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24/03/2009

às 8:22 \ Arquivo

A filosofia naturista

Estou preocupada desde que percebi que minha filha, o namorado dela e as crianças, um menino de doze anos e uma menina de nove, tomam banho juntos nus. E também brincam na cama do casal… Gostaria que VEJA fizesse uma reportagem sobre este tema, pois observo que hoje em dia isso é comum. Gostaria de abordar o assunto com minha filha, mas sem parecer moralista.

Bem faz você de não querer ser moralista. Para tanto, precisa vencer o preconceito em relação ao corpo nu, que os antigos, por exemplo, não tinham. Sabia que do século II até o século IV, os romanos, sem excluir os cristãos, banhavam-se nus em banhos públicos? Que, na Grécia, a prática de esportes sem vestimenta era usual? Quanto ao nosso índio, ele sempre andou nu. A grande surpresa do descobridor ao chegar foi o sexo exposto da índia, que paradoxalmente o liberou. Lembra da Carta de Pero Vaz Caminha? Refere-se assim ao episódio: "…e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tinham nenhuma vergonha."

Para vencer o preconceito pode ser útil estudar a história da roupa, que tem muitas funções. Entre elas, a de esconder o sexo para evitar ou para estimular a cobiça. O véu com o qual a muçulmana cobre a cabeça serve para protegê-la do desejo masculino. Já a lingerie serve para excitar, para despertar a fantasia sexual.

Sua filha e o namorado são adeptos do naturismo, um modo de vida no qual se busca uma harmonia com a natureza. Uma das principais atividades do naturista é o nudismo em grupo, uma atitude que pode encorajar o autorrespeito, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente. Quem trouxe o naturismo para o Brasil foi a atriz Luz del Fuego. Para ela, a indumentária não era necessária à moralidade do corpo humano, que não tem partes indecentes, a serem escondidas.
 
Claro que a posição do naturista não é fácil. Luz del Fuego foi brutalmente assassinada. Mas é uma posição que se sustenta e obedece a normas éticas, que devem ser respeitadas e difundidas. O Brasil hoje tem 110.000 seguidores dessa filosofia de vida, que é a da sua filha. Conversando com ela sem preconceito você vai saber o porquê da sua escolha e vai ficar em paz. Conversando como quem ama, ou seja, sem exigir nada, aceitando o que ela pode e quer te dar.

Por Betty Milan

17/03/2009

às 9:04 \ Arquivo

Soropositividade

Tenho 43 anos, sou gay e soropositivo. Ser gay não me causa nenhum problema profissional ou pessoal, mas o fato de ser soropositivo, sim. A cada encontro amoroso é difícil revelar a minha situação.

O problema, na realidade, é muito mais meu do que do outro. Em apenas uma ocasião, o outro evitou a relação amorosa por causa da minha soropositividade. Não aceitou e nós ficamos amigos.
Atualmente, hesito em contar a verdade por medo de ser rejeitado e acabo perdendo o namorado por outros motivos. Sempre dou um jeito de criar algum conflito para o namoro não ir adiante. A história não para de se repetir. Como num filme.

No século XIX, Oscar Wilde foi incriminado, preso e arruinado por ser homossexual.  Foi preciso muita luta para que o fato de ser gay não causasse mais problema de ordem profissional ou pessoal. Outro escritor com papel fundamental nessa luta foi o francês André Paul Guillaume Gide. Ele teve a inteligência de tornar pública a sua homossexualidade para defender o direito dos homossexuais de serem como são. A repercussão social deste procedimento foi tamanha que Gide recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1947. Depois, houve maio de 1968, um momento decisivo para acabar com a condenação moral aos homossexuais e provocar a modificação das leis relativas à homossexualidade.

Quando a luta estava ganha, surgiu o vírus da aids, nos ameaçando de doença e morte. Hoje, sabemos que a soropositividade pode não significar a doença, mas no nosso imaginário elas continuam associadas e você é vítima desta associação. Só receia contar a verdade porque teme que o outro faça a associação nefasta que você faz.

No caso da soropositividade, como no do câncer, o sujeito precisa, por um lado, analisar cada um de seus juízos sobre a própria condição, e, por outro, afastar o juízo que não esteja fundado na realidade. Pelo efeito depressivo, que normalmente as doenças provocam, este pode se tornar danoso. O que impede o soropositivo ou o canceroso de ter sobre si mesmo uma visão objetiva e se opor à doença é o gozo masoquista - um gozo que resulta no apego à fantasia destrutiva.

