15/04/2011
às 22:20 \ CasamentoEntre duas línguas
Recentemente assisti a Um Sonho de Liberdade e me identifiquei com o protagonista, que vive numa prisão. Sou casada com um americano que conheci no Brasil, na faculdade. Casamos e o plano era morarmos nos Estados Unidos por alguns anos. Eu aperfeiçoaria meu inglês e teria uma experiência internacional. Meu marido, que, na época, trabalhava em uma multinacional, seria promovido à gerência e tentaria ser transferido para o Brasil. Estamos casados há seis anos, e, quando toco no assunto, ele começa a reclamar do alto custo de vida no Brasil, da violência, da corrupção, da falta de educacão dos brasileiros no trânsito… Compramos uma casa muito bonita e tivemos nosso primeiro filho, seis meses atrás. Quanto mais tempo vivemos aqui, mais distante vai ficando meu sonho de voltar para o Brasil.
Gosto de morar num país desenvolvido, mas me sinto insegura e triste. Eu não tenho muitos amigos e sinto falta da minha família. Trabalho em uma empresa boa e faço mestrado, porém basta uma falha no meu inglês para minha autoestima cair. Tenho medo de ser ridicularizada na frente dos outros. Penso que, se estivesse no Brasil, já estaria num cargo de gerência. Aqui isso não vai acontecer tão cedo. Amo muito meu marido e filho e não penso em divórcio. Jamais deixaria o menino.
Sei o que significa abrir a boca e ser vista como estrangeira, aquela que não é originária do mesmo lugar e do mesmo grupo social. Esse é um dos temas do meu romance O Papagaio e o Doutor. A heroína se confronta com a dificuldade de morar num país cuja língua não é a materna, a única língua em que só o lapso pode nos desbancar e nós podemos brincar com as palavras. Não é à toa que Fernando Pessoa dizia que sua pátria era a língua portuguesa.
Sei que as palavras de uma língua estrangeira são como coisas, e nós nelas tropeçamos e caímos. O que a entristece é isso, e você vai ter de lidar com o problema em uma análise. Porque todos os seus interesses estão nos Estados Unidos, onde você trabalha, é casada e mãe de um americano. E também porque não há como contestar os argumentos de seu marido para não voltar para o Brasil.
Por que você teme ser ridicularizada quando seu inglês falha? Ridículo seria o americano que fizesse isso, pois estaria sendo xenófobo. Além de não ser “politicamente correto”, é arcaico. Você tem de se debruçar sobre seu passado para descobrir por que a falha a humilha. Por que você não pode falhar. A que mandato você obedece? Há uma razão para o sentimento de humilhação. Procure encontrá-la.
Tags: estrangeira, humilhação, marido



















