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04/05/2010

às 19:31 \ Casamento, Relacionamentos, Sexo

Como foi e como é

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Tenho 28 anos, sou casada, sem filhos. O que me traz aqui é uma dúvida cruel. Conheço meu marido há quase cinco anos e estou casada há dois. No início do namoro, éramos insaciáveis na cama. Não podíamos ficar a sós que já estávamos transando. Casamos e, depois disso, tudo mudou. É uma vez por semana, ou pior, a cada 15 dias. Já passamos até um mês sem nada. Eu o amo e sei que ele me ama, mas não sei o que está acontecendo. Às vezes tenho vontade de procurá-lo, porém fico meio sem graça. O problema é que a abstinência me faz lembrar de parceiros antigos e eu inclusive me pergunto onde posso achá-los para remoçar. Sei que meu marido não merece ser traído, ele é muito bom. Sei que ele não tem outra porque já investiguei. O que eu faço?

O que me chamou a atenção no seu e-mail foi o “procurá-lo”. Usualmente se emprega o verbo procurar para o ato de tomar a iniciativa sexual e ninguém estranha. O verbo, porém, ao dizer bem que um procura e o outro é procurado, indica duas posições subjetivas diferentes. Quem procura está numa posição menos cômoda e narcisisticamente menos satisfatória do que o indivíduo procurado. Tradicionalmente, esta segunda posição é a da mulher, que deve pairar indiferente no pedestal do qual ela só desce por amor. Será que você é presa a uma tradição que obriga a mulher a esperar? Que tira a sua iniciativa desvalorizando o desejo dela? Uma tradição que, num certo sentido, condena à traição porque só deixa a opção da fantasia.

O melhor seria você procurar o marido para falar de vocês dois, de como era, de como é e de como você gostaria que fosse. Se você o ama, sabe como se dirigir a ele porque o amor torna particularmente inteligente. Considere, no entanto, a possibilidade da sua insatisfação não ser só sexual. Tem a ver também com o amor, que não pode ser confundido com o sexo, mas se manifesta suntuosamente através dele, celebrando o corpo do amado e propiciando a este maneiras novas de se expressar e de existir.

São tantas as maneiras que elas foram repertoriadas pelos indianos no Kamasutra, um livro clássico porque o kama é, no hinduísmo, um dos três grandes móveis da ação humana. O seu equivalente entre nós ocidentais é Eros – o Deus do amor na Grécia e a pulsão sexual na Psicanálise.

Por Betty Milan

18/03/2010

às 13:24 \ Sexo

Aberração

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Fui criada ouvindo pai, mãe e tia dizerem que sexo era a parte mais suja do ser humano. Além de ser constantemente vigiada, só tive contato com o sexo masculino aos 15 anos, no colégio misto. Não namorei por medo de engravidar. Meu pai era machista e violento. Ameaçava me matar se eu engravidasse. Tomei horror a crianças. Ele me dizia que eu era responsável pela união da família dele e da minha mãe. Mas aos 16 anos, fui estuprada por um pai de santo, que teoricamente conseguiria resolver os problemas da família, e tomei horror aos homens.

Aos 36 tive pela primeira vez uma relação sexual com meu primeiro namorado, que era tão incapaz de me dar carinho quanto meu pai e minha mãe. Sexo sem carinho eu não quero. Dá pra entender? Hoje, canto os homens e tento esquecer o carinho mas, na hora H, minha vagina se fecha. Será que me tornei frígida ou tenho que fazer uma cirurgia para resolver esse problema? Será que devo contratar um garoto de programa? E o medo? Tornei-me médica para ver o corpo, o sexo e as pessoas de forma racional. Cuido da genitália masculina. Tenho poder sobre o pênis, mas prazer com ele eu não tenho, pois não consigo confiar no seu dono.

Você escreve que “sexo sem carinho eu não quero”. E você me pergunta: “Dá pra entender?”. Eu entendi. Mas parece que não é o seu caso. Você não só teve um primeiro namorado incapaz de te dar carinho como também transa hoje com homens de quem você só se aproxima pelo sexo. Ou seja, faz o contrário do que quer, está em permanente contradição com você mesma e a vagina contraída é a expressão disso. Você diz “vem” para o outro se aproximar e não ter como chegar verdadeiramente.

Sua conduta é sádica porque foi isso que você aprendeu com a sua família, que não teve por você o menor respeito. Emporcalhou o sexo com o discurso: “É a parte mais suja do ser humano” e a maternidade com a ameaça de morte. Óbvio que a solução não está na cirurgia e tampouco no garoto de programa. Ela está no discurso que você poderá reinventar se fizer análise. Por outro lado, você precisa se perguntar o que significa para você cuidar da genitália masculina. O médico em princípio não tem poder sobre qualquer parte do corpo do doente. O único poder que ele tem é o de curar, se isso lhe for dado.

