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23/12/2008

às 6:30 \ Arquivo

Deprimida

Tenho 44 anos e me sinto cansada. Como se o melhor da vida já tivesse passado. Há um ano estou às voltas com pensamentos críticos recorrentes sobre as opções "erradas" que fiz e me levaram a uma situação medíocre. Vim de uma família que pôde me oferecer todas as oportunidades de estudo, uma sólida formação humanística e intelectual e que, sobretudo, me deu muito amor. Daí a minha frustração. Sempre penso que, tendo em vista as minhas origens sociais, eu deveria ter sido capaz de produzir muito mais. Tenho medo de ficar permanentemente infeliz.
 

Cansada aos 44, como se o melhor da vida tivesse passado? Cuidado. O cansaço pode ser indício de depressão e esta, também pelas consequências nefastas sobre o corpo, deve ser evitada. Há uma relação entre a depressão, o stress e o câncer.

Você se refere a  pensamentos recorrentes sobre as opções "erradas". Perguntar-se se a gente fez ou não o que deveria ter feito é sempre arriscado. A pergunta em geral traz infelicidade. Um dia, durante a minha análise com Lacan, eu caí na tentação do balanço e disse que ia fazer um bilan, ou seja, um balanço, do que tinha acontecido na análise. Lacan, que gostava do trocadilho, respondeu: "Com a análise você talvez faça um Milan".  Disse isso e levantou, considerando que a sessão estava terminada.

Ou seja, não me deixou fazer um levantamento do passado. Propôs que eu fosse em frente, me valendo da experiência da análise para fazer o meu nome, desenvolver o meu trabalho. E eu fui em frente porque o que nos resta é sempre isso.

Tendo em vista o que você escreveu sobre a sua família – as tantas oportunidades que ela te deu – e o que seria de esperar de você, penso que você está deprimida por não corresponder às expectativas alheias. Por não satisfazer o que, no jargão psicanalítico, se chama "o desejo do Outro".

Que tal procurar um psicanalista e fazer uma análise para descobrir a que desejo alheio você inconscientemente responde e se liberar, tornando-se sujeito do seu próprio desejo? Seja este qual for, ele nunca será medíocre por ser o seu. Ao realizá-lo, você estará sendo fiel a si mesma, o máximo que podemos alcançar na vida.

Pouco importa ser chefe de estado, ator de sucesso ou sapateiro se o indivíduo estiver fazendo o que quer. Nesse caso, medíocre é quem avalia a atividade dele sem levar em conta a satisfação que a mesma lhe dá. A satisfação é sempre um bom critério, embora não seja o único.

Por Betty Milan

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22 Comentários

  1. adriana

    -

    24/03/2009 às 0:00

    tenho 29 anos sou muito cansada ,tenho medo de ficar sozinha ,de 3 anos p/ ka me tornei uma pessoa muito amarga deprimida fico com maus pesamento na cabeça ;isso tem cura?

  2. lurdineav souza

    -

    01/02/2009 às 0:00

    tenho34anossou mãe solteira, enunca tive uma vida sexual ativa, gostaria de ter,eu acho que me faria muito bem.

  3. saralinda

    -

    29/01/2009 às 0:00

    tenho 30 anose sou casada, e nunca conseguir ter prazer com ninguem, eu acho que não vale a penas ter um marido ,pra que?

  4. maria de lurdesl

    -

    24/01/2009 às 0:00

    Odeio a idéia de que tive câncer porque não resolvi meus problemas psicológicos.Não estava eu fazendo terapia? Não era aterapia certa?Como saber se o desejo é do outro?

  5. DSM

    -

    12/01/2009 às 0:00

    Amei! Que maneira deliciosa de começar o ano. Tudo se encaixa como uma luva pra mim. Como a Geny do comentário abaixo, tenho 46 anos e já passei esta fase de lamentar arregacei as mangas e recomecei, hoje trabalho e faço mestrado quero me reinventar, e estou adorando. é verdade que as vezes dá uma recaída mas entendo que não sou uma super mulher, e que é preciso se recolher para renascer ainda mais forte, com a cabeça erguida. Valorize o que vc. faz, seja um vc. um artista famoso, um neurocirurgião uma dona de casa, um servente, etc.. mas faça com prazer e dedicação.

