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Arquivo da categoria Liberdade

21/12/2011

às 7:22 \ Análise, Liberdade

Obsessão

Tenho 16 anos e sofro com meus rituais, que não param de aparecer e de se multiplicar. O relacionamento com minha mãe é difícil. Acho que ela me odeia. Quando eu era mais nova, pensava que tinha duas mães. Uma que era amorosa comigo, sempre que estávamos com outra pessoa, e outra que era muito ruim e me humilhava quando ficávamos sozinhas. Os rituais começaram com a ideia de que, se eu rezasse 100 ave-marias, minha mãe se tornaria boa. Agora, não estou presa só à reza. Preciso dar voltas na casa antes de sair. Não posso subir no ônibus da escola se não tiver alguém já sentado no primeiro banco. Tento esconder isso na família e na escola, mas todos já devem saber. Não tenho mais nem amigos de tanto medo de me acharem louca. Fui algumas vezes ao psiquiatra, mas, para meu desespero, ele me atendia na companhia da minha mãe, que voltava para casa me humilhando, dizendo que eu sou um fardo na vida dela. Não sei mais o que fazer. Porque só de pensar em não fazer os rituais eu me sinto angustiada. Quando vou dormir, à noite, fico cansada de tanto pensar em não esquecer nenhum deles. Depois, durmo de exaustão. O que devo fazer? Por favor, me ajude.

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Por Betty Milan

18/11/2011

às 12:38 \ Liberdade

Indecisão

Meus pais a vida toda quiseram que eu fizesse medicina. Não por uma questão humanitária, e sim por uma questão de status e estabilidade financeira. Quero fazer direito. Sei que demora mais para ganhar dinheiro, mas estou disposto a encarar, pois tenho mais aptidão para direito. Moro no interior e meus amigos todos estão fazendo medicina, porém eu nunca gostei de ser igual a todo mundo. Quando criança, não tinha habilidades esportivas e a única saída foi agarrar o estudo e fazer disso a minha vida. Hoje, sou muito gordo e meu corpo me deprime. Se fizer medicina, vou continuar morando com meus pais, ganhar um carro e uma mesada boa de presente. Se escolher direito, vou morar em outra cidade, morrer de estudar e não ter tempo para mim, além de sofrer com a solidão. Não queria me vender ao “sistema”. O que faço?

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Por Betty Milan

28/10/2011

às 20:19 \ Liberdade

Sou ou não sou

Faria análise se dispusesse de tempo e dinheiro. Tenho 18 anos e não sei se existe um rótulo para mim. As mulheres me atraem. Na minha cabeça, só poderia me relacionar com elas, pois só com elas consigo fantasiar, querer uma relação do tipo Romeu e Julieta. Mas, desde que comecei a assistir a filmes pornográficos heterossexuais, aos 11 anos, gosto de ver os corpos masculinos. Acho que vejo neles um ideal de beleza, porque sempre fui gordinho e nunca gostei do meu corpo. Gosto dos homens homéricos dos filmes. Os que eu vejo na vida real e não são musculosos, saradões, não me agradam. Planejo entrar um dia em uma academia para vir a ser como gostaria. Acredito que, nesse dia, minha carência será suprida, pois me transformarei em um homem tão homérico quanto eles. O que você acha?

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Por Betty Milan

19/09/2011

às 12:11 \ Liberdade

Tony Bellotto entre fantasmas

( ** Por sugestão da redação e com a concordância dos colunistas, Betty Milan comentou o post em que Tony Bellotto narra um de seus sonhos.)

Hoje sonhei que nadava sozinho numa piscina. Era noite, e de repente as luzes se apagaram. Fiquei nadando na escuridão, um pouco assustado, e quando as luzes voltaram, menos intensas, a piscina estava cheia de fantasmas. Pareciam pessoas normais – elas nadavam, conversavam e riam -, mas eu sabia que eram fantasmas. Saí da piscina muito assustado e comecei a gritar. Meus gritos, não sei por que motivo, tinham a capacidade de fazer os fantasmas se desintegrarem na água. Mas eles eram muitos, e senti que aquela gritaria, que tinha o estranho poder de aniquilar fantasmas, ia me dar um trabalho danado.

Pela manhã, quando acordei, me lembrei de uma época em que fiz análise. Foi a única vez, e lá se vão quase uns dezoito anos. O analista era da escola Junguiana, e intuiu que a forma mais eficiente de conduzir minha análise seria investigando meus sonhos. Pois hoje de manhã, lembrando do sonho dos fantasmas na piscina, comecei a pensar em que tipo de pistas um sonho desses poderia guardar. Quando abri o jornal, lá estava a resposta: políticos defendendo a ideia sombria de que a imprensa precisa de um “marco regulatório” (que catso vem a ser um “marco regulatório para a imprensa”? Não será um mero eufemismo para “cerceamento de liberdade de imprensa”?). Quando vi Ideli Salvatti afirmando que o país precisa de uma lei que imponha “limites e direitos” ao setor de comunicações, comecei a gritar.