Por Betty Milan

19/01/2010

às 5:23 \ Casamento, Relacionamentos, Sexo

Incompletude

Obra de Roy Lichtenstein

Acompanho sua coluna semanal em VEJA.com e me sinto à vontade para me abrir com você. Tenho 23 anos e o meu marido 30. Somos casados há pouco mais de sete meses. Ele procura me agradar em tudo que pode. Mas a nossa vida sexual tem sido péssima.

Com tão pouco tempo de casamento deveríamos estar em lua-de-mel e tal. Mas não é o que acontece. Ele tem bom caráter, é doce, compreensivo e prestativo. Mas com todas essas qualidades, eu me sinto frustrada, pois ele não me completa. Não sei se o problema está comigo ou com ele e não sei onde procurar ajuda.

Há meses não temos intimidade alguma. Por falta de libido. Ou talvez desinteresse meu por saber que não sentirei nada. Não sou cobrada pelo meu marido que, até nisso, é compreensivo. O que você me recomenda?

O que significa “ele não me completa?”. Suponho que você se refira ao sentimento de completude decorrente da relação sexual. Você não me dá muitos elementos para responder, e, só pelo uso do termo “cobrada”, eu me aventuro a fazê-lo. Se você utiliza esta palavra é porque, para você, transar com o seu marido é um dever. Isso obviamente complica tudo.

Se a transa é um dever e não um prazer, acaba se tornando impossível. Sexo só é bom se não houver obrigatoriedade. Você precisa descobrir por que está na sua situação. Em vez de deixar rolar para ver como fica, tem que abrir o jogo, falar para transformar o presente. Isso de contar com a eterna compreensão do marido só te prejudica.

Agora, com quem falar? Se não for possível falar já com ele, procure um psicanalista para descobrir como fazê-lo. Nada é pior do que o conformismo, que pode levar o casamento de vocês à  falência. Desgasta-se, e, de repente, acabou. O silêncio pode ser de ouro e pode ser nocivo.

Para sair da situação atual você precisa deixar de fazer de conta que vai tudo bem, aceitar a realidade e estabelecer um outro tipo de relação com a palavra. Porque é dela que a felicidade mais depende. Da capacidade que nós temos de usá-la em nosso benefício. Daí, aliás, a importância da educação sentimental, que pode ser feita na família, na escola e através da literatura. Não é por acaso que um dos romances de Flaubert se chama Educação Sentimental.

Por Betty Milan

19/05/2009

às 9:07 \ Sexo

Transexual

Sou transexual e, graças a Deus, vivo numa família que me apoia e tem boa condição financeira. Faço faculdade, trabalho, saio com amigas, enfim sou uma jovem de 22 anos “normal”. Ainda assim, quando ficam sabendo da minha condição sempre surge surpresa, curiosidade ou preconceito.

Eu sei que a sociedade ainda não conhece a mulher transexual e acaba generalizando, englobando todas no grupo GLBT. A grande maioria de nós, porém, não se sente incluída neste grupo. Não é um problema só meu e para solucioná-lo é preciso tempo. Não se trata de algo simples.

Gostaria que você me ajudasse, pois eu desejo ser uma mulher como qualquer outra, estou cansada das reações que eu causo quando sou “descoberta”.  A sociedade precisa entender que somos humanas como todos e temos o direito de viver normalmente.

Existe o heterossexual do sexo masculino e feminino, o gay, a lésbica, o bissexual masculino e feminino, o travesti masculino e feminino, o transexual masculino e feminino. Só aí são dez possibilidades de realização sexual. Há outras, claro. Como a do homem com a cabra, objeto erótico valorizado na antiguidade greco-romana e representado em Pompeia.

O “normal” – aquele que se realiza como heterossexual – é apenas um dos casos, ainda que sua via seja a da maioria. O preconceito existe porque a “anormalidade” ameaça o “normal”. Particularmente quando se trata da mulher transexual. Ela desperta o horror inconsciente da castração. No imaginário das pessoas, este ser foi vítima de uma mutilação, embora tenha sido objeto de uma intervenção cirúrgica desejada e consentida.

Agora, uma transexual não é uma mulher como qualquer outra, é diferente – pelo seu passado biológico. Enquanto você não aceitar a diferença, vai ser “descoberta”. Negar a verdade só reforça o preconceito, que não desaparece sem uma atitude consequente do transexual. A mesma que o homossexual teve e tem. A luta pelos seus  direitos começou há um século e não parou. Se você não viu Milk, o filme de Gus Van Sant, vá assistir.

A sociedade só vai entender que você é humana se o que você pensar e disser sobre si mesma servir para humanizá-la. Ou seja, servir para demovê-la da posição preconceituosa resultado da tendência à repetição - a pulsão de morte. O recurso de que você dispõe é a palavra certa, aquela que ilumina e comove. Não é fácil, mas o caminho é esse.

Por Betty Milan

 

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