Blogs e Colunistas

Arquivo da categoria Infância

21/10/2011

às 19:59 \ Infância

Certeza imaginária

Tenho 19 anos e todas as condições financeiras e intelectuais que uma adolescente pode desejar. No entanto, eu me sinto culpada pelo que “conquistei” porque parece estar sempre abaixo do mínimo esperado de alguém com a minha sorte. Acho que qualquer pessoa, no meu lugar, faria mais do que eu. Minha família é amorosa, e não tive nenhum trauma na infância. A culpa talvez seja da supervalorização das oportunidades. O fato é que eu não me suporto, não me aceito e pratico a automutilação. Como meu futuro depende só de mim, tenho certeza de que vou fracassar. Faço psicoterapia, porém tenho medo de não atingir os resultados esperados. Eu talvez esteja expondo problemas que não existem para ocultar os verdadeiros.

» Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

Por Betty Milan

22/08/2011

às 12:24 \ Infância

Desamparo

Tenho 22 anos e sou frustrada. Gosto de mim mesma, porém não consigo encontrar um caminho, saber o que quero. Acho dificílimo tomar decisões. Minha vida teve uma virada no ano passado quando minha mãe, a quem eu era extremamente ligada, faleceu repentinamente de um câncer raro. Meu namorado então se mudou para a casa em que nós duas vivíamos. Não sei bem quais são meus sentimentos em relação a ele. Isso sem dizer que ele não trabalha e quem sustenta a casa sou eu. Mas, sempre que penso em romper, eu me lembro das coisas boas existentes entre nós.

Acho que mereço e posso fazer mais por mim, porém me sinto triste e desamparada. Desde que minha mãe morreu, eu acho que não vou conseguir ser feliz. Sempre sofri de insatisfação. Gostaria de ter mais frieza para redefinir minha vida.

» Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

Por Betty Milan

11/07/2011

às 15:06 \ Infância

Abuso

Sou filha única e tenho um pai muito ciumento. Desde pequena ele me fez acreditar que homem não presta. Todo dia, depois da escola, ele me perguntava se algum menino tinha vindo falar comigo e achava graça quando eu respondia que bateria no menino. Comecei a namorar e beijei com 21 anos. Quando meu namorado foi pedir permissão para o namoro, meu pai foi educado com ele, porém ficou uma semana sem falar comigo. Eu me senti como se o estivesse traindo. Estou com 25 anos agora. Noivei, e as coisas pioraram. Não posso sair sozinha com o noivo. Com meus irmãos, meu pai não é assim, e a diferença de tratamento me revolta: “Solto meus bodes, mas prendo minha cabrita”.

Nunca vou a festas porque sou evangélica e quero casar virgem. Ou seja, não dou motivo algum para desconfiança. Às vezes, tenho vontade de morar sozinha e eu só não faço isso para não desapontar meu pai. Por outro lado, não quero casar só para sair de casa. Não pode ser assim. Estou sofrendo por causa do apego a meu pai. Gostaria que ele me levasse ao altar, mas não consigo visualizar a cena. Minha mãe, que deveria me ajudar, só atrapalha, dizendo que, se acontecer alguma coisa comigo, ele vai tirar satisfação com ela. Por causa disso tudo, eu me pergunto se vale a pena casar e só fico adiando a data.

» Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

Por Betty Milan

06/05/2011

às 19:32 \ Casamento, Infância

Sem meta


Leio semanalmente sua coluna, procurando uma história que me faça entender meus problemas. Tenho medo das pessoas, não tenho amigos e não sinto saudade da minha mãe, que mora em outro estado e eu evito. Há pouco tempo faço terapia. Me faz bem, embora o processo seja lento e exija tempo. Às vezes, eu me sinto como era aos 5 anos: frágil, insegura, incapaz de arrumar um emprego melhor. Estou ansiosa, confusa, frustrada…

Curso o terceiro ano de psicologia. Sou a pessoa mais inadequada no curso e em tudo o que faço. Não realizo coisa alguma. Aliás, eu não sonho com nada. Simplesmente vivo por viver, sem meta. Eu me sinto presa a uma vida que não escolhi. Quando penso na infância com meus pais, a palavra que me ocorre é inferno. Eles brigavam o tempo todo e até se agrediam. Há pouco, descobri, através da minha irmã, que, no oitavo mês de gravidez, minha mãe levou um tombo provocado por meu pai. Isso me angustiou muito. Gostaria de começar uma vida do meu jeito, fazendo as minhas escolhas, porém não sei como. Aos 25 anos, eu me sinto impotente.

