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Arquivo da categoria ‘Infância’

O fascínio

terça-feira, 15 de dezembro de 2009 | 9:50

mulher-demonios

Da minha infância eu tenho duas lembranças relativas à minha aparência física. Na primeira, o médico conversava com minha mãe e dizia que eu ia ser uma moça bonita. Na segunda, uma colega dizia na porta da escola que de bonita eu só tinha a cor dos olhos, verdes.

Na adolescência, não tive namorados facilmente. Flertava muito (sou bonita de longe), porém os que se aproximavam logo sumiam. Já adulta, no trabalho, as colegas paqueravam e eu não conseguia namorar ninguém.

Não sei como consegui atrair meu marido. Ele talvez tenha ficado comigo por ter sérios problemas familiares e ter encontrado o apoio de que precisava. Estamos juntos há 20 anos. Durante esse tempo, enfrentamos muitos problemas. O meu desejo sexual desapareceu (ele faz que não vê) e eu me deprimi. Ele aceita tudo e, aparentemente, não está insatisfeito. Eu o desvalorizo por gostar de mim (como pode um homem tão bonito gostar de uma mulher feia?).

Racionalmente sei que a falta de beleza é compensada pelo fato de eu ser inteligente, interessante e até atraente (muitos colegas hoje me paqueram). Mas eu sou fascinada pela beleza e me sinto um monstro repugnante. Como seria bom ter um rosto cujo formato é equilibrado, de traços delicados. Não sei como vencer o problema para ser feliz com meu marido, valorizar o seu amor por mim e transmitir auto-estima aos meus filhos. 

O fascínio pela beleza está  na origem de uma grande guerra. Foi a irresistível beleza de Helena que desencadeou a guerra narrada por Homero entre os gregos e os troianos. No seu caso, o fascínio a coloca numa guerra contra você mesma. Você não se suporta por não ter um rosto de formato equilibrado e traços delicados, conforme o modelo de beleza clássica. Você se considera repugnante por não corresponder a este ideal. Noutras palavras, não gosta de si mesma porque a realidade não satisfaz a sua fantasia.

Você é vítima de uma relação com o imaginário que a impede de aceitar os fatos. O seu desejo de ser como você não é escraviza e obriga você a uma contínua auto-flagelação. É preciso livrar-se desta escravidão. Do contrário, sua vida não muda. Para se liberar, tem que falar e ser ouvida até descobrir qual a origem do desejo que a martiriza e causa a sua depressão.

Nas lembranças de infância que você menciona, está a sua mãe a quem o médico prometia uma moça bonita. Será que você é presa desta promessa do médico e do desejo materno que ela suscitou? O trabalho analítico possibilitará a você revisitar o passado e se deixar visitar por ele até encontrar uma resposta e parar de se fustigar.

Por Betty Milan

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O uso do kilt

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009 | 18:39

Getty
Gosto de usar saia e usaria fora de casa, se não fosse o preconceito. Isso começou quando meu pai me obrigou a pôr a saia da minha irmã, por eu ter ido brincar na rua, contra sua vontade. Meu pai era um sujeito violento. Agredia minha mãe verbal e fisicamente. Na ocasião, passei a maior vergonha, pois ele chamou meus amigos e disse que, a partir daquele momento, deveriam me dar um nome de menina. Comecei a usar saia escondido e acabei gostando. Parei ao associar a saia  com “coisa de  mulher”. Acho que desencanei por um tempo, mas o gosto ficou apesar do medo de parecer gay.

Morei nos Estado Unidos quase cinco anos e lá comecei a ver alguns caras usando kilt. Descobri que há um movimento de homens que querem usar saia em vários lugares do mundo: EUA, Canadá, Europa, Argentina e recentemente Brasil. Antes da II Guerra Mundial,  as mulheres não podiam usar calças e agora podem usar tudo. Por que os homens não têm a mesma liberdade de escolha, por que se privam, por que essa repressão? O fato é que eu agora quero poder usar saia em qualquer lugar.

