em casa ontem e eu estou pensando em me separar.

Existem  basicamente duas maneiras de lidar com o passado. A primeira consiste em se valer dele para intervir no presente. Isso é o que a sua cunhada faz, procurando atravancar a sua vida. A segunda consiste em se valer do presente para dar ao passado um sentido novo. Isso é o que o seu marido tenta fazer, vencendo a resistência da irmã.

Na medida em que você se entrega ao ciúme, você avaliza o discurso da sua cunhada e a fortalece. A conduta dela é perversa, pois nada além do prazer conta. Ter praticado o incesto na adolescência é uma coisa. Insistir nele, na vida adulta, é outra. O seu marido não quer isso e precisa ser ajudado.

Você ajuda não dando ouvidos à sua cunhada para que ele possa refazer a própria história sem romper. Ou seja, para refazê-la verdadeiramente. Romper com a irmã não é o que ele quer e ninguém pode exigir isso.

Sua situação não é fácil, mas se você tiver sabedoria, poderá transformá-la e ficar casada de outra forma, tendo um companheiro grato pela sua coragem e pela força que você deu a ele. A vida é assim: requer empenho para que possamos tirar o melhor partido dela.

Por Betty Milan

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Questionamento

quarta-feira, 4 de novembro de 2009 | 21:22

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Meu pai: fumante, inteligente, nervoso, incapaz de elogiar, reconhecer, abraçar e beijar o filho - salvo no aniversário ou em alguma situação especial. Estourado no trânsito e na empresa. Se colocado numa situação difícil, fala qualquer coisa para magoar quem está por perto. Vejo-o como uma pessoa frustrada e sempre insatisfeita.  Minha mãe: calma, submissa, de fácil convívio e frágil.

Me casei este ano. Volta e meia penso o quão mal tratei meu pai. Não tenho paciência para ouvi-lo. Me comporto com indiferença e muitas vezes com ressentimento. Quanto à minha mãe, sempre a tratei com muita cobrança e aspereza.

Queria ter tido um convívio mais amoroso, sem mágoa com eles. Agora que me casei, sinto culpa. Meus pais talvez não tenham tido pais amigos, companheiros. O que eu faço? O problema está em mim ou neles? Uma terapia de vidas passadas ajudaria? Aguardo resposta.

Culpa pelo convívio amoroso que você poderia ter tido e não teve? Ora… Se não teve é porque não poderia ter tido. A fantasia é uma coisa, a realidade é outra. No passado, você foi como era dado a você ser. Nem tudo se pode. Agora, a vida muda, e com a mudança a gente tem condições de reconsiderar certas atitudes. Você está no caminho porque está se questionando. Isso já é muito. A condição para reinventar a existência é esta. 

 Possível que os seus avós não tenham tido com os seus pais uma relação que viabilizasse a amizade com você. Digo isso porque a gente ama como foi amado. Refletir sobre a vida passada dos seus ancestrais certamente ajudará a descobrir o porquê das condutas que provocaram o seu ressentimento e a sua aspereza.

Não se trata de fazer uma “terapia de vidas passadas”, mas de se debruçar sobre as vidas dos que o precederam para reinterpretar a sua história com eles e agir de maneira mais adequada. Tanto no que diz respeito a eles  quanto a sua descendência, com a qual você poderá trilhar o caminho da amizade. Um caminho que depende sobretudo do ato generoso da escuta.
Ser amigo do filho é considerar que ganhamos perdendo tempo com ele. É ensinar a importância do ato gratuito. Também é renunciar à luta de prestígio, desacreditar a guerra e valorizar a paz.

Por Betty Milan

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Jogo

terça-feira, 28 de julho de 2009 | 11:46

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Sou casada há 9 anos com um homem que é um jogador compulsivo. O vício dele é dinheiro. Gasta o dele, o meu e de quem mais puder. Há pouco mais de um ano, ele começou a frequentar o Jogadores Anônimos.

É um marido presente e ótimo pai. Só que, por ser autônomo, passa meses sem ganhar nada. Me irrito e digo que não aguento continuar na posição de mãe, sustentar a casa e ainda comprar as coisas que ele precisa. Não consigo comprar um apartamento. Todos, na minha família, são contra minha conduta. Só que o meu marido está se tratando e eu acredito que ele possa se recuperar. Também temos uma criança pequena que idolatra o pai.