(Tony Bellotto)

Para entender o sonho e a interpretação de Tony Bellotto, eu fui ver uma exposição sobre Jung no museu Guimet. O Budismo, o Taoismo e o Hinduísmo são referências fundamentais para Jung e o museu dispõe de um tesouro de imagens, esculturas, pinturas e mandalas, que foram integradas à exposição. No contexto da mesma, havia o famoso Livro Vermelho de Jung, feito com a sua própria caligrafia e as mandalas que ele desenhava.

O Livro Vermelho foi feito com um plano particular : cada capítulo começa pela exposição de uma fantasia visual na qual Jung encontra personagens evoluindo em cenários diversos. O diálogo se instaura entre os personagens e Jung procura entender o que as suas visões significam, considerando a sua própria personalidade e a sua relação com a sociedade atual.

O sonho de Bellotto equivale à fantasia de Jung, e, à maneira deste, Bellotto interpreta o sonho, relacionando-o à sociedade atual, aos políticos que ressurgiram como fantasmas, insistindo na censura. Faltou dizer explicitamente que o sonho em questão realiza o desejo inconsciente de aniquilar os políticos com um só grito, desintegrar estes ressurgentes da ditadura militar, verdadeiros fantasmas. Um desejo no qual o Brasil democrático inteiro se reconhece.

Por Betty Milan

04/07/2011

às 11:54 \ Liberdade

Veia para a arte


Estou prestes a fazer 28 anos. Sou paraibana, casada, mãe de três filhos. O mais velho tem 10 anos. Há onze trabalho em um banco público e o salário é razoável. Para muitas pessoas, meu emprego é um sonho. Tinha paixão por ele. Porém agora sinto que algo está fora de lugar. O salário não me motiva mais, e executar tarefas burocráticas não tem feito mais sentido. Estou sendo subaproveitada. Assumi grandes responsabilidades muito cedo e deixei meus sonhos, meus dons de lado. Tenho uma veia muito forte para a arte (escrevendo, pintando, fotografando) e sofro por ter me acomodado. Tenho de ganhar dinheiro, mas não posso abrir mão dos meus sonhos. Do contrário, viverei frustrada, cavando minha cova. As pessoas me dizem que a arte pode ser meu lazer. Agora, sempre que eu fico aqui, nesta sala fechada, o dia inteiro de salto alto diante de um computador, sei que estou no lugar errado e deveria bater em outras portas. Preciso de coragem e orientação para mudar.
Por Betty Milan

08/04/2011

às 12:00 \ Liberdade

Tirania

Fiz 15 anos e estou com muita dúvida. Tenho tudo o que uma garota sempre quis: beleza, inteligência e dinheiro. Mas não tenho autonomia, o que me deixa infeliz. Meus pais querem que eu siga uma carreira acadêmica igual à deles.  Quando criança, eles eram muito presentes, porém agora estão ausentes nas horas em que mais preciso. Agem como cegos, escolhendo um futuro que não quero e me deixando sem voz. Segundo os padrões da religião que eles seguem, devo me submeter. Principalmente no que diz respeito ao amor, e eles só permitem que eu me envolva em relacionamentos que levem ao casamento.

Meu sonho é trabalhar em artes plásticas. Eles me ameaçam dizendo que, se eu seguir essa carreira, devo me afastar da família porque a religião deles não aceita. Estou sofrendo muito, pois já fui chamada por escolas renomadas de arte e tive de recusar os convites. Meus pais me obrigaram a isso. Quero me libertar, fazer o que gosto. Mas não consigo. Acabo cedendo.

Quem nasceu para uma carreira artística não pode seguir uma carreira acadêmica. Nesta, o indivíduo é professor ou aluno e o saber é o saber que se transmite de uma para outra geração. O que mais importa é a transmissão, e não a invenção. Já o artista não tem mestre e não tem por que ter alunos. Quando convidaram Manet a formar outros pintores, ele respondeu: “Não posso ter alunos. O que lhes transmitiria eu? Nada ou muito pouco, que eu resumo em duas frases: ‘O preto não existe’ e ‘Não faça nada do que você já viu nas obras dos outros’.” Com essa resposta, Manet afirmava que o artista deve conhecer a arte de seus predecessores para inventar algo novo. Ou seja, ele encontra o caminho sozinho.

A religião de seus pais é a da submissão e a sua é a da invenção. Você se submeteu, recusando convites importantes, e é óbvio que não pode estar feliz. A sorte a gente agarra. Como o poeta agarra a palavra que passa. Mais cedo ou mais tarde você terá de dizer não a seus pais. A questão será de vida ou morte, porque não há como contrariar eternamente a própria natureza.
Como você vai dizer não, eu ignoro. Porém você vai descobrir uma maneira, pois sua natureza vai se impor. Quando as portas estão fechadas, a gente sai pela janela. Sendo uma artista, você saberá não bater de frente. Vai se inspirar na via da arte para se separar sem romper. Isso é altamente recomendável, embora nem sempre seja fácil.