Tenho feito terapia e trabalhado muitas questões, principalmente a da ausência do meu pai como figura paterna e a da  sua violência. Apesar de estar com a cabeça mais esclarecida,  não consigo entender por que o meu pai fez aquilo. Será que a sexualidade dele não estava resolvida?

Você deve poder usar saia e até mesmo saia curta onde quer que você esteja sem ser recriminado. O direito à vestimenta que nos agrada é tão importante quanto o direito ao parceiro do mesmo sexo ou do outro. E você deve inclusive considerar a possibilidade de aderir ao movimento, que você menciona, e sustentar publicamente o seu desejo. Desde que não seja uma maneira de se vingar do seu pai. Porque a vingança maltrata quem se vinga.

Não saberia responder à questão relativa à sexualidade dele. Primeiro, porque não sei o que é uma sexualidade resolvida. Segundo, porque não sei nada sobre ele. Agora, seja qual for a problemática de um pai, ele não tem o direito de humilhar o filho. E o seu foi particularmente perverso. O que ele fez com você é ainda pior do que uma agressão verbal ou física.

O melhor partido que você pode tirar da sua análise, é se valer dela para se separar do seu ancestral, procurando entender qual o efeito da conduta perversa dele sobre a sua vida, ou seja, se existe ou não relação entre a humilhação a que você foi submetido e o gosto da saia. Se você está ou não às voltas com um gozo masoquista.

Por Betty Milan

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Condenação

terça-feira, 16 de junho de 2009 | 8:22

Tenho 44 anos e estou fazendo análise comportamental para me reestruturar, ser o que realmente quero ser. Tive muitos problemas emocionais na infância, por causa da separação dos meus pais. Minha mãe, que morreu há mais de 15 anos, ficou muito amargurada e costumava dizer coisas horrorosas quando estava com raiva. Gostaria de ter tido uma relação mais verdadeira com ela, ter vivido momentos alegres, ido ao cinema, ao shopping, à sorveteria. Só falava mal do meu pai, amaldiçoava o mundo. Nunca sorria.

Não sou feliz nos relacionamentos amorosos, porque minha mãe não foi. Eu nunca tive um incentivo neste sentido. Estudei, me formei e me dediquei ao trabalho. Até largar tudo por causa de uma depressão profunda. Estou fazendo terapia, mas há horas em que me sinto culpada pela infelicidade dos meus pais.

Será que esta culpa pode acabar um dia? Ou será que só me resta aprender a conviver com ela? Às vezes, penso que o desejo inconsciente de minha mãe era que eu morresse. Ou fosse tão infeliz quanto ela era. Nunca achei que me amasse ou desejasse a minha felicidade. Mesmo assim, não consigo me desligar completamente.

Não há nada pior do que a mãe falar mal do pai ou o contrário. Trata-se de uma injustiça em relação ao filho, que tem o direito de ter pai e mãe. Sua mãe foi tão irresponsável em relação a você quanto em relação a ela mesma. Possível que tenha desejado a sua morte, porque deu à luz e não foi capaz de se separar de você.

Mas a questão aqui é saber por que você não se separa dela? Por que satisfaz o desejo sádico de sua mãe e fica numa posição masoquista? Será que a análise comportamental permite responder a esta questão? Em princípio não é a meta dela. Esse tipo de terapia focaliza só o comportamento. Como se este não fosse decorrente de uma história subjetiva.

Acho que  seria bom repassar a sua história com alguém que saiba escutar, rememorar para não repetir; cortar o cordão umbilical e se tornar a boa mãe de si própria, aprendendo a contar no seu jardim  as flores e os frutos e não as folhas que tombaram. É disso que todos precisamos.

O mea culpa é uma condenação da qual você pode escapar. Quando as portas estão fechadas, a gente escapa pela janela, como dizia Carlito Maia. Falando, você encontra uma saída. O maior recurso que nós temos é a fala e a escuta.

Por Betty Milan

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