Às vezes, acho que não o amo mais, porém não consigo me ver sem ele. É insano achar que este homem me dá segurança quando ele de fato não dá? Casei por amor, e, desde que o conheci o sustento por ele ser doente. Imaginava, no começo, que as circunstâncias o obrigavam a fazer dívidas e empréstimos. Como posso me ajudar?
 
Sua situação é dramática e comovente. Casou-se por amor e desde então sustenta o marido por causa do vício. Acha que não o ama mais, porém não concebe sua vida sem ele. Mais que isso, acredita que ele consiga se recuperar. O que é possível, claro.

No entanto, eu me pergunto se frequentar os Jogadores Anônimos basta. Quem não resiste a uma compulsão precisa entender o motivo. Será que nos Jogadores Anônimos ele pode chegar ao porquê dessa situação? Uma análise deve permitir isso e pode ser associada ao tratamento atual.

Você diz que todos na sua família estão contra. Ouço-os dizendo: “Como é possível que você sustente esse homem há tantos anos? Por causa dele, você não tem casa própria, ele não oferece segurança nenhuma. Por que você não se separa dele?”

Trata-se de um discurso que não a ajuda em nada, pois você não se concebe sem o seu marido. O que você precisa saber para se ajudar é por que suportou e suporta essa situação. E, em segundo lugar, precisa descobrir  que tipo de segurança imaginária ele oferece e da qual você não pode prescindir. Nem só de pão vive o homem.

 Sugiro que você abra mão do apartamento e invista tudo que tem em análise - para ele e para você. Ambos precisam de ajuda, porque ele é viciado em jogo e você é viciada nele.

Por Betty Milan

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Tendão de Aquiles

terça-feira, 21 de julho de 2009 | 7:00

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Fiz análise na adolescência devido a um quadro depressivo. Sofri muito, mas me considerava curada. Agora, 15 anos depois, estou com medo de uma recaída, pois tive um episódio de síndrome do pânico, semelhante aos da adolescência.

Meus parentes,  por parte de pai, têm depressão e tomam remédio. Minha irmã e minhas primas também. Nunca tomei, mas estou chegando à conclusão de que o mesmo mal  vai me rondar a vida inteira. Estou amedrontada, não quero mais sofrer. Me pergunto se vou ser sempre analisanda ou paciente, viver sempre às voltas com o divã ou com a medicação. Que herança!

Aquiles foi o maior dos heróis gregos, sua glória atravessou os séculos. Era filho  da deusa Tetis e de um mortal. Para tornar o filho também imortal, Tetis, de dia, o esfregava com ambrosia. De noite, primeiro o enfiava no fogo, e, depois, nas águas do Styx. O corpo de Aquiles, com exceção do calcanhar, por onde a mãe o segurava, se tornou invulnerável. No entanto, flechado no calcanhar, durante a guerra de Troia, ele morreu. Como a cultura grega é uma referência universal, a expressão tendão de Aquiles se tornou sinônimo de ponto fraco em várias línguas.

Evoquei o mito para lembrar que nós humanos somos vulneráveis por definição. E que, se a depressão é o seu ponto fraco, você tem que lidar com ela em vez de lamentar a sorte. Pois, com a lamúria, você só agrava a dificuldade. Mas o que significa lidar com a depressão?

Por um lado, tomar o remédio se o psiquiatra indicar. Na dose certa, ele não só não faz mal como pode ensinar a recusar o estado depressivo. Quem tem que tomar e não toma, deve procurar o psicanalista para entender o porquê. Há um preconceito relativo ao antidepressivo que é decorrente do nosso ideal de invulnerabilidade, do ideal subjacente ao super-homem e à super-mulher.

Somos formados para recusar o que  falha em nós e fazer pouco do que nos falta. No entanto, é a falha e a falta que nos movem. São elas que nos humanizam. O nosso drama pessoal nos torna mais sensíveis ao drama alheio, que, por sua vez, ilumina aquele. Sugiro que você procure conhecer melhor a história dos seus familiares que viveram ou vivem sujeitos à depressão. Um mal que, ao contrário de outros males hereditários, pode ser perfeitamente controlado.

Por Betty Milan

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