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Arquivo da categoria Análise

27/01/2012

às 16:25 \ Análise, Sexo

À flor da pele

Tenho 37 anos e sou gay. Por muitos anos lutei contra essa condição, mas hoje estou tranquila. Sempre fui reservado e tive dificuldade em me relacionar por causa disso.

Faço análise há mais de um ano e considero que minha vida mudou bastante, porque posso falar sobre os fantasmas que mais me incomodam. Entre eles, destaco o fato de ter sido abusado sexualmente por meu irmão mais velho, durante vários anos, desde a infância. Às vezes, me sinto culpado por ter permitido que o abuso durasse tanto tempo. Isso não me permite viver plenamente, é como se eu tivesse uma marca.

Hoje, estou me relacionando com um jovem bem mais novo e – apesar de a relação ser clandestina, pois ele não quer se mostrar – tenho momentos de felicidade ao lado dele. Porém, como sou muito inseguro, sempre me digo que ele vai me trair ou que só fica comigo por obrigação. Não consigo confiar.

Por que isso?

Você começa seu e-mail com um lapso. Em vez de tranquilo, escreve tranquila. Será isso porque você foi usado como mulher por seu irmão?

Depois, você utiliza a palavra fantasma quando a palavra esperada seria fantasia. Fantasma diz respeito a um morto que reaparece ou a uma visão medonha.

Você está às voltas com o fantasma de seu irmão mais velho, de cujo abuso você foi vítima, ainda que o tenha autorizado. Em sua relação atual com o jovem que não quer se mostrar, sua posição é a do seu irmão, com quem você não pode se identificar. Por isso, você sente que o jovem não gosta de você e vai traí-lo.

Valha-se da análise para ir fundo na rememoração e, com isso, se livrar do fantasma e reinventar sua vida. Acredito que não seja difícil porque, como o lapso mostra, seu inconsciente está à flor da pele. Você dispõe do recurso mais eficaz, que é a palavra.

Por Betty Milan

13/01/2012

às 23:04 \ Análise

A mãe

Tenho uma relação muito difícil com minha família. Minha mãe me teve sozinha. Não contou para o meu pai que estava grávida porque já havia feito alguns abortos antes. Depois, passou a ter um sentimento de culpa muito grande e me sufoca até hoje. Tive muitas dúvidas sobre quem eu era e fiz terapia durante anos. Casei, me realizei profissionalmente e agora estou grávida. 

Ela continua me tratando como troféu, como se eu fosse a prova de que ela deu certo. Não só ela, a família toda, que sofreu muito quando ela engravidou. Não quero ser o troféu de ninguém. O que eu mais quero é criar meu filho de outra forma, deixar que ele seja livre. Não quero que ele tenha a responsabilidade de agradar a tanta gente! Ando preocupada com isso. Como exercer a maternidade com o exemplo que eu tive?

Sua questão é da maior importância, porque diz respeito aos tantos filhos que não querem ser o troféu das mães e às tantas mães que deles fazem um troféu, ou seja, o objeto comemorativo de uma vitória.

Por um lado, sempre que o filho é desejado, dar à luz é inegavelmente uma vitória. Por outro lado, filho adulto nenhum quer continuar a ser a prova da vitória da mãe. Inclusive porque, para sê-lo, é preciso que ele satisfaça o desejo dela em vez de satisfazer o próprio. Que ele seja objeto do desejo alheio, e não sujeito do seu próprio desejo.

Precisamente porque sua mãe não lhe deu liberdade e você tem consciência de quanto isso pesou, você pode dá-la ao seu filho, pondo-se à escuta do que ele quer para não repetir a conduta dela. Ser mãe é uma arte, na qual é necessário exercitar-se continuamente. A mãe tem algo da enfermeira, no começo dos tempos, da professora e da psicanalista, quando o filho cresce.

Mas não é enfermeira, nem professora, nem psicanalista, embora deva cuidar, ensinar e escutar para abrir mão do próprio desejo e deixar que o do filho se manifeste. Em outras palavras, precisa não mais se espelhar na sua criatura e aceitar a independência dela.

Ser mãe é mudar continuamente, porque, sem ela, o filho, primeiro, não vive.

Depois, só encontra seu caminho se ela se afastar. Isso não é fácil, mas pode ser conseguido, claro. Como diz a psicanalista Yvete Villalba, o filho não é da mãe, é do mundo. Acrescento que, se não for assim, ele não é de ninguém.

Por Betty Milan

21/12/2011

às 7:22 \ Análise, Liberdade

Obsessão

Tenho 16 anos e sofro com meus rituais, que não param de aparecer e de se multiplicar. O relacionamento com minha mãe é difícil. Acho que ela me odeia. Quando eu era mais nova, pensava que tinha duas mães. Uma que era amorosa comigo, sempre que estávamos com outra pessoa, e outra que era muito ruim e me humilhava quando ficávamos sozinhas. Os rituais começaram com a ideia de que, se eu rezasse 100 ave-marias, minha mãe se tornaria boa. Agora, não estou presa só à reza. Preciso dar voltas na casa antes de sair. Não posso subir no ônibus da escola se não tiver alguém já sentado no primeiro banco. Tento esconder isso na família e na escola, mas todos já devem saber. Não tenho mais nem amigos de tanto medo de me acharem louca. Fui algumas vezes ao psiquiatra, mas, para meu desespero, ele me atendia na companhia da minha mãe, que voltava para casa me humilhando, dizendo que eu sou um fardo na vida dela. Não sei mais o que fazer. Porque só de pensar em não fazer os rituais eu me sinto angustiada. Quando vou dormir, à noite, fico cansada de tanto pensar em não esquecer nenhum deles. Depois, durmo de exaustão. O que devo fazer? Por favor, me ajude.

