Eu não amo ninguém, embora seja uma pessoa sensível. Os românticos me aborrecem. Mas, às vezes, eu me angustio por ser incapaz de me apaixonar. A angústia, no entanto, logo passa - assim que eu me vejo diante de alguém que me atrai. Não fujo da atração, vou até o fim, mas o sexo me basta. Me esforço para achar a pessoa interessante e não consigo. Tento levar o namoro, mas o tédio toma conta de mim. Eu não amo ninguém. Acho que ninguém ama ninguém. As pessoas forçam a barra por medo da solidão. Será que nós somos todos egocêntricos?
O sexo te basta e o amor te entedia. Tudo bem. Sabendo ou não, a tradição à qual você pertence é a dos libertinos franceses, que sempre fizeram pouco do amor. Segundo Crebillon, escritor do século XVIII, o libertino se serve do amor para assegurar o triunfo da sua fantasia, erige a inconstância em princípio e só se interessa pelo prazer. Não dá a menor importância ao sentimento na conquista amorosa. A sua única meta é seduzir as mulheres, romper depois com elas e tornar público este triunfo. Para o libertino, nada se passa no segredo dos corações e nem deve ficar contido no espaço da alcova. A indiscrição é uma obrigação absoluta. Do ponto de vista dele, o espírito tem as suas leis, que não são as do coração, e as razões do coração diferem fundamentalmente das razões do corpo.
Já no século XVIII ninguém era obrigado a amar. Mas por que você faz do seu desinteresse pelo amor uma regra e conclui que "ninguém ama ninguém", desqualificando um sentimento no qual a grande maioria das pessoas se reconhece? A sua frase é uma generalização análoga a "homem nenhum presta" ou "entra de sola que mulher gosta de apanhar", como diz uma personagem de Nelson Rodrigues. São formulações abstratas que só servem para minar a relação entre as pessoas e os sexos. Podem figurar num romance ou numa peça de teatro, mas são nefastas na vida social. No mundo em que vivemos, não há lugar para elas.
A contenção no discurso é fundamental para que possamos virar um dia a página da violência. Cada uma das nossas palavras tem conseqüências para nós e para os outros. O melhor exemplo talvez seja o de uma lei alemã que proíbe dizer que o holocausto não aconteceu. Fiquei sabendo desta lei em Berlim e tive grande admiração pelo povo alemão. Soube tirar uma verdadeira lição da guerra. Nem tudo se pode dizer. Porque a palavra deixa a sua marca. Isso acaso significa que eu sou contra a liberdade de palavra? Obviamente não é disso que se trata, e sim de não confundir esta liberdade com o descontrole. Ser livre é fazer e dizer aquilo que a gente pode. O mais é puro excesso.
Por Betty Milan
















Entendo como se sente. Não se sinta mal por não ser romântico e esqueça essa história de libertino.O ser humano não tem molduras e não se “apaixonar” não é necessariamente desvalorizar sentimentos. O amor romântico não passa de um modelo imposto goela abaixo como o melhor pela sociedade, e cada um tem o seu motivo para buscá-lo. Medo de solidão, aprovação social, ou pelo simples gosto de se apaixonar, que é uma delícia! Sua hora vai chegar quando for o momento, e sexo também é uma delícia. Viver é uma delícia, e existem centenas de sentimentos maravilhosos além do amor romântico espalhados por aí. Ah…e “quando ficar velho e não puder mais fazer sexo”…? Não existem métodos ou modelos para viver, a sensibilidade é um dom mais raro do que o romantismo.
quando vc estiver mais velho nem sexo vc terá e ai?
Acredito que se você estivesse feliz não teria escrito para Betty Milan.
A questão é, e quando a vontade de ter ato sexual com a mesma frequencia passar ou não puder mais ser concretizada? Você ficará bem consigo sem ter alguém para compartilhar sua vida?
Para amar alguém é necessário algum tempo. Amor à primeira vista é na verdade atração. Para amar é necessário conhecer a pessoa. Do contrário você ama uma pessoa idealizada. Por isso acredito que talvez você descarta as pessoas para não ´correr o risco` de apaixonar-se por elas.
Talvez você secretamente acredita que o ato sexual com a pessoa ´certa´ será maravilhoso e isso indicará que a pessoa é diferente ou interessante quando o ato em si desprovido de amor é algo mecânico e difícil de tornar alguém interessante (do ponto de vista de um relacionamento).
Se estivesse no seu lugar eu deixaria de me envolver sexualmente por algum tempo. Não me deixaria levar apenas pela atração, mas faria um esforço para conhecer quem me atrai e descobrir se há algo além da atração. Eu ficaria amiga desta pessoa atraente e agradável e depois então teria envolvimento sexual com ela. Invertendo a ordem das coisas ajuda a descartar quem não é interessante sem continuar `mecanizando` o sexo, o que, como disse, pode ser o que está atrapalhando.