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Arquivo da categoria ‘Casamento’

Incompletude

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 | 5:23

Obra de Roy Lichtenstein

Acompanho sua coluna semanal em VEJA.com e me sinto à vontade para me abrir com você. Tenho 23 anos e o meu marido 30. Somos casados há pouco mais de sete meses. Ele procura me agradar em tudo que pode. Mas a nossa vida sexual tem sido péssima.

Com tão pouco tempo de casamento deveríamos estar em lua-de-mel e tal. Mas não é o que acontece. Ele tem bom caráter, é doce, compreensivo e prestativo. Mas com todas essas qualidades, eu me sinto frustrada, pois ele não me completa. Não sei se o problema está comigo ou com ele e não sei onde procurar ajuda.

Há meses não temos intimidade alguma. Por falta de libido. Ou talvez desinteresse meu por saber que não sentirei nada. Não sou cobrada pelo meu marido que, até nisso, é compreensivo. O que você me recomenda?

O que significa “ele não me completa?”. Suponho que você se refira ao sentimento de completude decorrente da relação sexual. Você não me dá muitos elementos para responder, e, só pelo uso do termo “cobrada”, eu me aventuro a fazê-lo. Se você utiliza esta palavra é porque, para você, transar com o seu marido é um dever. Isso obviamente complica tudo.

Se a transa é um dever e não um prazer, acaba se tornando impossível. Sexo só é bom se não houver obrigatoriedade. Você precisa descobrir por que está na sua situação. Em vez de deixar rolar para ver como fica, tem que abrir o jogo, falar para transformar o presente. Isso de contar com a eterna compreensão do marido só te prejudica.

Agora, com quem falar? Se não for possível falar já com ele, procure um psicanalista para descobrir como fazê-lo. Nada é pior do que o conformismo, que pode levar o casamento de vocês à  falência. Desgasta-se, e, de repente, acabou. O silêncio pode ser de ouro e pode ser nocivo.

Para sair da situação atual você precisa deixar de fazer de conta que vai tudo bem, aceitar a realidade e estabelecer um outro tipo de relação com a palavra. Porque é dela que a felicidade mais depende. Da capacidade que nós temos de usá-la em nosso benefício. Daí, aliás, a importância da educação sentimental, que pode ser feita na família, na escola e através da literatura. Não é por acaso que um dos romances de Flaubert se chama Educação Sentimental.

Por Betty Milan

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Perversidade

terça-feira, 12 de janeiro de 2010 | 1:06

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Você  é a minha unica opção. Não tenho condições de pagar um especialista e não posso abrir a minha história para qualquer um. Não quero expor meu marido e minha cunhada, que tiveram uma paixão na adolescência e praticaram o incesto. Foi ela que me contou isso e ele confirmou numa conversa dura e dolorosa.

Quando me casei, os dois não se falavam e ficaram dois anos afastados porque ele achava que ela havia revelado a verdade no intuito de prejudicar o casamento, por ciúmes. Agora, eles voltaram a se falar, mas eu não me dou bem com ela - que, aliás, não faz a menor questão disso. Nas discussões que tivemos, me disse que o casamento acabaria quando ela bem entendesse, pois o irmão ainda gostava dela.

Neste fim de semana, viajamos para a casa de parentes e eu me senti excluída quando fizeram as fotos de família. Percebi o carinho do meu marido pela irmã. Conversamos sobre isso e ele respondeu que não quer escolher entre ela e eu. Que estou sendo imatura, pois só pretende refazer a própria história. Já faz um bom tempo que estamos brigando. Ele não dormiu em casa ontem e eu estou pensando em me separar.

Existem  basicamente duas maneiras de lidar com o passado. A primeira consiste em se valer dele para intervir no presente. Isso é o que a sua cunhada faz, procurando atravancar a sua vida. A segunda consiste em se valer do presente para dar ao passado um sentido novo. Isso é o que o seu marido tenta fazer, vencendo a resistência da irmã.