Qualquer um que tenha contraído o vírus da aids se beneficia e muito do trabalho analítico, como diz Alain Emmanuel Dreuilhe, em Corpo a Corpo, um livro de 1987, que continua atual. Você pode se valer da soropositividade para se curar da perversão masoquista e viver mais feliz. Em outras palavras, o problema físico pode levá-lo a uma cura subjetiva. Me permito dizer que você está com a faca e o queijo na mão se for capaz de se ajudar e de se deixar ajudar por quem sabe escutar. Vale a pena parar de se repetir e todo empenho nesse sentido é pouco. Porque a repetição mata e a vida não é um filme.

Por Betty Milan

10/03/2009

às 9:08 \ Arquivo

Dúvida

Tenho uma questão que me intriga: fiz terapia com um terapeuta que seguia os preceitos de Freud e não gostava de Lacan. Parei por causa dessa questão. Quero voltar à terapia, pois me sentia bem, mas estou em dúvida. A relação entre um terapeuta e um paciente pode ser tendenciosa sem ser prejudicial? O  primeiro pode dizer ao segundo o que ele deve fazer nos seus relacionamentos? Coisas como: "Você está correndo um risco ficando com ele. Se eu fosse você …"

Também quero saber como escolher um terapeuta. Psiquiatra ou psicólogo? Qual é a melhor "linha"? Freudianos, lacanianos, qual é a diferença? Que tipo de personalidade combina mais com cada um?

A psicanálise e a psicoterapia se valem da palavra para atuar, mas é preciso distinguir uma da outra. A meta da primeira é fazer o sujeito saber do seu desejo por meio da análise e, mais que isso, assumir o desejo para mudar de vida. A cura do sintoma é uma consequência do trabalho analítico e pode ocorrer ou não. O analista não dá nenhuma garantia. Não deve, porque o resultado depende do analisando. Já na psicoterapia, a meta é curar o sintoma, exatamente como na terapia médica. A palavra terapia vem do grego therapeia, que significa tratamento.

No que diz respeito à sua questão, a conduta do analista é diferente da conduta do psicoterapeuta. O primeiro escuta o analisando para que este possa se escutar e se reorientar. Não dá sugestão. O segundo, como o médico, pode se valer da sugestão. O risco é a dependência que ela provoca.

O fato do analista ou do psicoterapeuta ser médico ou psicólogo não tem a menor importância. O que interessa é a competência com que ele exerce a sua prática. Eu poderia dizer o mesmo em relação ao fato do analista ser freudiano ou lacaniano, se Lacan não tivesse introduzido na prática analítica recursos que a tornam mais eficaz porque facilitam as manifestações do inconsciente.

Agora, entre um bom freudiano e um mau lacaniano, mais vale um bom freudiano. Isso significa que é preciso escolher o analista procurando saber como ele se formou, mas também encontrando-o para saber como ele é no consultório e se existe afinidade.

Por Betty Milan

03/03/2009

às 10:51 \ Arquivo

Gota d’água

Minha esposa saiu de casa simplesmente pelo fato de termos ido a uma churrascaria, onde não havia o tipo de comida que ela queria. Passamos em outras churrascarias,  mas não havia mesa disponível. Fomos embora para casa, e, sem mais sem menos, ela me disse que ia embora no dia  seguinte. Dito e feito.

No início, insisti para que ela voltasse. A resposta era "eu te amo", só que não voltava. Agora,  não peço mais. Nós saímos uma vez por semana e ficamos juntos.

Temos dois filhos que moram com ela. Sempre que não está se sentindo bem, recorre a mim. Gosto muito dela e minha vida amorosa está muito vazia. Quero uma orientação. Devo conversar mais para que ela volte ou tiro o meu time de campo?

Sua mulher não se deixa culpabilizar facilmente. Ainda bem. Agora, é óbvio que não saiu de casa  por não ter encontrado a comida que ela queria na churrascaria. Isso foi a gota d’água. Saiu porque estava insatisfeita e o fato de você atribuir a saída a um almoço que não deu certo denota a sua insensibilidade em relação a ela.

