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Arquivo da categoria Sexo

27/01/2012

às 16:25 \ Análise, Sexo

À flor da pele

Tenho 37 anos e sou gay. Por muitos anos lutei contra essa condição, mas hoje estou tranquila. Sempre fui reservado e tive dificuldade em me relacionar por causa disso.

Faço análise há mais de um ano e considero que minha vida mudou bastante, porque posso falar sobre os fantasmas que mais me incomodam. Entre eles, destaco o fato de ter sido abusado sexualmente por meu irmão mais velho, durante vários anos, desde a infância. Às vezes, me sinto culpado por ter permitido que o abuso durasse tanto tempo. Isso não me permite viver plenamente, é como se eu tivesse uma marca.

Hoje, estou me relacionando com um jovem bem mais novo e – apesar de a relação ser clandestina, pois ele não quer se mostrar – tenho momentos de felicidade ao lado dele. Porém, como sou muito inseguro, sempre me digo que ele vai me trair ou que só fica comigo por obrigação. Não consigo confiar.

Por que isso?

Você começa seu e-mail com um lapso. Em vez de tranquilo, escreve tranquila. Será isso porque você foi usado como mulher por seu irmão?

Depois, você utiliza a palavra fantasma quando a palavra esperada seria fantasia. Fantasma diz respeito a um morto que reaparece ou a uma visão medonha.

Você está às voltas com o fantasma de seu irmão mais velho, de cujo abuso você foi vítima, ainda que o tenha autorizado. Em sua relação atual com o jovem que não quer se mostrar, sua posição é a do seu irmão, com quem você não pode se identificar. Por isso, você sente que o jovem não gosta de você e vai traí-lo.

Valha-se da análise para ir fundo na rememoração e, com isso, se livrar do fantasma e reinventar sua vida. Acredito que não seja difícil porque, como o lapso mostra, seu inconsciente está à flor da pele. Você dispõe do recurso mais eficaz, que é a palavra.

Por Betty Milan

12/02/2011

às 15:18 \ Sexo

Androginia

Sou travesti. Tenho 24 anos e um mar de dúvidas.

Nasci em Goiás e vivo no Rio há um ano. Vim em busca de novos horizontes, melhores oportunidades profissionais e pessoais. Mas nem tudo está sendo como planejei.

Eu me interrogo sobre minha sexualidade. Devo aceitar a condição de transexual e me submeter a uma cirurgia de redesignação sexual, mesmo não tendo problemas com meu sexo? Claro que a vida seria menos dura, menos preconceituosa. Mas valeria a pena?

Trabalho como cabeleireira e não consigo me decidir quanto ao meu futuro profissional. Pretendo voltar a estudar, fazer Psicologia. Mas quais seriam minhas reais possibilidades no mercado de trabalho?

Me sinto muito só, sem referências. Como um extraterrestre no mundo. Queria apenas ser quem sou.

Amiga. Você começa seu e-mail me dizendo que é travesti. Nenhum heterossexual faria isso. Você é vítima de uma injustiça relativa aos gays, às lésbicas, aos travestis e aos transexuais que, por ainda serem olhados como seres excepcionais, se apresentam através da sua fantasia sexual, procurando assim sustentar o direito de ser como são. A fantasia sexual só diz respeito à própria pessoa e sua hipervalorização acaba servindo para excluir os que não estão dentro da “norma”.

Você diz explicitamente que não tem problema com seu sexo. Por que haveria de se submeter a uma operação de “redesignação sexual”? Para satisfazer ao desejo de algum outro? Tenho certeza de que você pode encontrar um parceiro que goste de você como você é, com sua androginia. Também digo isso porque a maneira de falar de si mesma comove. Você é amável, ou seja, pode ser amada, e é isso que importa. Como diz Nelson Rodrigues, “sexo, e apenas sexo, é coisa para bezerros, bodes, preás e jumentos. No homem, sexo é amor”. Isso significa que não é de educação sexual que nós precisamos, e sim de educação sentimental.

Você hoje trabalha como cabeleireira. Claro que pode vir a ser psicóloga e se inserir no mercado, desde que estude e se torne competente. Agora, para tanto, precisa superar o preconceito em relação a si própria. Aceitar a diferença, gostar dela, o que significa gostar da condição humana. Acho que você me escreveu porque está predisposta a isso, quer redirecionar sua vida.

