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Arquivo da categoria Liberdade

22/12/2010

às 8:37 \ Casamento, Liberdade, Sexo

O gosto da transgressão

'Devoção: As Namoradas', de Toulouse-Lautrec

Sou advogada, recém casada e feliz. Meu marido é o que a maioria das mulheres quer para si. Tenho saúde, família unida, amigos, beleza, inteligência e personalidade. De mim o que se espera são os filhos e uma vida comum, mas eu quero viver adoidado. Já experimentei algumas drogas e já tive um relacionamento homossexual. Diria que sou metade careta e metade libertina. Um relacionamento aberto com o meu marido é inviável. Me viu transar com outra mulher, mas depois ficou com ciúmes e teve medo de eu me apaixonar. A idéia de um futuro limitado a uma só transa me entristece. Queria variar sem deixar de estar segura. Amo demais o meu marido para correr o risco de perdê-lo.Como acalmar os meus anseios?

Você é “advogada, recém-casada e feliz”, mas é “metade careta e metade libertina”. Foi formatada para uma vida comum, mas o seu desejo contraria a expectativa, introduzindo a possibilidade de uma vida libertina e ameaçando o casamento já que o seu marido não é companheiro para a libertinagem. Em outras palavras, você não realiza a sua liberdade no contexto da instituição matrimonial. Pode ter saúde, família unida, amigos, beleza, inteligência e personalidade, porém não tem liberdade.

Você só vai alcançá-la no dia em que quiser o que puder ter, em que se satisfizer com o possível. Tenho certeza de que o seu desejo de transgredir não data de hoje. Você precisa descobrir por que a transgressão te faz arder. Talvez exista uma relação entre o gosto da mesma e a sua escolha profissional. Vale se questionar sobre isso.

O maior passo que você pode dar, neste momento, é o de se debruçar sobre a sua história para entendê-la. Nenhum outro passo te levará tão longe no caminho do encontro com você mesma, o de que você mais precisa para se assenhorar da sua vida. Para deixar de satisfazer o projeto dos outros e de ser assaltada pelos próprios anseios.

Você é “metade careta e metade libertina”, porém tem muito chão pela frente antes de ser uma mulher livre, capaz de ser fiel ou se separar para viver como bem entende. As alternativas e as possibilidades são várias para quem sabe de si. Tomara que você se valha dos tantos recursos que tem para não continuar à mercê do seu inconsciente.

Por Betty Milan

22/04/2010

às 17:10 \ Liberdade

Mágoa

Mãe e filha

Preciso de ajuda, urgentemente. Estou sendo esmagada por um sentimento terrível. Minha mãe tem 65 anos e não construiu nada na vida. Absolutamente nada. Sempre fui muito independente e tive êxito. Me formei, trabalho, tenho um amor e um futuro feliz, apesar de não ter tido ajuda dela e nem de meu pai – que se matou há muitos anos.

Minha mãe agora está idosa e dependente. Mas não é humilde ou boazinha. Me vejo na situação de ter de ajudá-la – e o pior é que meus familiares, que só proporcionaram coisas boas para os filhos, me cobram isso. Por que tenho de me responsabilizar pela inconsequência dos outros? Por que tenho de me privar das coisas que quero? Como me livrar desse egoísmo e dessa mágoa terrível? Minha atitude é monstruosa? Tenho ou não a liberdade de não gostar de meus pais e de não me responsabilizar por eles? Me ajude, por favor. Estou muito angustiada.

Seu pai se matou, sua mãe não construiu nada na vida e hoje depende de você, mas ela não é boa. Seus familiares querem que você a ajude e você se pergunta se pode não ajudar. Poderia, se você não me perguntasse se esta conduta é monstruosa. Você teme que seja. Você precisa fazer o que for mais fácil para você. Virar as costas para a sua mãe vai te custar caro. Significa continuar remoendo a raiva e engolindo o fel da mágoa.

