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depressão

05/08/2011

às 13:56 \ Relacionamentos

A procura da luz

Tristeza e falta de esperança fazem parte do meu dia a dia por causa do ambiente em que vivo. Moro com minha mãe, que é nervosa, emotiva e desestimulada. Sempre que tem um problema, o refúgio é a bebida. Tenho mais duas irmãs que, assim como eu, são jovens na idade e velhas de espírito. E eu tenho uma avó que criou minha mãe e é uma pessoa complicada, negativa, solitária e trabalhosa. Dependemos dela financeiramente e por isso a aguentamos.

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Por Betty Milan

14/01/2011

às 15:24 \ Análise, Infância

De Luto

Fui uma criança muito medrosa. Tinha medo do vento, do raio, do trovão. Cresci tentando superar o medo. Durante o dia sou forte, determinada, porém de noite sou frágil, pessimista. Todos os meus sonhos são desfeitos quando a noite cai.

Casei, tive dois filhos lindos, mas logo perdi meu marido e desabei. Eu me tornei depressiva e insegura, além de hostil. Hoje, percebo que muita coisa teria sido diferente se não fosse esse meu modo de ser.

Li alguns artigos de vossa senhoria e por isso escrevo para a coluna.

Por que será que ela me trata de vossa senhoria, perguntei-me ao ler seu e-mail. Recorri ao dicionário, que não é o pai dos burros mas dos curiosos. Vossa senhoria é um tratamento cerimonioso, comumente usado em transações comerciais.

Não encontrando resposta no dicionário, voltei para seu e-mail. Nele, você fala do seu medo, e é possível que tenha me tratado de forma cerimoniosa para se distanciar e se proteger.

Você acaso já se perguntou o que significa ter medo da noite? Quando e por que esse medo surgiu? Foi incutido? Como? Alguma canção aterradora em cuja letra havia “Dorme neném que a cuca vem pegar”? Ou alguma história sobre os perigos da noite, para a criança cair num sono profundo de tanto medo?

Por outro lado, você já se perguntou por que não fez o luto do marido? Por que não entendeu ainda que ele pode continuar com você até o último dos seus dias? Conheço uma senhora de 93 anos que é viúva há 45 e vive como se o marido não tivesse morrido. Evoca continuamente o passado e assim faz o companheiro existir no presente. A senhora em questão vive do seu grande amor pelo amor e destila alegria.

O luto é o tema de um romance meu, Consolação. Nele, a protagonista, Laura, é uma viúva. Dialoga com os mortos e os vivos até se dar conta de que ninguém deixa de existir porque morre e perder não significa não ter; até concluir que o amor é maior do que a morte. O nome do romance é Consolação. Me permito sugerir a leitura porque ajuda a fazer o luto.

Na medida em que a morte é considerada um mau tema e nós ocidentais não temos um ritual para rememorar os mortos, como os povos primitivos, é particularmente difícil fazer o luto. As pessoas só sabem chorar a perda do ser querido e lamentar a própria sorte. Como se elas não fossem morrer e como se falar da própria infelicidade não trouxesse mais infelicidade ainda.

Por Betty Milan

21/10/2010

às 20:46 \ Relacionamentos

Linfoma

Tenho 21 anos e sou biomédica. Peço uma luz para ajudar minha melhor amiga. Conheci a Gi há cinco anos na faculdade. Era a mais linda da turma: 1,78 metro, cabelos ondulados com mechas loiras e um rosto marcante. Sabia se maquiar e se vestir. Tinha o corpo de quem passou a vida dançando balé.  Com o tempo fui descobrindo quão iluminada ela é. Não fala mal de ninguém e quer o bem de todos. Além disso, ela se dá mais com os idosos do que com as pessoas de sua idade. Adora os avós e a madrinha, que ela sempre visita. Costumo brincar que ela é um espírito idoso num corpo jovem. Teve poucos amigos e dois namorados. Sei que nenhum dos namoros durou mais de um ano. Segundo ela, porque não deu muita atenção aos namorados.

Nos dois primeiros anos da faculdade, fui criando mais intimidade com a Gi. Ela é fechada. Odeia ser pressionada para se abrir e não gosta de ser rotulada disso ou daquilo. Também não gosta de ser tocada. Vive bem sozinha e não procura os amigos, espera ser procurada. No final do segundo ano de faculdade, fizemos um intercâmbio de quatro meses nos Estados Unidos e moramos juntas. Certos dias, ela se trancava no quarto e não queria falar com ninguém. No ano passado, o último da faculdade, ela ficou meio sumida. Convenci-a a ir ao médico. Mal pude acreditar quando ela me contou o diagnóstico. Um linfoma! Ia ter de se submeter a quimioterapia! Eu me dispus a fazer tudo o que fosse necessário para ajudar. Mas a Gi praticamente não precisou de ajuda, eu fiquei mais abalada do que ela. Estou preocupada com a autoestima dela. Porque agora pesa 80 quilos e está muito mal com o espelho. Só quer sair de casa para trabalhar. Ela diz que não precisa de auxílio psiquiátrico, porém não estou convencida disso.

