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Arquivo da categoria ‘Liberdade’

Amarração

terça-feira, 23 de junho de 2009 | 11:35

Eu me envolvi com um homem que conheci num dia em que estava sozinha. Saí, mas já avisando que não desejava me relacionar seriamente. No começo, ele pareceu aceitar a proposta, mas com o tempo fui deixando que ele me enredasse, eu e minha filha. Sempre que brigávamos, ele montava guarda em frente da minha casa e eu acabava  cedendo.

Agora, me sinto ameaçada. Ele não entende que eu não quero esta relação. Sempre que tento me afastar, minha consciência dói e eu me deixo manipular. Ele emagrece, me liga insistentemente, me acusa de egoísmo e, como ele foi bom em momentos difíceis, eu acabo cedendo. Parece uma doença.

Preciso de ajuda. Não quero ficar com ele e não consigo me livrar.

Ele “montava guarda”, ou seja, ficava policiando. Você o afastava e ele não aceitava. Ele não dava ouvidos ao que você dizia e forçava a mão. Por que você acabava cedendo? Por que não tomava uma providência para o afastá-lo de vez? Que relação tem essa conduta com a sua história passada? Deve ter algo a ver com o medo, pois você diz que se sente ameaçada. E deve ter algo a ver com a culpa - porque a sua consciência dói. Ouço a frase de um ancestral seu que poderia ter dito: “Se você se afastar, não conte mais comigo” ou “Se você se afastar eu morro’.

Você é presa de um discurso inconsciente que tira a sua liberdade. Para deixar de estar às voltas com essa eterna dor de consciência, é preciso dar ouvidos ao seu inconsciente. Procure um analista porque nada é mais precioso do que ser livre. E este é o melhor ensinamento que você pode dar à sua filha. A gente só transmite o que tem. E, ainda que fosse só por isso, a mãe tem que se cuidar.

Às vezes, não é preciso muito para sair de uma situação em que estamos amarrados, impossibilitados de agir. Embora a análise seja interminável, porque a vida nos surpreende continuamente, ela não precisa ser longa. Tudo depende da escuta do analista e da disposição do analisando. Encontrando a pessoa certa, você alcança sua meta e tira o time de campo.

Ao conseguirmos sair da posição em que estávamos, querendo ou não, o outro também sai. Quando Lacan considerava que a sessão estava terminada, ele se levantava. Se o analisando continuasse deitado no divã,  ele simplesmente saía da sala. Só restava ao analisando ir embora e aceitar o término da sessão indicado por Lacan, ou seja, a sua interpretação.

Por Betty Milan

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Preguiça

terça-feira, 26 de maio de 2009 | 15:33

Pode a preguiça ser a maior inimiga de alguém? Ou seja, eu sou minha pior inimiga. Tenho 32 anos e já superei muitos complexos. Hoje, eu sou menos vítima do sentimento de incapacidade que sempre me rondou e me atrapalhou demais. Escrevi menos vítima, porque vejo que este sentimento ainda tem vez quando sinto preguiça.

Eu era virgem até um ano atrás, quando me relacionei com uma pessoa que conheci na internet. O relacionamento acabou há dez meses e eu ainda me recupero. Tento refazer a minha vida. Acho que também é por causa disso que tenho andado assim. Mas está demais. Não consigo dar conta das minhas tarefas. Como pode alguém trabalhar contra si mesmo? Sei que isso tem relação com a preguiça.

“Ai que preguiça”, dizia o herói de nossa gente, Macunaíma, o tempo todo. Inclusive quando transava com Ci. Ele parava esquecido bem no meio da ação, obrigando a companheira a se valer do “estratagema sublime”, urtiga, para provocar uma “coça coçadeira no chuí do herói e no nalachitchi dela”. Mas esta preguiça nada tinha a ver com qualquer incapacidade. Só com o fato de que o herói não sabia o que é o dever do orgasmo, não obedecia a nenhum programa sexual. Ele só queria brincar e inventar artes novas de brincar.

A preguiça, no seu caso, incapacita e prejudica. Por isso deve ser vista como indício de depressão. Você, aliás, se dá conta disso porque diz que trabalha contra si mesma. E me pergunta como essa contradição é possível. Pelo simples fato de termos um inconsciente e de que ele não está concernido pela racionalidade. A lógica a que o inconsciente obedece não é a lógica da consciência. Ele não leva em conta o princípio da não-contradição. Por isso precisa ser decifrado.

A resposta acima é a que a Psicanálise daria. Porém, bem antes de Freud, no século XVII, Pascal, que também escreveu um livro sobre o amor, já havia escrito: “Os homens são tão necessariamente loucos que seria loucura não ser louco.”

Por que você não se aceita e não procura quem possa ajudá-la a entender o motivo do mal estar? Em outras palavras, por que você não se torna amiga de si mesma? Falando, poderá abrir uma via nova e viver um segundo amor diferente. O do ano passado não deu certo, o próximo pode dar se você estiver mais preparada, mais confiante. Quem não confia em si mesmo não acredita que pode ser amado e tem medo de se entregar.

Por Betty Milan

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