Por Betty Milan

07/01/2011

às 9:00 \ Sexo

Questão de vida ou de morte

Sou um rapaz de 17 anos que há pouco assumiu a sua homossexualidade. Apesar da tranquilidade quanto a isso, não consigo realizar meu maior desejo, o de me relacionar seriamente com alguém da minha idade. Já fiquei com garotos, claro. Mas foram só casinhos. Quanto aos outros, sempre foram homens mais velhos e até casados, discretos quanto à própria sexualidade, e que não me satisfazem afetivamente, só sexualmente. A atração que eu tenho chega a ser doentia. Às vezes, saio à noite perambulando pela rua, esperando a aparição do superpotente. Nessas saídas, acabo entrando em carros de desconhecidos. Sei que é perigoso, mas não resisto ao impulso embora esteja no divã há três anos.

Você começa seu e-mail falando de si próprio na terceira pessoa: “um rapaz de 17 anos que assumiu”. Se fosse “tenho 17 anos e assumi”, eu acreditaria na tranquilidade. O uso da terceira pessoa mostra que há um descompasso entre você e o rapaz. Isso me leva a pensar que você não o aceita inteiramente. O modo como você qualifica a atração, usando a palavra doentia, confirma isso.

Você hoje não realiza seu maior desejo, o de encontrar o amor, porque você não se ama. Só quem se ama pode amar e ser amado. Também aprendi isso fazendo o Consultório Sentimental.

O problema que eu vejo é a compulsão da qual você precisa se livrar quanto antes. Não só porque sexo só é bom sem obrigação e sem compulsão, mas porque você se arrisca com desconhecidos. No seu caso, é uma questão de vida ou morte.

Espero que você não esteja usando o divã para não mudar. Isso infelizmente é comum. Tomara que você possa se valer dele para deixar de obedecer ao imperativo do gozo, ser objeto do seu inconsciente e se expor ao sadismo alheio. Você não precisa se maltratar porque é homossexual. Por gostar do superpotente. Não há nada de mau nisso.

Por Betty Milan

22/12/2010

às 8:37 \ Casamento, Liberdade, Sexo

O gosto da transgressão

'Devoção: As Namoradas', de Toulouse-Lautrec

Sou advogada, recém casada e feliz. Meu marido é o que a maioria das mulheres quer para si. Tenho saúde, família unida, amigos, beleza, inteligência e personalidade. De mim o que se espera são os filhos e uma vida comum, mas eu quero viver adoidado. Já experimentei algumas drogas e já tive um relacionamento homossexual. Diria que sou metade careta e metade libertina. Um relacionamento aberto com o meu marido é inviável. Me viu transar com outra mulher, mas depois ficou com ciúmes e teve medo de eu me apaixonar. A idéia de um futuro limitado a uma só transa me entristece. Queria variar sem deixar de estar segura. Amo demais o meu marido para correr o risco de perdê-lo.Como acalmar os meus anseios?

Você é “advogada, recém-casada e feliz”, mas é “metade careta e metade libertina”. Foi formatada para uma vida comum, mas o seu desejo contraria a expectativa, introduzindo a possibilidade de uma vida libertina e ameaçando o casamento já que o seu marido não é companheiro para a libertinagem. Em outras palavras, você não realiza a sua liberdade no contexto da instituição matrimonial. Pode ter saúde, família unida, amigos, beleza, inteligência e personalidade, porém não tem liberdade.

Você só vai alcançá-la no dia em que quiser o que puder ter, em que se satisfizer com o possível. Tenho certeza de que o seu desejo de transgredir não data de hoje. Você precisa descobrir por que a transgressão te faz arder. Talvez exista uma relação entre o gosto da mesma e a sua escolha profissional. Vale se questionar sobre isso.

O maior passo que você pode dar, neste momento, é o de se debruçar sobre a sua história para entendê-la. Nenhum outro passo te levará tão longe no caminho do encontro com você mesma, o de que você mais precisa para se assenhorar da sua vida. Para deixar de satisfazer o projeto dos outros e de ser assaltada pelos próprios anseios.

Você é “metade careta e metade libertina”, porém tem muito chão pela frente antes de ser uma mulher livre, capaz de ser fiel ou se separar para viver como bem entende. As alternativas e as possibilidades são várias para quem sabe de si. Tomara que você se valha dos tantos recursos que tem para não continuar à mercê do seu inconsciente.

Por Betty Milan

09/09/2010

às 16:09 \ Sexo

Bovariana

Tenho 34 anos, sou casada há sete e mãe de dois meninos. Vivo feliz com a família que construí e não consigo imaginar minha vida sem eles. Estou satisfeita com tudo, amor, família e sexo.

Há dois anos, um funcionário de outra unidade foi transferido para a minha e nós ficamos amigos, a ponto de trocar confidências. Até aí, tudo bem, só que de uns tempos para cá comecei a ver esse meu amigo com outros olhos. Um belo dia, enviei um e-mail dizendo que ele estava lindo, e, desde então, temos trocado mensagens picantes. Só que no tête-a-tête mal consigo abraçá-lo, apesar de sentir um desejo sexual intenso.