Você se apresenta dizendo que não tem e não realiza nada. Não tem amigos, não tem saudade, não tem coisa alguma… O que você espera do consultor que recebe essa apresentação? Que ele proceda como seu pai, durante a gravidez de sua mãe, fazendo pouco de você?

Você provoca a rejeição. Como se o fato de ter sido rejeitada no ventre da sua mãe devesse se repetir em sua vida. Para viver do seu jeito e fazer escolhas nas quais você se reconheça, terá de nascer de novo. Não mais de um pai e de uma mãe, e sim de suas palavras, do que você disser em sua análise, da porta que vai abrir rememorando o passado para que não mais se repita.

Hoje, você dá murro em ponta de faca. Mas pode mudar, enveredando seriamente, através da análise, por um caminho desconhecido e que você só vai descobrir caminhando. Claro que teria sido melhor nascer de um pai e de uma mãe que vivessem em paz e desejassem a criança que foi concebida, porém a origem a gente não escolhe. Não há como. O que podemos é inventar nossa trajetória. Sua meta pode ser essa. Aos 25 anos, você tem a vida pela frente, muito tempo para se definir e ser feliz.

Por Betty Milan

10/03/2011

às 21:13 \ Infância

A ira


Tive um bom pai quando criança. Ele está em todas as lembranças de minha infância. No entanto, quando eu tinha 12 anos, ele se envolveu com uma mulher perversa e se esqueceu de mim. Fiquei sozinha, com minha mãe doente e um irmão pequeno. Não tínhamos dinheiro, passamos muita dificuldade. Gritei desaforos, deixei que minha ira se espalhasse por todos os lados. Fiz besteiras. Mas eu era uma criança ferida…

Apesar de tudo, aos 23 anos, sou bem-sucedida. Tenho estudo, um bom emprego, bons amigos e um bom marido. Tudo seria perfeito, não fosse a dependência econômica de minha mãe e meu irmão em relação a meu pai. Sempre que ele se esquece da pensão, eu me sinto um lixo e tenho vontade de matá-lo.

Ele rejeitou a família, perdeu a casa em dívidas, mas ainda tem a arrogância de agir como se fosse vítima. O pior é que ele chega a me convencer. Eu não o suporto, mas, ao mesmo tempo, me sinto culpada pela distância entre nós. Sinto inveja das pessoas que têm um pai. Eu o queria por perto.

Como sair desse ciclo? Não quero mais sentir tanto ódio, nem a falta de alguém que me fez tanto mal. Por favor, me ajude a me libertar desses sentimentos nocivos. Sou casada com um homem de verdade, quero ter filhos, construir uma história diferente. Preciso me livrar da mágoa que ainda me une a meu pai.

A poesia trágica do seu e-mail me remeteu à mais conhecida das tragédias shakespearianas, em que Hamlet vive para vingar o pai assassinado e acaba se tornando vítima da própria ira e morrendo com os outros personagens importantes da peça. A ira mata, sobretudo quando se espalha por todos os lados, como a sua.

A peça de Shakespeare nunca deixou de ser representada porque nós nos identificamos com o personagem. Quem não é Hamlet? De uma ou de outra forma, nós todos somos. A ideia de vingar algum ancestral ou de se vingar de algum deles está sempre no ar. O ódio nos ronda.

Todos estamos sujeitos a ter esse sentimento malévolo. Freud inclusive escreveu que basta pensar na importância atribuída ao mandamento “Não matarás” para deduzir que somos produto de uma série infinita de gerações de assassinos, temos a paixão do crime no sangue.
Dessa paixão nós precisamos nos defender. Para tanto, você terá de descobrir por que se entrega a ela. Que relação existe entre a sua entrega e a de seu pai à “mulher perversa”?

