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Arquivo da categoria ‘Arquivo’

Preguiça

terça-feira, 26 de maio de 2009 | 15:33

Pode a preguiça ser a maior inimiga de alguém? Ou seja, eu sou minha pior inimiga. Tenho 32 anos e já superei muitos complexos. Hoje, eu sou menos vítima do sentimento de incapacidade que sempre me rondou e me atrapalhou demais. Escrevi menos vítima, porque vejo que este sentimento ainda tem vez quando sinto preguiça.

Eu era virgem até um ano atrás, quando me relacionei com uma pessoa que conheci na internet. O relacionamento acabou há dez meses e eu ainda me recupero. Tento refazer a minha vida. Acho que também é por causa disso que tenho andado assim. Mas está demais. Não consigo dar conta das minhas tarefas. Como pode alguém trabalhar contra si mesmo? Sei que isso tem relação com a preguiça.

“Ai que preguiça”, dizia o herói de nossa gente, Macunaíma, o tempo todo. Inclusive quando transava com Ci. Ele parava esquecido bem no meio da ação, obrigando a companheira a se valer do “estratagema sublime”, urtiga, para provocar uma “coça coçadeira no chuí do herói e no nalachitchi dela”. Mas esta preguiça nada tinha a ver com qualquer incapacidade. Só com o fato de que o herói não sabia o que é o dever do orgasmo, não obedecia a nenhum programa sexual. Ele só queria brincar e inventar artes novas de brincar.

A preguiça, no seu caso, incapacita e prejudica. Por isso deve ser vista como indício de depressão. Você, aliás, se dá conta disso porque diz que trabalha contra si mesma. E me pergunta como essa contradição é possível. Pelo simples fato de termos um inconsciente e de que ele não está concernido pela racionalidade. A lógica a que o inconsciente obedece não é a lógica da consciência. Ele não leva em conta o princípio da não-contradição. Por isso precisa ser decifrado.

A resposta acima é a que a Psicanálise daria. Porém, bem antes de Freud, no século XVII, Pascal, que também escreveu um livro sobre o amor, já havia escrito: “Os homens são tão necessariamente loucos que seria loucura não ser louco.”

Por que você não se aceita e não procura quem possa ajudá-la a entender o motivo do mal estar? Em outras palavras, por que você não se torna amiga de si mesma? Falando, poderá abrir uma via nova e viver um segundo amor diferente. O do ano passado não deu certo, o próximo pode dar se você estiver mais preparada, mais confiante. Quem não confia em si mesmo não acredita que pode ser amado e tem medo de se entregar.

Por Betty Milan

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Tudo vale a pena

terça-feira, 12 de maio de 2009 | 12:35

Tenho 25 anos e moro fora do país há dois. Pouco tempo atrás conheci um rapaz por quem me interessei e começamos a namorar. Estava indo tudo bem até eu me dar conta de suas variações de humor. De manhã, ele acorda cantando e sorrindo, cheio de energia; à tarde, quando conversamos pelo computador, está completamente desanimado, achando tudo ruim.

Conversei com uma amiga que o conhece bem e fiquei sabendo que ele sofre de transtorno bipolar. Aí me bateu o desespero, a dúvida. Li muitas coisas na internet sobre o assunto e também vários depoimentos de pessoas que convivem com bipolares. Parece difícil lidar com essa doença e com os aspectos que a cercam, como depressão, perda de dinheiro, possibilidade de suicídio…

Será que vale a pena investir numa relação que pode me trazer sofrimento? Seria covardia desistir de um amor por medo do futuro? Ou é melhor terminar o relacionamento agora, enquanto ainda está no começo? Quero muito que dê certo, mas tenho medo de sofrer. Gostaria de saber o que você pensa sobre isso.

Sei de uma mulher que viveu com um bipolar a vida inteira. Passou por várias tormentas mas, no cômputo geral, foi feliz. Conseguiu fazer o marido se tratar. Graças à análise, ele conquistou a disciplina necessária para se medicar devidamente e controlar a doença. Mas ela não concebia a vida sem ele, que era a sua alma gêmea. Digamos que não é um caso de casamento com bipolar, porém de amor. Deu certo. Simplesmente porque o amor faz a vida dar certo.