Você não poupa tempo para ajudar sua amiga Gi. Sabe que o amigo só ganha perdendo tempo com o amigo e me escreveu um longo e-mail, um verdadeiro relatório sobre a vida dela, dando-me o máximo de elementos para obter uma resposta bem fundada. Você está de parabéns. Embora tão necessária, a amizade verdadeira é rara.

A Gi tem uma tendência depressiva que se manifestou claramente nos Estados Unidos, onde ela se trancava no quarto e não queria falar com ninguém. Segundo Servan-Schreiber, autor de Anticâncer, existe uma relação entre a depressão e o câncer. Sugiro que você leia esse livro e fale do conteúdo para a sua amiga, enfatizando a importância da prevenção. Quem já fez quimioterapia precisa ficar ainda mais alerta.

As pessoas têm mais chance de se curar definitivamente do câncer quando aceitam o fato de terem tido a doença e não se deprimem. Por isso, a medicação psiquiátrica e a escuta psicanalítica são importantes. O médico, em geral, trata da doença porém não necessariamente do doente, cuja subjetividade ele ignora. Esse é o limite de sua ação, um limite que precisa ser levado em conta. Para que a Gi, que tende a ser autossuficiente, possa se valer de todos os recursos hoje existentes, é preciso informá-la e sensibilizá-la contra a autossuficiência. Ninguém melhor do que você para isso.

Por Betty Milan

10/08/2010

às 16:14 \ Análise

Depressão

Tenho 33 anos e há algo de errado comigo. Só me dei conta disso dois anos atrás. Carrego um sentimento de culpa. Me sinto indigna e não me autorizo a contestar nada. Tive uma crise profunda no trabalho e meu chefe me lembra um inquisidor. A voz dele e a forma como fala me fazem pensar que sou incapaz, evocam os momentos em que eu era reprimida na família e, muitas vezes, surrada.

Na infância, acabava achando que as punições eram merecidas. Vira e mexe, hoje, eu acho que vou receber uma repreensão por algo que fiz ou deixei de fazer. Sou extremamente insegura. Perco o equilíbrio facilmente. Tenho medo de todos. Por qualquer coisa, desato a chorar. Minha memória falha constantemente. Não saio muito nem me divirto, por acreditar que alguém vai me dizer que não tenho direito… Nunca tive um relacionamento amoroso. Me sinto muito infeliz.

Cheguei a pensar que iria ficar louca. Atualmente, vou levando a vida sem entusiasmo. Não me esforço para viver. A única coisa que me prende são meus pais e meu irmão. No entanto, atribuo a eles a minha fraqueza. A educação que recebi me afetou. Não me sinto dona da minha vida. O que eu faço?

O analista quando escuta o analisando associa livremente. Também eu quando leio o e-mail do consulente. Ao ler o seu, foi a imagem de uma ex-paciente deprimida que eu vi. Você precisa se tratar da depressão quanto antes, tomando o remédio que o psiquiatra indicar, na dose certa.

O primeiro passo é esse. Implica vencer o preconceito contra o remédio, que não é sempre indicado porém é imprescindível em certos casos. Depois de ter sido medicada, você pode procurar um analista para saber a razão do sentimento de culpa que você “carrega”. Ou seja, carrega como uma cruz.

Há certamente uma relação entre o que acontece hoje e o que aconteceu na sua infância. Mas qual? Através da rememoração, é possível determinar isso com precisão e se curar. Você já conseguiu me escrever. Agora é ir em frente com quem saiba escutar. Até não estar mais sujeita à fantasia de que vai ser reprimida por algo que fez ou deixou de fazer.

Para procurar ajuda, é preciso ter humildade. Espero que você tenha e consiga sair do atoleiro em que está.