Você acaso está inconscientemente identificada com ele? Além disso, será que você não está querendo vingar sua mãe? Se não encontrar as respostas sozinha, procure um analista para não continuar a se repetir e poder se assenhorear de sua história.

Por Betty Milan

14/01/2011

às 15:24 \ Análise, Infância

De Luto

Fui uma criança muito medrosa. Tinha medo do vento, do raio, do trovão. Cresci tentando superar o medo. Durante o dia sou forte, determinada, porém de noite sou frágil, pessimista. Todos os meus sonhos são desfeitos quando a noite cai.

Casei, tive dois filhos lindos, mas logo perdi meu marido e desabei. Eu me tornei depressiva e insegura, além de hostil. Hoje, percebo que muita coisa teria sido diferente se não fosse esse meu modo de ser.

Li alguns artigos de vossa senhoria e por isso escrevo para a coluna.

Por que será que ela me trata de vossa senhoria, perguntei-me ao ler seu e-mail. Recorri ao dicionário, que não é o pai dos burros mas dos curiosos. Vossa senhoria é um tratamento cerimonioso, comumente usado em transações comerciais.

Não encontrando resposta no dicionário, voltei para seu e-mail. Nele, você fala do seu medo, e é possível que tenha me tratado de forma cerimoniosa para se distanciar e se proteger.

Você acaso já se perguntou o que significa ter medo da noite? Quando e por que esse medo surgiu? Foi incutido? Como? Alguma canção aterradora em cuja letra havia “Dorme neném que a cuca vem pegar”? Ou alguma história sobre os perigos da noite, para a criança cair num sono profundo de tanto medo?

Por outro lado, você já se perguntou por que não fez o luto do marido? Por que não entendeu ainda que ele pode continuar com você até o último dos seus dias? Conheço uma senhora de 93 anos que é viúva há 45 e vive como se o marido não tivesse morrido. Evoca continuamente o passado e assim faz o companheiro existir no presente. A senhora em questão vive do seu grande amor pelo amor e destila alegria.

O luto é o tema de um romance meu, Consolação. Nele, a protagonista, Laura, é uma viúva. Dialoga com os mortos e os vivos até se dar conta de que ninguém deixa de existir porque morre e perder não significa não ter; até concluir que o amor é maior do que a morte. O nome do romance é Consolação. Me permito sugerir a leitura porque ajuda a fazer o luto.

Na medida em que a morte é considerada um mau tema e nós ocidentais não temos um ritual para rememorar os mortos, como os povos primitivos, é particularmente difícil fazer o luto. As pessoas só sabem chorar a perda do ser querido e lamentar a própria sorte. Como se elas não fossem morrer e como se falar da própria infelicidade não trouxesse mais infelicidade ainda.

Por Betty Milan

15/12/2009

às 9:50 \ Infância

O fascínio

mulher-demonios

Da minha infância eu tenho duas lembranças relativas à minha aparência física. Na primeira, o médico conversava com minha mãe e dizia que eu ia ser uma moça bonita. Na segunda, uma colega dizia na porta da escola que de bonita eu só tinha a cor dos olhos, verdes.

Na adolescência, não tive namorados facilmente. Flertava muito (sou bonita de longe), porém os que se aproximavam logo sumiam. Já adulta, no trabalho, as colegas paqueravam e eu não conseguia namorar ninguém.

Não sei como consegui atrair meu marido. Ele talvez tenha ficado comigo por ter sérios problemas familiares e ter encontrado o apoio de que precisava. Estamos juntos há 20 anos. Durante esse tempo, enfrentamos muitos problemas. O meu desejo sexual desapareceu (ele faz que não vê) e eu me deprimi. Ele aceita tudo e, aparentemente, não está insatisfeito. Eu o desvalorizo por gostar de mim (como pode um homem tão bonito gostar de uma mulher feia?).

