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Fora

terça-feira, 11 de agosto de 2009 | 12:50

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Há cerca de um ano levei um fora de alguém que eu amava muito. Foi o meu primeiro amor. O rompimento não desestruturou apenas minha vida afetiva, mas a minha vida como um todo. Quase surtei. Aliás, surtei: abusei de drogas (lícitas e ilícitas), larguei trabalho, pós-graduação, casa e praticamente fugi da cidade por um tempo. Hoje estou de volta, só que ainda me sinto péssima. Tenho evitado sair, não tenho vontade de conhecer pessoas, de fazer nada. Virei uma ilha.

Não sei o que me martiriza mais: a perda, o sentimento de culpa (porque nos últimos meses de namoro eu estava insuportavelmente ciumenta) ou saber que fui enganada (mais tarde vim a saber que havia uma outra pessoa e isso era público). Eu nem desconfiava da existência dessa ‘outra’ que foi alçada à condição de titular absoluta. Será que é um desses fatores ou são todos eles reunidos?

Uma ilha de sofrimento. Porque perdeu e porque sabe que se deixou enganar. O namorado se foi e você ficou com o ódio dele, de si mesma e da outra. Ódio demais para uma pessoa só.

Para se livrar do primeiro ódio, o que você sente pelo ex, é preciso se debruçar sobre a relação. Nela você encontrará as razões pelas quais ele foi embora. Para se livrar do segundo ódio, o de si mesma, você tem de levar em conta que nós frequentemente não enxergamos o que está a um palmo do nariz. Porque a realidade contraria a fantasia que todos nós tendemos a privilegiar. Não há portanto razão para se culpar e se autoflagelar. Do terceiro ódio, o da “titular absoluta”, você se livra quando conseguir se curar da paixão pela Outra, existente na nossa cultura. Paixão que deu origem a uma das grandes peças de Nelson Rodrigues, A Falecida.

A paixão pela Outra implica no culto da vingança, que tem origem no Brasil colônia. Naquela época, o concubinato era quase uma regra entre os escravos. Para as filhas de família rica, as alternativas eram a vida monástica ou o casamento. No matrimônio, a mulher aceitava o homem a ela destinado e também as relações adúlteras dele. A Outra estava implícita no contrato do casamento e não o ameaçava. Mas sempre que o marido se ausentava, a esposa se vingava da escrava suspeita, ordenando ao capataz que marcasse o seu rosto a fogo ou a chicoteasse até morrer. A senhora via na Outra, A Mulher, um mito arcaico que a modernidade perpetua e é o  suporte do ódio entre as mulheres.  E consequentemente, do machismo.

Por Betty Milan

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Condenação

terça-feira, 16 de junho de 2009 | 8:22

Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.

Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.

Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.

Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.

Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.

Acho que  seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim  as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.

O mea culpa é uma condenação da qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.

Por Betty Milan

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