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Por Betty Milan

30/09/2011

às 21:19 \ Análise

Agradecimento

Graças à Editora Record as melhores crônicas de VEJA.com foram agora reunidas num livro, Quem ama escuta. O livro foi tão bem recebido pela imprensa quanto pelo público. Quero me valer deste espaço em que, há 4 anos, eu respondo aos consulentes para agradecer a todos, pois, sem vocês, não há consultor e nem consultório. Quem ama escuta é, de certa forma, uma obra coletiva, que só aconteceu graças à coragem dos que me escreveram expondo as suas questões. Uso o termo coragem porque, apesar do anonimato garantido pela coluna, quem expõe a sua problemática para um terceiro já está se confrontando consigo mesmo e isso nunca é fácil.

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Por Betty Milan

29/07/2011

às 14:34 \ Análise

Cegueira

Permita-me discordar da validade de suas respostas. Você simplifica demais. Algo como “o amor acontece e a gente corre atrás” já apareceu em sua coluna, demonstrando o caráter simplista de suas teorias. Mesmo assim, estou curioso para saber o que você dirá do meu caso.

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Por Betty Milan

22/07/2011

às 14:09 \ Análise

Apego

Tenho 25 anos, sou obesa e frustrada. Sempre enfrentei preconceitos por causa de minha aparência, que parece ímã para deboches. Quando criança, fui o bode expiatório da família e, por não ter carisma, não era amada por ninguém. Minha mãe falava do meu lado negativo para todos. Nunca me protegeu, como eu, aliás, não me protegia, falando da minha vida para pessoas que não eram de confiança.

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Por Betty Milan

18/07/2011

às 22:20 \ Análise

Emaranhado infeliz

Meu sentimento dominante é o de inferioridade. Tenho raiva das pessoas todas, elas me incomodam e eu sinto ímpeto de atacá-las. São fúteis, idiotas… Vivem no país das maravilhas, como se fossem eternas. São indiferentes à miséria humana. Nunca ocorre a elas que podem ficar desempregadas, deficientes ou perder um ente querido.

Por outro lado, estou perto da aposentadoria e ainda não quitei minha casa, não consegui a tal tranquilidade financeira para a velhice. Eu me pergunto por que não tive sucesso profissional, além de não ter conseguido um relacionamento amoroso bacana.

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Por Betty Milan

29/04/2011

às 18:48 \ Análise

O saber do analista


Tenho 31 anos. Sou leitor regular de sua coluna e grande admirador de seu trabalho. Esse foi um fator importante para eu escolher o curso de psicologia como segunda graduação. Você deve receber centenas ou milhares de e-mails toda semana. Mas gostaria que me dissesse quais as características mais relevantes do terapeuta. As que eu devo levar em conta, na escolha de um analista. Estou procurando me informar sobre isso, pois pretendo trabalhar com uma só pessoa, ao longo dos próximos anos. Faço isso menos pela minha formação do que para me tratar mesmo, por ter consciência de que preciso.

As características mais relevantes do analista são decorrentes do desejo de que o analisando faça sua análise. Para tanto, é preciso que o analista tenha jogo de cintura. Do contrário, ele aumenta a resistência natural do analisando ao trabalho. Quando o analista estranha o que o analisando diz, tem de fazer de conta que não estranhou. Quando está contrariado, tem de se calar. Do contrário, a análise acaba antes de começar.

O lugar do analista é o do morto que não tem sentimentos. Queira ou não, o analista tem de se conter, e ele sabe fazer isso. Só se interessa, durante a sessão, pelo que ainda está por ser dito. Procura fazer o analisando falar, para que este depare com seu inconsciente e assim possa se liberar, deixando de responder aos mandatos alheios e se tornando sujeito da própria história.
A escolha do analista é decisiva. Mas a gente só descobre a verdadeira razão da escolha através da análise. Porque o coração tem razões que a razão não explica. Freud só descobriu o inconsciente porque acreditou nesse provérbio.

É bom saber que você quer sobretudo se tratar. Porque essa é a condição para se tornar um analista. O saber analítico o sujeito adquire no divã, ou seja, falando e escutando o que disse, ao contrário do que se passa normalmente, no dia a dia. Na sessão, o sujeito se escuta porque a escuta do analista o leva a isso. Trata-se de uma escuta que faz a palavra do analisando ecoar.
Formar-se, no caso do analista, não é ingurgitar conhecimentos, mas saber escutar cada vez mais e melhor.

Por Betty Milan

 

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