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Posts com a tag ‘Análise’

Tendão de Aquiles

terça-feira, 21 de julho de 2009 | 7:00

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Fiz análise na adolescência devido a um quadro depressivo. Sofri muito, mas me considerava curada. Agora, 15 anos depois, estou com medo de uma recaída, pois tive um episódio de síndrome do pânico, semelhante aos da adolescência.

Meus parentes,  por parte de pai, têm depressão e tomam remédio. Minha irmã e minhas primas também. Nunca tomei, mas estou chegando à conclusão de que o mesmo mal  vai me rondar a vida inteira. Estou amedrontada, não quero mais sofrer. Me pergunto se vou ser sempre analisanda ou paciente, viver sempre às voltas com o divã ou com a medicação. Que herança!

Aquiles foi o maior dos heróis gregos, sua glória atravessou os séculos. Era filho  da deusa Tetis e de um mortal. Para tornar o filho também imortal, Tetis, de dia, o esfregava com ambrosia. De noite, primeiro o enfiava no fogo, e, depois, nas águas do Styx. O corpo de Aquiles, com exceção do calcanhar, por onde a mãe o segurava, se tornou invulnerável. No entanto, flechado no calcanhar, durante a guerra de Troia, ele morreu. Como a cultura grega é uma referência universal, a expressão tendão de Aquiles se tornou sinônimo de ponto fraco em várias línguas.

Evoquei o mito para lembrar que nós humanos somos vulneráveis por definição. E que, se a depressão é o seu ponto fraco, você tem que lidar com ela em vez de lamentar a sorte. Pois, com a lamúria, você só agrava a dificuldade. Mas o que significa lidar com a depressão?

Por um lado, tomar o remédio se o psiquiatra indicar. Na dose certa, ele não só não faz mal como pode ensinar a recusar o estado depressivo. Quem tem que tomar e não toma, deve procurar o psicanalista para entender o porquê. Há um preconceito relativo ao antidepressivo que é decorrente do nosso ideal de invulnerabilidade, do ideal subjacente ao super-homem e à super-mulher.

Somos formados para recusar o que  falha em nós e fazer pouco do que nos falta. No entanto, é a falha e a falta que nos movem. São elas que nos humanizam. O nosso drama pessoal nos torna mais sensíveis ao drama alheio, que, por sua vez, ilumina aquele. Sugiro que você procure conhecer melhor a história dos seus familiares que viveram ou vivem sujeitos à depressão. Um mal que, ao contrário de outros males hereditários, pode ser perfeitamente controlado.

Por Betty Milan

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Amarração

terça-feira, 23 de junho de 2009 | 11:35

Eu me envolvi com um homem que conheci num dia em que estava sozinha. Saí, mas já avisando que não desejava me relacionar seriamente. No começo, ele pareceu aceitar a proposta, mas com o tempo fui deixando que ele me enredasse, eu e minha filha. Sempre que brigávamos, ele montava guarda em frente da minha casa e eu acabava  cedendo.

Agora, me sinto ameaçada. Ele não entende que eu não quero esta relação. Sempre que tento me afastar, minha consciência dói e eu me deixo manipular. Ele emagrece, me liga insistentemente, me acusa de egoísmo e, como ele foi bom em momentos difíceis, eu acabo cedendo. Parece uma doença.

Preciso de ajuda. Não quero ficar com ele e não consigo me livrar.

Ele “montava guarda”, ou seja, ficava policiando. Você o afastava e ele não aceitava. Ele não dava ouvidos ao que você dizia e forçava a mão. Por que você acabava cedendo? Por que não tomava uma providência para o afastá-lo de vez? Que relação tem essa conduta com a sua história passada? Deve ter algo a ver com o medo, pois você diz que se sente ameaçada. E deve ter algo a ver com a culpa - porque a sua consciência dói. Ouço a frase de um ancestral seu que poderia ter dito: “Se você se afastar, não conte mais comigo” ou “Se você se afastar eu morro’.

Você é presa de um discurso inconsciente que tira a sua liberdade. Para deixar de estar às voltas com essa eterna dor de consciência, é preciso dar ouvidos ao seu inconsciente. Procure um analista porque nada é mais precioso do que ser livre. E este é o melhor ensinamento que você pode dar à sua filha. A gente só transmite o que tem. E, ainda que fosse só por isso, a mãe tem que se cuidar.

Às vezes, não é preciso muito para sair de uma situação em que estamos amarrados, impossibilitados de agir. Embora a análise seja interminável, porque a vida nos surpreende continuamente, ela não precisa ser longa. Tudo depende da escuta do analista e da disposição do analisando. Encontrando a pessoa certa, você alcança sua meta e tira o time de campo.

Ao conseguirmos sair da posição em que estávamos, querendo ou não, o outro também sai. Quando Lacan considerava que a sessão estava terminada, ele se levantava. Se o analisando continuasse deitado no divã,  ele simplesmente saía da sala. Só restava ao analisando ir embora e aceitar o término da sessão indicado por Lacan, ou seja, a sua interpretação.

Por Betty Milan

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Condenação

terça-feira, 16 de junho de 2009 | 8:22

Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.

Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.

Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.

Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.

Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.

Acho que  seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim  as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.

O mea culpa é uma condenação da qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.

Por Betty Milan

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