Na medida em que você se entrega ao ciúme, você avaliza o discurso da sua cunhada e a fortalece. A conduta dela é perversa, pois nada além do prazer conta. Ter praticado o incesto na adolescência é uma coisa. Insistir nele, na vida adulta, é outra. O seu marido não quer isso e precisa ser ajudado.

Você ajuda não dando ouvidos à sua cunhada para que ele possa refazer a própria história sem romper. Ou seja, para refazê-la verdadeiramente. Romper com a irmã não é o que ele quer e ninguém pode exigir isso.

Sua situação não é fácil, mas se você tiver sabedoria, poderá transformá-la e ficar casada de outra forma, tendo um companheiro grato pela sua coragem e pela força que você deu a ele. A vida é assim: requer empenho para que possamos tirar o melhor partido dela.

Por Betty Milan

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A impermanência

terça-feira, 22 de dezembro de 2009 | 2:58

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Tenho 34 anos e sou casado há 15 com minha mulher, de 32.  Somos pai e mãe de um menino de 12 e de uma menina de 9. Ou seja, tudo aconteceu muito cedo. O fato é que o nosso relacionamento anda muito mal… Minha mulher se trata, há mais ou menos seis anos, com medicação pesada, por ser bipolar. Recentemente, saiu de uma empresa multinacional onde tinha uma função de destaque, e o nosso padrão de vida caiu.

A causa principal dos últimos atritos tem sido o distúrbio de humor dela. Diz que vai voltar para o trabalho, porém eu não sinto comprometimento. Antes de sair do último emprego, conseguiu gerar uma dívida absurda. Tive que bloquear o cartão. Hoje, está recebendo seguro-desemprego e não ajuda nada em casa. Eu não cobro porque o humor dela depende da sua autoestima, que está diretamente ligada à compra de roupas novas e ao salão de beleza.

A variação de humor é absurda. Cada vez que ela me pede para conversar, eu me preparo para absolutamente tudo. Inclusive para a separação…

Antes, ela se queixava de trabalhar demais. Agora, se queixa da falta de dinheiro. Sexo, quando rola, é sempre bom… mas a frequência é baixa. A minha paciência está se esgotando. Gostaria de viver a minha vida ao lado dela, porém não sei se esse caminho me fará feliz.

O que primeiro me chamou a atenção no seu e-mail foi a repetição da palavra minha, “minha mulher”, “minha esposa”, que revela  uma ligação forte com a sua companheira. Agora, como viver com uma pessoa cujo humor varia continuamente? Primeiro, ajudando-a a encontrar um equilíbrio. Não acredito que a medicação pesada seja suficiente para isso. A medicação é imprescindível, porém não basta.

A bipolaridade tem origem numa disfunção do cérebro, mas pode ser agravada pela história subjetiva da pessoa, que precisa se conhecer para lidar com a doença. Quanto mais a pessoa se conhece, mais condições terá para se tratar e se curar ou conviver com o problema.

A vida implica saúde e doença. Por isso a paciência é fundamental. Sem ela, ninguém pode ser feliz ou longevo. A paciência nunca é fácil, mas pode ser conquistada. Resulta da aceitação da realidade e da relativização do problema, através de uma consciência particular, a “consciência da impermanência” em que os budistas insistem. Eles sabem que nem o bem é permanente, e nem o mal. Ou, mais simplesmente, que tudo passa.

Por Betty Milan

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A coluna

quarta-feira, 14 de outubro de 2009 | 18:14

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Leio sua coluna desde que começou e ela tem sido um consultório sentimental para mim. Tiro partido dos relatos de pessoas com problemas diferentes e das observações que você faz para resolver os percalços da minha vida.