Portanto, você precisa se perguntar se ama verdadeiramente seu namorado. Se a sua vida é inconcebível sem ele. A resposta sendo positiva, você poderá enfrentar as dificuldades da bipolaridadade, desde que o namorado seja do tipo que aceita se tratar. Nenhum bipolar é igual ao outro.

A vida também é doença e sofrimento. Como mostram os artistas Denise Milan e Ary Perez, em uma escultura que pode ser vista em São Paulo(*), tanto a saúde quanto a doença fazem parte da vida, que é como uma fita de Moebius (**): tem um só lado e uma só superfície. Faz sentido para quem está em São Paulo tentar ver a fita azul no alto, entre as estrelas, e meditar sobre a existência. Concluir, talvez, que não há como evitar o sofrimento. O máximo que podemos é nos preparar para enfrentá-lo, dizendo com Fernando Pessoa que "tudo vale a pena quando a alma não é pequena".

(*) A escultura a que a colunista se refere (foto ao lado) está na Unidade Itaim do laboratório de análises clínicas Fleury, em São Paulo.

(**) Fita de Möbius é a figura obtida pela colagem das duas extremidades de uma fita, após darmos uma meia volta numa delas. Deve o seu nome ao alemão August Ferdinand Möbius, que a estudou em 1858.

Por Betty Milan

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Donjuanismo

terça-feira, 5 de maio de 2009 | 9:11

Sou casada há 9 anos, mas tenho o ímpeto de conquistar outros homens. Vou me aproximando, fazendo charme, até conseguir. Um encontro e nada mais. Não faço sexo com eles, só quero despertar o sentimento amoroso. Quero que fiquem atraídos por mim. Gosto de manter alguém "à minha espera" para o caso de necessidade. O problema é que eu tenho sofrido muito com isso. O último homem se apaixonou e eu não queria ficar com ele. Só queria ouvir as declarações de amor. Agora, ele enfim se afastou, mas saiu muito machucado. Me sinto culpada. Na verdade, quero ficar com meu marido, mas não consigo abrir mão da conquista. O desafio me tenta.

Don Juan é homem, mas poderia ser mulher. A sua história mostra que o donjuanismo não tem sexo, é o comportamento de quem seduz para se afirmar. Don Juan seduz pelo gosto de vencer a resistência. Faz o que for preciso até conseguir, exatamente como você. Ele não ama nenhuma das belas. Amor, só por si mesmo. Todas servem para que se sinta vitorioso e todas são vencidas. Do ponto de vista dele, o fim justifica os meios. O amor para Don Juan é indissociável da guerra e é justo compará-lo a um general.

Verdade que Don Juan quer sexo e você só quer o sentimento amoroso mas, nos dois casos, a sedução está a serviço do narcisismo. A meta é suscitar a paixão para se saber amado.

O problema é que você não pode "abrir mão da conquista", é uma compulsão. Conquistar é um imperativo a que você obedece por razões que eu desconheço. Um imperativo que a impede de ficar com o seu marido, como você deseja. Em outras palavras: você não é livre.

O seu verdadeiro desafio é a conquista da liberdade e para tanto você tem de se livrar da compulsão a que está sujeita, descobrindo por que precisa se afirmar e não para de se repetir. Vive sempre tentada a caçar e a abandonar a presa. Um contínuo desassossego.

A liberdade sexual depende da liberdade subjetiva que pode ser alcançada. Escrevi pode porque não nascemos livres, nos tornamos livres. Desde que aceite a existência do inconsciente e se disponha a decifrá-lo. A via é esta.

Em VEJA: O desafio da liberdade

Por Betty Milan

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Frustração

terça-feira, 28 de abril de 2009 | 8:27

Vou completar 29 anos e tenho uma frustração enorme. Nunca tive um relacionamento afetivo e sexual com um homem - nunca me permiti beijar ou ser beijada. Amigos de verdade, nunca.