Você só se livra ajudando, e ponto. Seria melhor, obviamente, se você pudesse falar com a sua mãe e mudar a relação que tem com ela. Porque a palavra tem o poder extraordinário de reverter a situação. Se não for possível, azar. Você terá tentado e ficará de consciência limpa. O que importa é isso. De tudo ou quase tudo a gente pode se privar, salvo da consciência limpa. Nada atormenta mais do que a culpa.

Você é formada, trabalha e tem um amor, só que hoje é vitima de um ódio que te maltrata, é sinônimo de desassossego. A vida nunca é fácil. Nós é que podemos torná-la melhor ou pior e isso depende muito da nossa interpretação dos fatos. Também por isso a psicanálise é eficaz. Com ela o sujeito muda de ponto de vista. Que tal se valer da situação atual para aprender a ser ainda mais responsável com você mesma e não deixar que a irresponsabilidade alheia te atormente?

Por Betty Milan

11/03/2010

às 2:58 \ Liberdade, Relacionamentos

Descrente

ligacoes-perigosas-filme

Tornei-me uma pessoa que não acredita no amor. Talvez  por nunca ter encontrado alguém que me amasse de verdade. Aprendi a me amar e amar os animais mas, em relação aos homens, esse sentimento não brota mais. Já me apaixonei várias vezes e só sofri com isso.

Meu namorado me faz acreditar que não vale mesmo a pena perder tempo sofrendo por ninguém. Que não se deve esperar nada. Só que eu não consigo me separar dele. Traio e fico feliz com a traição. Não corto a relação, não me liberto.

Desejo ser livre, conhecer homens apenas para me divertir, sem compromisso, sem me apegar… Só que tenho medo de ficar sozinha.Como faço para realizar o desejo de ser livre?

Ter se apaixonado não quer dizer ter amado. O mais provável é que você não tenha amado ninguém de verdade. Inclusive você própria. Se você se amasse verdadeiramente, não ficaria com um homem de quem não espera nada e que você tem prazer em trair, ou seja, com quem mantém uma relação sadomasoquista. Você faz dele um corno – mas, por outro lado, fica com um homem que você desvaloriza, se torna vítima da vingança. É a história do feitiço que se volta contra o feiticeiro.

Você não se liberta porque não pode abrir mão do gozo sadomasoquista que a relação atual propicia. Em outras palavras, se deixa escravizar por este gozo, do qual precisa se libertar se quiser passar para outra,  se quiser trocar de pele.

Agora, para que outra você quer passar? Parece que a sua proposta é a do libertino, que faz pouco do amor e sobretudo não quer se apegar. Contudo, na prática, a proposta frequentemente não se realiza. O libertino acaba se envolvendo. Um bom exemplo disso é o romance de Laclos, Ligações Perigosas. Você pode ler ou assistir ao filme – de tão bom, o texto teve mais de uma adaptação para o cinema.

O libertino se envolve porque o amor é a nossa vocação primeira, a vocação dos mortais. Faz a eternidade soar e assim suspende a morte. Nada nos satisfaz mais. Daí talvez o poema de Drummond:

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Por Betty Milan

23/06/2009

às 11:35 \ Liberdade

Amarração

Eu me envolvi com um homem que conheci num dia em que estava sozinha. Saí, mas já avisando que não desejava me relacionar seriamente. No começo, ele pareceu aceitar a proposta, mas com o tempo fui deixando que ele me enredasse, eu e minha filha. Sempre que brigávamos, ele montava guarda em frente da minha casa e eu acabava  cedendo.

Agora, me sinto ameaçada. Ele não entende que eu não quero esta relação. Sempre que tento me afastar, minha consciência dói e eu me deixo manipular. Ele emagrece, me liga insistentemente, me acusa de egoísmo e, como ele foi bom em momentos difíceis, eu acabo cedendo. Parece uma doença.

Preciso de ajuda. Não quero ficar com ele e não consigo me livrar.