Sua mulher o ama, mas quer ser sua namorada. Por isso fica com você uma vez por semana e não volta. O desejo dela é o desejo do amor e é legítimo. Que tal namorar mais um tempo para ver como fica? Dar a ela e a você a possibilidade de viver o sentimento amoroso plenamente? O cotidiano é contrário a ele porque a certeza de que o outro está sempre por perto gera indiferença. A incerteza e a falta alimentam o amor, de que o casamento frequentemente faz pouco.

Entendo, no entanto, a sua decepção, pois as pessoas se casam para estarem certas da presença do outro. Depois, vivem frustradas por terem a presença e não o amor, que precisa de manifestações que o casamento nem sempre propicia. Se o que você quer é um casamento tradicional, pode tirar o time de campo. Se estiver disposto a se renovar, aprendendo com a situação atual, empenhe-se em entender por que foi surpreendido por sua esposa e o que cada um de vocês espera do futuro.

Há sempre duas maneiras de viver qualquer situação. Agindo como a gente imagina que deveria agir ou procurando tirar uma lição da experiência. No primeiro caso, a gente tende a se repetir. No segundo, pode encontrar um caminho novo e se modificar.

Você tem tudo para recuperar sua mulher desde que aceite a situação atual e tenha a paciência necessária para redirecionar a relação no sentido que deseja. Isso obviamente requer uma humildade com a qual você não está acostumado, porém não é impossível se você amar verdadeiramente. Pelo simples fato de que o amor torna inteligente.

Por Betty Milan

17/02/2009

às 10:59 \ Arquivo

Crime de lesa pai

Tenho uma enteada de 2 anos com quem convivi durante um ano. Me apeguei muito a ela. O problema é que a mãe, por ciúmes, inventou que meu marido e eu  maltratamos a menina e a afastou de nós. Fez isso com ajuda da mãe de meu marido. Eu e ele sentimos falta da garota e não sabemos como agir.

A questão é delicada. Você está às voltas com o ciúme de duas mulheres, a ex-mulher do seu marido e a mãe dele. As duas não suportam a relação de vocês e se aliaram, impedindo o convívio com a  menina. Vingança, claro. Cervantes diz que o ciúme é o tirano do reino do amor.

Trata-se de um sentimento que nasce da fabulação e compromete a racionalidade; se autoengendra e frequentemente se associa à vingança. O exemplo clássico é Otelo, personagem de uma das tragédias de Shakespeare. Obcecado pela ideia de que Desdemona o trai, ele a mata e se mata depois. Quem lê a peça, se dá conta do caráter paranoico do sentimento de Otelo, que tem mais a ver com o amor próprio do que com o amor e por isso tem um desfecho funesto: assassinato e suicídio. Todo amor tem algo de narcísico, o ciúme é narcisismo puro.

Você e o seu marido podem tentar convencer a ex-esposa e a avó a procederem de uma forma diferente da atual, porém é improvável que consigam. Porque o ciúme é uma forma de delírio e contra ele, os argumentos da razão nada podem. Agora, por lei, o pai da menina tem direito a visitas regulamentadas. Não havendo acordo entre ele e a mãe, as visitas serão estabelecidas judicialmente. Trata-se de um direito inalienável, que só é recusado quando o genitor faz um mal comprovado ao filho.

Vale a pena recorrer à lei, não só porque você e o seu marido sentem falta da menina, mas porque a ex-mulher, consciente ou inconscientemente, faz mal a ela. Ao  privá-la do pai, impede que ele exerça a função paterna e a filha com isso se beneficie. Noutras palavras, impede o pai de facilitar a aceitação da lei, que é tão necessária à vida quanto a realização do desejo.

O exercício da função paterna é fundamental no caso de sua enteada porque a mãe faz pouco da lei, comporta-se mais como usurpadora do que mãe. Usurpa, nos vários sentidos do dicionário, ou seja: "apossando-se violentamente", "adquirindo com fraude", "alcançando sem direito" ou "exercendo indevidamente o poder". Para simplificar, ela tomou a menina à força e é normal que vocês reajam, recorrendo a um advogado e exigindo o que é de direito. Quanto antes melhor.