Sou a mais nova de três filhas. Todas estudamos em colégio de freiras, muito rígido. O colégio era misto até a quarta série. Nas séries posteriores, era só para meninas. Não tenho saudades dessa escola, uma verdadeira redoma. Um dia, aos oito anos, um homem colocou a mão na minha vagina e gozou, me olhando fixamente. Fiquei paralisada e nunca contei nada  para ninguém. Passei anos me culpando. Quando fui para uma escola mista, tive muitas dificuldades. A minha panela era a da "luluzinha". Embora tivesse desejo e atração por meninos, nunca consegui "ir a luta".

Meus pais têm um relacionamento infeliz. Embora trabalhe, meu pai é alcoólatra. Quer ser o bonzão, o certo, o culto, o polido, mas nós tememos o que o futuro nos reserva. Não o amo e hoje tenho uma relação muito difícil com ele. Estou numa fase em que minhas amigas estão se casando, tendo maridos, filhos… e eu, nada.

Pudera! Seu pai é alcoólatra e sua mãe não se dá bem com ele. A imagem do homem e do casal que eles passam só dificulta a sua aproximação com o sexo oposto. Depois, o primeiro homem que a toca é um perverso. Vale-se de uma menina de oito anos para se satisfazer, olhando-a com o olhar da medusa, que paralisa a pessoa olhada.

Você estava condenada à panela da luluzinha, e, o que é pior, a imaginar que a menina se aproxima do menino indo à luta. Sei bem que a expressão "ir à luta" é sinônimo de empenhar-se, mas como não escutar a palavra luta? Você não teve sorte e precisa se livrar do peso do seu passado.

Felizmente você tem 29 anos e uma vida pela frente. Desde que não desperdice tempo, porque o que nós temos de mais precioso é o tempo. Você fez bem em me escrever. Com isso, deu o primeiro passo em direção a alguém que possa escutá-la. Agora, precisa encontrar uma pessoa (um analista) e falar sobre o ocorrido a ponto de reinventar a sua história. Nada é mais eficaz e gratificante do que esse trabalho. Se for bem feito, você sai da redoma em que foi encarcerada e se abre para o amor e para a amizade. Sem um e outro, a vida é a travessia inóspita do deserto. Não vale a pena.  

Por Betty Milan

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Garota de programa

quarta-feira, 22 de abril de 2009 | 14:39

Tenho 29 anos e acabo de sair de uma relação turbulenta que durou dois anos, uma relação extremamente passional com uma garota de programa. Eu a conheci e pouco tempo depois estava perdidamente apaixonado -  como nunca antes. No começo, ela não correspondia. Ainda fazia programas e tinha um namorado, que não sabia da prostituição. Passados alguns meses, ela parou com esse trabalho, acabou com o namorado e nós fomos morar juntos. Ela se dizia apaixonada por mim e parecia estar. Tinha um ciúme quase doentio, provavelmente um resquício da profissão, pois ela sabia do que os homens são capazes.

Há um mês, eu tive de ajudar minha ex-mulher numa causa judicial e ela surtou. Disse que estava sendo traída e foi embora sem mais nem menos. Parece que para ela foi tudo muito simples.  Sempre tive  certeza de que ela me amava, porém agora tenho minhas dúvidas. Sei que devo continuar a minha vida, mas não consigo. Porque eu a amo demais. O que faço?

Por que você se apaixonou perdidamente por uma garota de programa? A resposta parece estar na frase "ela sabia do que os homens são capazes", uma frase que revela o medo dela, a fragilidade, e te coloca na posição dos homens bons, do protetor. Ao contrário dos outros, você não quis se aproveitar, tirou a moça da prostituição e se entregou de corpo e alma. Salvou, por assim dizer, e é possível que tenha se apaixonado por se sentir poderoso com isso. Tanto quanto a mãe  se sente com o filho.