Cheguei a mandar uma mensagem para você há dois anos, quando eu ainda era casada e vivia uma crise que culminou com a separação. Na época, o que me afligia era uma dúvida quanto à separação. Me separo ou não? Porque estava casada havia 23 anos com o meu único parceiro sexual, mas com quem eu já não sentia mais prazer.

Não obtive resposta para a minha dúvida. Talvez porque, embora estivesse muito aflita, o meu caso fosse prosaico. No momento, passo por uma experiência que me parece absurda, louca, porém é absolutamente prazerosa.

Prosaico significa comum. Eu não deixo de responder a um e-mail porque a história do consulente é comum. Através da análise, é possível chegar ao que há de particular na história e mostrar a universalidade do drama. Com isso, todos os leitores da coluna podem se beneficiar.

Um dos critérios da seleção do e-mail  é a possibilidade que o consulente me dá de chegar a uma resposta bem fundada. Você talvez não tenha me dado elementos suficientes no primeiro e-mail que enviou.  Mas o que importa agora é você ter deixado um casamento que não dava prazer para viver uma experiência prazerosa.

Folgo em saber que isso decorre da leitura desta coluna, já que você tira partido dos relatos de pessoas e das minhas observações para resolver os percalços da sua vida. O consultório sentimental tem de funcionar assim mesmo, exatamente aliás, como o romance.

Nele, a pessoa se debruça sobre uma história que nada tem a ver com a própria e tira  ensinamentos preciosos. Não há livro mais importante do que Madame Bovary, de Flaubert, o precursor do romance moderno, para refletir sobre o casamento e o adultério. As mulheres adúlteras que escrevem para esta coluna vivem num tempo em que o imperativo da fidelidade não tem o mesmo peso e a infidelidade não tem as mesmas consequências – porque tivemos a revolução dos anos 60 e a luta feminista -, mas a leitura de Madame Bovary permite refletir sobre o descompasso entre o casamento e o ideal do amor. Descompasso que a vida cotidiana produz inevitavelmente.

Por Betty Milan

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Contrariedade

terça-feira, 29 de setembro de 2009 | 19:20


Sou casada há quase sete anos. Meu marido tem uma empresa com um sócio e os dois decidiram que as mulheres não trabalhariam na empresa. Depois que eu tive a nossa filha, o mercado de trabalho se fechou para mim. Migrei da área administrativa para a comercial. Mas esta área pede um desdobramento de horário absurdo. Me rouba  tempo com a família, com a igreja e comigo mesma. Imaginava que quando a empresa do meu marido crescesse,  eu poderia trabalhar com ele, contribuindo para melhorar a nossa renda familiar. Nós temos quatro filhos (dois do meu primeiro casamento, um do primeiro casamento dele e um do casamento atual). Só que o meu marido não aceita. Insiste em manter duas funcionárias bem pagas.

Tenho  o sentimento de ser traída e me deprimo com isso. Ele afirma que a vida em comum poderia ser prejudicada se  nós trabalhássemos juntos. Que não dá certo porque tenho muitos defeitos e posso atrapalhar a sociedade. Somos muito felizes no casamento, porém eu estou amarga. Um ano e meio que eu não rio. Fico muito mal quando encontro algum conhecido que trabalha com a mulher. Preciso da sua  orientação.

Entendo que você esteja contrariada, mas não que tenha perdido a possibilidade de rir por causa da contrariedade. Duas pessoas podem se dar muito bem no convívio conjugal e menos bem no trabalho. Ser casado com uma pessoa e trabalhar com ela pode não ser uma boa solução. O ponto de vista do seu marido também é respeitável. Ele quer independência no trabalho e ponto. Isso não significa necessariamente que a esteja excluindo.

Você precisa se perguntar por que se sente excluída. Que relação o sentimento de exclusão tem com o seu passado. Sabendo, você poderá mudar e nada é melhor do que esta possibilidade. A mudança é o resultado de uma conquista e a prova de que estamos vivos. Aprender a mudar é uma grande arte. Quem pratica o tai chi chuan adquire a consciência disso. Os chineses são longevos por causa desta prática, que ensina a se deslocar e a se valer da oposição do outro em benefício próprio.