Leia mais sobre ciúme no livro Fale com ela

Por Betty Milan

10/02/2009

às 9:51 \ Arquivo

Escorregão

Tenho 30 anos e uma filha de 12. Fiquei grávida aos 16, num daqueles escorregões que muita gente leva. Já na adolescência, eu não queria ter filhos. Pretendia focar a vida só na carreira. Mas assumi a responsabilidade da gravidez e batalhei para sustentar a minha filha. Me ocupei de todos os detalhes de sua vida, fui pai e mãe ao mesmo tempo. Quando ela completou 8 anos, saí da casa de minha mãe e passei a cuidar de tudo sozinha. 

Hoje, estou completamente saturada. Não tenho mais um pingo de paciência com a menina. O mundo pode despencar que ela não toma iniciativa alguma. Às vezes penso que não a amo mais. Não tenho mais vontade de educá-la. Detesto repetir coisas básicas como "vá escovar os dentes, está na hora do banho", etc.  Acho que estou estragando a vida dela, pois vivo falando que não faz nada direito e não será nada na vida. 

No momento de muita raiva, chego a culpá-la por eu não ter um emprego melhor. Digo que abri mão de tudo para ser mãe. Ela já me disse que não deveria ter nascido porque me impediu de ser  feliz. Acho que será no mínimo uma adulta depressiva. Quando fica muito difícil, eu me pergunto se somos obrigados a amar nossos filhos. E, se eu não a amar mais, como posso continuar nessa relação?

Preciso te contar ainda que perdi o meu irmão, um verdadeiro anjo, 12 dias depois do nascimento da minha filha, e meu pai morreu um ano depois, deixando como "herança"  uma outra mulher além da minha mãe. São acontecimentos que, até hoje, terapia nenhuma me fez superar.

Você se refere à gravidez como "um dos escorregões que muita gente leva", ou seja, como um acidente de percurso, um fato sem maior importância. Mas é precisamente este fato que determina a sua existência há 12 anos, ou seja, durante quase toda a segunda metade da sua vida. Vale a pena, portanto, se debruçar sobre ele e se perguntar por que você escorregou, ou seja, por que foi irresponsável em relação a você mesma.

Digo isso por você estar sendo irresponsável de novo. Só uma mãe sádica diz para a filha que esta não será nada na vida. O seu discurso desautoriza e condena à infelicidade. Você está tão ciente disso, que escreveu no seu e-mail: "Ela será no mínimo uma adulta depressiva". E a sua irresponsabilidade não diz respeito só a ela. Diz respeito também a você porque, depois de um grande empenho em criar a menina, você vai fracassar como mãe. Ninguém merece isso. Cuidado!

Que tal procurar um analista competente para saber o que explica o seu sado-masoquismo  e se livrar desta perversão que estraga a sua vida? Para deixar de escorregar e se repetir. A sua filha, aliás,  não te escuta porque você não para de se repetir. Só diz  "vá escovar os dentes ou está na hora do banho" destilando ódio, deixando a menina tão surda para você quanto você deve estar para ela.

Quanto à morte dos seus queridos, ela precisa e pode ser superada. A fim de que você possa respeitar e celebrar a vida dos vivos, a da sua mãe, a sua e a da sua filha. Tem um tempo para o luto e um outro para a superação. Lamentar a infelicidade só atrai a infelicidade. Espero que você consiga dar um basta nisso, fazendo um trabalho analítico de verdade.

Leia mais sobre o gozo sado masoquista em Fale com ela

Por Betty Milan

03/02/2009

às 6:40 \ Arquivo

Amor impossível

Tenho 25 anos. Sou bonita e bem sucedida na vida profissional. Mas há um medo que me ronda e está presente em todos as direções que eu olho. Minha vida amorosa é um desastre. Nunca consegui estabelecer uma relação que não se limitasse à cama. Agora aconteceu algo que realmente me pertubou. Sonhei que estava transando com meu pai e era uma sensação boa de prazer e cumplicidade. A sensação gostosa de estar fazendo algo proibido com alguém em quem eu confiava. Só que a relação com meu pai sempre foi distante. Quando eu quis me aproximar, ele não se interessou. Cansada de não conseguir, há dois anos, eu cortei a relação. Não falo mais com ele e não faz falta. O sonho ocorreu um dia depois do término de mais uma relação cordial e fria, apesar do forte apelo sexual. A sensação que eu tive no sonho me deixou confusa. Procurei o significado em Jung. Segundo ele, os sonhos incestuosos estão ligados à forma como a pessoa encara a vida amorosa. Só que a minha é inexistente. Estou para mudar de cidade e a incapacidade de me ligar a alguém está começando a me angustiar. Quero poder confiar e me relacionar. O que fazer?