A garota fazia com que você se sentisse o máximo e você se ligou a ela por isso, ou seja, por uma razão narcísica. Sei bem que o amante se espelha no amado, que há sempre algo de narcísico no amor. Mas quando o  narcisismo prevalece o amado não suporta e vai embora. Como a heroína de Pigmaleão, a peça  que Bernard Shaw escreveu em 1912, uma sátira que conta a transformação de uma vendedora de flores numa duquesa, graças aos cuidados de um professor de fonética. Quem assistiu ou viu o filme não se esquece. Trata-se do melhor exemplo que eu conheço do narcisismo e da frustração do salvador.

O drama que você vive é universal e a literatura pode iluminar você. Como sempre iluminou os psicanalistas, pricipalmente Freud, que se refere a ela ao longo de sua obra. Com a leitura de Pigmaleão você talvez possa aceitar a realidade dos fatos e mudar de posição subjetiva. Aceitar que nem tudo se pode.

Por Betty Milan

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O patinho feio

terça-feira, 14 de abril de 2009 | 16:49

Tenho trinta e dois anos, sou casado  há seis  e não tenho filhos. O meu relacionamento afetivo com minha esposa é bom, o sexo não. Ela não me procura, resiste e só cede pedindo para "terminar logo". Quando eu era adolescente, eu era o patinho feio. Sempre rejeitado até para dançar. Cresci sendo desprezado pelas mulheres, porém  não estou suportando a rejeição da minha esposa.

Ela diz que dói, incomoda, e eu  percebo que é ruim para ela. Problema ginecológico ela não tem. Só que não consegue relaxar e nós somos obrigados a usar lubrificante íntimo. Minha esposa, aliás, não deixa que eu a toque. Sente cócegas com as minhas carícias. Depois de muita insistência da minha parte, aceitou começar uma terapia e está  se tratando há um ano.

Mas nós viajamos nessas férias e ela resistiu a todas às minhas propostas (quatro em 30 dias). A cada dia que passa eu a vejo mais como amiga e menos como  mulher. Tenho medo de procurar  uma amante e a única saída que vejo é a separação. Conversamos sobre o assunto e ela se desesperou. Me pediu paciência. Não sei se sou capaz disso e não sei se ela vai melhorar, porque é muito religiosa. Eu que já a procurava pouco, não a procuro mais e tenho vergonha de me despir na frente dela.

 Será que o meu casamento acabou? Devo me separar?

Posso viver sem muita coisa, sem sexo não é possível.

Você cresceu sendo desprezado pelas mulheres. Depois se casou com uma para quem sexo é um  pecado, quando você não pode viver sem. Ou seja, elegeu a rejeição. Antes de mais nada, você precisa descobrir o  porquê disso.  Ninguém muda sem encarar a própria história. Essa é uma regra geral. Vale para todos.

Pode ser que, em decorrência da sua eterna posição de rejeitado, você reforce a resistência da sua esposa em vez de seduzi-la. Inconscientemente faz tudo para não sair da posição em que sempre esteve,  afastando a parceira e tornando o sexo obrigatório. Nada é pior do que  isso. Um dos malefícios do casamento tradicional é  transformar um ato que deve ser  livre num dever. Uma verdadeira tirania.  O sexo - como o amor - é uma aposta na liberdade

Lamento que você tenha vergonha de se despir na frente da sua mulher, mas entendo. Porque para ela o ato sexual hoje é uma violência. Uma forma de estupro. Não sei dizer se o seu casamento acabou e se você deve ou não se separar. Só sei que a sua posição não é a de quem ama. Porque o amor torna inteligente, ensina os caminhos. No impasse em que você se encontra, o melhor é procurar um analista.

Por Betty Milan

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O autoelogio

segunda-feira, 6 de abril de 2009 | 14:47

Tenho observado que algumas pessoas encaixam compulsivamente o autoelogio quando conversam. O que está por trás desse comportamento? Será que essas pessoas não têm senso do ridículo? Nenhuma modéstia? E o autoelogio em geral não é crível. Como posso lidar com isso sem ser desagradável ou grosseira?