  6. Ana Rita Coral Rodrigues

    -

    07/01/2009 às 0:00

    Gostaria que explicasse melhor a relação entre depressão e cancêr.

  7. Edigar

    -

    06/01/2009 às 0:00

    Análise muito bem feita e que sintetiza o valor da satisfação que, como disse Machado de Assis é um de seus contos, ” a felicidade muitas vêzes é um par de botas”. Parabéns!

  8. ana virgínia

    -

    05/01/2009 às 0:00

    Pensei que na analise falava-se só da dores , eu também sofro de vazio e acho que valorizo o sofrimento demais , achei assim uma luz e lindo o seu comentário, fale mais ………

  9. Silvio

    -

    03/01/2009 às 0:00

    Tenho 60 anos, praticamente não tive infância nem juventude, a necessidade fez com que começasse a trabalhar aos 10 anos. Com muito sacrificío, estudei e consegui vencer.. Sou casado há 31 anos, uma filha, e com tudo para ser feliz. Infelizmente não sou, hoje aposentado, me sinto inútil, apesar de ainda trabalhar……Só tenho conseguido viver o passado….o presente simplesmente deixou de existir….o futuro então…..! Acho que diante das dificuldades enfrentadas na juventude fui feliz e não sabia.

  10. geny

    -

    03/01/2009 às 0:00

    Tenho 46 anos, nao faco aquilo que queria, que sonhava pra mim e jah passei por essa fase, sabe como? Parei de me lamentar e olhar para tras, e comecei a ver o que tinha em maos e a partir do “material” que tinha comecei a construir minha vida e minha felicidade, com acao e otimismo e principalmente por querer ser uma Mae otimista e passar isto para meus filhos. Como eu era estava passando apenas amargura para meus filhos, e eu nao sou isso. Hoje sou feliz ou pelo menos procuro momentos de felicidade com que construi e continuo construindo, pois a vida eh como um rio, sempre fluindo.

  11. Marcio Candiani Psiquiatra Infanto Juvenil e de Adultos

    -

    02/01/2009 às 0:00

    Procure SIM um bom analista, pois anedonia (perda de interesse pelas atividades que antes lhe davam prazer) é o sintoma maior de depressão. Um bom analista provavelmente o encaminhará a um bom psiquiatra, pois o tratamento da depressão não prescinde do medicamento NEM da psicoterapia. Penso que os dois juntos (psicofármaco) e psicanálise surtiriam maior efeito. Além do que, deve-se descartar um hipotiroidismo, diabetes ou outro transtorno mental orgânico que possa desencadear os sintomas supra-citados.

  12. Karla

    -

    31/12/2008 às 0:00

    Brilhante resposta, parabens pela sensibilidade e palavras tao bem colocadas e apropriadas. Sou psicologa com vasto trabalho pessoal realizado e as vezes me sinto assim como a leitora e sabe o que eu penso. Nam sou adivinha para acertar sempre, todo mundo erra e eu também. bola pra frente que atrás vem gente.

  13. Ruth

    -

    30/12/2008 às 0:00

    Se conselho fosse bom…tsts, mas aqui vai um comentário… procure dar início em tudo o que fizer com alegria, creio que será mais prazeroso para você e acabará descobrindo o que gosta. Lembre-se: você está viva!!!!!

  14. Lorena

    -

    29/12/2008 às 0:00

    Olá, sempre leio a sua coluna e gosto muito, já fiz terapia com uma analista Junguiana e agora faço psicoterapia. Concordo com vários comentários abaixo, tenho 31 anos e às vezes me acho velha, porque ainda não tenho uma carreira sólida ou um marido, muito menos filhos…então paro pra me escutar e vejo que absurdo estou pensando, ainda há muito o que viver, e paciência é fundamental….sigamos em frente, feliz 2009!!! p.s.-adoro as ilustrações, essa última do Roy L. ficou muito legal!

