
Meu pai: fumante, inteligente, nervoso, incapaz de elogiar, reconhecer, abraçar e beijar o filho - salvo no aniversário ou em alguma situação especial. Estourado no trânsito e na empresa. Se colocado numa situação difícil, fala qualquer coisa para magoar quem está por perto. Vejo-o como uma pessoa frustrada e sempre insatisfeita. Minha mãe: calma, submissa, de fácil convívio e frágil.
Me casei este ano. Volta e meia penso o quão mal tratei meu pai. Não tenho paciência para ouvi-lo. Me comporto com indiferença e muitas vezes com ressentimento. Quanto à minha mãe, sempre a tratei com muita cobrança e aspereza.
Queria ter tido um convívio mais amoroso, sem mágoa com eles. Agora que me casei, sinto culpa. Meus pais talvez não tenham tido pais amigos, companheiros. O que eu faço? O problema está em mim ou neles? Uma terapia de vidas passadas ajudaria? Aguardo resposta.
Culpa pelo convívio amoroso que você poderia ter tido e não teve? Ora… Se não teve é porque não poderia ter tido. A fantasia é uma coisa, a realidade é outra. No passado, você foi como era dado a você ser. Nem tudo se pode. Agora, a vida muda, e com a mudança a gente tem condições de reconsiderar certas atitudes. Você está no caminho porque está se questionando. Isso já é muito. A condição para reinventar a existência é esta.
Possível que os seus avós não tenham tido com os seus pais uma relação que viabilizasse a amizade com você. Digo isso porque a gente ama como foi amado. Refletir sobre a vida passada dos seus ancestrais certamente ajudará a descobrir o porquê das condutas que provocaram o seu ressentimento e a sua aspereza.
Não se trata de fazer uma “terapia de vidas passadas”, mas de se debruçar sobre as vidas dos que o precederam para reinterpretar a sua história com eles e agir de maneira mais adequada. Tanto no que diz respeito a eles quanto a sua descendência, com a qual você poderá trilhar o caminho da amizade. Um caminho que depende sobretudo do ato generoso da escuta.
Ser amigo do filho é considerar que ganhamos perdendo tempo com ele. É ensinar a importância do ato gratuito. Também é renunciar à luta de prestígio, desacreditar a guerra e valorizar a paz.
Por Betty Milan
















Concordo com a leitora Ana Maria. Acho que a saída para essa situação é, em primeiro lugar, entender porque os pais são como são, e se libertar desse desejo frustrado de ter tido uma infância e uma relação familiar diferentes. Afinal, as pessoas são o que são, não é possível mudá-las. Da mesma forma, o passado não pode mais ser transformado. Acredito que devemos buscar o tempo todo ser para os nossos filhos aquilo que os nossos pais não foram para nós, evitando assim os erros e transmitindo os acertos. Mas é preciso também ter em mente de que não existem pais perfeitos. Nunca acertaremos em tudo na criação de um filho. Devemos fazer o melhor que podemos, ficando atentos para não cair nos erros tão bem apontados pela Betty e pelo leitor José Ramalho.
tem um ditado que diz: ” macaco é macaco a 01 ano de idade; o homem é homem a partir dos 11 anos” : procede, sob a otica pela capacidade de entender e poder interpletar, sabendo distinguir o certo do errado.
Nós humanos possuímos na cabeça, uma terrivel “vara” de medir os “agrados”: se recebi um presente grandão,ou um afeto enorme, penso que meeço, e está dentro da medida . Agora, ao contrario, se tenho que retribuir, a coisa muda: a minha medida é outra.Não há padrão comparativo, e portando se houver troca, mas cada um fica sujeito a críticas sobre a correspondencia trocada. Pois bem ! compreensível mensuração até ao ponto de que fossem coisas: concreto, objeto, palpável e economicamente viável. Mas, a transferencia da nossa “vara” de medir, para o campo do amor, da capacidade de doar, da gentileza, da compaixão, da participação…aí a coisa se torna imensurável, mas continuamos a tentar “comparar” e vamos medindo: ganhou um abraço? dou um tambem; dei um beijo? quero dois tambem; me chamou de amor? vou pensar se respondo tambem…e por ai vai.
Comparando, medindo num campo imensurável .por que nao ser livre, impulsivo, fazer o que se tem vontade não importando na retribuição, sem medir ? Por que cobramos tanto no campo do coração, do ato de amor, e até no sexo ? Penso que somos un sovinas, egoístas e individualistas demais.
Pelo menos, nao olhemos só para nosso umbigo, em relação aos nossos pais: esses serão os unicos que temos,ou tivemos. Já mulheres, filhos, amigos, colegas, voce pode ter outros e mais outros.Não desperdice mais tempo em medir “com sua vara curta” os agrados recebidos deles.Voce ja esta bem crescido/a para entender e saber doar, ser gentil, saber agradar com gestos,ou presentes, convites, etc. as duas pessoas mais caras de sua vida, que por um deslize sem intençao deles, nao souberam ou nao tiveram palavras para dizer que te ama. Agora, VOCE, sim! tem discernimento, atualização, conhecimento que deve jogar fora “sua vara” de medir reciprocidade de amor…
Questionar amor pra que?! Dê-o.
“Ser amigo do filho é considerar que ganhamos perdendo tempo com ele. É ensinar a importância do ato gratuito. Também é renunciar à luta de prestígio, desacreditar a guerra e valorizar a paz.” Quantos pais, envolvidos com o trabalho e com mais aquisições (casas maiores, carros mais caros etc), deixam os filhos. Crianças nas mãos de avós, de ajudantes. E mesmo quando podem estar com eles, os pais saem para eventos. Talvez levem trabalho para a casa. E quando a criança começa a manifestar desvios comportamentais, os pais a levam ao psicólogo. Eles mesmos não querem ser analisados. Culpabilizam a criança. Se as terapias não resolvem, porque os pais não assumem a renúncia (de luxos materiais e adicionais), a criança não melhora. Se a criança não melhora, pode acabar sendo rotulada como hiperativa, problemática. Ou os pais podem negar que haja problema com ela, e dizer que a culpa é da escola, dos colegas, do ambiente, do professor… nunca deles. E se a culpa for deles, nunca serão o problema principal. Mas são. O caminho mais fácil, mais comum, que se tem visto, e recebe apoio de profissionais, é o medicamentoso. Um remédio para dar calma, para trazer a paz, para tratar. Para dopar? Remédio é carinho, convivência, renúncia. Renunciar a luta por prestígio. Há mães que realmente precisam trabalhar o tempo todo, para dar o sustento, a sobrevivência. Mães que valem ouro e compreendem que a ausência se faz necessária. Mas há muitas mães que trabalham o tempo todo em busca de prestígio. Tiveram filhos, mas não fizeram a opção por filhos, a opção da entrega. O salário pode significar uma casa bem maior, um carro bem mais caro, roupas e viagens. Não trabalhariam por meio período, por um salário menor. Se o filho sofresse problemas, não deixariam o emprego. Precisamos admitir que as empresas, em geral, não flexibilizam. Ou trabalha a jornada completa, ou ficam sem empregos. Um dilema, de fato, que exige reformulação de leis sensíveis às mulheres. Mas é preciso pensar: se o salário de uma mãe, num emprego exaustivo e que consome quase todo o tempo, é destinado apenas a luxos adicionais, por que não deixá-lo, em favor de um filho? Por que não buscar alternativas profissionais, ainda que menos rentáveis, para assumir de fato a escolha da maternidade? Há casos em que realmente não dá pra fazer isso. Há outros que, sim, é possível, necessário, imprescindível. De qualquer forma, a decisão é dos pais e repercute nos filhos. Eles não são o problema, enquanto crianças. Crianças são o que os pais têm feito com elas, ou têm deixado de fazer por elas. Que adultos se tornarão?
Concordo pelanamente com a leitora Erika abaixo, ninguem poderia ter se expressado de melhor forma, realmente exelente!!
Agora q ela interrompe o ciclo, quebra a pessima tradição familiar da falta de amor e carinho.
Resposta, na “lata” !
No mais, é viver a vida ….
Minha família tinha um perfil similar ao narrado pela leitora. Porém, aprendi, a duras penas, que o amor dos pais é o único incondicional que teremos o direito de usufruir em nossa existência, com ou sem erros.
A generosidade de perdoar e não guardar ressentimentos é um bálsamo para a própria alma. Se conseguirmos, sem fingimentos, superar as mágoas, abriremos um mundo infinito e doce diante dos nossos olhos. É uma tarefa difícil que exige bom senso e maturidade. Busque forças em seu interior. Cada um de nós possui faróis intensos disponíveis para iluminar os caminhos em volta. Basta querermos usá-los.
Cada um dá apenas o que tem… e reconhecer isto é muito bom!
Recebemos de nossos pais o bem mais valioso que temos - a vida- , não? Creio que independente de como eles sejam, precisamos ser gratos e reverenciá-los.
Outra coisa, é que não existe essa de ” ser completamente diferente dos nossos pais”. Cada parte de nosso corpo tem cravado uma parte de toda nossa ancestralidade… e negar isto é triste. Quando brigamos com o que veio antes, fortalecemos o que queremos negar…Quando aceitamos simplesmente, sem julgamentos ( difícil!!!!), aí nos fortalecemos.
Isto fica muito claro quando assistimos ao Trabalho de Constelação Familiar Sistêmica ( de Bert Hellinger). Nossa…tudo muda….
O mais difícil é aceitar como é…,mas, quando o fazemos, podemos dar uma guinada em nossa vidas.
Esta tem sido a minha aprendizagem…
Betty milan…adoro seus escritos. Eles são profundos.
Admiro quem consegue colocar em palavras todas essas percepções. Grande abraço
Cada dá apenas o que tem… e reconhecer isto é muito bom!
Recebemos de nossos pais o bem mais valiosoque temos- a vida, não? Creio que independente de como eles sejam, precisamos ser gratos e reverenciá-los.
Outra coisa, é que não existe essa de ” ser completamente diferente dos nossos pais”. Cada parte de nosso corpo tem cravado uma parte de toda nossa ancestralidade… e negar isto é triste. Quando brigamos com o que veio antes, fortalecemos o que queremos negar…Quando aceitamos simplesmente, sem julgamentos ( difícil!!!!), aí nos fortalecemos.
Isto fica muito claro quando assitimos ao Trabalho de Constelação Familiar Sistêmica ( de Bert Hellinger). Nossa…tudo muda….
O mais difícil é aceitar como é…,mas, quando o fazemos, podemos dar uma guinada em nossa vidas.
Esta tem sido a minha aprendizagem…
Betty milan…adoro seus escritos. Eles são profundos.
Admiro quem consegue colocar em palavras todas essas percepções. Grande abraço
O fato de vc ter procurado ajuda ja é um primeiro passo, e estar incomodada com essa situação é um bom sinal. É fundamental voce entender que: É voce quem esta errada em relação aos seus pais, e é voce quem tem que tomar a iniciativa e procura-los. Não faça da tua vida um rascunho, porque voce poderá nao ter tempo de passa-lo alimpo. Meu Deus, voce fala da sua mãe como uma pessoa de fácil convivio, calma, fragil, então não te entendo… Amor, ou voce tem no coraçao, ou não tem. Vai esperar seus pais morrerem pra resolver isso? Ai é que voce nunca vai se perdoar. Espero que daqui um tempo, vc escreva novamente pra beth para dar-nos boas noticias… Abraços.
Concordo com Cezar Marx. Nos podemos amar melhor do que fomos amados em crianca. Podemos culpar nossos pais ate’ aos 20 e poucos anos. Dai para frente, temos que tomar as redeas de nossas vidas e nos responsabilizarmos pelo que somos.
Adoro este seu jeito de responder na lata !!
Esse drama familiar é muito mais comum do que se pensa, já li algumas vezes que 50% das mães não amam seus filhos, imagine o pai, e acredito que assim que tem que ser, o mundo não só se constroi com amor, será que o amor existe?
Eu tambem tenho um pai exatamente do jeito descrito acima.
O que mais me intriga eh que casei com alguem muito parecido com ele! Nao consegue se expressar em palavras, em gestos. Nao gosta de ser tocado.
Meu pai nunca me disse que me amava. A palavra amor nunca saiu de sua boca. Acho que porisso eu tb tenho dificuldade de dizer a tal palavra. Me policio mais. Sou mais carinhosa depois que me casei. Pretendo reverter a descendencia…
Muitas vezes sentimentos traumas pelo silencio continuo em que preferimos ficar, para talvez, não brigar mais, não ficar em ainda mais confusão emocional com a pessoa, talvez a culpa seja pelo silencio, por não ter dito o que realmente se estava sentindo, sente culpa porque na realidade não pode culpar o outro por algo que talvez ele nem ao menos sabia que existia, ou como bem disse Bety, não poderia ser tão cobrado por algo que não aprendeu a demostrar, talvez não tenha demostrado amor e carinho, por pura ignorancia, por não saber como faze-lo. O problema não esta na leitora ou em seu pai, esta na propria cultura familiar, que muitas vezes passam para suas gerações a mal orientação sobre como se contituir uma familia, como realmente educar um filho, na maioria das vezes, a cultura diz que bons pais são aqueles que são bons provedores e nada alem disso, aquele que não deixa falar alimento e abrigo, essa cultura não agrega os valores emocionais a ela, pelo visto a leitora se deu conta do ciclo em que vive, talvez por receber amor e carinho de outras pessoas e ver como isso é bom, isso sem duvida é importante, a partir de agora ela interrompe o ciclo, agora podera criar seus proprios filhos de maneira diferente, com um novo conceito de familia.
Bethy, amei a sua resposta.
Também tive uma infância difícil e não entendia o relacionamento conflituoso com os meus pais. Porém, após casar-me, constitui família e eduquei da melhor forma possível duas filhas.
O amor incondicional dos pais é, via de regra, generoso, mas não deve esperar o reconhecimento dos filhos.
A gratidão só existe se for autêntica e é consequência da maturidade conquistada por cada um.
As dificuldades e o tempo para a conquista dessa maturidade são diferentes para cada pessoa.
Hoje sou avó e apesar de amar muito o meu netinho, procuro não interferir na educação que ele recebe dos seus pais.
Família são pedras semi-preciosas a se polirem mutuamente. Um dia alcançarão a excelência.
Resposta bonita e realista.
Muitas pessoas repetem os erros cometidos pelos pais, como rancor, surras, castigos.
Acredito ,(porque em mim acontece) que temos que nos manifestar contrarios a isso tudo com nossos filhos. A amiga e confidente que minha mãe não foipra mim , hoje sou com minha filha, filho e neto.Quero dar a eles tudo o que não tive ou que não me deram, como beijos, abraços, sorrisos e amizade.Não guardo rancor do que talvez eles não aprenderam para nos ensinar.Afinal os tempos eram outros e não se tinha a compreensão que se tem no mundo de hoje.
Concordo com tudo que a dra. Milan disse, está corretissimo, mas gostaria de acrescentar algo.
Vivi situação semelhante em minha vida, e no dia que papai faleceu, ali naquele momento quando a vida
estava esvaindo, ele gritou todo seu amor por nós, então entendi que a vida toda, o amor estava lá, mas ele não teve condição de mostrar, pois não sabia.
Meu conselho pra voce, enquanto seus pais estão aqui, vivos e com saúde, porque voce não vai lá e dá neles um abraço bem afetuoso, como voce nunca deu antes?, garanto que o coração duro do seu pai, vai derreter, e sua mãe frágil, mas ao mesmo tempo, sábia o bastante para viver a seu modo, o amor que sente pelo seu pai e por voces filhos, a fragilidade e paciencia que sua mãe demonstra são virtudes e atitudes inteligentes, de quem não vai lutar contra a corrente, pois quer viver bem, faça isso por voce mesma, por mim, e todos os filhos que não podem faze-lo.
Parabéns ao autor da pergunta! Não há nada melhor do que começar a se questionar. Esse é o único caminho para a redescoberta de si mesmo, não daquilo que “poderia ter sido e não foi”, mas daquilo que se é, e assim, tomando as rédeas da própria vida, escolher ser feliz, vivendo em harmonia com os seus. Se ele não repetir o mesmo “filme” de seus pais com os filhos, já terá sido uma vitória! Parabéns novamente pela iniciativa e pelo começo da caminhada. Que nunca é fácil, mas é fundamental pra que você não vida de frustrações e dor.
O 1o. passo ja’ foi dado: voce reconheu que quer melhorar o relacionamento com seus pais! A educacao recebida por seus pais ocasionou, de uma certa forma, de seu pai ser distante, de nao demonstrar afeto, e sua mae (talvez para nao afrontar seu pai ) optou por ser de “facil convivio”. Um remedio maravilhoso seria voce procurar entende-los. Agradeca eles por ter-lhe dado a vida!! Perdoe-os. Procure nao julga’-los. Nao se revolte do que passou pois isso o sufocara’ cada vez mais. Mentalize todos os dias agradecendo a vida que seus pais te deram. Semeie palavras afetivas para o seu pai e mae, mesmo que seja em pensamento. Seja a solucao. Procure harmonizar a familia. Voce sentira’ no seu amago que sua vida ficara’ mais leve e voce passara’ a amar cada dia mais os seus pais incondicionalmente!! Quando voce estiver preparado, voce ira’ dizer ao seus pais o quanto voce os ama!!
A Gente Ama Como foi Amado.
Permita-me discordar desta frase.
Minha mae foi criada na roca, sem um pingo de amor,
Apanhava todos os dias mesmo sem motivo, O pai dela era quase um carrasco.
Eu fui criado com pouquissimo amor e apanhava bastante.
Hoje tenho uma filha de 3 anos,Qeu crio com o maior amor do mundo, Completamente diferente do modo como fui criado.
Passo todo o meu tempo livre com ela, Brincando , jogando e passeando.
Entao acho que depende de cada um de nos quebrar essa cadeia hereditaria que nos prende ao erros do passado.
Abraco a todos.