
Da minha infância eu tenho duas lembranças relativas à minha aparência física. Na primeira, o médico conversava com minha mãe e dizia que eu ia ser uma moça bonita. Na segunda, uma colega dizia na porta da escola que de bonita eu só tinha a cor dos olhos, verdes.
Na adolescência, não tive namorados facilmente. Flertava muito (sou bonita de longe), porém os que se aproximavam logo sumiam. Já adulta, no trabalho, as colegas paqueravam e eu não conseguia namorar ninguém.
Não sei como consegui atrair meu marido. Ele talvez tenha ficado comigo por ter sérios problemas familiares e ter encontrado o apoio de que precisava. Estamos juntos há 20 anos. Durante esse tempo, enfrentamos muitos problemas. O meu desejo sexual desapareceu (ele faz que não vê) e eu me deprimi. Ele aceita tudo e, aparentemente, não está insatisfeito. Eu o desvalorizo por gostar de mim (como pode um homem tão bonito gostar de uma mulher feia?).
Racionalmente sei que a falta de beleza é compensada pelo fato de eu ser inteligente, interessante e até atraente (muitos colegas hoje me paqueram). Mas eu sou fascinada pela beleza e me sinto um monstro repugnante. Como seria bom ter um rosto cujo formato é equilibrado, de traços delicados. Não sei como vencer o problema para ser feliz com meu marido, valorizar o seu amor por mim e transmitir auto-estima aos meus filhos.
O fascínio pela beleza está na origem de uma grande guerra. Foi a irresistível beleza de Helena que desencadeou a guerra narrada por Homero entre os gregos e os troianos. No seu caso, o fascínio a coloca numa guerra contra você mesma. Você não se suporta por não ter um rosto de formato equilibrado e traços delicados, conforme o modelo de beleza clássica. Você se considera repugnante por não corresponder a este ideal. Noutras palavras, não gosta de si mesma porque a realidade não satisfaz a sua fantasia.
Você é vítima de uma relação com o imaginário que a impede de aceitar os fatos. O seu desejo de ser como você não é escraviza e obriga você a uma contínua auto-flagelação. É preciso livrar-se desta escravidão. Do contrário, sua vida não muda. Para se liberar, tem que falar e ser ouvida até descobrir qual a origem do desejo que a martiriza e causa a sua depressão.
Nas lembranças de infância que você menciona, está a sua mãe a quem o médico prometia uma moça bonita. Será que você é presa desta promessa do médico e do desejo materno que ela suscitou? O trabalho analítico possibilitará a você revisitar o passado e se deixar visitar por ele até encontrar uma resposta e parar de se fustigar.

