Como é possível que eu tenha me interessado por outra pessoa, se está tudo bem em casa? Não quero abandonar meu marido, mas eu me vejo na cama com meu amigo, que também é casado e não pensa em abandonar a esposa. Ele me diz que tenho medo porque mulher não consegue separar sexo de amor. Na verdade, eu temo me envolver e me apaixonar. O problema é que, a cada dia, a vontade é maior. Quando nos abraçamos, ele se excita, e isso me excita ainda mais. Como é possível amar uma pessoa e se sentir atraída por outra? Me dê uma luz!

Se você não leu “Madame Bovary”, leia. O romance foi editado na segunda metade do século XIX e provocou um escândalo tal que Flaubert foi processado. Acusavam-no de ter exaltado o adultério. Hoje, nenhum escritor seria processado por isso, mas é possível inventar uma personagem semelhante à Bovary, cujo drama é atual porque nós todos sonhamos com o que não temos e queremos nos surpreender.

Como a Bovary, você quer resistir, e, como ela, você quer se entregar com tudo. Imaginariamente, você se entrega e, portanto, é infiel. Saiba que a fidelidade é rara, pois é próprio do desejo mudar de objeto. O desejo erra, ele é errático. O que nós, simples humanos, podemos alcançar é a lealdade.

O imperativo da fidelidade hoje não tem o mesmo peso. A revolução dos anos 60 e a luta feminista mudaram a vida das mulheres e, consequentemente, dos homens. Ser infiel hoje não é mais um crime. Agora, é claro que você pode se apaixonar ainda mais pelo seu “amigo”. Isso significa que, se for possível, você desiste e, se não for, vai em frente como der porque não tem outra saída.

O importante é avaliar o que você põe em risco num caso e no outro. Só você conhece seu marido, seus filhos e seu amigo. Seja como for, tem muita gente envolvida, e é preciso considerar os efeitos da decisão sobre todos.

Por Betty Milan

18/05/2010

às 19:02 \ Casamento, Sexo

Desencontros

Tenho 43 anos, sou casada há 20 e tenho dois  filhos pré-adolescentes. Meu marido sofre de ejaculação precoce e está ficando muito difícil manter o casamento, pois sinto necessidade de um prazer que está além dos amassos e da masturbação. A minha atração por ele se esvaiu. Já tentamos vários tratamentos (psicológicos e medicamentosos) e atualmente fazemos terapia de casal há um ano, mas não houve progresso. Meu marido insiste em “namorar”, procurando me recompensar com carícias sexuais às quais o meu corpo não reage. Quando a ejaculação não ocorre no período das carícias, acontece nos primeiros movimentos e isso me frustra demais. Ao conversarmos sobre o assunto, ele me diz que estou “focando” somente no sexo e é preciso “aproveitar” o que acontece. Ainda não consegui fazê-lo escutar que eu quero uma vida sexual saudável e não um prazer alucinado. Em alguns momentos fico muito irritada, pensando que só sirvo para validar o sucesso dele. Noutras, me digo que sou egoísta por querer me realizar sexualmente. Já disse que ele não faz de mim a sua mulher e eu sou somente a mãe dos filhos dele. Não sei se devo me conformar ou se há alguma saída.

Eu me pergunto por que você está na sua situação. Por ter o gozo da insatisfação ou por acreditar piamente na necessidade do casal, ou seja, por não conceber a separação?

Por outro lado, a ejaculação precoce é uma limitação, mas não é forçosamente um empecilho. A felicidade depende menos do desempenho sexual do que do encontro sexual dos amantes. E este pode inclusive excluir a penetração, como no ritual do asag, um ritual da Idade Media durante o qual o amante estava autorizado a fazer todas as carícias na sua amada, porém devia renunciar à penetração para provar que amava verdadeiramente.

Sei que o seu marido não é um trovador e você não é uma dama antiga, porém também sei, pelo seu e-mail, que ele a deixa alucinada e não a satisfaz. Que ele não a escuta. Ora, quem ama sabe contentar o amado, descobre uma maneira porque sabe escutar.

Já fizeram vários tratamentos e não há progresso. Você continua batendo na mesma tecla da vida sexual saudável e ele continua surdo. A experiência do casamento você já teve. Que tal ousar a separação para talvez encontrar um amor? Ou, mais simplesmente, ousar a transformação que é a base da vida?