Racionalmente sei que a falta de beleza é compensada pelo fato de eu ser inteligente, interessante e até atraente (muitos colegas hoje me paqueram). Mas eu sou fascinada pela beleza e me sinto um monstro repugnante. Como seria bom ter um rosto cujo formato é equilibrado, de traços delicados. Não sei como vencer o problema para ser feliz com meu marido, valorizar o seu amor por mim e transmitir auto-estima aos meus filhos. 

O fascínio pela beleza está  na origem de uma grande guerra. Foi a irresistível beleza de Helena que desencadeou a guerra narrada por Homero entre os gregos e os troianos. No seu caso, o fascínio a coloca numa guerra contra você mesma. Você não se suporta por não ter um rosto de formato equilibrado e traços delicados, conforme o modelo de beleza clássica. Você se considera repugnante por não corresponder a este ideal. Noutras palavras, não gosta de si mesma porque a realidade não satisfaz a sua fantasia.

Você é vítima de uma relação com o imaginário que a impede de aceitar os fatos. O seu desejo de ser como você não é escraviza e obriga você a uma contínua auto-flagelação. É preciso livrar-se desta escravidão. Do contrário, sua vida não muda. Para se liberar, tem que falar e ser ouvida até descobrir qual a origem do desejo que a martiriza e causa a sua depressão.

Nas lembranças de infância que você menciona, está a sua mãe a quem o médico prometia uma moça bonita. Será que você é presa desta promessa do médico e do desejo materno que ela suscitou? O trabalho analítico possibilitará a você revisitar o passado e se deixar visitar por ele até encontrar uma resposta e parar de se fustigar.

Por Betty Milan

09/12/2009

às 18:39 \ Infância

O uso do kilt

Getty
Gosto de usar saia e usaria fora de casa, se não fosse o preconceito. Isso começou quando meu pai me obrigou a pôr a saia da minha irmã, por eu ter ido brincar na rua, contra sua vontade. Meu pai era um sujeito violento. Agredia minha mãe verbal e fisicamente. Na ocasião, passei a maior vergonha, pois ele chamou meus amigos e disse que, a partir daquele momento, deveriam me dar um nome de menina. Comecei a usar saia escondido e acabei gostando. Parei ao associar a saia  com “coisa de  mulher”. Acho que desencanei por um tempo, mas o gosto ficou apesar do medo de parecer gay.

Morei nos Estado Unidos quase cinco anos e lá comecei a ver alguns caras usando kilt. Descobri que há um movimento de homens que querem usar saia em vários lugares do mundo: EUA, Canadá, Europa, Argentina e recentemente Brasil. Antes da II Guerra Mundial,  as mulheres não podiam usar calças e agora podem usar tudo. Por que os homens não têm a mesma liberdade de escolha, por que se privam, por que essa repressão? O fato é que eu agora quero poder usar saia em qualquer lugar.

Tenho feito terapia e trabalhado muitas questões, principalmente a da ausência do meu pai como figura paterna e a da  sua violência. Apesar de estar com a cabeça mais esclarecida,  não consigo entender por que o meu pai fez aquilo. Será que a sexualidade dele não estava resolvida?

Você deve poder usar saia e até mesmo saia curta onde quer que você esteja sem ser recriminado. O direito à vestimenta que nos agrada é tão importante quanto o direito ao parceiro do mesmo sexo ou do outro. E você deve inclusive considerar a possibilidade de aderir ao movimento, que você menciona, e sustentar publicamente o seu desejo. Desde que não seja uma maneira de se vingar do seu pai. Porque a vingança maltrata quem se vinga.

Não saberia responder à questão relativa à sexualidade dele. Primeiro, porque não sei o que é uma sexualidade resolvida. Segundo, porque não sei nada sobre ele. Agora, seja qual for a problemática de um pai, ele não tem o direito de humilhar o filho. E o seu foi particularmente perverso. O que ele fez com você é ainda pior do que uma agressão verbal ou física.

O melhor partido que você pode tirar da sua análise, é se valer dela para se separar do seu ancestral, procurando entender qual o efeito da conduta perversa dele sobre a sua vida, ou seja, se existe ou não relação entre a humilhação a que você foi submetido e o gosto da saia. Se você está ou não às voltas com um gozo masoquista.

Por Betty Milan

 

Serviços

 

Assinaturas

Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados