À flor da pele

Tenho 37 anos e sou gay. Por muitos anos lutei contra essa condição, mas hoje estou tranquila. Sempre fui reservado e tive dificuldade em me relacionar por causa disso.
Faço análise há mais de um ano e considero que minha vida mudou bastante, porque posso falar sobre os fantasmas que mais me incomodam. Entre eles, destaco o fato de ter sido abusado sexualmente por meu irmão mais velho, durante vários anos, desde a infância. Às vezes, me sinto culpado por ter permitido que o abuso durasse tanto tempo. Isso não me permite viver plenamente, é como se eu tivesse uma marca.
Hoje, estou me relacionando com um jovem bem mais novo e – apesar de a relação ser clandestina, pois ele não quer se mostrar – tenho momentos de felicidade ao lado dele. Porém, como sou muito inseguro, sempre me digo que ele vai me trair ou que só fica comigo por obrigação. Não consigo confiar.
Por que isso?
Você começa seu e-mail com um lapso. Em vez de tranquilo, escreve tranquila. Será isso porque você foi usado como mulher por seu irmão?
Depois, você utiliza a palavra fantasma quando a palavra esperada seria fantasia. Fantasma diz respeito a um morto que reaparece ou a uma visão medonha.
Você está às voltas com o fantasma de seu irmão mais velho, de cujo abuso você foi vítima, ainda que o tenha autorizado. Em sua relação atual com o jovem que não quer se mostrar, sua posição é a do seu irmão, com quem você não pode se identificar. Por isso, você sente que o jovem não gosta de você e vai traí-lo.
Valha-se da análise para ir fundo na rememoração e, com isso, se livrar do fantasma e reinventar sua vida. Acredito que não seja difícil porque, como o lapso mostra, seu inconsciente está à flor da pele. Você dispõe do recurso mais eficaz, que é a palavra.
Tags: abuso sexual, homossexualidade

















