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analista

29/04/2011

às 18:48 \ Análise

O saber do analista


Tenho 31 anos. Sou leitor regular de sua coluna e grande admirador de seu trabalho. Esse foi um fator importante para eu escolher o curso de psicologia como segunda graduação. Você deve receber centenas ou milhares de e-mails toda semana. Mas gostaria que me dissesse quais as características mais relevantes do terapeuta. As que eu devo levar em conta, na escolha de um analista. Estou procurando me informar sobre isso, pois pretendo trabalhar com uma só pessoa, ao longo dos próximos anos. Faço isso menos pela minha formação do que para me tratar mesmo, por ter consciência de que preciso.

As características mais relevantes do analista são decorrentes do desejo de que o analisando faça sua análise. Para tanto, é preciso que o analista tenha jogo de cintura. Do contrário, ele aumenta a resistência natural do analisando ao trabalho. Quando o analista estranha o que o analisando diz, tem de fazer de conta que não estranhou. Quando está contrariado, tem de se calar. Do contrário, a análise acaba antes de começar.

O lugar do analista é o do morto que não tem sentimentos. Queira ou não, o analista tem de se conter, e ele sabe fazer isso. Só se interessa, durante a sessão, pelo que ainda está por ser dito. Procura fazer o analisando falar, para que este depare com seu inconsciente e assim possa se liberar, deixando de responder aos mandatos alheios e se tornando sujeito da própria história.
A escolha do analista é decisiva. Mas a gente só descobre a verdadeira razão da escolha através da análise. Porque o coração tem razões que a razão não explica. Freud só descobriu o inconsciente porque acreditou nesse provérbio.

É bom saber que você quer sobretudo se tratar. Porque essa é a condição para se tornar um analista. O saber analítico o sujeito adquire no divã, ou seja, falando e escutando o que disse, ao contrário do que se passa normalmente, no dia a dia. Na sessão, o sujeito se escuta porque a escuta do analista o leva a isso. Trata-se de uma escuta que faz a palavra do analisando ecoar.
Formar-se, no caso do analista, não é ingurgitar conhecimentos, mas saber escutar cada vez mais e melhor.

Por Betty Milan

11/11/2009

às 18:26 \ Relacionamentos

Rompante de raiva

Getty
Fiz terapia durante três anos com uma terapeuta suíça, porém inflamada como um espanhol. A terapia me ajudou com minha ansiedade, meus rompantes de raiva, minha falta de empatia com o mundo. Fui obrigado, no entanto, a parar por causa da autoridade sem medida da terapeuta. Mudei inclusive de cidade, por conta do desencontro. Tentei terapia novamente, mas foi inócuo. A falta de limites da minha primeira psicóloga me deixou muito frustrado e com raiva. Não consigo nem quero voltar a um consultório. Você já escreveu sobre a possibilidade de a pessoa se aprimorar por conta própria. Você me ajudaria muito se escrevesse mais sobre isso.

Nem todo suíço é um lago tranquilo e nem todo espanhol é inflamado. O uso do estereótipo revela a falta de empatia com o mundo a que você se refere. Seja como for é melhor evitar o estereótipo. Quando fazemos uma generalização sobre uma ou outra nacionalidade, sobre uma ou outra raça, um ou outro sexo, nós nos cegamos para a realidade do próximo, que é sempre um caso único.

A falta de limites do terapeuta é uma aberração. Não se justifica em hipótese alguma. Você provavelmente só aceitou o “tratamento” por ter-se espelhado na sua psicóloga. Me permito dizer isso porque você tem rompantes de raiva, não se contém, passa dos limites. O terapeuta existe para fazer o paciente encontrar o seu caminho. Para tanto precisa ter autoridade, mas não pode em hipótese alguma ser autoritário. Uma coisa é fazer vigorar a autoridade da lei. A outra é se entregar ao autoritarismo.

Há, para os seus rompantes de raiva, uma explicação que está na sua história. Para encontrar a explicação é preciso fazer análise. Agora, você pode aprender a se controlar através da meditação budista ou do tai chi chuan, prática que ensina a respeitar os próprios limites e os do outro, além de ensinar a paciência.

O tai chi chuan é uma expressão da grande sabedoria chinesa, de que tanto os jovens quanto os mais idosos podem se beneficiar, pois ele propicia a longevidade sem os inconvenientes da velhice. Com esta prática você aprenderá a ficar em paz com você mesmo e talvez possa depois encontrar um verdadeiro analista.

Por Betty Milan

28/10/2009

às 21:28 \ Análise

O lapso

getty
O meu histórico é de baixa autoestima e melancolia. Em decorrência disso, a minha automotivação não dura, resultando na desistência  das coisas  que inicio e me impedindo de concluir estudo, trabalho e relacionamento afetivo. Tenho 34 anos e faço psicanálise lacaniana há quase cinco anos com o mesmo profissional, em quem confio muito, e não penso em parar. Pedi  ao meu analista que indicasse um psiquiatra. Disse que se não  indicasse eu procuraria o analista sozinha. Ele então me indicou um de sua confiança,  dizendo, com um sorriso no rosto: “Vá tomar o seu ‘efeito placebo!’”

Fui e constatei que meu analista tinha razão, pois poucos meses depois do início do medicamento os problemas continuavam e minha falta de vontade reapareceu. Minha angústia por não ver a minha vida decolar persiste.  Não sei o que fazer, embora não pense em desistir do processo analítico.

Você me escreveu como quem narra uma história clínica e não como quem conta a própria história. A linguagem do seu e-mail é a de quem fala de um problema com distância e domínio da situação, é a do especialista que apresenta um caso para ser discutido com os colegas. Por sorte, você cometeu um lapso revelador. Em vez de escrever “se ele não indicasse eu procuraria o psiquiatra sozinha”, escreveu: “se ele não indicase eu procuraria o analista sozinha”.

Você que faz análise há cinco anos sabe que o lapso é a realização do desejo e precisa se perguntar qual a razão do lapso. Não pode deixar passar isso. Será que inconscientemente você deseja mudar de analista?

Não entendo por que o seu chamou o antidepressivo de placebo, dando a entender que o remédio age por sugestão quando o antidepressivo regulariza mediadores químicos desregulados e pode ser extremamente eficaz. Às vezes, inclusive é  necessário para que a pessoa consiga fazer análise. Outras, é imprescindível para não morrer.

O seu analista indicou a você um psiquiatra, mas  fez isso desqualificando o antidepressivo. Dada a sua transferência, o remédio não podia funcionar. Se funcionasse, desqualificaria o analista. O fato é que você ficou entre a cruz e a caldeirinha. Vai ter de falar sobre isso com alguém.

Por Betty Milan


 

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