  15. Sílvia

    -

    28/12/2008 às 0:00

    Parecem que os fatos narrados foram enviados por mim. Incluo ainda que estou cansada e triste, perdi a ilusão e sou bem mais jovem! Não sei porque continuar. Penso muito, não quero continuar assim. Sou responsável pela minha família. Pergunto onde estava aquele mulher jovem sorridente, incansável e supreendente. Por que me transformei nisso? Betty Milan tem razão, quando fiz o que queria estava bem, digo muito satisfeita… Isso me veio ao pensamento: o que quero agora?

  16. Luciana Sendyk

    -

    27/12/2008 às 0:00

    Betty, sempre leio sua coluna e adoro seus comentários. Tirando a primeira fase (tenho sim 44 anos também, mas não sou deprimida, ao contrário. Sou otimista e cheia de energia.) a minha história é ipsis literis a desta moça. A minha questão, entretanto, é não ter realizado – ainda – os meus próprios desejos, expectativas individuais. Tenho medo de não conseguir alcançar o meu potencial, mas felizmente o medo é o que me move, não aquilo que me paralisa. Minha questão é: malversei meus rendimentos o quanto pude. Penso que aprendi, mas, como posso melhorar sem revisitar o passado? Não é lá na minha atitude equivocada que cravei a história dos meus desvarios econômicos? Aliás, faço análise com uma terapeuta lacaniana. Talvez venha daí o meu gosto pelos seus textos.

  17. BSMH

    -

    26/12/2008 às 0:00

    Primeiro: nunca, NUNCA é tarde para aprender, estudar, conhecer. Aos 44 anos você pode começar. Estudar uma língua, fazer uma faculdade ou o que seja. Vais aproveitar até muito mais do que um jovem de vinte anos. Primeiro, por que tens mais vivência que te ajudarão a elaborar o aprendido; segundo, por que tens essa sensibilidade demonstrada em tua queixa. Segundo: Se não fizeste o que agora achas que deverias ter feito, foi por que nao pudeste. Não o vias importante. Se agoras vês a importância de “produzir muito mais”, é que deste uns passos enormes, de gigante, no sentido da compreensão do que realmente queres. Um bom 2009 para você, que deve “espantar” o tal cansaço colocando mãos à obra. Estás na flor da juventude, mulher!

  18. ieda maria dalto carvalho

    -

    25/12/2008 às 0:00

    Tenho 56 anos,percebi que pensamentos semelhantes rondam minha vida..Imediatamente eu os expulso .Penso que se perder energia com eles vai me faltar forças para continuar a jornada.

  19. Luiz Fernando

    -

    24/12/2008 às 0:00

    Betty, que decepção. Censuraste meu comentário no post Litígio, Não. É proibido contrariar a autora! Dúvida: se teus pacientes não concordarem com tuas interpretações? Manda-os embora?

  20. amauri

    -

    24/12/2008 às 0:00

    Um tanto de minha historia é semelhante ao relato acima, hoje aos cinqüenta anos, busco retomar minha vida e luto contra o mau impulso de olhar para trás e ver o tempo perdido, e então me deixar doer e amargar. Muito me valeu as colocações de Betty Milan. obrigado.

  21. Ana Carolina Morais

    -

    23/12/2008 às 0:00

    Gostei muito do artigo ,pois tenho 29 anos e me senti muito cansada neste ano que se passou.Estava me sentindo sem perspectiva na vida,mas descobri que as coisas não acontecem com a rapidez que queremos.Esperar com paciencia é uma virtude.

  22. Santos

    -

    23/12/2008 às 0:00

    Nada pode ocorrer como pensamos pois às vezes nós contribuímos para isso que muitas vidas temos medos de viver e enfrentar a vida como deveríamos… Isso que penso.

 

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