Além de se debruçar sobre a sua história, você pode perguntar ao seu marido quais os defeitos que ele vê em você no trabalho e  analisar a resposta dele. Saberá assim se a resposta é convincente ou não e tirará proveito disso.

Por Betty Milan

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Três x dois

terça-feira, 22 de setembro de 2009 | 19:10

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Somos casados há 27 anos. Sempre tive vontade de fazer sexo com duas mulheres. Minha mulher nunca aceitou, pois sempre foi muito romântica. Dizia que não teria prazer se me visse com outra. Nosso relacionamento entrou numa fase de acomodação. Quando eu ficava deprimido, não tinha ereção. Falava que seria mais feliz se ela tivesse amante. Pois ela arrumou uma amante. Uma menina linda, bem mais jovem. Deseja viver esta relação intensamente, sem a minha presença, porque a menina é lésbica e não aceita homem. Me dei conta do quanto amo minha mulher. Não quero perdê-la, estou sofrendo. Ela diz que não vai me abandonar, mas vai viver o novo amor até o fim. Estou perdido. Sinto ciúmes, estou inseguro. O que faço?

Para você, o três é o número que dá prazer. Você quer transar com duas mulheres. Já a sua mulher é romântica, gosta do número dois. Quer exclusividade na relação sexual. Mas o fato é que, por vias tortas, ela satisfez o seu desejo, tornando-se indissociável da menina linda com quem vive um novo amor. Você conhece o provérbio segundo o qual “quem diz o que quer ouve o que não quer?” Pois é, você não esperava ser surpreendido.

Agora, você tem de esperar para ver como fica e se perguntar por que você se expôs ao que está acontecendo. Quem tem uma conduta libertina no casamento corre o risco de perder o parceiro e quem não tem condições de se arriscar precisa se refrear. A equação é simples. O mais difícil é decifrar a sua história para não se tornar vítima dela.

Quanto ao ciúme, como diz a renomada libertina Catherine Millet no livro Dia de Sofrimento, ele nasce das dúvidas que temos em relação ao outro e se nutre das fabulações através das quais preenchemos as lacunas da vida. Ou seja, quem tem ciúme sofre por causa da imaginação e continua ligado ao outro pelo sofrimento. Você está às voltas com o seu masoquismo e também a razão disso você terá de entender para sair da posição difícil em que está. Tanto uma análise quanto a leitura dos romances libertinos clássicos poderão iluminá-lo.

Por Betty Milan

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O gosto da escrita

terça-feira, 15 de setembro de 2009 | 18:19

mulher-computador

 

Venho de uma família religiosa. Tenho baixa auto-estima desde a infância e luto contra isso. Casei-me  há 2 anos e meio. Durante o namoro, meu marido morava a 2.000 km de distância. Só me mudei para a cidade dele três meses antes do casamento. Rolou sexo e ele não era muito bom na cama. Achei que fosse timidez. Passaram-se quatro meses e nada mudou. Fazíamos sexo, ele se satisfazia e eu nada. Com o tempo, as coisas foram piorando e ele já não me procurava mais.

Após sete meses, mudamos para uma cidade horrível, que fica a 3.500 km dos meus familiares. Aceitei acompanhá-lo porque o casamento para mim sempre foi sagrado, mas um ano depois de casada,  já tinha engordado 25 quilos.

Estava mal e comecei a fazer ‘loucuras’. Criei um MSN falso, com um nome diferente e usava fotos de uma conhecida minha. Depois, criei um Orkut. Encontrei um rapaz e começamos a conversar pelo MSN. Sentia por ele o que nunca havia sentido, ficávamos a noite inteira conversando. Um dia, resolvi contar que o meu nome era outro e a garota das fotos não era eu.
Ele me excluiu do Orkut dele e me bloqueou no MSN. Sofri demais, comecei a tomar um antidepressivo  e a  fazer psicoterapia. Não adiantou nada. 