Por Betty Milan

01/04/2011

às 14:08 \ Liberdade

Preconceito


Sou obrigada a namorar e casar? Tenho mais de 30 anos e não namoro há tempo. Certas pessoas me tratam como se eu fosse uma extraterrestre, uma criminosa…  Acho que também fazem isso por me acharem bonita. Considero essa atitude muito preconceituosa. Como se dissessem: “Mulher precisa de homem” ou “Só namora quem é bonita e quem é bonita sempre namora”. Acabo me sentindo criminosa mesmo.

Não tenho facilidade para namorar. Talvez porque não ature qualquer pretendente. Sou cobrada também pela família, e essa cobrança é muito ruim pois minha mãe se sacrificou para manter o casamento. Foi um casamento sofrido, que fez mal a todos, inclusive a mim. Talvez, por causa desse passado, eu não queira me casar. Mas eu evito o casamento e encontro o preconceito.

Claro que você não é obrigada a namorar e casar. Sua pergunta na abertura do e-mail mostra quão contrariada você fica pelo imperativo do casamento. Ninguém deve ser cobrado por nada que diz respeito à sua vida íntima. O que importa é estar bem consigo mesmo, é o indivíduo chegar ao fim da vida se dizendo que gosta de si. Gosta do que disse e fez.

A cobrança é uma forma de violência, e você tem razão de se opor a ela. Todas as gerações sofreram por causa do imaginário de seus ancestrais e tiveram que lutar contra ele. No fim do século XIX, Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por “cometer atos imorais”. Foi encarcerado, e, além de perder a reputação, perdeu a saúde.
A luta dos homossexuais para impor o direito à sua forma de viver começou há mais de um século e não acabou porque as pessoas não suportam a diferença. Querem simplesmente eliminar o outro que não as espelha. Puro narcisismo.

O preconceito sempre existiu e vai continuar a existir. Só que os celibatários convictos, os homossexuais, os transexuais e os travestis estão ganhando espaço. Isso significa que a fantasia e a singularidade estão se impondo mais. As pessoas hoje inclusive já podem decidir qual o seu sexo biológico, pois o sexo pode ser redesignado — e isso, em certos casos, é imperativo. Um bom exemplo é Transamérica, que recebeu dois Oscar.

Por Betty Milan

25/03/2011

às 13:29 \ Liberdade

Jovem cinquentenária

Sou leitora assídua de sua coluna, e ela me faz inclusive chorar. Às vezes acho que é por solidão e outras por estar deprimida. Vou fazer 50 anos, mas sei que aparento bem menos. Ninguém acredita quando digo a minha idade. Depois de largar o cigarro, engordei. Porém fui ao médico e estou fazendo dieta. Quando jovem, namorei bastante. Só que ninguém quis casar comigo de verdade. Não tenho mais vida social porque me acho velha para sair. Os homens hoje só querem meninas jovens e lindas. Temo envelhecer sozinha.

Minha mãe mora comigo (ou eu com ela, não sei). Tenho um irmão e uma irmã. Os dois são casados. Ele é muito egoísta e estúpido. Há três anos, minha irmã não fala com ele e eu, quando falo, só brigo. Também brigo com minha mãe porque ela prefere o filho às filhas. Gostaria de ser mais compreensiva e não discutir.

O significado da idade depende de cada um. Aos 50 anos, você é velha para sair. Poderia não ser. Mas é vítima de um imaginário arcaico, para o qual, não sendo mais fértil, a mulher já não interessa. Um imaginário que confunde a idade biológica com a idade real da pessoa. Esta implica o que a pessoa pensa da vida e de si.

Se você tivesse nascido nos Estados Unidos ou na Europa, teria uma outra concepção. Para as americanas e as europeias, não existe limite de idade. Com mais de 80, elas estão na rua. Bem vestidas, maquiadas, com um belo chapéu. Simplesmente por se autorizarem a aproveitar a rua e o mundo. Ao contrário das brasileiras que ainda não o fazem.

Se ninguém quis casar com você de verdade, é porque você também não quis. Talvez por não poder se separar de sua mãe, à qual você é particularmente apegada. Digo isso porque ainda vive com ela e briga, embora não queira. A briga é uma forma de apego.

Quanto à menina jovem e linda que os homens querem, ela existe em toda mulher que não perdeu de vista a menina em si. Ela, aliás, continua com você, desmentindo o seu envelhecimento, porque ninguém acredita nos seus 50 anos. A propósito, uma cinquentenária de hoje não tem nada a ver com a do século passado. Porque dispõe de mil e um recursos para ficar bem. Entre eles o esporte, que é um antidepressivo poderoso.

Por Betty Milan
 

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