Você rompe uma relação fria mas que te satisfazia sexualmente, e, no dia seguinte, sonha que está transando. Qualquer psicanalista de qualquer escola relacionaria o sonho com a história da ruptura. Não só porque o sonho está sempre relacionado com o ocorrido na véspera, porém ainda porque ele realiza um desejo. No seu caso, trata-se de um desejo que se tornou impossível, o de transar com o amante.

Como o sonho se vale da deformação para realizar o desejo, é legítimo pensar que o seu pai figura no lugar do amante. Quem melhor do que o seu genitor para substituir um homem com quem você já não pode transar apesar do "apelo sexual"? O trabalho onírico é competente. Em A Interpretação dos Sonhos, Freud explica como ele se dá. Trata-se de um dos grandes textos do pai da Psicanálise. Tão bem escrito que está ao alcance de todos. Se não leu, leia.

Por outro lado, a relação incestuosa do seu sonho diz respeito à sua vida amorosa, que não é inexistente, é impossível. Portanto, Jung está certo. Agora, a sua questão verdadeira é a incapacidade de se ligar a um homem e isso deve ter algo a ver com o seu passado. Já lhe ocorreu procurar um analista para fazer um trabalho que te leve a entender a razão da dificuldade? A relação entre o analisando e o analista está fundada na transferência, que é uma forma de amor. Pode servir de base para estabelecer um novo tipo de ligação com os homens. É disso que você mais precisa hoje.

Por Betty Milan

27/01/2009

às 1:17 \ Arquivo

Só quero sexo

Eu não amo ninguém, embora seja uma pessoa sensível. Os românticos me aborrecem. Mas, às vezes, eu me angustio por ser incapaz de me apaixonar. A angústia, no entanto, logo passa – assim que eu me vejo diante de alguém que me atrai. Não fujo da atração, vou até o fim, mas o sexo me basta. Me esforço para achar a pessoa interessante e não consigo. Tento levar o namoro, mas o tédio toma conta de mim. Eu não amo ninguém. Acho que ninguém ama ninguém. As pessoas forçam a barra por medo da solidão. Será que nós somos todos egocêntricos?

O sexo te basta e o amor te entedia. Tudo bem. Sabendo ou não, a tradição à qual você pertence é a dos libertinos franceses, que sempre fizeram pouco do amor. Segundo Crebillon, escritor do século XVIII, o libertino se serve do amor para assegurar o triunfo da sua fantasia, erige a inconstância em princípio e só se interessa pelo prazer. Não dá a menor importância ao sentimento na conquista amorosa. A sua única meta é seduzir as mulheres, romper depois com elas e tornar público este triunfo. Para o libertino, nada se passa no segredo dos corações e nem deve ficar contido no espaço da alcova. A indiscrição é uma obrigação absoluta. Do ponto de vista dele, o espírito tem as suas leis, que não são as do coração, e as razões do coração diferem fundamentalmente das razões do corpo.

Já no século XVIII ninguém era obrigado a amar. Mas por que você faz do seu desinteresse pelo amor uma regra e conclui que "ninguém ama ninguém", desqualificando  um sentimento no qual a grande maioria das pessoas se reconhece? A sua frase é uma generalização análoga a "homem nenhum presta" ou "entra de sola que mulher gosta de apanhar", como diz uma personagem de Nelson Rodrigues. São formulações abstratas que só servem para minar a relação entre as pessoas e os sexos. Podem figurar num romance ou numa peça de teatro, mas são nefastas na vida social. No mundo em que vivemos, não há lugar para elas.

A contenção no discurso é fundamental para que possamos virar um dia a página da violência. Cada uma das nossas palavras tem conseqüências para nós e para os outros. O melhor exemplo talvez seja o de uma lei alemã que proíbe dizer que o holocausto não aconteceu. Fiquei sabendo desta lei em Berlim e tive grande admiração pelo povo alemão. Soube tirar uma verdadeira lição da guerra. Nem tudo se pode dizer. Porque a palavra deixa a sua marca. Isso acaso significa que eu sou contra a liberdade de palavra? Obviamente não é disso que se trata, e sim de não confundir esta liberdade com o descontrole. Ser livre é fazer e dizer aquilo que a gente pode. O mais é puro excesso.

Por Betty Milan

 

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