Por Betty Milan

26/05/2010

às 15:02 \ Relacionamentos

Desânimo

Sempre me senti desanimada. Desde criança, poucas coisas me entusiasmam. Reclamar de tudo é a minha característica, o que talvez explique a dificuldade que tenho de ter amigos. Na verdade, não consigo sentir alegria ou estar de bem comigo mesma. Meus pais me levaram a psicólogos a partir dos 8 anos de idade. Na adolescência, passei a ir também a um psiquiatra, que fez o diagnóstico de distimia e prescreveu medicamentos. Carrego, desde essa época, o rótulo de doente “física”, com um problema orgânico que explica o meu comportamento.

Hoje, tenho 27 anos, vida própria com um parceiro ao meu lado, apesar das brigas, faço psicoterapia e uso remédios, mas não me sinto diferente de quando era criança. Sou infeliz. Gostaria de me libertar dos medicamentos, do rótulo de doente. A minha psicóloga não diz para eu parar os remédios, é extremamente correta. O psiquiatra, por sua vez, nem cogita essa possibilidade. Estarei condenada pelo meu corpo a depender de remédios e me sentir infeliz?

A distimia antigamente era sinônimo de uma disfunção cerebral que se expressava através da variação de humor. Considera-se hoje que ela seja uma  forma de depressão e o tratamento medicamentoso é benéfico. Há casos em que é mesmo e outros em que não. Cada caso é um. De qualquer forma, a distimia não condena ninguém a ser infeliz. O apego à infelicidade decorre de razões subjetivas que o remédio não trata. Para se desapegar, você precisa se deter na sua relação com a infelicidade, examiná-la de vários ângulos, perguntando-se quais os benefícios secundários que ela traz a você. Ou seja, que gozo a sustenta.

Não há quem não tenha um ou outro problema físico e o segredo do bem estar se encontra na maneira de lidar com isso. Um defeito da coluna, por exemplo, tanto pode levar a um eterna queixa quanto a um aprendizado do corpo, que ensina a evitar os movimentos prejudiciais. Neste caso, o que importa é controlar os efeitos da anomalia e ela deixa de ser uma condenação. Tudo na vida depende sempre da nossa atitude e esta felizmente pode mudar. Sobretudo aos 27 anos. A Psicanálise é um recurso poderoso de que você pode se valer para descobrir os motivos inconscientes do seu sofrimento atual.

Por Betty Milan

21/07/2009

às 7:00 \ Análise

Tendão de Aquiles

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Fiz análise na adolescência devido a um quadro depressivo. Sofri muito, mas me considerava curada. Agora, 15 anos depois, estou com medo de uma recaída, pois tive um episódio de síndrome do pânico, semelhante aos da adolescência.

Meus parentes,  por parte de pai, têm depressão e tomam remédio. Minha irmã e minhas primas também. Nunca tomei, mas estou chegando à conclusão de que o mesmo mal  vai me rondar a vida inteira. Estou amedrontada, não quero mais sofrer. Me pergunto se vou ser sempre analisanda ou paciente, viver sempre às voltas com o divã ou com a medicação. Que herança!

Aquiles foi o maior dos heróis gregos, sua glória atravessou os séculos. Era filho  da deusa Tetis e de um mortal. Para tornar o filho também imortal, Tetis, de dia, o esfregava com ambrosia. De noite, primeiro o enfiava no fogo, e, depois, nas águas do Styx. O corpo de Aquiles, com exceção do calcanhar, por onde a mãe o segurava, se tornou invulnerável. No entanto, flechado no calcanhar, durante a guerra de Troia, ele morreu. Como a cultura grega é uma referência universal, a expressão tendão de Aquiles se tornou sinônimo de ponto fraco em várias línguas.

Evoquei o mito para lembrar que nós humanos somos vulneráveis por definição. E que, se a depressão é o seu ponto fraco, você tem que lidar com ela em vez de lamentar a sorte. Pois, com a lamúria, você só agrava a dificuldade. Mas o que significa lidar com a depressão?

Por um lado, tomar o remédio se o psiquiatra indicar. Na dose certa, ele não só não faz mal como pode ensinar a recusar o estado depressivo. Quem tem que tomar e não toma, deve procurar o psicanalista para entender o porquê. Há um preconceito relativo ao antidepressivo que é decorrente do nosso ideal de invulnerabilidade, do ideal subjacente ao super-homem e à super-mulher.

Somos formados para recusar o que  falha em nós e fazer pouco do que nos falta. No entanto, é a falha e a falta que nos movem. São elas que nos humanizam. O nosso drama pessoal nos torna mais sensíveis ao drama alheio, que, por sua vez, ilumina aquele. Sugiro que você procure conhecer melhor a história dos seus familiares que viveram ou vivem sujeitos à depressão. Um mal que, ao contrário de outros males hereditários, pode ser perfeitamente controlado.

Por Betty Milan


 

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