Ele “montava guarda”, ou seja, ficava policiando. Você o afastava e ele não aceitava. Ele não dava ouvidos ao que você dizia e forçava a mão. Por que você acabava cedendo? Por que não tomava uma providência para o afastá-lo de vez? Que relação tem essa conduta com a sua história passada? Deve ter algo a ver com o medo, pois você diz que se sente ameaçada. E deve ter algo a ver com a culpa – porque a sua consciência dói. Ouço a frase de um ancestral seu que poderia ter dito: “Se você se afastar, não conte mais comigo” ou “Se você se afastar eu morro’.

Você é presa de um discurso inconsciente que tira a sua liberdade. Para deixar de estar às voltas com essa eterna dor de consciência, é preciso dar ouvidos ao seu inconsciente. Procure um analista porque nada é mais precioso do que ser livre. E este é o melhor ensinamento que você pode dar à sua filha. A gente só transmite o que tem. E, ainda que fosse só por isso, a mãe tem que se cuidar.

Às vezes, não é preciso muito para sair de uma situação em que estamos amarrados, impossibilitados de agir. Embora a análise seja interminável, porque a vida nos surpreende continuamente, ela não precisa ser longa. Tudo depende da escuta do analista e da disposição do analisando. Encontrando a pessoa certa, você alcança sua meta e tira o time de campo.

Ao conseguirmos sair da posição em que estávamos, querendo ou não, o outro também sai. Quando Lacan considerava que a sessão estava terminada, ele se levantava. Se o analisando continuasse deitado no divã,  ele simplesmente saía da sala. Só restava ao analisando ir embora e aceitar o término da sessão indicado por Lacan, ou seja, a sua interpretação.

Por Betty Milan

26/05/2009

às 15:33 \ Arquivo, Liberdade

Preguiça

Pode a preguiça ser a maior inimiga de alguém? Ou seja, eu sou minha pior inimiga. Tenho 32 anos e já superei muitos complexos. Hoje, eu sou menos vítima do sentimento de incapacidade que sempre me rondou e me atrapalhou demais. Escrevi menos vítima, porque vejo que este sentimento ainda tem vez quando sinto preguiça.

Eu era virgem até um ano atrás, quando me relacionei com uma pessoa que conheci na internet. O relacionamento acabou há dez meses e eu ainda me recupero. Tento refazer a minha vida. Acho que também é por causa disso que tenho andado assim. Mas está demais. Não consigo dar conta das minhas tarefas. Como pode alguém trabalhar contra si mesmo? Sei que isso tem relação com a preguiça.

“Ai que preguiça”, dizia o herói de nossa gente, Macunaíma, o tempo todo. Inclusive quando transava com Ci. Ele parava esquecido bem no meio da ação, obrigando a companheira a se valer do “estratagema sublime”, urtiga, para provocar uma “coça coçadeira no chuí do herói e no nalachitchi dela”. Mas esta preguiça nada tinha a ver com qualquer incapacidade. Só com o fato de que o herói não sabia o que é o dever do orgasmo, não obedecia a nenhum programa sexual. Ele só queria brincar e inventar artes novas de brincar.

A preguiça, no seu caso, incapacita e prejudica. Por isso deve ser vista como indício de depressão. Você, aliás, se dá conta disso porque diz que trabalha contra si mesma. E me pergunta como essa contradição é possível. Pelo simples fato de termos um inconsciente e de que ele não está concernido pela racionalidade. A lógica a que o inconsciente obedece não é a lógica da consciência. Ele não leva em conta o princípio da não-contradição. Por isso precisa ser decifrado.

A resposta acima é a que a Psicanálise daria. Porém, bem antes de Freud, no século XVII, Pascal, que também escreveu um livro sobre o amor, já havia escrito: “Os homens são tão necessariamente loucos que seria loucura não ser louco.”

Por que você não se aceita e não procura quem possa ajudá-la a entender o motivo do mal estar? Em outras palavras, por que você não se torna amiga de si mesma? Falando, poderá abrir uma via nova e viver um segundo amor diferente. O do ano passado não deu certo, o próximo pode dar se você estiver mais preparada, mais confiante. Quem não confia em si mesmo não acredita que pode ser amado e tem medo de se entregar.

Por Betty Milan

 

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