Passado um mês,  voltamos a teclar e ele quis me ver na webcam. Demorei para aceitar. Nesse dia, ele constatou que eu havia mentido e rompeu de novo. Vivo triste por saber que brinquei com os sentimentos dele, que não consigo parar de “criar uma história”. Continuo mentindo pelo MSN, embora já use uma foto verdadeira. O que eu faço?
 
O seu casamento é um desastre. E é obvio que, apesar de religiosa,  você  precisa considerar a possibilidade de se separar porque ele é incompatível com a sua vida. Nenhuma religião pode negar o direito ao divórcio num caso como o seu.

O uso que você faz da vida virtual como uma compensação para a vida real tem limites e você sabe disso. Agora, não me parece que você use a internet só para se compensar da frustração no casamento. Digo isso por duas razões. Por um lado, porque você me escreveu o maior e-mail que eu já recebi. Por outro, por você ter escrito que não consegue parar de ‘criar uma história’. Ora,  é precisamente o que o ficcionista faz, e sem isso ele não vive.

A sua vida virtual revela  o gosto pela dissimulação, que talvez esteja na origem de uma vocação de escritora. Você já considerou esta possibilidade? A escrita é um caminho fecundo pelo qual você pode enveredar. Mas este caminho não exclui a análise, que você precisa fazer para conquistar uma outra vida. Escrevi análise porque você tem que se escutar e analisar o que você diz para se liberar do discurso da família.

Por Betty Milan

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Desconsolo

quarta-feira, 9 de setembro de 2009 | 14:58

Como aceitar que uma pessoa, depois de 17 anos de casamento, avance sobre a poupança de anos de trabalho e simplesmente vire as costas para o marido e o filho? O dinheiro era para o estudo do filho e ela sabia disso. Hoje, não existe contato e o filho acabou sendo a maior vítima da conduta da mãe. Acho difícil entender e aceitar esta situação.
 
A conduta da sua esposa é inaceitável. Mas se você não tiver como convencê-la ou obrigá-la legalmente a devolver o dinheiro, só resta aceitar e tirar do fato uma lição. Bem diz o provérbio popular: “O que não tem remédio, remediado está”. Deve existir um provérbio equivalente em todas as línguas, porque há na vida mil e uma coisas inaceitáveis. Profundamente injustas e incompreensíveis, sobre as quais não vale a pena tergiversar.

O Buda recusava todas as discussões abstratas porque elas lhe pareciam inúteis. Formulou a célébre parábola do homem ferido por uma flecha que não deseja tirar a flecha antes de saber a casta, o nome do responsável e dos seus pais, bem como o país de onde são originários. Proceder assim, diz o Buda, é correr um risco de morte, eu ensino a tirar a flecha.

Fazer isso, no seu caso, é aceitar a realidade. E é sobre a sua dificuldade em aceitá-la que você deve se debruçar. Para se sentir melhor e não prejudicar o seu filho com a sua dificuldade e o seu desconsolo. A vida espiritual do pai interfere tanto quanto o estudo na educação do filho. Tudo que você fizer por você, estará fazendo por ele.

Na impossibilidade de consultar um analista para saber como você lida com a sua fantasia e com a realidade, você pode se aprofundar no ensinamento do budismo, que não é uma religião, e sim uma filosofia. O budismo dispensa toda relação pessoal com um Deus, porque é uma doutrina essencialmente ateia, em que não há nem crente e nem divindade. Diferentemente do judaísmo, do  cristianismo e do islamismo, não sabe o que é pecado, arrependimento e perdão, três conceitos patéticos. Entre os livros de referência, está O que é o budismo?, escrito por Jorge Luis Borges e sua companheira, Alicia Jurado.

Por Betty Milan

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