Por Betty Milan

12/05/2010

às 16:51 \ Sexo

Só sexo

Tenho 25 anos. Minha vida sempre foi normal, cursei a universidade, consegui um bom trabalho e cresci intelectualmente. Tive bons namorados, mas de uns tempos pra cá as coisas estão mudando. Só me interesso por rapazes que nada têm a ver comigo. No começo, fantasio coisas boas. Depois, percebo que só querem sexo e os satisfaço. Sou uma fonte para eles. O problema é que eu busco o carinho nessas relações e não encontro. Saio, sou paquerada, mas não tenho vontade de ficar com ninguém. Volto para os antigos, com quem faço sexo sem compromisso e sem a necessidade de conquista. Isso já dura dois anos e eu não consigo mudar essa situação. Acho que só tenho sexo a oferecer e receber!!! Não consigo me abrir de nenhuma outra maneira para as pessoas. Me ajude.

A sua história me fez pensar na de Catherine Millet, cujo livro foi um grande sucesso. Nele, a autora conta que fez do sexo um refúgio para evitar olhares que a envergonhavam e diálogos para os quais não estava preparada. Diz que respondia a qualquer proposta e estava sempre disponível, “por todas as aberturas do corpo e em toda a extensão da consciência”. Cita no livro comentários de parceiros que eu reproduzo para clarificar a experiência dela:

- “Você nunca dizia não, não recusava nada.”

- “Você não era inerte, mas tampouco demonstrativa.”

- “Você fazia as coisas com naturalidade, nem reticente e nem obcecada.”

- “Na orgia, você era sempre a primeira a começar, estava sempre na proa…”

Como você, Catherine Millet  poderia dizer que só tem sexo a oferecer e receber, mas ela não usaria três exclamações no final da frase. Viveu a experiência dela com naturalidade por ter se reconhecido na cultura libertina francesa e ser uma heroína da libertinagem antes de ter se tornado uma heroína da literatura.

Acho que você usa as exclamações por dois motivos. Primeiro, porque nós não temos a cultura da libertinagem e a sua experiência te escandaliza. Segundo, porque a relação só de sexo não é o que você quer. Mas, se é como objeto sexual que você se apresenta e estabelece a relação, esta obviamente só pode se limitar a sexo.

Para sair da situação em que você se encontra, precisa descobrir por que só pode se apresentar como objeto do gozo alheio e não como quem deseja ser amada. Nessa posição, você precisaria oferecer a sua falta e teria que abrir mão do narcisismo.

Por Betty Milan

04/05/2010

às 19:31 \ Casamento, Relacionamentos, Sexo

Como foi e como é

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Tenho 28 anos, sou casada, sem filhos. O que me traz aqui é uma dúvida cruel. Conheço meu marido há quase cinco anos e estou casada há dois. No início do namoro, éramos insaciáveis na cama. Não podíamos ficar a sós que já estávamos transando. Casamos e, depois disso, tudo mudou. É uma vez por semana, ou pior, a cada 15 dias. Já passamos até um mês sem nada. Eu o amo e sei que ele me ama, mas não sei o que está acontecendo. Às vezes tenho vontade de procurá-lo, porém fico meio sem graça. O problema é que a abstinência me faz lembrar de parceiros antigos e eu inclusive me pergunto onde posso achá-los para remoçar. Sei que meu marido não merece ser traído, ele é muito bom. Sei que ele não tem outra porque já investiguei. O que eu faço?

O que me chamou a atenção no seu e-mail foi o “procurá-lo”. Usualmente se emprega o verbo procurar para o ato de tomar a iniciativa sexual e ninguém estranha. O verbo, porém, ao dizer bem que um procura e o outro é procurado, indica duas posições subjetivas diferentes. Quem procura está numa posição menos cômoda e narcisisticamente menos satisfatória do que o indivíduo procurado. Tradicionalmente, esta segunda posição é a da mulher, que deve pairar indiferente no pedestal do qual ela só desce por amor. Será que você é presa a uma tradição que obriga a mulher a esperar? Que tira a sua iniciativa desvalorizando o desejo dela? Uma tradição que, num certo sentido, condena à traição porque só deixa a opção da fantasia.

O melhor seria você procurar o marido para falar de vocês dois, de como era, de como é e de como você gostaria que fosse. Se você o ama, sabe como se dirigir a ele porque o amor torna particularmente inteligente. Considere, no entanto, a possibilidade da sua insatisfação não ser só sexual. Tem a ver também com o amor, que não pode ser confundido com o sexo, mas se manifesta suntuosamente através dele, celebrando o corpo do amado e propiciando a este maneiras novas de se expressar e de existir.

São tantas as maneiras que elas foram repertoriadas pelos indianos no Kamasutra, um livro clássico porque o kama é, no hinduísmo, um dos três grandes móveis da ação humana. O seu equivalente entre nós ocidentais é Eros – o Deus do amor na Grécia e a pulsão sexual na Psicanálise.

Por Betty Milan

 

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