Nunca antes pensei no autoelogio. A pessoa o faz para se valorizar diante do outro, claro. Mas, ao fazer isso, se desvaloriza porque revela a sua carência, expondo-se ao ridículo. Pode se tornar vítima da zombaria, se o outro quiser exercer o seu sadismo, se ele for perverso. Você tem razão de supor que o autoelogio corresponde a uma falta de senso do ridículo.

Acho até que o ensinamento da modéstia tem como finalidade proteger o indivíduo da maldade alheia. A modéstia é uma forma de sabedoria. O que todos queremos é o reconhecimento e só o indivíduo modesto pode ser reconhecido e elevado pelos outros. Agora, você me pergunta como lidar com a compulsão ao autoelogio sem ser grosseira. O que está implícito na sua pergunta é a raiva da pessoa que motiva este e-mail quando ela se autoelogia. Mas a compulsão é involuntária, tem razões inconscientes e a pessoa em questão é vítima de si mesma. Precisa ser ajudada.

Por outro lado, você deve se autoajudar evitando a raiva, que é o pior dos venenos. Nunca ninguém resolveu nada com este sentimento. Pelo contrário, ele é a causa da briga e da guerra. Portanto tem que ser vencido. E não há como vencê-lo, simplesmente querendo afastá-lo de nós. É necessário entender qual a origem dele na nossa vida. Como foi que - inconsciente ou conscientemente - nós aprendemos a nos entregar à raiva.

Barack Obama, que é um grande pacifista, conta em A Origem dos meus Sonhos que ele leu Coração das Trevas, de Joseph Conrad, para entender como os brancos aprendiam a odiar os negros, qual a razão do seu medo. O procedimento dele pode servir de exemplo.

 

Por Betty Milan

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Cotidiano de brigas

terça-feira, 31 de março de 2009 | 8:32

Desde que dei à luz o nosso filho, há onze meses, vivo a delícia da maternidade e ao mesmo tempo sinto muita raiva do meu marido. Ele continua viajando, enquanto eu fico cuidando do bebê. A natureza nos incumbiu de uma tarefa muito intensa: gestar, parir, amamentar e cuidar… E eu, que sempre tive ideais feministas, me sinto injustiçada. Quando nosso filho nasceu, sofri muito porque brigava com meu parceiro para dividir as tarefas. Sofri mais ainda para aceitar a ideia de que não há como dividir tudo meio a meio. Existem situações que só a mãe resolve.

Agora, me pergunto se o meu problema é com a maternidade ou com o meu marido. Queria sua ajuda, pois vejo meu casamento desmoronar com as brigas. Eu vivo cobrando e achando que ele não assume responsabilidades. São duas pessoas explodindo dentro de mim: uma feliz com a maternidade e a outra que se sente injustiçada. Você que é mãe e é libertária, me diga como foi isso para você?

O feminismo foi decisivo para as mulheres, mas ele também pode servir para encobrir a verdade, como no seu caso. O email revela que seu problema com o marido é decorrente de um outro com você mesma, com o fato de ser mulher. Do contrario, você não sofreria por não haver o ‘meio a meio’. Vale a pena se debruçar sobre isso para entender por que você não aceita a sua condição e acaba sendo tão contrária a si mesma. A reivindicação da igualdade entre os sexos não pode  tornar amarga a experiência da diferença entre eles, experiência que só enriquece, sobretudo se for partilhada.

De certo é o problema com você mesma que te indispõe para o amor, um sentimento que você parece ignorar. Como diz Nelson Rodrigues, no amor, ninguém tem o direito de exigir nada, o único direito que se tem é o de aceitar o que a outra pessoa dá de todo coração e com um máximo de espontaneidade. O amor é uma aposta na liberdade e não um inferno cotidiano de brigas que acaba levando ao divórcio pois, como também diz o grande Nelson, "não há pior solidão do que estar mal acompanhado… Mais vale o deserto do Saara".

Por Betty Milan

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